Cidades

EXCLUSIVO

Gado abandonado expõe fraude na carne sustentável do Pantanal

Animais certificados passavam fome em propriedade de Mato Grosso do Sul, em esquema que envolve auditoria suspeita, notas frias, venda de sentenças e a Operação Ultima Ratio da Polícia Federal

Continue lendo...

O produtor rural Ricardo Pereira Cavassa, legítimo proprietário da Fazenda Vai Quem Quer e vítima do esquema de venda de sentenças no Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul (TJMS) – desmantelado pela Polícia Federal (PF) na Operação Ultima Ratio –, impetrou um mandado de segurança contra o ex-posseiro da área. A medida ocorreu após a descoberta de uma suposta fraude com o uso de notas frias no Programa Carne Sustentável do Pantanal, iniciativa conduzida pela Secretaria de Meio Ambiente, Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação (Semadesc).

Cavassa exige agora que o Instituto de Meio Ambiente de Mato Grosso do Sul (Imasul) devolva a inscrição do Cadastro Ambiental Rural (CAR) da propriedade ao seu nome. Trata-se do último entrave administrativo necessário para consolidar a retomada do imóvel, do qual havia sido privado por decisões judiciais marcadas pela suspeita de corrupção.

Desde que o Superior Tribunal de Justiça (STJ) determinou a restituição da posse a Ricardo Cavassa, o produtor acabou desmascarando irregularidades no programa que serve como vitrine do governo do Estado para a conquista de mercados externos. Entre os abusos constatados, destaca-se a situação do rebanho deixado pelo antigo ocupante: os animais definhavam abandonados e famintos na propriedade – e, contraditoriamente, figuravam como certificados pelo programa sustentável.

Para agravar a farsa, a empresa de auditoria encarregada de inspecionar o gado e atestar sua origem ecológica – condição indispensável para a venda de carne orgânica ao exterior – forjou em flagrante um laudo de certificação. A auditora informou ter realizado uma vistoria do rebanho do ex-posseiro em um período no qual o legítimo proprietário já exercia a posse física e exclusiva do imóvel.

O caso

A retomada da Fazenda Vai Quem Quer por Ricardo Pereira Cavassa ocorreu no dia 24 de junho, após uma disputa judicial de pelo menos quatro anos. Cavassa havia sido privado de sua propriedade em razão de um esquema de venda de sentenças no TJMS, investigado pela PF na Operação Ultima Ratio. Durante o processo, desembargadores mantiveram a posse do imóvel com Lydio de Souza Rodrigues, mesmo ele sendo acusado criminalmente por estelionato na compra da fazenda. 

Lydio, que detinha apenas um contrato de compra e venda sob suspeita de estelionato, vendeu parte da propriedade a Vilmar Silveira, que era quem efetivamente ocupava o local no momento da reintegração decretada pelo STJ.

Ao assumir novamente o imóvel, Cavassa encontrou um grande rebanho bovino pertencente a Silveira abandonado no local em condições de maus-tratos.

De acordo com o boletim de ocorrência registrado na Polícia Civil, tratava-se de 420 bovinos confinados em uma área de apenas 24 hectares, enfrentando severas restrições de alimento e água em razão da superlotação e do clima. No dia 16 de julho, foi firmado um acordo para a retirada do rebanho em até 30 dias. No entanto, o prazo venceu sem o cumprimento integral, e um funcionário de Silveira declarou que o ex-ocupante só retiraria o restante dos animais diante de uma ordem judicial.

Paralelamente, a regularização do imóvel encontrou barreiras burocráticas no Imasul em relação à transferência da inscrição do CAR. Cavassa relatou que o procedimento foi aprovado pelo setor técnico por se tratar de um ato declaratório, mas acabou retido ao chegar à assessoria jurídica. 

