Cidades

Comportamento Digital

'Farmar aura': o que as gírias da internet revelam sobre o cérebro jovem

Especialistas do Humap-UFMS explicam por que expressões virais conquistam os jovens e como o consumo de conteúdos rápidos pode afetar atenção, memória e comportamento.

Continue lendo...

“Farmar aura”, “perder aura”, “six seven” e “brainrot”. Expressões que podem soar incompreensíveis para quem está fora das redes sociais passaram a fazer parte do vocabulário de adolescentes e jovens e, mais do que simples modismos da internet, ajudam a revelar como a cultura digital influencia comportamentos, relações sociais e até a forma como o cérebro responde aos estímulos.

Por trás das gírias que se espalham rapidamente em vídeos, memes e conversas há mecanismos ligados à busca por pertencimento, recompensa e novidade.

Ao mesmo tempo, o consumo contínuo de conteúdos rápidos e fragmentados pode contribuir para fadiga mental e dificuldades de concentração, especialmente quando começa a ocupar horas da rotina.

A avaliação é de profissionais do Hospital Universitário Maria Aparecida Pedrossian (Humap-UFMS/HU Brasil), em Campo Grande.

O neurologista Pedro Levi, especializado em cognição e comportamento, e o psicólogo Thiago Ayala, especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental e Psicologia da Saúde, analisam como o ambiente digital passou a disputar a atenção de uma geração que cresce conectada.

Embora o vocabulário mude rapidamente, os mecanismos por trás da popularização dessas expressões são antigos.

A necessidade de fazer parte de um grupo, buscar reconhecimento e compartilhar códigos próprios encontra nas redes sociais um ambiente capaz de amplificar tendências em uma velocidade inédita.

Gírias funcionam como códigos de pertencimento

A rápida disseminação de expressões como “farmar aura” pode ser explicada, em parte, pela própria característica social do cérebro humano.

“Do ponto de vista neurológico, o cérebro humano é uma máquina social. Somos projetados biologicamente para buscar conexão e pertencimento”, explica Pedro Levi.

“Quando uma nova gíria ou meme como ‘farmar aura’ surge, usá-la funciona como um ‘crachá’ de pertencimento a um grupo.”

A expressão “farmar aura”, derivada da linguagem dos jogos eletrônicos, passou a ser utilizada nas redes para descrever situações em que alguém acumula prestígio, admiração ou uma espécie de “pontuação social” simbólica.

Na direção oposta, “perder aura” representa atitudes consideradas constrangedoras ou capazes de diminuir esse prestígio. O mesmo fenômeno ajuda a explicar a circulação de referências aparentemente sem sentido para quem está fora de determinado grupo, como “six seven”.

Nesses casos, compreender a referência pode ser mais importante socialmente do que o significado literal da expressão.

Segundo Levi, a novidade também mobiliza o sistema de recompensa cerebral. Termos curtos, inesperados e associados a memes, jogos ou outros idiomas despertam curiosidade e favorecem sua repetição, especialmente em ambientes nos quais uma tendência pode alcançar milhões de usuários em pouco tempo.

Para Thiago Ayala, essas expressões acabam funcionando como verdadeiras senhas sociais.

“Compartilhar uma linguagem, rir das mesmas referências e compreender uma brincadeira que outras pessoas não entendem produz reconhecimento e pertencimento. É como dizer: ‘Eu faço parte desse grupo e entendo os seus códigos’”, afirma.

Na adolescência, período marcado pela construção da identidade e pela aproximação com os pares, dominar esse vocabulário pode representar uma forma de validação dentro do grupo.

O humor também permite comunicar sentimentos sem necessariamente verbalizá-los de maneira direta.

“Às vezes, o jovem compartilha um meme para dizer ‘eu me sinto assim’ sem precisar elaborar uma fala mais longa”, explica o psicólogo.

O mesmo mecanismo, porém, pode assumir uma face negativa. Referências, memes e códigos compartilhados podem ser utilizados para excluir ou constranger pessoas que não compreendem determinada linguagem, inclusive em situações de cyberbullying.

“Brainrot” traduz sensação de saturação mental

Se “farmar aura” representa a busca simbólica por prestígio, outro termo popular entre jovens descreve justamente o esgotamento provocado pelo excesso de conteúdo.

“Brainrot”, cuja tradução literal seria algo próximo de “apodrecimento cerebral”, tornou-se uma maneira irônica de definir a sensação experimentada depois de passar muito tempo consumindo vídeos, memes e publicações rápidas.

Apesar do nome, não significa que exista um processo de deterioração física do cérebro.

Thiago Ayala explica que a expressão deve ser compreendida como uma metáfora cultural, e não como um diagnóstico médico.

“O termo expressa a sensação de estar mentalmente saturado depois de consumir, durante muito tempo, conteúdos rápidos, repetitivos e pouco aprofundados. O interessante é que os próprios jovens utilizam a expressão de maneira crítica e bem-humorada, reconhecendo o excesso.”

