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Xadrez da conveniência

A rejeição de Jorge Messias para o Supremo Tribunal Federal, por 42 a 34, ultrapassou o mero tropeço protocolar

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Nos bastidores de Brasília, onde o silêncio costuma ser mais eloquente que os discursos oficiais, o desgaste do Planalto sinaliza uma mudança profunda no equilíbrio de forças do País.

A rejeição de Jorge Messias para o Supremo Tribunal Federal, por 42 a 34, ultrapassou o mero tropeço protocolar, sendo uma clara demonstração de força meticulosamente articulada por Davi Alcolumbre.

Para quem transita pela Comissão de Constituição e Justiça e capta as nuances fora do alcance das câmeras, o cenário ficou nítido: não se tratou de um embate ideológico entre direita e esquerda, mas de uma “guerra de conveniências”, na qual adversários históricos se aliaram em nome da sobrevivência política.

O equívoco de quem analisa a política apenas pela superfície é negligenciar o “xadrez 4D” que uniu figuras como Alexandre de Moraes, o próprio Alcolumbre e o núcleo duro do bolsonarismo contra o Advogado-Geral da União.

O grupo agiu sob um propósito compartilhado: impedir que a ascensão do indicado fortalecesse a ala de André Mendonça. Relator do sensível caso do Master, o magistrado – embora alçado ao posto por Jair Bolsonaro – tornou-se um aliado próximo e defensor de Messias, o que acendeu o sinal de alerta no chamado “Centrão do STF”. 

Simultaneamente, a oposição aproveitou o vácuo para operar sua própria barganha. O foco dos conservadores não era estritamente programático, mas voltado à redução de danos jurídicos.

Para selar o destino de Messias, Alcolumbre garantiu aos bolsonaristas a derrubada do veto presidencial ao “PL da Dosimetria”, ocorrida logo em seguida. 

Em contrapartida, o bloco capitaneado por Flávio Bolsonaro aceitou abdicar da pressão por uma CPI sobre o caso do Master – que envolve diretamente o senador amapaense – em troca de apoio à sua reeleição à presidência do Senado em 2027.

Firmou-se um pacto de não agressão: o inquérito permanece intocado e todos lucram ao impor uma derrota ao governo em pleno ano eleitoral.

Essa convergência deu forma ao que se pode chamar de “Frente Ampla do Centrão”, segmentada em três vertentes: a togada, a tradicional e a bolsonarista. Para esses setores, humilhar o Executivo era estrategicamente oportuno.

Lula, ao tentar se distanciar do desgaste de Moraes diante das urnas, acabou isolado. Alcolumbre, percebendo que a gratidão da oposição renderia frutos mais imediatos que as promessas do Planalto, decidiu puxar o gatilho. 

Naturalmente, esse emaranhado de interesses não anula os argumentos republicanos proferidos na tribuna: a oposição soube explorar as vulnerabilidades técnicas do candidato, conferindo uma roupagem ética a uma votação movida por interesses paroquiais.

O revés sofrido por Messias revela que o risco de instrumentalização do Supremo não é exclusividade de um único espectro político e que as emendas, agora nas mãos do Congresso, mudaram a dinâmica do jogo. Ler o Brasil por meio de rótulos, como “lulismo contra bolsonarismo”, é uma ingenuidade.

No topo da pirâmide política, a ambição prevalece sobre as bandeiras. Quem se limita às bolhas digitais jamais conhecerá o calor dos apertos de mão entre aqueles que se atacam publicamente.

O veredito do Senado foi o aviso definitivo: a lealdade dura apenas o tempo que a conveniência permitir.

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A guerra invisível por data centers

Em um ecossistema global, é interessante notar que a América Latina, que por muito tempo foi vista como mercado consumidor de tecnologia

04/05/2026 07h45

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Este artigo traz um tema de ouro, pois reúne geopolítica, tecnologia e investimento pesado. Isso porque, enquanto o mundo discute inteligência artificial (e todas as suas variáveis e aplicações), uma disputa silenciosa e extremamente estratégica acontece nos bastidores: a corrida por infraestrutura (mais especificamente, por data centers).

Em um ecossistema global, é interessante notar que a América Latina, que por muito tempo foi vista como mercado consumidor de tecnologia, começa a se consolidar como território-chave nessa nova geopolítica digital.

E isso não é por acaso. Países como Brasil, Chile e México passaram a atrair investimentos massivos por três fatores principais.

O primeiro é por demanda digital crescente: a região vive uma aceleração no consumo de serviços digitais – de streaming a fintechs, passando por e-commerce e IA.

O segundo é relativo à localização estratégica: proximidade de grandes mercados e necessidade de atender a regulações de soberania de dados.

E o terceiro é a energia (ainda) competitiva: especialmente em países com forte matriz renovável, como o Brasil, o que é crítico para operações intensivas em consumo energético.

Durante anos, a narrativa foi de que “dados são o novo petróleo”. Mas essa visão está incompleta. Na prática, o ativo mais estratégico hoje é a capacidade de armazenar, processar e, principalmente, proteger esses dados em larga escala.

É aí que entram os data centers. Com o avanço de IA, computação em nuvem e serviços digitais, a demanda por infraestrutura explodiu.

E aqui reforço que não basta mais ter data centers, é preciso tê-los próximos aos usuários, com baixa latência e dentro de regulações locais.

