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Rogério Tavares: "A medida provisória da água"

Rogério Tavares: "A medida provisória da água"

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“Em time que está ganhando não se mexe”. O jargão popular, imortalizado na rica história do nosso futebol, diz muito sobre o comportamento humano diante de mudanças. Carregada de algum conservadorismo e superstição, já que quase sempre há oportunidades para o aprimoramento, a expressão seria também um alerta à ambição que, em demasia, pode atrapalhar a continuidade de algo que vai bem.

Se mesmo quando as coisas vão bem pode ser difícil decidir pela mudança, por outro lado, quando tudo vai mal, transformações e reinvenções são urgentes, pois a cultura popular também nos alerta: “não é possível obter resultados diferentes fazendo sempre a mesma coisa”.

No caso do saneamento básico brasileiro, as coisas vão de mal a pior, a ponto de apenas 51,9% da população ter acesso à coleta de esgoto. Quase 100 milhões de pessoas são obrigados a lidar em seu dia a dia com valas de sujeira a céu aberto na porta de casa. De todo o esgoto produzido, somente 44,9% é tratado.

No entanto, a boa notícia é que o mercado se movimenta em busca de mudanças. A Medida Provisória 868, assinada no fim do ano passado pelo governo federal, traz novas perspectivas para o setor.

Entre outras coisas, a aprovação de seu texto no Congresso fará com que os contratos de prestação de serviços de operadores públicos e privados sigam os mesmos requisitos – que hoje só constam nos contratos da iniciativa privada – e tornará obrigatória a apresentação de metas e prazos bem definidos para o avanço da cobertura, sob risco de punição. 

Nosso modelo do saneamento básico é da década de 1970, quando se implementou o Plano Nacional de Saneamento, o Planasa. Desde então, a cobertura desses serviços no País é liderada pelas companhias públicas estaduais, hoje responsáveis por 75% da cobertura nacional – outros 19% ficam a cargo das autarquias municipais e 6% com a iniciativa privada.

É também desde o Planasa que se decidiu priorizar o atendimento de água tratada à população, que partiu de níveis irrisórios naquela década para a cobertura atual de 83,3%. Mesmo com tais avanços, o saldo atual dessa priorização e concentração operacional é de 35 milhões de brasileiros ainda sem acesso à água tratada e um cenário de esgotamento sanitário alarmante.

Segundo a consultoria KPMG, que também elabora um estudo para atualizar e dimensionar o montante de investimentos necessários para a universalização do saneamento no Brasil, o número pode ser ainda maior do que o a previsto. Pelo Plansab, sinalizando um valor aproximado de investimento, seriam R$ 615 bilhões para a efetiva universalização do atendimento.

De acordo com a versão atual do Plansab, em consulta pública, há de se investir R$ 425 bilhões para que, em 2033, haja universalização do atendimento em água e se chegue a 92% de coleta e tratamento de esgoto, o que implica em investimentos anuais que correspondem quase ao triplo do que se investiu em 2017, segundo o SNIS.

Como é sabido, o poder público – incluídos União, estados e municípios – enfrenta um momento econômico adverso, de baixo potencial de investimento. Em 2017, a consultoria GO Associados afirmou, por meio do estudo “Diagnóstico e Perspectivas para o Investimento em Saneamento no Brasil”, que 19 das 27 companhias estaduais tiveram redução nos investimentos entre 2014 e 2015, tendência que também vai na contramão do que aponta a necessidade nacional.

Se o que se procura é uma cobertura de saneamento básico que possa ser universalizada no menor tempo possível, para reverter o cenário atual, mudanças estruturais se fazem necessárias no setor. Dada a enorme quantidade de pessoas sem acesso aos serviços, há espaço de sobra para que operadores públicos e privados possam trabalhar em parceria, garantindo por meio da complementariedade de investimentos o destravamento e superação dos desafios atualmente enfrentados.