Embora o cérebro não “apodreça”, Pedro Levi destaca que a sensação descrita pelos usuários pode estar associada à fadiga mental provocada pelo processamento contínuo de estímulos.

A exposição prolongada a conteúdos fragmentados exige que a memória de trabalho processe sucessivamente informações que rapidamente são substituídas por outras.

Depois de horas nesse ritmo, podem surgir cansaço, dificuldade de concentração e a sensação conhecida popularmente como “névoa mental”.

Rolagem infinita transforma atenção em disputa

Um dos pontos centrais do problema está no próprio funcionamento das plataformas.

A chamada rolagem infinita permite que um vídeo seja imediatamente substituído por outro, sem que o usuário precise tomar uma decisão consciente para continuar consumindo conteúdo. Mudanças constantes de imagem, som, assunto e contexto capturam repetidamente a atenção.

Segundo Levi, o mecanismo explora uma característica primitiva do cérebro conhecida como resposta de orientação, responsável por direcionar nossa atenção para novidades no ambiente.

Cada estímulo novo pode alimentar o sistema de recompensa e incentivar o usuário a continuar rolando a tela em busca do próximo conteúdo interessante.

“Para vocês terem ideia, o tempo médio de fixação da atenção em um Reels do Instagram é algo como 3 segundos por vídeo”, afirma o neurologista.

A preocupação surge quando esse padrão deixa de ocupar alguns minutos e passa a dominar horas do cotidiano.

“Quando ficamos horas prestando atenção por poucos segundos em cada vídeo, estamos treinando nossos circuitos cerebrais a serem menos capazes de se concentrar por longos períodos”, acrescenta Levi.

O cérebro possui capacidade de adaptação aos estímulos que recebe com frequência, processo conhecido como neuroplasticidade.

Dessa forma, uma rotina marcada por recompensas rápidas e mudanças constantes pode tornar atividades que exigem atenção sustentada mais difíceis ou menos atraentes.

Entre elas estão a leitura de textos longos, os estudos, a prática de determinadas atividades e até conversas prolongadas sem interrupções.

A memória também pode ser afetada quando o volume de informação consumido é grande demais para que os conteúdos sejam devidamente processados e consolidados.

Adolescência amplia vulnerabilidade aos estímulos

O cenário exige atenção especial entre crianças e adolescentes.

Durante a adolescência, estruturas cerebrais relacionadas às emoções, à recompensa e à busca por reconhecimento social têm grande participação no comportamento, enquanto áreas responsáveis pelo planejamento, avaliação de consequências e controle de impulsos ainda passam por amadurecimento.

O córtex pré-frontal, região diretamente associada a essas funções, continua seu desenvolvimento até o início da vida adulta.

Essa combinação pode aumentar a vulnerabilidade dos mais jovens a ambientes digitais estruturados para oferecer recompensas constantes e prolongar o tempo de permanência nas plataformas.

Isso não significa, entretanto, que todo adolescente que utiliza redes sociais desenvolverá problemas de atenção ou comportamento. Para os profissionais, é necessário observar principalmente os efeitos que o uso das telas provoca na vida cotidiana.

Quando o celular começa a virar problema

Não existe um número universal de minutos capaz de separar automaticamente um uso saudável de um uso prejudicial. Para Thiago Ayala, o principal parâmetro é o impacto funcional.

O sinal de alerta aparece quando a relação com o celular começa a interferir no sono, nos estudos, nas relações familiares, nas atividades presenciais ou no bem-estar emocional.

Entre os comportamentos que merecem atenção estão irritabilidade ou ansiedade quando o aparelho não está disponível; dificuldade para permanecer em uma leitura ou atividade prolongada sem verificar o telefone; alterações no sono; esquecimentos frequentes; perda de interesse por esportes e encontros presenciais; e utilização das redes sociais como principal maneira de lidar com tristeza, solidão ou frustração.

O uso do celular durante a noite também merece cuidado. A combinação entre estímulos constantes e exposição à luz das telas próximo ao horário de dormir pode dificultar a preparação do organismo para o sono.

A preocupação aumenta quando o aparelho deixa de ser apenas uma ferramenta de entretenimento e passa a organizar praticamente todos os momentos livres do dia.

Equilíbrio passa por rotina, diálogo e exemplo

Para os especialistas, enfrentar o problema não significa transformar celulares e redes sociais em inimigos ou simplesmente proibir o acesso dos jovens à tecnologia.

Pedro Levi defende medidas voltadas à organização da rotina digital, entre elas reduzir a exposição às telas antes de dormir, desativar notificações desnecessárias e estabelecer momentos para atividades que demandem concentração prolongada.

Leitura, prática de instrumentos musicais e exercícios meditativos estão entre as possibilidades para exercitar a atenção sustentada.

Outra recomendação é diferenciar o uso ativo do passivo. Entrar em uma plataforma com uma finalidade específica é diferente de abrir uma rede social automaticamente para preencher qualquer momento de tédio e permanecer rolando a tela sem perceber a passagem do tempo.

