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Opinião

Renato Janine Ribeiro: "Mais educação, mais médicos"

Renato é ministro da Educação

Redação

09/08/2015 - 00h00
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O Programa Mais Médicos é muito conhecido em decorrência de sua agenda emergencial. Havia a necessidade de provimento de profissionais brasileiros e estrangeiros (sobretudo os cubanos, aos quais muito agradecemos) em regiões onde não havia médicos. Ressalta-se: não só no interior, mas em todas as capitais do Brasil. Nessas cidades, a presença de um profissional da saúde faz a diferença entre a vida e a morte.

Mas é chegada a hora de uma agenda estruturante de médio e longo prazos. É preciso avançar, dando aos brasileiros condições de se tornarem médicos capazes de atender às suas comunidades. É chegada a hora de estabelecer condições que sanem de uma vez por todas a baixa proporção de médicos por habitante em nosso país.

Talvez o leitor não saiba, mas os ministérios da Educação e da Saúde nasceram gêmeos em 1930, com o nome de Ministério dos Negócios da Educação e da Saúde Pública, e depois se tornaram independentes. Mas eis que agora resgatamos a união que nos marca desde a origem.

Nosso objetivo, anunciado no último dia 3 de agosto, é tão ambicioso quanto possível: tornar a proporção de médicos por habitante idêntica – e até melhor! – que a do Reino Unido (que também possui um sistema público e gratuito de saúde). Atualmente, a proporção brasileira de médicos é de 1,8 profissional por mil habitantes. No Reino Unido, em 2011, a taxa era de 2,7 médicos por mil habitantes. Alguns de nossos Estados estão bem fornidos, como o Rio de Janeiro, com 3,44 médicos por mil habitantes. Outros, como a Bahia, têm apenas 1 médico por mil habitantes. 

Cabe ao MEC, na atual gestão, expandir as vagas de graduação em medicina e residência médica, sobretudo nas cidades do interior, muitas das quais não possuem nem mesmo um médico lá residindo. O compromisso do MEC, nesse sentido, é não apenas com a quantidade de cursos, mas com a qualidade deles. Eis alguns de nossos critérios: o número de leitos do SUS para utilização acadêmica deve ser maior ou igual a 5 por aluno.

Os estágios finais dos cursos, que ocupam a fase final da formação no 5º e 6º anos da graduação em Medicina, chamados de Internato, devem ter no mínimo 30% de sua carga horária voltada ao ensino da atenção básica e da urgência e emergência. Além disso, todos os médicos que almejam ser especialistas deverão realizar formação de um a dois anos junto a programas de residência em Medicina Geral de Família e Comunidade, mesmo que sigam outra especialidade médica. Os novos cursos autorizados pelo MEC devem ter pelo menos três programas de residência em especialidades prementes: clínica médica, cirurgia, ginecologia-obstetrícia, pediatria e medicina da família.

Serão criadas 11,4 mil vagas de graduação até 2017, sendo que 5.306 delas já foram autorizadas pelo MEC para 82 municípios, dentre os quais 27 não tinham graduação em medicina. Para a residência médica, 12,4 mil vagas para formação de especialistas estarão disponíveis até 2018, sendo que 4.742 delas já foram autorizadas. Para os cursos de medicina criados ou previstos nas universidades federais, foram liberadas 880 novas vagas para docentes.

A experiência internacional mostra que a valorização da prática de ensino voltada à formação generalista garante maior capacidade do profissional médico para o cuidado integral, conferindo competências técnicas voltadas à resolução de 80% dos problemas de saúde mais prevalentes. Além disto, proporciona um desenvolvimento humanístico e comportamental que o habilita para se comunicar melhor com as pessoas, lidar com os elementos psicossociais da prática médica, bem como desenvolver um método clínico centrado na pessoa e não baseado meramente na doença, mas na potência e na multiplicidade do que é a vida humana. 

ARTIGOS

Alfabetização no tempo certo faz a diferença no desenvolvimento infantil

Desde muito cedo, a criança vive em um mundo permeado pela linguagem. Antes mesmo do ensino formal, ela observa, escuta, comunica-se e constrói sentidos sobre a escrita a partir das interações que estabelece com o meio

21/02/2026 07h45

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Aprender a ler e escrever é um direito fundamental da criança e uma responsabilidade da escola, em parceria com a família.

