Artigos e Opinião

ARTIGO

Rafael Faria: "Debates acalourados da Lava Jato"

Advogado criminalista

Redação

10/03/2016 - 02h00
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A chamada operação Lava-Jato surgiu com o status de maior investigação sobre corrupção deflagrada até hoje no Brasil e, desde então, tem sido objeto de acalourados debates, principalmente, no que tange ao modo de pensar e às decisões do Juiz Federal, Dr. Sérgio Moro.

Se, por um lado, o magistrado é aclamado como a esperança do povo brasileiro no combate à corrupção, por outro, o Dr. Sérgio Moro é duramente criticado por suas decisões que, muitas vezes, possuem uma fundamentação muito mais política do que jurídica. Verdade é que, independentemente do posicionamento no debate, as discussões são tão apaixonadas que, não raras as vezes, fogem à razão. Todavia, por outro lado, não se pode fechar os olhos para algumas anomalias processuais que vem ocorrendo com certa frequência nos processos relacionados à denominada operação Lava-Jato.

Neste sentido, uma primeira crítica que surge é a de que o juiz Moro estaria utilizando as prisões cautelares como forma de coagir os réus a firmar o acordo de delação premiada.

A delação premiada é uma técnica de investigação consistente na oferta de benefícios pelo Estado àquele que confessar e prestar informações úteis ao esclarecimento do fato delituoso e, devido a sua natureza, deve ser utilizada com cautela, em caráter excepcionalíssimo.

No que tange às prisões cautelares, centenas desde que a operação foi deflagrada, há que se destacar que o artigo 319 do código de processo penal traz outras alternativas, que, por não cercearem a liberdade do acusado antes do julgamento, devem ser observadas antes de se pensar em cercear a liberdade do acusado, cabendo, a prisão, apenas em casos de extrema gravidade, o que, mais uma vez, não parece ser o ocorrido nos processos relacionados à operação Lava-Jato.

 Em um Estado democrático de direito, a prisão provisória como instrumento coercitivo visando a celebração do acordo de delação premiada é inaceitável.

Além disso, é impensável que a presunção de inocência, o direito à efetiva defesa, a garantia de imparcialidade da jurisdição e o principio do juiz natural sejam mitigados pelo vazamento seletivo de informações sigilosas e documentos, a sonegação de documento às defesas dos acusados, a execração pública dos réus e violação às prerrogativas da advocacia por exemplo. 

Não seria exagero falar que nunca houve, na história do Direito brasileiro, um caso em que o devido processo de Direito foi tão relativizado em busca do que a população acredita ser justiça.

Neste diapasão, necessário é tecer um breve comentário sobre a influência midiática na formação da opinião popular e no juízo de valor formado pelos magistrados.

Verdade é que nos dias atuais estamos vivenciando um período sombrio,  de verdadeiro direito penal inquisitorial, em que, antes mesmo de toda instrução processual, já se sabe o resultado, servindo as etapas processuais apenas como meras formalidades necessárias para a condenação dos réus.

O uso irresponsável e inconsequente dos meios de comunicação prejudica a garantia constitucional da presunção de inocência, fazendo com que a coletividade tenha a certeza da culpa dos réus e pressionando o Judiciário para que não só haja uma condenação, mas uma condenação exemplar.

Não há, aqui, nenhuma oposição à participação popular na construção de uma sociedade mais democrática, o que não pode, de maneira nenhuma, é o Judiciário, como um dos poderes independentes, se curvar à opinião popular formada pela ideia de que a justiça no Brasil não funciona.

Pelo contrário, o desejo de todo profissional do direito é de uma justiça mais efetiva, democrática e igualitária. E não há como pensar em uma justiça justa sem respeito às garantias constitucionais do indivíduo e sem um devido processo de direito.

EDITORIAL

Campo Grande pode reter mais turistas

Tornar a cidade mais intuitiva, acessível e amigável para quem é de fora é fundamental, pequenas melhorias podem gerar grandes impactos na experiência do turista

21/03/2026 07h15

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Em tempos de um evento de magnitude global como a COP15, que começa na segunda-feira e segue até o dia 29, abre-se para Campo Grande uma oportunidade rara de reflexão e, sobretudo, de ação.

Receber visitantes de diferentes países não é apenas uma questão logística ou econômica, mas também um convite para repensar o papel da cidade no mapa do turismo e da hospitalidade.

Próxima de patrimônios naturais, como o Pantanal, e de destinos consagrados do ecoturismo, como Bonito, Campo Grande muitas vezes é vista apenas como ponto de passagem. No entanto, essa condição não precisa – e não deve – ser definitiva.

Ainda que suas belezas naturais não sejam equiparáveis às desses ícones, a Capital tem potencial para reter turistas e oferecer experiências próprias, autênticas e memoráveis.

Para isso, é preciso valorizar aquilo que já existe. Espaços como a Feira Central de Campo Grande são exemplos claros de identidade cultural e gastronômica. Museus, centros culturais e iniciativas como o Bioparque Pantanal reforçam a vocação da cidade para o conhecimento, a conservação e o turismo educativo.

