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Seu chefe está te matando?

No mundo empresarial, tornou-se conhecida a expressão tone at the top: o comportamento da alta liderança sinaliza aquilo que realmente importa e ajuda a moldar a cultura organizacional

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As organizações exercem efeitos muito maiores sobre a vida das pessoas do que normalmente estamos dispostos a admitir.

O que acontece durante o expediente não termina, necessariamente, quando fechamos o computador ou deixamos o local de trabalho.

Estresse, medo, frustração e ansiedade atravessam essa fronteira. Levamos esses sentimentos para casa, eles afetam o ambiente familiar e retornam conosco ao trabalho no dia seguinte, muitas vezes agravados.

Mas quando dizemos que “a organização” produz esses efeitos, corremos o risco de transformar algo muito concreto em uma abstração. Afinal, quem representa a organização na experiência cotidiana de quem trabalha?

Em grande medida, a chefia imediata.

No mundo empresarial, tornou-se conhecida a expressão tone at the top: o comportamento da alta liderança sinaliza aquilo que realmente importa e ajuda a moldar a cultura organizacional. A ideia continua válida, mas talvez seja insuficiente.

O tom pode vir do topo, porém, é a liderança imediata que o transforma em experiência cotidiana.

A organização pode declarar que valoriza respeito, confiança, colaboração e integridade, mas é o chefe direto que distribui tarefas, compartilha ou retém informações, reconhece ou ignora esforços, permite ou sufoca divergências, dá clareza ou produz ambiguidade, escuta ou simplesmente manda.

E a dimensão desse poder impressiona.

Em 2023, o Workforce Institute at UKG, em parceria com a Workplace Intelligence, ouviu 3.400 trabalhadores em 10 países. Para 69% deles, o gestor direto impacta a saúde mental tanto quanto o cônjuge ou parceiro e mais do que o médico ou o terapeuta.

Talvez devêssemos reler esse número devagar: na percepção dos trabalhadores, o impacto do chefe imediato sobre a saúde mental é superior ao de um médico ou terapeuta.

E os efeitos de uma liderança ruim podem não ficar restritos ao campo psicológico.

Um estudo sueco acompanhou 3.122 homens durante quase 10 anos e encontrou associação entre a qualidade da liderança exercida pelos gestores e a incidência de doença cardíaca.

Entre os aspectos avaliados estavam clareza de objetivos e papéis, fornecimento de informações e feedback, consideração pelas pessoas, participação e capacidade de conduzir mudanças.

Isso ajuda a desfazer outro equívoco: liderança prejudicial não é apenas aquela que grita, humilha ou assedia, às vezes, ela simplesmente se cala. Não esclarece expectativas. Não fornece informações. Não dá retorno.

Não ouve. Não reconhece. Deixa pessoas trabalhando no escuro e chama isso de autonomia.

É justamente nesse cotidiano da relação entre líder e liderado que a segurança psicológica é construída ou destruída.

Uma pessoa não se sente psicologicamente segura apenas porque tem autoconfiança, coragem ou resiliência, ela aprende se aquele ambiente é seguro observando o que acontece quando pergunta, discorda, admite um erro, apresenta uma ideia diferente ou pede ajuda.

Em uma equipe, ela pode falar. Em outra, permanecer em silêncio. A pessoa é a mesma, a relação é que mudou.

Edgar e Peter Schein ajudam a compreender por quê. Para eles, liderança é, antes de tudo, um relacionamento: uma relação colaborativa sustentada por compartilhamento de informações, honestidade e confiança.

A organização pode declarar que valoriza segurança psicológica. É a chefia imediata que transforma essa intenção em experiência ou a desmente todos os dias.

No serviço público, essa reflexão ganha ainda mais relevância, sobretudo neste Dia do Servidor Público.

O servidor normalmente não convive com o governador, o prefeito, o presidente de um tribunal ou o dirigente máximo do órgão. Sua experiência concreta com a instituição ocorre, predominantemente, por meio da chefia imediata.

E há uma questão adicional: nem sempre quem assume funções de chefia foi selecionado ou preparado para liderar pessoas.