Para que esse processo aconteça de forma consistente e significativa, é essencial respeitar o desenvolvimento cognitivo, emocional e social da infância, evitando tanto a antecipação indevida quanto a negligência pedagógica. A alfabetização exige cuidado, intencionalidade e compromisso com o tempo certo de aprender.

Desde muito cedo, a criança vive em um mundo permeado pela linguagem. Antes mesmo do ensino formal, ela observa, escuta, comunica-se e constrói sentidos sobre a escrita a partir das interações que estabelece com o meio.

Ela não é um ser vazio a ser preenchido, mas um sujeito ativo, que pensa, investiga e elabora hipóteses sobre a linguagem escrita.

A Educação Infantil tem papel fundamental no processo de alfabetização. É nesse período que a criança vive experiências essenciais que dão a base para aprender a ler e escrever.

Brincar, ouvir e contar histórias, desenvolver a oralidade, explorar diferentes linguagens, fortalecer a coordenação motora, a atenção, a memória, o pensamento simbólico e as relações sociais são vivências indispensáveis.

De forma lúdica, as crianças brincam com rimas e aliterações, participam de jogos sonoros e desenvolvem a consciência fonológica por meio de parlendas, músicas, poesias, histórias e rodas de conversa.

Essas experiências ajudam a criança a perceber os sons da fala, ampliar o vocabulário e compreender como a linguagem funciona, impactando diretamente as habilidades que sustentam a construção de hipóteses sobre a escrita e a leitura.

É comum que algumas crianças, ao final da Educação Infantil, já realizem registros de escrita com transcrição fonética. Esse movimento faz parte do desenvolvimento e deve ser acolhido como expressão da curiosidade e da investigação infantil.

No entanto, a alfabetização se consolida, de forma sistematizada, no primeiro e/ou no 2º ano do Ensino Fundamental, quando a criança, com maior maturidade cognitiva e emocional, compreende o funcionamento do sistema de escrita, amplia suas estratégias de leitura e passa a produzir textos com mais autonomia.

Durante muitos anos, a alfabetização esteve associada a práticas centradas na memorização e na repetição. Esse modelo formou crianças capazes de decodificar letras e palavras, mas com dificuldades para compreender textos, estabelecer relações e utilizar a leitura e a escrita em situações reais.

Hoje, sabemos que alfabetizar vai além de decodificar um código linguístico. Envolve compreender, interpretar, criar, comunicar e utilizar a linguagem escrita em diferentes contextos sociais.

Por isso, a antecipação da alfabetização não traz benefícios para as crianças pequenas. Elas precisam de tempo para viver experiências significativas que fortaleçam as bases do aprendizado.

Respeitar o tempo da infância não significa adiar ou abrir mão da alfabetização, mas garantir que ela aconteça no momento adequado, com acompanhamento, intervenções pedagógicas consistentes e responsabilidade institucional.

Como princípio, entendemos que “respeitar o tempo da infância não significa abrir mão da alfabetização, mas garantir que ela aconteça no momento adequado, com intencionalidade pedagógica, acompanhamento e responsabilidade”.

A alfabetização acontece a partir de marcos do desenvolvimento considerados típicos; é papel da escola oferecer mediações e estratégias pedagógicas personalizadas para quem precisa.

A atenção conjunta da escola e da família torna-se ainda mais importante quando, ao final do 2º ano do Ensino Fundamental, a criança não concluiu o processo de alfabetização, o que indica a necessidade de intervenções mais específicas.

Garantir a alfabetização no tempo certo é assegurar que aprender a ler e a escrever seja uma experiência significativa, respeitosa e formadora.

Trata-se de um direito da criança, de uma responsabilidade da escola, construída em parceria com a família, e de um processo que exige intencionalidade pedagógica, acompanhamento contínuo e compromisso com o desenvolvimento integral da infância. Alfabetizar é um direito porque abre portas ao mundo.

ARTIGOS

Feminicídio: o fogo do ódio

É um fenômeno estrutural, enraizado em uma cultura histórica de rancor, controle e subalternização das mulheres, que atravessa séculos e se atualiza por meio de discursos ideológicos, religiosos e políticos

21/02/2026 07h30

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O crescimento dos feminicídios no Brasil em 2025, com quatro mulheres assassinadas por dia – dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP) – , não pode ser compreendido apenas como resultado de conflitos individuais, falhas de segurança pública ou desvios de caráter.