O produtor denunciou a existência de conflito de interesses nos bastidores do órgão. “Os técnicos liberaram, porque o CAR é um ato declaratório. Então, quando eu coloco o processo, tudo eles liberam no setor técnico. Mas, quando vai para o jurídico, eles seguram. A mãe do advogado dele [Vilmar], coincidentemente, é assessora jurídica ambiental naquele órgão”.

Fraude

A situação tomou proporções ainda mais graves ao revelar indícios de falsificação de documentos vinculados ao Programa Carne Sustentável do Pantanal, instituído em 2018 para incentivar a pecuária sustentável de baixo impacto ambiental. 

Durante tratativas com a advogada de Silveira sobre os cerca de 200 bovinos que ainda permaneciam na fazenda, Cavassa foi informado de que o ex-posseiro teria enviado 1.080 cabeças para confinamento pelo programa estadual entre junho e agosto. 

O proprietário desmentiu prontamente a alegação e apontou a emissão de documentação falsa. “A advogada falou que ele mandou entre junho e agosto 1.080 animais para o confinamento da Fazenda Vai Quem Quer, mas isso não é verdade, e eu disse a ela que estas 1.080 rezes sequer saíram da fazenda, porque lá não há mangueiro para embarcar o gado. E mais: ainda disse a ela que não existe esse gado lá, então ele teria tirado o gado de outro lugar com a nota da fazenda, o que eu acredito que seja nota fria”.

Embora a propriedade não contasse sequer com estrutura de mangueiro para o embarque do rebanho, a suposta saída do gado pela Fazenda Vai Quem Quer havia sido confirmada pela Semadesc e pela Associação Pantaneira de Pecuária Orgânica e Sustentável (ABPO).

O caso comprometeu também a credibilidade do sistema de fiscalização do programa. A certificadora Sbcert declarou ter realizado uma vistoria de inspeção na fazenda no dia 13 de agosto, momento em que Cavassa já exercia a posse da área. 

A defesa do legítimo proprietário rebateu a ocorrência da auditoria apresentando nota oficial com provas materiais. “Entre o dia 13 e 19 de setembro, Ricardo estava na propriedade junto com várias testemunhas que comprovam que lá não teve nenhum tipo de vistoria ou fiscalização segundo faz prova prints de conversa de Ricardo com os vizinhos, Boletim de Ocorrência e matérias dos jornais já apresentadas”.

Diante do escândalo, Cavassa solicitou a desvinculação do imóvel do programa, enquanto Silveira chegou a notificá-lo exigindo indenização caso perdesse a certificação. 

Por sua vez, a Semadesc confirmou a Ricardo Cavassa a suspensão do ex-posseiro na iniciativa.
O órgão estadual, contudo, ainda  não transferiu a titularidade do CAR à Ricardo Cavassa, legítimo proprietário e atualmente, também na posse do imóvel.

Outro lado

Em contato com a reportagem, a defesa de Vilmar nega todas as acusações feitas por Ricardo, reforçando que "o gado apontado como supostamente 'abandonado' não tem qualquer relação com a certificação de carne sustentável ou com o programa de produção sustentável do Pantanal". Também esclarece que não houve abandono de animais por parte de Vilmar.

"Os vídeos e demais provas demonstram que o próprio Ricardo Cavassa impediu a retirada e o manejo do rebanho ao fechar o colchete com cadeado e bloquear a passagem com veículo, impedindo a atuação dos peões responsáveis pelos animais, inclusive para fornecimento de água, sal e demais cuidados necessários", relata.

Por fim, afirma que Vilmar nunca integrou o processo judicial envolvendo Ricardo e Lydio Rodrigues, além de esclarecer que ele nunca teve seu nome investigado nos autos da Operação Ultima Ratio. "O que se verifica é uma tentativa de transformar questões de posse em acusações ambientais, administrativas e reputacionais, envolvendo programas públicos sérios e órgãos de fiscalização para alcançar objetivo exclusivamente possessório", conclui a defesa.

*Matéria atualizada no dia 29 de setembro, às 14h30, para acréscimo de resposta da defesa.