Conhecimento técnico, confiança, antiguidade ou domínio dos processos podem levar alguém a uma posição gerencial sem que essa pessoa tenha desenvolvido competências para ouvir, comunicar, administrar conflitos e construir confiança.

Por isso, não basta desenvolver a alta administração, repetir valores institucionais ou esperar que o tone at the top percorra sozinho toda a estrutura, é preciso capacitar quem lidera pessoas em todos os níveis da organização.

Liderar exige mais do que conhecimento técnico ou autoridade formal, exige compreender o impacto que uma decisão, uma palavra ou mesmo um silêncio pode produzir sobre outra pessoa.

Se o gestor direto pode impactar a saúde mental mais do que um médico ou terapeuta, desenvolver lideranças deixa de ser uma iniciativa acessória de recursos humanos, passa a ser uma responsabilidade da organização, porque sua capacidade institucional também depende da qualidade de quem lidera pessoas.

O tom pode começar no topo, mas é na liderança mais próxima que ele ganha vida.

Editorial

É hora de deixar de lado a polarização política

E acelerar as ações para melhorar a segurança pública

27/10/2026 07h15

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Outubro, 2026 – definidos o presidente da República e os governadores que venceram as disputas no segundo turno das eleições, agora chegou a hora de o Brasil deixar de lado a polarização política, as diferenças ideológicas e acelerar as ações para a melhoria da segurança pública.

O tema liderou o ranking das maiores preocupações dos brasileiros em diversas pesquisas de opinião nos últimos meses, fato que elevou ainda mais a importância do assunto para os candidatos antes das recentes disputas aos cargos nas urnas.

A aprovação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Segurança Pública, cuja proposta redefine as atribuições das forças policiais e fortalece a cooperação entre a União, os estados, o Distrito Federal e os municípios, é um próximo passo essencial dentro do processo que visa combater com maior sucesso – ou ao menos com mais eficiência do que hoje – a violência no País.

O cenário atual é crítico e o fracasso do poder público na luta contra a criminalidade vem impulsionando, indiretamente, os investimentos em proteção privada.

De acordo com a última edição do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, a segurança privada movimentou R$ 50,5 bilhões em 2025, um aumento de 3,98%, em relação a 2024, quando o setor registrou faturamento de R$ 48,6 bilhões.

Paralelamente a isso, o mercado nacional de segurança eletrônica faturou R$ 16 bilhões no ano passado, uma elevação de 16,2%, na comparação com o período anterior de 12 meses no País, segundo dados divulgados pela Associação Brasileira das Empresas de Sistemas Eletrônicos de Segurança (Abese).

Esses números são inquestionáveis. E ainda mais assombroso do que eles é o fato de que o combate do poder público à criminalidade tem sido ineficaz apesar do fato de, apenas em 2025, o Brasil ter destinado R$ 163,1 bilhões à segurança pública, o que representa uma alta de 2,1%, na confrontação com 2024, de acordo com o Anuário Brasileiro de Segurança Pública. Desse montante, somente os estados e o Distrito Federal responderam por R$ 131,2 bilhões.

Os enormes valores gastos evidenciam também que não adiantará nada continuar aumentando os aportes voltados a esse segmento se as quantias desembolsadas não forem usadas com planejamento, organização e sinergia entre os governantes em prol de melhorias que poderiam beneficiar o Brasil como um todo e reduzir a sensação de insegurança vivida pela população.

Diante desta necessidade, a PEC da Segurança Pública prevê punições mais severas aos chefes de facções e integrantes de milícias, além do fim do direito à progressão de pena e às saídas temporárias, as chamadas “saidinhas”.

Entre outras mudanças que vai proporcionar, a PEC inclui a criação do Sistema Único de Segurança Pública para integrar as ações policiais de todas as esferas de governo.

Já no âmbito financeiro, a PEC torna obrigatório o repasse de 50% dos recursos do Fundo Nacional de Segurança Pública e do Fundo Penitenciário Nacional aos estados e ao Distrito Federal.

