O número de pessoas vivendo com HIV (PVHIV) atendidas na Atenção Primária à Saúde (APS) de Campo Grande cresceu 29 vezes em dois anos.
Conforme dados da Secretaria Municipal de Saúde Pública (Sesau) fornecidos ao Correio do Estado, o número de atendimentos saltou de 11 em junho de 2020 para 322 no sexto mês deste ano.
Levando em consideração apenas o mês de junho, o porcentual de crescimento nos atendimentos em dois anos foi de 2.827% na APS.
Apenas nos primeiros seis meses de 2021, o número de PVHIV atendidas na Atenção Primária à Saúde foi de 603. No mesmo período deste ano, a APS atendeu 1.683 portadores do vírus HIV, um salto de 179,1%.
Conforme a supervisora técnica da Divisão de Ações Programáticas e Políticas Estratégicas da Atenção Básica da Sesau, Priscilla Arashiro, o aumento é decorrente do processo de integração entre os serviços de Vigilância em Saúde no setor de infecções sexualmente transmissíveis.
“O HIV tem que ser visto como uma doença que pode ser acompanhada pela Atenção Primária. Aquele paciente que está estável e com o vírus controlado pode sim ter o tratamento transferido para uma unidade de APS e fazer um acompanhamento com o médico da Saúde da Família”, explicou Priscilla.
Para Arashiro, nos 40 anos da luta contra o HIV, isso é um avanço muito importante, pois quebra paradigmas e preconceitos para garantir que o portador do vírus seja tratado como um paciente comum.
“Ele deve se sentir bem-vindo e acolhido em qualquer unidade de saúde. Atualmente, são 22 unidades referência para o compartilhamento do cuidado do PVHIV na APS e cinco unidades referência para coleta de exames laboratoriais”, disse a supervisora.
Segundo a Sesau, em Campo Grande, há atualmente 5.782 pessoas vivendo com HIV registradas no Sistema de Controle Logístico de Medicamentos (Siclom).
Entre os serviços de atendimento, 2.964 pacientes (51,2%) são atendidos no Centro Especializado em Doenças Infectoparasitárias (Cedip), 1.920 (33,2%) no Hospital Dia Esterina Corsini, no Hospital Universitário Maria Aparecida Pedrossian (Humap/UFMS) e 576 (9,9%) no Centro de Testagem e Aconselhamento (CTA). A APS representa 5,7%, com 322 casos.
GRUPO VULNERÁVEL
A infecção por HIV afeta desproporcionalmente a população negra, homens que fazem sexo com homens, usuários de drogas e mulheres trans.
De 301 diagnósticos de HIV na Capital em 2021, 136 casos, o equivalente a 45%, são referentes a pessoas negras. Em seguida, pessoas brancas representaram 42% dos diagnósticos no ano passado, com 128 casos.
De acordo com dados da Sesau, as maiores taxas de diagnóstico da doença estão concentradas na Capital, na região do Anhanduizinho. No período de 2017 a 2021, foram diagnosticados 1.476 casos novos de HIV em Campo Grande. Desses, 79,8% ocorreram no sexo masculino, com 1.179 casos.
O maior porcentual de casos novos por HIV na Capital foi em jovens com idade entre 20 a 29 anos, representando 47% dos casos. As pessoas de 30 a 39 anos representaram 26% do contágio.
Segundo o relatório anual do Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids (Unaids), no Brasil, a cada hora, ao menos cinco pessoas foram infectadas pelo vírus HIV em 2021.
De acordo com estimativa da Organização das Nações Unidas (ONU), ao longo do ano passado, o Brasil teve 50 mil novos casos, o que fez o País chegar à marca de 960 mil pessoas vivendo com HIV.
Dados do Ministério da Saúde apontam que, entre 2010 e 2020, enquanto a proporção de casos de Aids entre pessoas brancas caiu 9,8% no País, entre pessoas negras, houve aumento de 12,9%.
Em Mato Grosso do Sul, 9.823 pessoas são portadoras do vírus HIV. Homens somam a maioria dos casos registrados no Estado, conforme a Secretaria de Estado de Saúde (SES). Apenas no ano passado, 1.003 novas infecções pela doença foram registradas em MS.
MORTALIDADE
Em todo o País, 13 mil pessoas morreram em decorrência da Aids no ano passado. Na tendência do contágio, o período registrou queda de 10%dos óbitos entre pessoas brancas e crescimento de 10% entre pessoas negras.