CRISE EM TRANSPORTE ESCOLAR

Pneu se solta de ônibus escolar em movimento na MS-164

Outra roda do veículo quebrou após parada de emergência em rodovia por primeira roda que se soltou

07/10/2026 13h15

Montagem

Continue Lendo...

Um pneu de um ônibus escolar se soltou enquanto o veículo trafegava pela MS-164, enquanto ainda carregava alunos até o distrito de Itamarati, distrito a menos de 50 quilômetros de Ponta Porã. Em vídeo publicado nas redes sociais e gravado de dentro do ônibus por estudantes, é possível ver o pneu circulando na outra pista.

O caso aconteceu durante a terça-feira (6), e após a roda se deslocar, o veículo parou em meio a rodovia, sendo essa uma das reclamações de mães dos estudantes, por se tratar de uma via movimentada.

 

Segundo relato de uma mãe que postou os vídeos, e como é possível ver no registro, uma outra roda do mesmo ônibus também teria quebrado.

Em um dos registros aparecem ao menos cinco crianças dentro do ônibus, além do motorista, quando a roda atinge ao veículo, momento em que o ônibus para no acostamento.

A reportagem tentou entrar em contato com responsáveis pelos registros para identificar quantas crianças e adolescentes estavam dentro do veículo durante o ocorrido, mas não houve retorno até o momento de publicação da matéria.

A Prefeitura de Ponta Porã, responsável pelo transporte dos alunos estuda a situação, enquanto as mães de estudantes que utilizam o transporte mobilizam um protesto, que acontecerá amanhã (8), em frente a Escola Nova Itamaraty, na região rural do distrito, para cobrar respostas e condições melhores.

DISPUTA DE GIGANTES

Suzano teme que megafábrica da Arauco derrube preço da celulose

Cotação de um dos principais produtos da economia de MS deu sinais de melhora, mas previsão é de que haja oferta demais depois que o projeto Sucuriú iniciar a produção

07/10/2026 12h58

Fábrida Arauco está com mais de 70% das obras concluídas e previsão é de que esteja pronta antes do fim de 2027

Fábrida Arauco está com mais de 70% das obras concluídas e previsão é de que esteja pronta antes do fim de 2027

Continue Lendo...

Responsável pelo faturamento de US$ 2,4 bilhões em exportações nos nove primeiros meses do ano na balança comercial de Mato Grosso do Sul, a celulose está dando sinais de recuperação nos preços nas últimas semanas, sustentada por estoques menores na China, custos mais altos de madeira na Ásia e fechamento de capacidade de fibra longa. 

O movimento, porém, pode ter vida curta: a entrada de novas fábricas em 2027, como a da Arauco, em Inocência, deve aumentar a oferta em ritmo superior ao crescimento da demanda e voltar a derrubar os preços. 

É essa a leitura dos analistas Leonardo Correa, Marcelo Arazi e Rodrigo Gotardo, do banco BTG Pactual, após encontro com Marcos Assumpção, diretor financeiro da Suzano, e Camila Nogueira, responsável por relações com investidores da companhia, durante conferência realizada pelo banco em Nova York.

Conforme reportagem da Revista Exame publicada nesta quarta-feira (7), os analistas informaram que a Suzano conseguiu implementar o aumento de preços anunciado para setembro e já iniciou uma nova tentativa de reajuste em outubro. O objetivo é levar o preço da celulose de fibra curta para US$ 600 por tonelada na China, principal referência do mercado global e principal destino da celulose produzida em Mato Grosso do Sul.

Na avaliação dos analistas, o ambiente de curto prazo ficou mais favorável. “O encontro reforçou um cenário um pouco melhor para a celulose no curto prazo, mas também os desafios que permanecem 2027”, afirmam.
A melhora dos preços não decorre apenas de uma recuperação da demanda. Parte relevante do movimento está ligada à redução temporária da oferta e ao aumento dos custos de produção.