A região da América Latina tem se destacado tanto que players gigantes como Amazon Web Services, Microsoft e Google já estão expandindo agressivamente suas operações por aqui.

Além disso, há também a atuação exponencial de operadores locais, fundos de infraestrutura e até governos entrando nesse jogo e disputando terrenos estratégicos, acesso à energia, incentivos fiscais e conectividade.

Como em tudo na vida, nem todas as notícias são boas. Se, por um lado, a demanda cresce exponencialmente, por outro, surgem limitações reais, como, por exemplo, a quantidade de energia que os data centers consomem.

Nesse sentido, a América Latina é atrativa justamente por sua energia, mas pode não conseguir expandir na mesma velocidade da demanda.

Além disso, na região existem gargalos de impacto, como licenciamento ambiental, infraestrutura de transmissão e disponibilidade de terrenos adequados.

O que estamos vendo, portanto, não é apenas expansão de infraestrutura, é a construção de um novo mapa de poder. Isso porque quem controla data centers controla o fluxo de dados, a capacidade de processamento e, cada vez mais, a própria inovação.

Ou seja, vale concluir que a corrida agora não é apenas por IA, trata-se de uma mistura de tecnologia, política e economia.

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Adaptação da geração Z ao mercado de trabalho

Trata-se de jovens que cresceram em um ambiente marcado por instabilidade econômica, hiperconectividade e exposição constante a pressões sociais

04/05/2026 07h30

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A entrada da geração Z no mercado de trabalho tem sido acompanhada por diferentes interpretações sobre seu comportamento. Termos como ansiedade, imediatismo e dificuldade de retenção aparecem com frequência, mas uma análise mais cuidadosa sugere que essas características dizem menos sobre a geração em si e mais sobre o contexto em que ela foi formada.

Trata-se de jovens que cresceram em um ambiente marcado por instabilidade econômica, hiperconectividade e exposição constante a pressões sociais.

Também é a primeira geração a tratar saúde mental com mais abertura. Nesse contexto, o que muitas vezes é interpretado como dificuldade pode refletir uma busca mais ativa por clareza, segurança e sentido no trabalho.

Há também uma menor disposição para aceitar ambientes considerados incoerentes ou pouco saudáveis, o que convida as organizações a revisitar práticas que, por muito tempo, foram naturalizadas.

Outro ponto que chama atenção é a forma como essa geração se relaciona com o trabalho. A estabilidade financeira aparece como uma das principais prioridades, ao mesmo tempo em que cresce o interesse por autonomia e trajetórias mais flexíveis. A percepção sobre o mercado de trabalho reforça esse desafio.

A maioria dos jovens ainda o enxerga como competitivo e pouco favorável, com destaque para barreiras como a exigência de experiência prévia e o acesso limitado a networking. Esse desalinhamento evidencia a necessidade de revisar modelos tradicionais de entrada e desenvolvimento profissional.

Para as empresas, o caminho passa por evolução. Processos mais transparentes, trilhas estruturadas de desenvolvimento e iniciativas de mentoria se tornam cada vez mais relevantes para atrair e engajar esses talentos. Ambientes que priorizam o aprendizado contínuo tendem a ser mais aderentes às expectativas dessa geração.

A saúde mental também ocupa um papel central nessa agenda. Embora a maioria dos jovens reconheça sua importância, menos da metade avalia sua própria saúde emocional de forma positiva, evidenciando um descompasso que impacta diretamente a relação com o trabalho. Esse cenário já vem impulsionando mudanças nas práticas de gestão.

Modelos de trabalho mais flexíveis, políticas voltadas ao bem-estar e o desenvolvimento de lideranças mais preparadas para lidar com aspectos humanos do trabalho têm ganhado espaço. 

Mais do que políticas isoladas, esse movimento se apoia em práticas como liderança acessível, espaços reais de diálogo e uma preocupação genuína com a experiência das pessoas no trabalho.

Quando aplicadas de forma contínua, essas iniciativas contribuem para um ambiente mais saudável e engajador, no qual o bem-estar deixa de ser apenas um diferencial e passa a ser um critério relevante na atração e na permanência de talentos, especialmente entre as novas gerações.

Ainda assim, há desafios importantes. Muitas lideranças foram formadas em contextos distintos e seguem em processo de adaptação a novas expectativas em relação ao trabalho.

Estruturas rígidas e culturas que normalizam a sobrecarga ainda estão presentes em parte do mercado, o que reforça a necessidade de desenvolvimento contínuo.

Por fim, a valorização da autenticidade se destaca como um ponto de atenção. Jovens profissionais tendem a perceber rapidamente desalinhamentos entre discurso e prática.

Nesse cenário, a construção de confiança passa por comunicação transparente, coerência nas decisões e abertura ao diálogo.

É importante destacar que muitas das demandas frequentemente associadas à geração Z não são exclusivas desse grupo. Elas refletem expectativas que atravessam diferentes gerações, mas que hoje se tornam mais explícitas.

Ao trazer esses temas para o centro da discussão, a geração Z contribui para uma evolução mais ampla do mercado de trabalho.

Para as empresas, o desafio não está apenas em se adaptar, mas em aproveitar esse movimento como uma oportunidade de fortalecer culturas organizacionais mais coerentes, humanas e sustentáveis.

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