É um fenômeno estrutural, enraizado em uma cultura histórica de rancor, controle e subalternização das mulheres, que atravessa séculos e se atualiza por meio de discursos ideológicos, religiosos e políticos.

A violência letal contra mulheres é o estágio extremo de uma pedagogia social que ensina, naturaliza e legitima o domínio masculino. Triste herança do passado que perdura no presente.

Desde a formação das sociedades patriarcais, o feminino foi sendo deslocado do lugar de potência para o de ameaça. O “Malleus Maleficarum (Martelo das Feiticeiras)”, cartilha inquisitorial publicada no século 15, é um dos exemplos mais brutais dessa construção simbólico-discursiva.

Ao associar a mulher ao pecado, à sexualidade descontrolada e ao demônio, o texto consolidou uma narrativa que permitiu a perseguição, a tortura e a morte de milhares de mulheres.

A caça às bruxas não foi um delírio coletivo, mas um projeto político de disciplinamento dos corpos femininos, injusto argumento na consolidação do Estado moderno, do capitalismo nascente e do controle social.

Essa misoginia institucionalizada não desapareceu com o fim das fogueiras. Ela se transformou.

A narrativa que antes demonizava o corpo feminino hoje se apresenta em roupagens modernas: moralismos seletivos, discursos de ódio nas redes sociais, negacionismo da violência de gênero e ideologias que reforçam papéis tradicionais como se fossem naturais ou divinos.

A lógica, no entanto, segue a mesma: controlar a autonomia das mulheres, sua sexualidade, sua presença no espaço público e sua capacidade de decisão. Enfim, o crescente empoderamento feminino é punido com agressões e mortes pelos radicais, pelos fascistas, pelos covardes.

A análise histórica revela que nem sempre foi assim. Em sociedades matrísticas, como definiram Humberto Maturana e Gerda Verden-Zöller, as mulheres ocupavam posição central, associadas à fertilidade, ao saber e à organização da vida comunitária.

Eram respeitadas e cultuadas por sua importância, registra a vida de grupos sociais em várias partes do mundo. A supremacia masculina emerge quando a força física, a guerra e a propriedade passam a estruturar as relações sociais.

A partir daí, o poder cultural masculino se impõe sobre o poder biológico feminino, transformando a mulher em propriedade e sua sexualidade em objeto de desconfiança e punição.

O patriarcado, ao longo dos séculos, construiu uma linguagem que inferioriza o feminino e o associa à culpa, ao descontrole e à ameaça. Essa linguagem não apenas molda imaginários, mas orienta práticas.

Quando a mulher é morta por ser mulher, o agressor age amparado por uma cultura que o ensinou a ver, desde bem jovem, o corpo feminino como posse e a violência como correção. O feminicídio, nesse sentido, é um crime ideológico.

Na sociedade contemporânea, as mídias digitais amplificam esse processo. Tal como no conto “O Patinho Feio” (1843), de Hans Christian Andersen, a aparência, os estereótipos e os julgamentos sumários definem quem merece existir sem ser atacado.

Mulheres que rompem padrões são canceladas, perseguidas e silenciadas. A desumanização simbólica antecede a violência física. É comum observar homens que, de modo dissimulado, ridicularizam e inferiorizam mulheres.

Compreender o feminicídio como herdeiro de um longo processo histórico é fundamental para enfrentá-lo. Não se trata apenas de punir crimes, mas de desmontar discursos, revisar narrativas e interromper a recorrência cotidiana do androcentrismo.

Enquanto a cultura do ódio for legitimada por ideologias que exaltam a força, o controle e a submissão, as mulheres continuarão sob risco.

Romper esse ciclo exige mais do que leis: exige memória, consciência histórica e a coragem de confrontar as bases simbólicas do patriarcado. Educação. As fogueiras da Inquisição mudaram na forma, mas o fogo delas ainda queima.

E só será extinto quando a sociedade deixar de naturalizar a violência contra as mulheres e passar a reconhecê-las como iguais – pessoas de direito, desejo e existência.

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