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Quando o debate vira espetáculo

O debate realizado no domingo, pela televisão, entre Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro, candidatos à Presidência da República, trouxe novamente essa questão à tona

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A democracia pressupõe o confronto de ideias. É da sua essência que existam divergências, críticas e projetos distintos de sociedade. O problema começa quando o debate deixa de ser um instrumento de esclarecimento e se transforma numa arena em que o objetivo já não é convencer pela razão, mas derrotar o adversário pela provocação, pelo constrangimento e, não raramente, pela humilhação.

O debate realizado no domingo, pela televisão, entre Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro, candidatos à Presidência da República, trouxe novamente essa questão à tona.

Em meio a acusações, questionamentos sobre familiares e sucessivas provocações, questões importantes para o futuro do País acabaram disputando espaço com ataques pessoais. Não faltaram assuntos relevantes. Faltou, em diversos momentos, a oportunidade de aprofundá-los.

É evidente que denúncias de corrupção, suspeitas de irregularidades e a conduta de homens públicos devem ser discutidas. Ninguém está acima da lei, tampouco imune ao dever de prestar contas à sociedade.

Entretanto, há uma diferença considerável entre cobrar explicações e transformar o debate político num espetáculo de acusações recíprocas, no qual a resposta deixa de importar tanto quanto o efeito produzido sobre a plateia.

Vivemos um tempo em que uma frase de efeito alcança milhões de pessoas em poucos minutos, enquanto uma proposta consistente dificilmente recebe a mesma atenção. O corte de vídeo substitui o argumento.

A ironia rende aplausos. A provocação ganha repercussão. E aquilo que deveria ser um exercício de cidadania acaba reduzido à disputa por quem produziu a frase mais contundente.

A própria sociedade, muitas vezes, alimenta essa realidade. Nas redes sociais, adversários se tornam inimigos e cidadãos se comportam como integrantes de torcidas organizadas.

Pouco importa o conteúdo, desde que o candidato de preferência tenha levado a melhor. A preocupação deixa de ser o futuro do Brasil e passa a ser a derrota, a qualquer custo, daquele que pensa diferente.

Não podemos naturalizar esse comportamento. Política não é uma competição de insultos, embora a paixão eleitoral frequentemente nos faça esquecer disso.

Estamos tratando do destino de milhões de brasileiros, de famílias que enfrentam dificuldades, de trabalhadores que esperam oportunidades e de uma população que cobra segurança, saúde, educação e melhores condições de vida.

É sobre isso que precisamos ouvir nossos candidatos. Como enfrentar a criminalidade? Como equilibrar as contas públicas? Como estimular investimentos, gerar empregos e melhorar os serviços públicos? Quais decisões serão necessárias e quem terá coragem de as tomar? Essas perguntas deveriam ocupar o centro dos debates.

O Brasil precisa mudar, mas mudança exige consciência. Não se trata apenas de substituir nomes ou defender bandeiras, é preciso abandonar a ideia de que nossas convicções nos dão o direito de desrespeitar o outro.

Também não podemos confundir fidelidade política com a obrigação de justificar tudo o que fazem aqueles com quem simpatizamos. O senso crítico não pode desaparecer quando o erro é cometido por alguém do nosso lado.

Já manifestei, em artigo anterior, minha preocupação com a intolerância, a omissão e a indiferença de parcela da sociedade diante da política. Reafirmo essa preocupação.

O cidadão não pode entregar sua consciência a líderes, partidos ou influenciadores, precisa pensar, questionar, conhecer propostas e compreender que a democracia exige muito mais do que escolher um lado.

Faltam poucos dias para o segundo turno. Ainda há tempo para discutir o que realmente interessa. Os candidatos têm o direito de defender suas ideias e o dever de responder aos questionamentos que lhes são dirigidos.

O eleitor, por sua vez, tem a responsabilidade de distinguir a crítica legítima do ataque gratuito, a proposta da promessa e a informação da propaganda.

Ao fim, teremos um vencedor nas urnas. Mas seria lamentável que, encerrada a eleição, permanecêssemos divididos entre vencedores arrogantes e vencidos inconformados, incapazes de reconhecer que o Brasil é maior do que qualquer disputa eleitoral.

A democracia não se fortalece quando alguém grita mais alto, mas quando as ideias podem ser livremente confrontadas e as escolhas são feitas com responsabilidade.

Governos passam, eleições terminam e adversários se alternam no poder. O Brasil permanece acima de todos. E é a ele que devemos nossa maior lealdade.

Editorial

Planos presidenciais e as demandas de MS

Ambos os candidatos à Presidência apresentam propostas genéricas, sem detalhar os investimentos necessários para atender às demandas específicas do Estado

19/10/2026 07h10

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Nesta edição, o Correio do Estado publica mais uma análise dos planos de governo dos dois candidatos à Presidência da República, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que concorre à reeleição, e Flávio Bolsonaro (PL), que tenta levar novamente seu sobrenome ao Palácio do Planalto após a inelegibilidade do pai, Jair Bolsonaro (PL).