Não se trata de competir com outros destinos, mas de afirmar uma identidade própria, baseada em originalidade e diversidade.

A culinária, aliás, é um capítulo à parte. Campo Grande tem muito a oferecer nesse aspecto, com sabores que refletem a mistura de influências regionais e culturais. Explorar melhor essa riqueza, promovendo-a de forma mais estratégica, pode ser um diferencial importante para atrair e fidelizar visitantes.

O turismo gastronômico é, hoje, um dos mais valorizados no mundo, e a capital sul-mato-grossense tem plenas condições de se inserir nesse cenário.

Outro ponto essencial é a qualificação dos prestadores de serviço. Em um contexto internacional, a capacidade de comunicação faz diferença. Quanto mais pessoas preparadas para interagir com estrangeiros – em hotéis, restaurantes, transporte ou mesmo nas ruas –, maior será a sensação de acolhimento.

Falar idiomas como espanhol e inglês deixa de ser um diferencial e passa a ser uma necessidade. E não se trata apenas de profissionais do setor: um cidadão comum, ao orientar um visitante com cordialidade, contribui diretamente para a imagem da cidade.

Além disso, há espaço para avanços na infraestrutura e na sinalização urbana. Tornar a cidade mais intuitiva, acessível e amigável para quem chega de fora é um passo fundamental. Pequenas melhorias podem gerar grandes impactos na experiência do turista e, consequentemente, na percepção geral do destino.

A COP15 deve, portanto, ser mais do que um evento pontual. Deve servir como aprendizado. Campo Grande tem diante de si a chance de observar, ajustar e evoluir.

Se souber aproveitar esse momento, poderá transformar uma oportunidade passageira em um legado duradouro. O desafio está posto – e os caminhos, claramente, também.

Artigo

Entenda por que condomínios eficientes gastam menos, mesmo investindo mais

Condomínios eficientes investem em manutenção preventiva, planejamento de longo prazo, tecnologia e profissionalização da gestão

20/03/2026 07h45

Arquivo

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Existe um paradoxo na gestão condominial que ainda confunde síndicos e moradores: os condomínios mais eficientes costumam ser aqueles que mais investem. Ainda assim, no longo prazo, são justamente esses que gastam menos.

Essa aparente contradição revela uma mudança de mentalidade que o setor precisa amadurecer: eficiência não é sinônimo de cortar custos, mas de alocar recursos com inteligência.

Durante décadas, a lógica predominante foi a da economia imediata. Reduzir contratos, postergar manutenções, adiar investimentos. O problema é que condomínios são estruturas complexas, com ativos físicos, pessoas, obrigações legais e impactos patrimoniais.

Quando a gestão se orienta apenas por contenção de despesas, ela cria passivos invisíveis que aparecem mais tarde em forma de emergências, conflitos e desvalorização do patrimônio.

Condomínios eficientes investem em manutenção preventiva, planejamento de longo prazo, tecnologia e profissionalização da gestão. Isso significa trocar equipamentos antes de falhas críticas, revisar contratos com critérios técnicos, digitalizar processos financeiros e criar rotinas de governança.

Esses investimentos aumentam o orçamento no curto prazo, mas reduzem drasticamente despesas emergenciais, desperdícios e riscos jurídicos ao longo do tempo.

A lógica econômica é simples: manutenção preventiva custa menos do que manutenção corretiva. Um vazamento detectado cedo evita uma reforma estrutural; um contrato bem negociado gera economia recorrente por anos; um sistema de controle financeiro reduz a inadimplência e evita chamadas extras.

O condomínio que planeja substitui a cultura do improviso por previsibilidade.

Eficiência também é governança. Investir em transparência, comunicação estruturada e prestação de contas clara reduz conflitos, judicialização e desgaste político. Assembleias mais informadas geram decisões mais racionais. Moradores que confiam na gestão participam mais, pagam em dia e apoiam projetos de longo prazo.

Há ainda um fator patrimonial frequentemente ignorado. Condomínios bem cuidados, com infraestrutura atualizada e gestão organizada, preservam e ampliam o valor dos imóveis.

Em mercados urbanos competitivos, compradores e locatários já observam não apenas a unidade, mas o funcionamento do condomínio como um todo. Gestão eficiente se transforma, na prática, em valorização imobiliária.

O discurso de “gastar menos” costuma ser popular em assembleias, mas é enganoso quando não vem acompanhado de planejamento. Cortes lineares em manutenção, segurança ou gestão geram economias momentâneas, mas criam passivos ocultos que explodem no futuro. 

No universo condominial, o barato raramente sai barato de fato. Eficiência, portanto, não é austeridade cega. É estratégia. É compreender o condomínio como uma organização viva, com ciclo de ativos, riscos legais, fluxo de caixa e impacto social.

Investir mais, quando feito com inteligência, é o caminho mais curto para gastar menos no longo prazo.

Por fim, a maturidade do setor condominial passa por essa virada de chave. Condomínios eficientes não são os que cobram menos taxa, mas os que entregam mais valor por cada real investido.

Em um País cada vez mais verticalizado, essa diferença deixará de ser um detalhe administrativo para se tornar um fator central de qualidade de vida e de preservação de patrimônio.

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