De acordo com o boletim epidemiológico HIV/Aids, do Ministério da Saúde, entre 2017 e 2021, foram registrados 665 óbitos por Aids em Mato Grosso do Sul. Nesse mesmo período, a Capital teve 428 mortes em decorrência da doença.
Segundo o Sistema de Informação sobre Mortalidade (SIM) do Ministério da Saúde, em MS, os dados revelam que é predominante o número de óbitos em homens que atuam em canteiros de obras e serviços gerais. Já em relação às mulheres, é maior entre as que trabalham com ocupação do lar e serviços gerais.
As mortes por HIV nesse período foram predominantes na faixa etária de 40 a 49 anos e em pessoas autodeclaradas pardas.
O relatório do Unaids também mostra que os esforços para garantir que todas as pessoas vivendo com HIV tenham acesso ao tratamento antirretroviral que salva vidas estão falhando. O número de pessoas em tratamento de HIV evoluiu menos em 2021 do que nos 10 anos anteriores.
A meta estabelecida no âmbito das Nações Unidas, chamada de 90-90-90, é que 90% das pessoas infectadas sejam diagnosticadas. Dessas, 90% estejam sob tratamento com terapia antirretroviral (ART), que reduz a carga do vírus HIV no organismo do indivíduo infectado.
Entre as pessoas em ART, que 90% estejam com carga viral tão reduzida que, na prática, signifique a não transmissão do vírus. Em 2021, no mundo, esses números foram 85-88-92, e no Brasil 88-83-95.
COMO BUSCAR AJUDA
Conforme Arashiro, os usuários com suspeita de HIV podem procurar, na Capital, qualquer unidade da Atenção Primária, onde são fornecidas a testagem rápida e o aconselhamento sem agendamento.
As pessoas com diagnóstico confirmado serão acolhidas e atendidas pela APS, que solicitará os exames para acompanhamento, conforme o Protocolo Clínico e as Diretrizes Terapêuticas, sendo feito o atendimento de acordo com a necessidade de cada caso.
“É importante que as pessoas infectadas iniciem o acompanhamento o mais precocemente possível, evitando complicações”, destacou a supervisora técnica.
FIM DA AIDS?
Em 2021, na Assembleia Geral da ONU, as lideranças mundiais aprovaram um plano para que a Aids acabe até 2030 – mas somente se as lideranças o cumprirem. Segundo o relatório Unaids, o projeto é realizável e acessível – e, de fato, acabar com a AIDS custaria muito menos dinheiro do que não erradicá-la.
Conforme Priscilla, para conseguirmos chegar ao fim da epidemia de HIV/AIDS, é essencial que as ações de prevenção sejam intensificadas na população mais vulnerável.
“É importante o acesso à prevenção, ampliarmos a divulgação dos exames e do tratamento. E priorizar os recursos e o compromisso das entidades para fortalecimento das políticas de saúde”, reiterou Arashiro.
CURA
Após receber transplante de medula óssea para tratar uma leucemia, um homem de 66 anos que vive com HIV desde a década de 1980 foi curado, dizem seus médicos. Esse é apenas o quarto caso do tipo no mundo.
Segundo divulgado pela BBC, o doador da medula óssea era naturalmente resistente ao vírus HIV. Conhecido como paciente da Cidade da Esperança, em homenagem ao hospital onde foi tratado na Califórnia, o homem, que pediu para não ser identificado, parou de tomar os medicamentos para o HIV e alega estar “mais do que grato” pelo vírus não ser mais detectado em seu corpo.
Durante o monitoramento após o transplante de medula, os níveis de HIV em seu corpo se tornaram indetectáveis e permanecem assim há mais de 17 meses, conforme a equipe médica.
A primeira vez que um caso semelhante foi registrado ocorreu em 2011, quando Timothy Ray Brown, conhecido como o Paciente de Berlim, tornou-se a primeira pessoa no mundo a ser curada do HIV. Outros três casos de cura similares foram registrados nos últimos três anos.
SAIBA
O vírus da imunodeficiência humana (HIV) afeta o sistema imunológico do corpo humano. Ele pode levar à síndrome da imunodeficiência adquirida (Aids) e dificultar a defesa do corpo contra outras infecções.



