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Cervo da Índia pode virar praga no Pantanal e ameaçar outras espécies

Animal foi visto a primeira vez no Brasil em 2009; especialistas dizem que há riscos de ataques também a seres humanos

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Pesquisadores da Embrapa Pantanal e da Universidade Federal do Paraná (UFPR) identificaram a invasão de um tipo de cervo nativo de florestas da Índia, Sri Lanka, Nepal, Bangladesh, Butão e Paquistão, em uma região pantaneira, a 100 km de Corumbá, em janeiro deste ano. O animal, visto pela primeira vez no Brasil em 2009, demorou cerca de 17 anos para chegar ao Pantanal. 

Por ser uma espécie invasora, especialistas apontam que existem riscos para a ecorregião, como problemas sanitários, impacto no ecossistema e vegetação, risco de acidentes e ataques, inclusive a seres humanos. No Pantanal, as espécies nativas de cervos são o cervo-do-pantanal (Blastocerus dichotomus), que é ameaçado de extinção no País e no mundo, o veado-campeiro (Ozotoceros bezoarticus leucogaster), veado-catingueiro (Subulo gouazoubira) e veado-mateiro (Mazama rufa). Essa espécie invasora, chamada de chital (Axis axis), pode alcançar mais de 100 kg, e gerar desequilíbrio com relação às outras espécies.

Por enquanto, apenas um indivíduo chital foi confirmado no território pantaneiro e o os pesquisadores ponderam que a situação representa em alerta. Esse registro, conforme os especialistas, cria uma emergência para que o governo federal tenha uma política mais assertiva para controle de animais que podem se tornar pragas e gerar um desequilíbrio à biodiversidade.

“Um dos problemas é que o Brasil não tem governança suficiente para tratar de controle de invasões por espécies exóticas de mamíferos como o javali, devido à dimensão geográfica e demográfica da invasão. Não temos um serviço nacional e nem estadual de vida selvagem”, analisaram o pesquisador da Embrapa, Walfrido Moraes Tomas, e a docente da UFPR, Liliani Marilia Tiepolo, que publicaram um artigo técnico no O ECO, site especializado em notícias de meio ambiente.

“No caso do chital, o contexto é semelhante ao do javali, ainda que não tenha adquirido a mesma escala geográfica e demográfica. As informações disponíveis na literatura científica mostram que a invasão pela espécie está sendo rápida”, completou.

Os dois estudiosos destacaram que, no Brasil, segue sendo possível a compra do chital como uma espécie ornamental. Em sites especializados, o valor por indivíduo varia de R$ 10 mil a mais de R$ 20 mil. Esses locais de compra virtual sugerem que os animais podem ser usados em projetos de ecoturismo, reservas particulares e turismo rural. 

“O relato e registro em vídeo, feitos por um funcionário da propriedade rural, nos dá conta de que o chital apareceu na fazenda, atacou touros e foi perseguido por cães. O avistamento causou surpresa nos funcionários, uma vez que se tratava de um animal nunca visto, gerando uma consulta a funcionários da Embrapa Pantanal. Trata-se de uma região bastante despovoada e de difícil acesso, caracterizada como Chaco úmido. Ou seja, é improvável que tenha sido levado ao local ou que tenha escapado de algum cativeiro na região”, detalharam Walfrido e Liliani.

Como o chital pode alcançar porte maior que as espécies nativas do Pantanal, o animal pode gerar impactos como competição por alimentos, trazer doenças que atualmente os cervídeos locais não tenham e até mesmo atacar esses outros animais. 

No registro que foi feito na região do Nabileque, por exemplo, os peões de fazenda apontaram que o chital atacou o gado na propriedade, porém foi afugentado por cães.

“É impossível predizer a magnitude dos impactos, caso ocorram. Nada se conhece sobre este assunto, mesmo nas regiões dos países vizinhos onde a espécie já se encontra há vários anos, exceto a sobreposição de sua dieta com cervídeos. Ainda assim, este registro no Pantanal documenta a capacidade de invasão desta espécie, já que o primeiro registro no Brasil é de 2009”, estimaram os pesquisadores.