Dentro de casa, Thiago Ayala considera que o diálogo tende a produzir resultados melhores do que simplesmente ridicularizar as expressões ou proibir o acesso.

“A família pode combinar momentos sem celular, principalmente durante as refeições, nos estudos e antes de dormir”, sugere.

O comportamento dos próprios adultos também pesa nessa relação.

“Os adultos também precisam observar o próprio comportamento, pois torna-se contraditório exigir que o adolescente deixe o celular enquanto os responsáveis permanecem constantemente conectados”, afirma o psicólogo.

Demonstrar interesse pelo universo digital dos jovens, inclusive pelos memes e pelas expressões que utilizam, pode abrir espaço para conversas sobre limites, exposição, segurança e consumo consciente.

No fim, “farmar aura”, “six seven” e “brainrot” são mais do que palavras de uma geração.

As expressões mostram como a linguagem continua se transformando para criar identidade e pertencimento, mas também expõem um desafio cada vez mais presente dentro de casas e escolas: encontrar equilíbrio em um ambiente no qual plataformas, algoritmos e notificações competem continuamente por uma das capacidades mais valiosas do cérebro humano a atenção.

RIBAS DO RIO PARDO

Colisão entre caminhonetes deixa um homem morto na BR-262

Acidente ocorreu na noite deste domingo (20), no município de Ribas do Rio Pardo

21/09/2026 11h45

Acidente na BR-262 ocorreu em Ribas do Rio Pardo

Acidente na BR-262 ocorreu em Ribas do Rio Pardo Reprodução

Continue Lendo...

Uma colisão entre um Ford Pampa e uma Fiat Toro na BR-262, em Ribas do Rio Pardo, deixou um homem, de 69 anos, morto na BR-262, em Ribas do Rio Pardo, município que fica a cerca de 111 quilômetros de Campo Grande.

O idoso conduzia a Pampa e ficou preso às ferragens. A identidade da vítima não foi divulgada. Segundo as informações preliminares, uma mulher também ocupava o veículo e ficou ferida. Ela estava consciente enquanto recebia atendimento das equipes do Corpo de Bombeiros, que atuaram no resgate das vítimas.

Já o motorista da Fiat Toro sofreu apenas ferimentos leves. Com o impacto, a caminhonete tombou e parou com as rodas voltadas para cima às margens da rodovia.

De acordo com o portal Dourados Agora, testemunhas relataram que a Pampa estava com os faróis apagados antes da batida, mas essa versão ainda não foi confirmada pelas autoridades. As causas e a dinâmica do acidente seguem sendo serão apuradas.

Em MS

Carro com mais de 500 quilos de drogas é interceptado após cerco na MS-395

Veículo foi interceptado próximo a Anaurilândia após uma ação integrada entre forças de segurança; motorista afirmou que levaria os entorpecentes de Ponta Porã para São Paulo

21/09/2026 11h30

Carga apreendida era composta por 633 tabletes de maconha, além de skunk e haxixe

Carga apreendida era composta por 633 tabletes de maconha, além de skunk e haxixe Foto: Divulgação/PRF

Continue Lendo...

Durante uma ação integrada que contou com a participação da Polícia Militar Rodoviária, Polícia Rodoviária, a Força Tática de Nova Andradina e a Polícia Militar do Distrito de Quebracho, apreendeu na manhã do último domingo (20), aproximadamente 505,2 quilos de drogas, enquanto realizavam uma abordagem na MS-395. A apreensão ocorreu próximo ao município de Anaurilândia

De acordo com a Polícia Rodoviária Federal (PRF), a ação teve início quando a equipe tentou abordar um veículo Up de cor vermelha, porém a interceptação imediata não ocorreu. 

Com isso, a informação foi repassada a outras forças de segurança regionais, possibilitando a montagem de um cerco tático, que contribuiu na captura do automóvel no km da MS-395. 

Após pararem o veículo, foi iniciada a vistoria no interior do veículo, os policiais federais e os demais agentes, perceberam volumes cobertos por um tecido preto no banco traseiro, além de mais entorpecentes no porta-malas. 

Ao todo, foram encontrados e apreendidos 633 tabletes de maconha, chegando a um total de 487,4 quilos, além de 17,7 quilos de substâncias similar ao skunk e 100 gramas de substância análoga ao haxixe, totalizando em aproximadamente 505,2 quilos. 

De acordo com o condutor ele confessou ter buscado as drogas em Ponta Porã e que o destino final seria a cidade de São Paulo. O rapaz foi preso em flagrante por tráfico de drogas. 

NEWSLETTER

Fique sempre bem informado com as notícias mais importantes do MS, do Brasil e do mundo.

Fique Ligado

Para evitar que a nossa resposta seja recebida como SPAM, adicione endereço de

e-mail [email protected] na lista de remetentes confiáveis do seu e-mail (whitelist).