Hoje, a iniciativa privada encontra-se no banco de reservas do saneamento brasileiro, mas, mesmo correspondendo a 6% de participação, já é responsável por cerca de valiosos 20% dos investimentos aplicados para expansão e melhoria das redes que atendem a população. É, portanto, uma alternativa plenamente capaz de trabalhar o grande passivo em esgotamento sanitário.

Há quem acredite que o quadro tende a melhorar por si só, da maneira que o cenário já se encontra. Enquanto isso, milhões de pessoas sofrem uma dura realidade com a falta dessa infraestrutura básica. Em sua posse, o novo ministro do Desenvolvimento Regional, Gustavo Canuto, registrou que o Ministério da Integração Nacional – absorvido pela nova pasta junto do de Cidades –, antes tristemente conhecido como o ministério da seca, alcançará o posto de ministério da água; para tanto, medidas concretas e estratégicas se fazem necessárias.

Lutar pela MP 868 é a maneira mais próxima disponível para tornar este ideal uma realidade viável no horizonte. 

EDITORIAL

Água tratada leva dignidade às aldeias

Pela dimensão do impacto social, este certamente figura entre os maiores e mais relevantes investimentos em infraestrutura já realizados em Mato Grosso do Sul

03/04/2026 08h15

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O investimento superior a R$ 50 milhões para levar água tratada às aldeias Bororó e Jaguapiru, em Dourados, representa um passo civilizatório que merece ser reconhecido. Trata-se de uma iniciativa que vai além da infraestrutura básica: é uma ação que dialoga diretamente com a dignidade humana, com a saúde pública e com o respeito a uma população que, por décadas, viveu à margem de serviços essenciais. A decisão de implantar um sistema estruturado de abastecimento atende a uma demanda histórica e corrige uma lacuna que não deveria ter persistido por tanto tempo.

A direção da Sanesul e os parlamentares federais que destinaram recursos de emendas para viabilizar a obra estão de parabéns. A articulação institucional demonstrou que, quando há vontade política e coordenação entre diferentes esferas, é possível avançar em soluções concretas. Mais do que anunciar programas ou intenções, a aplicação efetiva dos recursos públicos em obras estruturantes é o que transforma realidades. E, nesse caso, o impacto será direto na vida de milhares de pessoas.

As aldeias Bororó e Jaguapiru, formadas majoritariamente por indígenas das etnias guarani-kaiowá, existem há mais de 40 anos. Quando foram criadas, situavam-se em área rural, distante da expansão urbana. Com o crescimento de Dourados, porém, essas comunidades foram praticamente engolidas pela cidade, tornando-se parte de seu entorno urbano. Ainda assim, permaneceram sem acesso a um serviço básico como a água tratada, um contraste que evidencia desigualdades históricas e a necessidade de políticas públicas mais inclusivas.

É difícil compreender que um espaço onde vivem mais de 14 mil pessoas – população superior à de muitos municípios de Mato Grosso do Sul – tenha permanecido por tanto tempo sem abastecimento adequado. A ausência de água tratada impacta diretamente a saúde, a alimentação e as condições mínimas de higiene. Ao longo dessas décadas, os moradores enfrentaram períodos de fome, dificuldades estruturais e, mais recentemente, lidam com um surto de febre chikungunya, que expõe ainda mais a vulnerabilidade sanitária da região.

Nesse contexto, o investimento não deve ser visto apenas como uma obra de saneamento, mas como uma medida preventiva de saúde pública. O acesso à água tratada reduz a incidência de doenças, melhora a qualidade de vida e cria condições para o desenvolvimento social. Trata-se de uma intervenção que dialoga com o presente, mas também com o futuro dessas comunidades, que passam a ter melhores condições para superar desafios históricos.

Pela dimensão do impacto social, este certamente figura entre os maiores e mais relevantes investimentos em infraestrutura já realizados em Mato Grosso do Sul. Não apenas pelo volume de recursos, mas pelo alcance humano e simbólico da iniciativa. Garantir água tratada a milhares de indígenas é promover dignidade, reduzir desigualdades e reconhecer que todos os sul-mato-grossenses têm direito aos mesmos serviços básicos.

