A polícia identificou um grande esquema para esquentar carros furtados e roubados, em Campo Grande, onde os criminosos usavam placas originais de outros veículos, fabricados por encomenda diretamente em empresa autorizada pelo Departamento Estadual de Trânsito (Detran). Com placas “clonadas”, colocadas em automóveis do mesmo modelo, cor e marca, esses veículos podiam circular livremente como se estivessem em situação regular.
Com a prisão de Luiz Fernando Flores Valenzuela, 27, que forneceu as placas colocadas no Golf do empresário Erlon Peterson Bernal, 32, morto por assaltantes no início do mês, a Delegacia Especializada em Furtos e Roubos de Veículos (Defurv) descobriu que, há quatro anos, aproximadamente, ele vinha fornecendo as peças identificadoras para criminosos.
Latrocínio
No caso de Erlon Peterson, após ele ter sido morto, os assaltantes pintaram o Golf de sua propriedade, trocando a cor prata por branca. Igualmente, as placas foram trocadas de HTJ-7457 para NRP-0011, originais. A partir daí, a polícia passou a apurar como os criminosos conseguiram as placas.
Os investigadores chegaram à empresa Íons Comércio de Placas para Veículos como sendo a fabricante das peças, autorizada pelo Detran. Luiz Fernando é funcionário da Íons e foi preso pela Polícia Civil, no departamento de trânsito, após ser identificado como a pessoa que recebeu a encomenda de Thiago Henrique Ribeiro, um dos envolvidos na morte de Erlon.
Foi Thiago quem solicitou a fabricação ilegal das placas e as recebeu mediante o pagamento de R$ 120. A empresa deveria fabricar e entregar placas somente com autorização do Detran.
Pelo latrocínio (roubo e morte) contra o empresário, a polícia prendeu Thiago Ribeiro, Rafael Diogo e Jefferson dos Santos Souza. O funileiro Ataíde Pereira dos Santos, que pintou o Golf, chegou a ser preso, mas conseguiu responder em liberdade, mediante fiança. Uma adolescente de 17 anos também foi apreendida por participação no crime.
Responsabilidade
A delegada Maria de Lourdes Cano, da Defurv, pediu a prisão de Luiz Fernando, que foi indiciado pela prática dos crimes de adulteração de sinal de veículo automotor e organização criminosa armada (formação de quadrilha). O dono da Íons, José Ribamar Rodrigues Leite da Costa, apesar de alegar que não sabia da irregularidade, também foi indiciado pelos mesmos crimes. Isso porque, segundo a delegada, ele teria sido omisso no dever de fiscalizar e controlar a encomenda, fabricação e entrega de placas na sua empresa.
Maria de Lourdes Cano informou que Thiago Henrique teria procurado Luiz Fernando por indicação de terceiros. Ainda segundo ela, considerando o tempo (quatro anos) que o funcionário da Íons vinha participando do esquema de emissão ilegal de placas, é possível dizer que a polícia está diante de um grande esquema criminoso.
Conforme explicou, placas fabricadas dessa forma, sem controle do Detran, geralmente são usadas para clonagem de veículos, ou seja, sinais de identificação de veículos com a mesma numeração de veículos regulares são colocadas em outros da mesma marca, modelo e cor, mas produtos de roubos ou furtos. A menos que houvesse uma verificação na numeração de chassi, esses veículos jamais enfrentariam problemas em barreiras e outras fiscalizações urbanas, com a checagem somente pelas placas.
A titular da Defurv revelou que informações iniciais dão conta que as encomendas de placas eram feitas até mesmo por garagistas e despachantes, que agora serão alvo de investigação.
O procedimento que apurava a origem das peças usadas no carro de Erlon já está concluído. Contudo, a delegacia especializada abrirá um novo procedimento, desta vez para investigar a extensão e os outros envolvidos no esquema revelado com a prisão de Luiz Fernando.
Maria de Lourdes Cano adiantou que há informações de que outra empresa que trabalha com a fabricação de placas de veículos também estaria envolvida em irregularidade dessa natureza.
Roberto Augusto Roque dos Santos, gerente da agência regional do Detraem Campo Grande, disse que ficou esclarecido que o órgão não teve nenhuma participação no caso. Ele destacou que para o procedimento de solicitação de placas é necessário o veículo passar por vistoria no departamento, o que não ocorreu no episódio.
Interior do ônibus ficou danificado após o incêndio registrado durante a viagem pela BR-262. Foto: Divulgação/PRF.