Quando o assunto é infraestrutura, porém, os dois projetos deixam a desejar justamente em um dos pontos mais importantes para o desenvolvimento de Mato Grosso do Sul.

Ambos apresentam propostas genéricas, sem detalhar os investimentos necessários para atender às demandas específicas do Estado.

Consideramos essa lacuna um dos principais gargalos dos programas, sobretudo em uma unidade da Federação cuja economia depende diretamente da logística para escoar a produção agropecuária e industrial, atrair investimentos e ampliar a competitividade.

Mato Grosso do Sul ocupa posição estratégica no Centro-Oeste e tem potencial para ampliar sua participação no comércio nacional e internacional. Para isso, entretanto, precisa de ferrovias, rodovias e estruturas de transporte capazes de acompanhar o crescimento da produção.

Não basta reconhecer a importância da infraestrutura em termos gerais. É necessário dizer quais obras serão priorizadas, como serão financiadas e de que maneira os projetos em andamento terão continuidade.

O morador de Mato Grosso do Sul merece saber, por exemplo, o que acontecerá com a Malha Oeste. Há um edital aberto pelo governo atual para a concessão da ferrovia, considerada estratégica para o transporte de cargas.

Caso o candidato de oposição vença a eleição, o processo será mantido? Haverá mudanças no modelo de concessão ou no cronograma? São perguntas relevantes, que não deveriam ficar sem resposta em um debate presidencial.

A mesma cobrança vale para a Rota Bioceânica, empreendimento que pode ampliar a integração comercial com os países vizinhos e facilitar o acesso aos mercados asiáticos.

Também é necessário esclarecer o futuro da retomada da fábrica de fertilizantes de Três Lagoas, a UFN3, pela Petrobras. São projetos de interesse direto para a economia estadual, com potencial de gerar empregos, movimentar cadeias produtivas e reduzir entraves logísticos.

No caso da UFN3, contudo, a continuidade depende, em grande medida, da política de investimentos que será adotada pela Petrobras e das prioridades estabelecidas para a estatal. É justamente por isso que o assunto merecia maior clareza nos programas presidenciais.

Infelizmente, a maioria da população não lê os planos de governo na íntegra. Parte dos candidatos parece contar com essa desatenção e acaba apresentando documentos abrangentes, mas pouco objetivos quando se trata de compromissos concretos.

Ainda assim, esses programas são instrumentos importantes para que a sociedade cobre coerência entre as promessas de campanha e as decisões tomadas durante o mandato.

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É tempo de ser mulher no trabalho

E um dos fatores para essa transformação foi a chegada das mulheres aos postos de comando, o que requereu decência e deferência no trato com subordinados

17/10/2026 07h20

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Trabalho no mundo empresarial há muitos anos. Comecei num tempo em que ainda não existiam muitas das regras de convívio social-corporativo. À época, fumava-se dentro do escritório, chefes gritavam com subordinados e piadas e insinuações sexuais eram frequentes.

Graças a Deus, o mundo mudou. E um dos fatores para essa transformação foi a chegada das mulheres aos postos de comando, o que requereu decência e deferência no trato com subordinados.

Entretanto, as profissionais ainda não são 50% dos conselheiros e diretores das empresas. Já avançamos muito, mas ainda há um caminho a seguir, pois a estrutura corporativa ainda é pensada e feita para homens e as exigências para os cargos continuam muito masculinas.

Por todas essas questões, gostaria de falar aqui sobre ser mulher no trabalho. Um exemplo: os homens, quando ficam frustrados, ficam agressivos, nervosos e intratáveis. Penso que a testosterona faz isso com eles. Nas mesmas situações, as mulheres choram.

É da nossa natureza, mas o sentimento é o mesmo para os dois. A pergunta é: por que todas nós já fomos chorar escondidas no banheiro e os homens não têm nenhuma dificuldade em expressar a sua decepção em público, dentro do escritório?

A resposta é que a mulher que chora na sua estação de trabalho é vista como júnior, sem estrutura e sem controle emocional. Por isso, tememos ser vistas chorando.

Há alguns anos, chorar em público na empresa era selar para sempre sua carreira lá. Já está na hora de normalizar a expressão da frustração de uma maneira muito melhor do que a agressividade. Choramos, enxugamos as lágrimas e tocamos para a frente.

Os homens também devem ser ensinados a lidar com uma mulher chorando. A maioria se sente muito desconfortável e infeliz ao presenciar essa situação e, com isso, está menos propensa a promover uma mulher, justamente para não ter que lidar com os sentimentos de frustração com ela. E há situações no trabalho que nos levam a muita frustração, todos sabemos. 

Entender como funciona a mente de alguém diferente de você ou, pelo menos, respeitar a diferença é o primeiro passo para termos equipes mais diversas e criativas. E já está na hora de sermos nós mesmas, ou seja, sermos mulheres no trabalho.

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