E é fundamental lembrar, porém, que a efetividade da PEC e o cumprimento das ações prometidas contra a violência dos candidatos vencedores nestas eleições dependem não somente dos governantes e das forças policiais, mas também do respaldo dos Poderes Legislativo e Executivo para a aplicação de leis mais severas aos criminosos, hoje convictos de que podem ficar impunes ou que compensa seguir agindo enquanto estiverem sob o risco de serem julgados em um país cuja legislação conta com penas brandas e está cheia de brechas.

A ineficiência da segurança pública é um problema grave do Brasil. E independentemente do sucesso ou do fracasso dos candidatos de sua preferência neste pleito no País, os eleitores precisam entender que essa luta contra a criminalidade é de todos.

Da mesma forma, os blocos de situação e oposição, em todas as esferas do governo, têm de superar as diferenças entre eles e serem flexíveis para que o combate à violência não emperre por causa de conflitos políticos e da demora na tomada de decisões que hoje são urgentes.

Editorial

Dignidade também vem do trabalho

A dignidade humana também se fortalece quando há oportunidade de aprender uma profissão, receber um salário e participar ativamente da economia

27/10/2026 07h10

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A iniciativa da Federação das Indústrias de Mato Grosso do Sul (Fiems) de criar um plano para absorver beneficiários de programas sociais no mercado de trabalho merece ser apoiada e, mais do que isso, encampada pelos governos. A proposta amplia o alcance das políticas de transferência de renda ao oferecer qualificação profissional e perspectivas de autonomia a quem depende da assistência pública para sobreviver.

Não há mais espaço para discutir se programas sociais de renda mínima são importantes. Eles são fundamentais para reduzir a pobreza e garantir condições mínimas de subsistência a milhões de brasileiros.

Em muitos casos, são essas políticas que impedem famílias de mergulhar na miséria. A questão, portanto, não é contestar os benefícios, mas discutir como eles podem abrir portas para novas oportunidades.

Combater a pobreza não significa apenas assegurar comida na mesa. Significa também criar condições para que as pessoas conquistem independência financeira e construam um futuro melhor para suas famílias.

Os programas sociais já contam com condicionantes importantes, como a frequência escolar das crianças e o acompanhamento da saúde pelo Sistema Único de Saúde (SUS), incluindo as etapas de vacinação. É preciso avançar, porém, na formação profissional e na inserção no mercado de trabalho.

É justamente nesse ponto que a proposta da Fiems ganha relevância. Ao oferecer qualificação e bolsa aos beneficiários, dentro de um modelo que permita trabalhar por até um ano sem perder o benefício, conforme as regras legais aplicáveis, a entidade procura construir uma ponte entre a assistência e o emprego.

Assim, o trabalhador pode buscar uma ocupação sem precisar abrir mão imediatamente da segurança proporcionada pela transferência de renda.

O trabalho é um dos instrumentos mais importantes de emancipação social. A dignidade humana começa pela garantia das condições básicas de sobrevivência, às quais os programas sociais dão contribuição indispensável.

Mas ela também se fortalece quando há oportunidade de aprender uma profissão, receber um salário e participar ativamente da economia. A assistência é essencial, mas a autonomia proporcionada pelo trabalho deve ser perseguida sempre.

Para que essa proposta funcione, é necessário articular o setor produtivo e o poder público. Cabe aos governos apoiar iniciativas dessa natureza, facilitar o acesso à qualificação e criar condições para a contratação de pessoas em situação de vulnerabilidade.

Também é fundamental que os cursos atendam às necessidades reais das empresas, para que a formação resulte em emprego, renda e perspectivas concretas de crescimento profissional.

Mato Grosso do Sul tem uma economia em expansão e setores que demandam mão de obra qualificada. Aproximar essa demanda de pessoas que precisam de oportunidades pode beneficiar trabalhadores, empresas e o próprio Estado, com mais produção, renda e inclusão econômica.

Os programas sociais devem garantir proteção a quem precisa, mas também ajudar a abrir caminhos para a independência financeira. 

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