DA CAÇA À MORTE

Na América do Sul, o animal foi introduzido no Uruguai no início do século 20 para caça, mas acabou espalhando-se para outros países, já sendo registrado no Paraguai, na Argentina e no Brasil.
O caso de maior repercussão sobre o desequilíbrio dessa espécie invasora ocorreu em 2022, quando um animal era mantido como ornamento na residência presidencial do Paraguai e acabou atacando um policial no local. O sargento Víctor César Isasi Flecha morreu em 4 de janeiro daquele ano e sua família foi indenizada pelo governo paraguaio.

OUTROS INVASORES

Outro animal que acabou ganhando terreno no Pantanal e é invasor: o búfalo. Em 2024, um deles chegou a atacar uma turista italiana de 67 anos em Poconé (MT). Em 2017, um peão de fazenda de 59 anos também foi atacado por búfalo. Estimativa da Embrapa Pantanal sugere que possa haver uma população de mais de 5 mil indivíduos, que de certa forma se tornaram selvagens. 

A introdução deles ocorreu na década de 1980 como uma possibilidade econômica, mas o negócio não vingou e os animais acabaram não sendo totalmente domesticados.

Saiba

Crescimento de invasores

O Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBIo), responsável pelo controle de espécies invasoras, não se pronunciou diretamente sobre o caso do chital no Pantanal. Porém, reconheceu que há um aumento no País de registro de espécies invasoras. No 2º Ciclo de Atualização da Lista de Espécies Exóticas Invasoras em Unidades de Conservação Federais, de 2024 para 2025, houve acréscimo de 26 espécies, ou seja, um aumento de 9%.

Para a fauna invasora, foram notificadas seis novas espécies exóticas invasoras, e para a flora, o aumento foi de 20 novas espécies. “Esse aumento reflete o monitoramento e maior conhecimento sobre a biodiversidade nessas áreas”, ponderou o ICMBIo.

CAMPO GRANDE

Mulher trans morre após ser baleada durante abordagem da PM no Centro

Gabriela foi atingida por disparos na região da Praça Santo Antônio e não resistiu após ser levada à UPA; caso segue sob investigação

17/02/2026 07h45

Ação aconteceu no centro de Campo Grande

Ação aconteceu no centro de Campo Grande Gerson Oliveira

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A mulher trans de 27 anos, identificada pelo nome social de Gabriela, morreu após ser baleada durante uma abordagem da Polícia Militar na tarde desta segunda-feira (16), no cruzamento da Avenida Calógeras com a Rua 15 de Novembro, na região central de Campo Grande.

De acordo com o boletim de ocorrência, a equipe do 1º Batalhão da Polícia Militar foi acionada para averiguar denúncia de pessoas em atitude suspeita nas imediações da Praça Santo Antônio, que ao realizar a abordagem e a prisão de um dos envolvidos, houve tumulto.

Durante a ação, Gabriela teria entrado em confronto físico com os militares, quando a arma de um dos policiais caiu no chão e foi apanhada por ela, que a teria apontado em direção à equipe. Diante da situação, outro policial efetuou disparos para tentar contê-la.

A vítima foi atingida no peito, abdômen e perna. Ela recebeu atendimento do Corpo de Bombeiros e foi encaminhada à Unidade de Pronto Atendimento (UPA) do Bairro Coronel Antonino, mas não resistiu aos ferimentos..

Conforme apurado pela equipe do Correio do Estado, populares afirmaram que Gabriela estaria sob efeito de drogas e teria partido pra cima de um dos policiais durante a abordagem. 

O caso foi registrado como morte decorrente de intervenção de agente do Estado e segue sob investigação. A perícia recolheu as armas dos policiais envolvidos para análise.