Os estoques de celulose nos portos chineses diminuíram, enquanto o projeto OKI II, da Asia Pulp & Paper, teve seu início adiado para 2027. Ao mesmo tempo, cerca de 1,3 milhão de toneladas de capacidade de fibra longa foram fechadas de maneira permanente.

Outro componente importante está na madeira. O preço da matéria-prima importada pela China subiu para aproximadamente US$ 220 por tonelada, ante uma faixa de US$ 170 a US$ 180 alguns meses antes.

O aumento tornou menos competitiva a produção de algumas fábricas chinesas integradas. Segundo o relatório, produtores locais que normalmente utilizam a própria celulose passaram a comprar produto da Suzano, sinal de que, em determinados casos, produzir internamente ficou mais caro do que recorrer ao mercado.

Para os analistas, a principal preocupação está no próximo ano. A Suzano reconhece que 2027 deverá ser mais desafiador pelo lado da oferta. Projetos como OKI II, Sucuriú e novas capacidades integradas na China devem aumentar significativamente a quantidade de celulose disponível no mercado.

Somente o projeto Sucuriú, previsto para entrar em operação no segundo semestre do próximo ano, deve injetar 3,5 milhões de toneladas de celulose no mercado mundial por ano. O projeto chinês prevê 1,4 milhão de toneladas. Nas suas duas fábricas em Mato Grosso do Sul, a Suzano tem capacidade para produzir 5,8 milhões de toneladas. 

Enquanto isso, a demanda estrutural cresce em um ritmo estimado entre 1 milhão e 1,5 milhão de toneladas por ano. Isso significa que, se toda a nova capacidade entrar conforme planejado, a oferta pode crescer mais rapidamente do que o consumo — uma combinação que normalmente limita aumentos de preços ou força produtores menos competitivos a reduzir produção.

Para os analistas, o equilíbrio em 2027 dependerá cada vez mais de fatores como fechamento de fábricas, paradas comerciais de produção e possíveis atrasos nos novos projetos

“A capacidade de fechamento, as paradas relacionadas ao mercado e potenciais atrasos de projetos se tornam cada vez mais importantes para reequilibrar o mercado”, afirmam os analistas.

PERDAS

No primeiro quadrimestre deste ano, os dados relativos ao faturamento com as exportações de celulose em Mato Grosso do Sul revelaram queda de 16% no preço na comparação com igual período de 2026.

Por conta da retração nos preços, no primeiro quadrimestre deste ano a Suzano  e a Eldorado deixaram de faturar em torno de R$ 900 milhões. A família Feffer é dona da Suzanno e a Batista, da Eldorado.

Nos primeiros quatro meses deste ano o volume exportado chegou a 2,21 milhões de toneladas, igualando as vendas externas de 2025. O faturamento, porém, caiu de US$ 1,124 bilhão para US$ 941 milhões. Isso significa quase US$ 183 milhões, ou R$ 900 milhões, a menos por um volume igual. 

Nos nove primeiros meses do ano, as exportações feitas por empresas de Mato Grosso do Sul garantiu faturamento de US$ 9,2 bilhões, um aumento de 12,5% na comparação com igual período do ano passado.

Deste total, a celulose respondeu por 26,4%, ficando atrás somente da soja, que rendeu US$ 2,9 bilhões, ou 31,1%. Mas, se forem levados em consideração os dados somente relativos a setembro, a celulose foi disparadamente a primeira colocada em faturamento, representando 30,7% dos US$ 957,2 milhões faturados no mês passado. A soja representou apenas 14,4% deste montante. 

(Com informações da Exame)


 

NEWSLETTER

Fique sempre bem informado com as notícias mais importantes do MS, do Brasil e do mundo.

Fique Ligado

Para evitar que a nossa resposta seja recebida como SPAM, adicione endereço de

e-mail [email protected] na lista de remetentes confiáveis do seu e-mail (whitelist).