O crime organizado atua de forma transnacional, e a resposta dos governos precisa seguir a mesma lógica: a cooperação é mais eficiente do que ações esporádicas
O fortalecimento da cooperação entre Brasil e Bolívia na área de segurança pública merece ser reconhecido como um passo importante no enfrentamento ao crime organizado.
Em uma região de fronteiras extensas e de intensa circulação de pessoas e mercadorias, nenhuma nação conseguirá combater sozinha organizações criminosas que há muito tempo deixaram de respeitar limites territoriais.
A integração entre os dois países representa um avanço não apenas para a repressão ao crime, mas para a proteção da soberania nacional e o fortalecimento das instituições públicas.
A iniciativa ganha relevância especial diante da realidade observada nos últimos anos.
A Bolívia, país com a maior extensão de fronteira com o Brasil, tornou-se um dos principais destinos de integrantes das facções criminosas Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV), que utilizam o território vizinho tanto como rota para o tráfico internacional de drogas quanto como abrigo para criminosos que buscam escapar da atuação das autoridades brasileiras.
Essa condição impõe aos dois governos uma responsabilidade compartilhada, pois os efeitos da criminalidade organizada não conhecem barreiras geográficas.
Nesta edição, mostramos que a aproximação entre a Polícia Federal e as autoridades bolivianas já começa a apresentar resultados concretos. A prisão, em território boliviano, do ex-deputado estadual Neno Razuk (PL), que estava foragido da Justiça brasileira, ocorreu durante uma ação conjunta entre os dois países.
Independentemente da repercussão política do caso, o episódio demonstra a eficácia da cooperação institucional, baseada na troca de informações de inteligência e na atuação coordenada das forças de segurança.
Mas seria um erro enxergar essa parceria apenas pelo prisma de operações policiais de grande visibilidade.
O objetivo maior deve ser impedir que as facções criminosas consolidem sua influência sobre regiões de fronteira, ampliem suas redes de tráfico, fortaleçam esquemas de lavagem de dinheiro e avancem sobre instituições públicas.
Organizações como PCC e CV representam uma ameaça direta ao Estado Democrático de Direito, pois utilizam a violência, a corrupção e o poder econômico para desafiar a autoridade estatal e comprometer a segurança da população.
Por isso, toda iniciativa voltada ao intercâmbio de informações, ao monitoramento conjunto de suspeitos e à realização de operações integradas deve ser estimulada.
O crime organizado atua de forma transnacional, e a resposta dos governos precisa seguir a mesma lógica: a cooperação permanente é mais eficiente do que ações esporádicas e produz resultados que beneficiam brasileiros e bolivianos igualmente.
A expectativa agora é de que um modelo semelhante seja aprofundado também com o Paraguai, outro país estratégico para a segurança das fronteiras brasileiras.
A integração entre as forças policiais, os órgãos de inteligência e as autoridades judiciais dos três países tende a reduzir a capacidade de mobilidade das facções e tornar mais difícil a utilização das fronteiras como refúgio ou corredor logístico para atividades ilícitas.