Cabe ressaltar que desde o início de 2026, essa já é a 13° ocorrência onde houve confronto policial em Mato Grosso do Sul. 

Nota pública

A Associação das Travestis e Transexuais de Mato Grosso do Sul (ATTMS) divulgou nota pública lamentando a morte de Gabriela e cobrando apuração rigorosa dos fatos.

No texto, a entidade afirma receber “com profundo pesar” a notícia do falecimento e destaca que Gabriela foi “alvejada por quatro disparos de arma de fogo efetuados por um policial militar”.

A associação também defende que “eventuais excessos não podem ser silenciados ou relativizados, devendo ser apurados com rigor, transparência e responsabilidade, pois a farda não pode servir de escudo para abusos”.

Em outro trecho, a ATTMS sustenta que, “ainda que Gabriella estivesse errada em sua conduta, o uso desproporcional da força precisa ser rigorosamente apurado”, ressaltando que o caso exige investigação “séria, técnica e imediata” por parte dos órgãos competentes.

A entidade afirma que acompanhará o caso e cobrará esclarecimentos das autoridades.

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editorial

Equilíbrio ameaçado no Pantanal de MS

A riqueza do Pantanal depende de um equilíbrio construído ao longo de milhares de anos. A introdução de espécies exóticas rompe esse ciclo e cria uma competição desigual

17/02/2026 07h30

Arquivo

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A chegada de uma espécie exótica de cervos ao Pantanal acende um alerta que vai muito além da curiosidade científica. Trata-se de uma ameaça concreta a um dos símbolos da biodiversidade regional: o cervo-do-pantanal. Ao ocupar o mesmo habitat e disputar alimento e espaço, o invasor coloca em risco o equilíbrio de um ecossistema já pressionado por queimadas, mudanças climáticas e expansão econômica.

O novo cervo não surgiu por acaso. Foi introduzido no continente sul-americano por caçadores no Uruguai e, sem barreiras naturais que limitassem sua expansão, espalhou-se por diferentes territórios. Agora, sua presença avança em direção a Mato Grosso do Sul, trazendo consigo uma lição conhecida: quando o ser humano interfere de maneira irresponsável na dinâmica ambiental, os efeitos tendem a ser duradouros e difíceis de reverter.

Casos semelhantes não faltam. Os javalis, também exóticos, transformaram-se em verdadeira praga, devastando lavouras e causando prejuízos milionários. Nos rios, espécies como o tucunaré alteraram cadeias alimentares e impactaram populações nativas. Em comum, todos esses episódios revelam a ausência – ou a falha – de um controle biológico eficiente no momento certo. Depois que a espécie invasora se estabelece, o custo ambiental e financeiro para contê-la se multiplica.

No caso do cervo exótico, ainda não há consenso sobre quais medidas adotar. Liberar a caça direcionada apenas a essa espécie? Incentivar o aumento de predadores naturais, como a onça-pintada? Intensificar políticas de proteção ao cervo nativo? Cada alternativa envolve riscos, debates técnicos e decisões políticas delicadas. O que não se pode admitir é a inércia.

O Pantanal é patrimônio natural do Brasil e do mundo. Sua riqueza depende de um equilíbrio construído ao longo de milhares de anos. A introdução de espécies exóticas rompe esse ciclo e cria uma competição desigual, muitas vezes fatal para os animais nativos. Permitir que o avanço ocorra sem planejamento é repetir erros já conhecidos.

É urgente que órgãos ambientais, pesquisadores e governos estaduais e federal atuem de forma coordenada. O controle biológico não é uma opção ideológica, mas uma necessidade prática. Prevenir, monitorar e agir rapidamente são estratégias menos custosas do que remediar.

O avanço do cervo exótico é um sinal claro de que a vigilância ambiental precisa ser permanente. O preço da omissão pode ser a perda de um dos maiores tesouros naturais do País. E, quando se trata do Pantanal, não há espaço para improvisos. 

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