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Sustentabilidade produtiva, uma oportunidade global

Os caminhos mais eficazes para tornar a produção de alimentos mais sustentável são os mesmos que geram ganhos de eficiência, maior inclusão de produtores e segurança alimentar

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A descarbonização dos sistemas alimentares representa uma das maiores oportunidades do nosso tempo, e reduzir emissões de gases de efeito estufa (GEE) não exige abrir mão de produtividade ou renda. Os caminhos mais eficazes para tornar a produção de alimentos mais sustentável são os mesmos que geram ganhos de eficiência, maior inclusão de produtores e segurança alimentar.

Dados da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) mostram que intervenções que promovem o aumento da produtividade, o manejo adequado de pastagens, a melhoria genética dos rebanhos, a saúde animal e a nutrição são as mais eficazes para reduzir a intensidade de emissões da produção de alimentos de origem animal.

Esse entendimento é científico. Resulta da análise de centenas de estudos revisados por pares, abrangendo leite, carne bovina, suína, aves e ovos em diversas regiões do mundo.

Estamos diante de uma janela estratégica, em que a transformação dos sistemas alimentares deve ser impulsionada pela convergência entre desempenho econômico, sustentabilidade ambiental e impacto social. Alinhar o interesse individual, do produtor ao consumidor, torna essa agenda exequível.

A perda e o desperdício de recursos, energia e insumos não são apenas questões ambientais, são ineficiências produtivas. Combatê-las significa criar valor.

Essa visão também responde a um desafio inadiável: mais de 800 milhões de pessoas enfrentam fome no mundo, e cerca de 67% da população mundial em situação de pobreza alimentar vive em áreas rurais.

Descarbonizar os sistemas alimentares é também combater a fome e a exclusão, ampliando acesso a tecnologias, assistência técnica e instrumentos de financiamento.

É nesse espírito que o mundo precisa dar atenção para os resultados que começam a surgir em países com vocação agrícola e base científica sólida.

Um exemplo recente é o estudo da Fundação Getulio Vargas (FGV), em parceria com a Abiec, que indica que o Brasil pode alcançar reduções expressivas nas emissões por quilo de carne produzida – com eficiência, e não com redução de produção.

O estudo mostra ser possível ampliar a oferta de proteína ao mesmo tempo em que se reduzem as emissões em até 92%, adotando estratégias de intensificação sustentável, como a integração lavoura-pecuária-floresta (ILPF), a recuperação de pastagens degradadas e o apoio técnico contínuo ao produtor.

O mais importante é a possibilidade real de promover uma agricultura regenerativa, rentável e inclusiva. Nos biomas tropicais, esse movimento exige reforçar o tripé rastreabilidade, transparência e inclusão produtiva.

Não basta controlar as cadeias de fornecimento, é preciso criar caminhos para que os produtores façam parte da solução, com acesso aos meios para transformar suas propriedades.

Essa é uma agenda de cooperação e inovação. Nenhuma organização, governo ou empresa vai operar essa transformação sozinho. Precisamos de alianças para multiplicar as boas práticas, difundir modelos validados, calibrar metodologias de medição mais justas, gerar dados confiáveis e escalar soluções com velocidade.

A boa notícia é que as ferramentas e os dados já existem. Exemplo disso é um estudo supervisionado pelo professor Eduardo Assad, do Observatório de Conhecimento e Inovação em Bioeconomia da FGV (OCBio/FGV), com o Instituto Inttegra, que analisou o volume de emissões de carbono de 103 propriedades fornecedoras da Friboi, em 12 estados brasileiros, e revelou que as fazendas mais eficientes emitem 46% menos GEE para cada tonelada de carcaça do que todas as demais.

Além disso, 31% das fazendas analisadas removem mais que emitem carbono na atmosfera.

A transição para uma produção de alimentos de baixo carbono é uma oportunidade econômica, ambiental e humana. Fazendo melhor uso dos recursos, seremos capazes de alimentar o mundo e cuidar do planeta. O momento de agir é agora, e a oportunidade, gigantesca.

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Taxação da carne bovina brasileira pela China

Outros países, como Argentina, EUA, Uruguai e Austrália, também terão cotas estabelecidas e tarifas extras de 55% no que superar as cotas

14/01/2026 07h45

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A China anunciou que, desde 1º de janeiro deste ano, vai taxar em mais 55% a carne bovina brasileira importada que ultrapassar a cota de 1,1 milhão de toneladas. Até a cota, a taxa continuará em 12%. Em 2025, a China importou 1,7 milhão de toneladas de carne bovina do Brasil; se for mantida a quantidade, 600 mil toneladas terão a tarifa extra de 55%.

Outros países, como Argentina, EUA, Uruguai e Austrália, também terão cotas estabelecidas e tarifas extras de 55% no que superar as cotas. Trata-se de uma medida que visa proteger os produtores chineses, que estão investindo para aumentar a produção nacional.

Trata-se de notícia complicada, que exige ação do governo e entidades do setor do Brasil. O Brasil é o 5º maior produtor de agronegócio mundial (2,6%) e o 3º maior exportador (8,4%). É o País que apresenta o maior saldo comercial no agronegócio mundial.

O Brasil exporta para mais de 150 países. As carnes são o 2º produto mais exportado pelo agronegócio brasileiro (18%), só sendo superado pelo complexo da soja (36%). A China é o principal destino das exportações do agronegócio brasileiro (31%). Entre estes produtos se destaca a carne bovina.

O Brasil é o principal produtor (12,4 milhões de toneladas) e o 2º maior exportador de carne bovina do mundo. Exporta cerca de 30% da sua produção. O principal destino da carne bovina brasileira exportada é a China (48%). As exportações do Brasil são responsáveis por 54% das importações da China.