Que essa obra seja concluída com celeridade e que sirva de exemplo. Investimentos desse porte demonstram que políticas públicas bem direcionadas podem, de fato, transformar realidades e corrigir injustiças históricas. 

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O custo invisível da IA

Em outras palavras, o retorno da IA não se mede apenas no corte de despesas, mas na vantagem competitiva construída com seu uso

02/04/2026 07h45

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Entre ganhos e perdas, o uso de inteligência artificial (IA) pelas empresas tem sido muito discutido a partir do viés financeiro. Alguns levantamentos reforçam um cenário multifacetado, como a pesquisa global da KPMG, que mostra que 57% dos líderes afirmam que o retorno sobre investimento com IA supera as expectativas, enquanto um estudo do MIT indica que 95% das implementações de IA generativa nas companhias ainda não revelam impacto mensurável no lucro e prejuízo.

Números como esses ressaltam que, mesmo com muitas organizações percebendo valor na adoção da tecnologia, a captura plena de benefícios financeiros ainda não está acontecendo.

Se por um lado a IA reduz gastos ao automatizar tarefas repetitivas, otimizar processos e aumentar a eficiência operacional, por outro também gera custos relevantes com infraestrutura tecnológica, processamento em nuvem, governança de dados, adequação regulatória e capacitação contínua das equipes.

A mensuração da sua eficácia, portanto, não pode ser feita levando em consideração as economias imediatas, sendo necessário analisar o valor estratégico gerado ao longo do tempo, seja na melhoria da qualidade das decisões, aceleração de ciclos de inovação, redução de riscos operacionais ou capacidade de escalar o negócio com maior previsibilidade.

Em outras palavras, o retorno da IA não se mede apenas no corte de despesas, mas na vantagem competitiva construída com seu uso. Por isso, os debates deveriam focar no quanto se transforma a partir dela – além de, é claro, seus custos invisíveis.

O primeiro deles ocorre antes mesmo do modelo entrar em produção, ao preparar, integrar e qualificar dados, tarefas que exigem das organizações um compromisso estratégico com governança de dados e maturidade analítica desde o início e não apenas quando surgem resultados tangíveis.

Outro impacto pouco comentado é o custo operacional contínuo dos sistemas de IA. Ao contrário de aplicações tradicionais, os modelos de IA exigem monitoramento constante, retraining para lidar com deriva de dados, ferramentas de observabilidade e atualizações de segurança.

Todas essas despesas podem corresponder a uma boa parcela do custo inicial anualmente, transformando a IA de um ativo estático em um sistema vivo que precisa de atenção contínua.

Há também gastos que surgem indiretamente, como a complexidade de governança e compliance. A ausência dessas estruturas pode comprometer confiança, exposição ao risco regulatório e até valuation corporativo, o que, paradoxalmente, pode custar mais caro do que a tecnologia em si.

Portanto, é preciso entender que governança de IA não é um “extra”, mas sim parte integrante da sustentabilidade tecnológica de longo prazo.

Ainda assim, não devemos focar apenas nos custos e ignorar as oportunidades trazidas pela tecnologia: quando bem planejada e integrada à estratégia corporativa, ela tem potencial para desbloquear valor exponencial.

Um relatório da Deloitte estima que a IA pode evitar cerca de US$ 70 bilhões em perdas anuais com desastres naturais até 2050, ao aumentar a resiliência das infraestruturas críticas.

Acredito que o verdadeiro desafio hoje é saber escolher quando vale a pena usar a inteligência artificial para ganhar vantagem competitiva. Para isso, as empresas precisam priorizar iniciativas que resolvam problemas centrais dos negócios, em vez de se deixar levar por todo novo “hype tecnológico”.

A discussão sobre o custo invisível nos leva, portanto, a uma conclusão prática: não existe IA barata, mas existe IA valiosa, e quem compreender e internalizar essa visão poderá verdadeiramente aproveitá-la de forma positiva e sustentável.

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