Alguns setores do Brasil já esperavam o estabelecimento de cotas e sobretaxas. Serão necessários ajustes no mercado, que já vinha se preparando para conviver com o comércio internacional como um instrumento geopolítico. 

Entidades privadas, como a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne (Abiec) e a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), e do governo, como o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), Ministério das Relações Exteriores (MRE) e Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic) devem atuar para minimizar os efeitos negativos da medida.

O Brasil mantém um adido agrícola na China, que deverá contribuir para manter as boas relações comerciais Brasil-China, que vêm se consolidando nos últimos anos. A tarifa extra deve ser medida temporária sujeita a ajustes.

O consumo de carne bovina continua crescente na China. A produção chinesa é de cerca de 7,8 milhões de toneladas. A estratégia da medida visa oferecer alguma proteção aos pecuaristas locais e ampliar a produção doméstica. Atualmente, a China importa 30% da carne bovina consumida.

A medida adotada pela China pode funcionar como um desestímulo aos investimentos dos pecuaristas brasileiros. Entretanto, o fortalecimento das relações entre os dois países, especialmente comerciais, vem se intensificando. A medida pode gerar distorções internas na China, induzindo inflação.

O Brasil pode, ainda, recorrer à Organização Mundial do Comércio (OMC) e tentar ampliar a cota estabelecida. Isto porque as exportações fora da cota vão se tornar mais difíceis. E a China vinha defendendo um comércio internacional sem salvaguardas.

De qualquer forma, o Brasil deve diversificar o mercado de importadores de sua carne bovina. Não é conveniente para qualquer produto, concentrar 48% das exportações para um único país. E, para isto, deve usar todas as estruturas privadas e públicas, visando alçancar este objetivo a curto prazo. Nos últimos anos, 29 mercados foram abertos.

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Os saltos da ciência no controle da obesidade

Cada movimento, neste universo, confirma que as novas drogas apontam para uma mudança de chave na abordagem clínica da doença, ainda mais eficaz e com resultados expressivos

14/01/2026 07h30

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Em 2025, tivemos bons motivos para comemorar, quando nos demos conta dos saltos significativos no tratamento da obesidade, que registrou conquistas inéditas, com reduções acima de 20% do peso corporal por meio dos injetáveis, e estudos com drogas orais que, embora apresentem avanços e recuos por conta de possíveis riscos, têm projeções científicas favoráveis.

Agora mais um passo importante para abrir este ano: a comercialização, nos EUA, do Wegovy pill, o primeiro medicamento oral da classe dos agonistas de GLP-1 aprovado para tratamento da obesidade no país, que foi autorizado pela agência reguladora americana (FDA) e, a partir deste mês, já está à venda.

Cada movimento, neste universo, confirma que as novas drogas apontam para uma mudança de chave na abordagem clínica da doença, ainda mais eficaz e com resultados expressivos.

É um momento em que se pode redefinir como a obesidade é tratada, avaliando o equilíbrio entre a alta eficácia dos medicamentos e a segurança, embora ainda com certas restrições pelo alto custo.

Um ganho real é que, com os atuais fármacos, há evidências crescentes de benefícios metabólicos além da perda de peso, com desdobramentos que incluem a prevenção ou o tratamento de complicações vinculadas à obesidade.

Podemos dizer que vivemos uma corrida farmacológica promissora e que deve continuar nos próximos anos. As “big pharmas” têm investido alto em pesquisas nas terapias injetáveis – as populares canetas emagrecedoras.

Um dos destaques foi a esperada tirzepatida, medicamento que ativa dois hormônios, (GIP e GLP-1), cujos estudos apontam, em média, 22,9% de perda de peso após 176 semanas, além de apresentarem risco significativamente menor de desenvolver diabetes tipo 2.

E o que vem pela frente? O ritmo não para e, entre as alternativas da nova geração, está a retatrutida, um agonista triplo que envolve três hormônios – GLP-1, GIP e Glucagon – e que apresentou resultados impressionantes, com redução de até 24,2% do peso em 48 semanas.

A importância desse medicamento está no fato de que a combinação tripla tende a ser uma das mais vantajosas no tratamento da obesidade severa, gerando ampla expectativa em relação a estudos mais robustos e de longo prazo.

Mesmo neste cenário animador, há pontos que merecem reflexão, como o consumo seguro. Pelo alto valor dos fármacos, muitas pessoas têm buscado essas drogas de forma ilegal, o que traz sérios riscos à saúde, em razão dos cuidados com a origem, a conservação e a dose, podendo se tornar uma questão epidemiológica relevante.

A regulação e a vigilância do mercado paralelo despontam como alertas diante da alta demanda por remédios para emagrecimento com resultados rápidos.

As novas terapias são, sim, um passo de suma importância no tratamento da obesidade, mas não são milagrosas. É preciso prescrição médica e monitoramento da perda de peso, dos efeitos colaterais e dos riscos, com critérios clínicos que variam muito entre os países.

É uma jornada longa, e a adesão do paciente nem sempre é fácil, o que pode limitar os ganhos reais e favorecer recidivas caso o tratamento seja interrompido ou a dose reduzida. São dilemas clínicos abertos que sinalizam para a necessidade de integração de terapias, em muitos casos.

Iniciamos o ano confiantes, com um balanço com saldo positivo no ano passado, quando constatamos que os avanços na terapêutica da obesidade ingressaram numa fase mais personalizada e de resultados encorajadores.

O conhecimento científico, a segurança e a estratégia clínica individualizada foram e são os pilares dessa trajetória – e talvez o maior desafio para que médicos, indústria e órgãos reguladores se ajustem.

Afinal, evidências científicas, aliadas à qualidade de vida e ao acolhimento do paciente com obesidade, são prioridades no contexto de qualquer conduta de tratamento.

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