Cidades

Entrevista

"O Brasil não está preparado para o controle efetivo do porte de drogas"

Em entrevista ao Correio do Estado, o titular da Sejusp fala do debate sobre a descriminalização do porte de drogas para consumo e dos desafios do combate ao tráfico em MS

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Com debates que já duram oito anos, o Supremo Tribunal de Justiça voltou a julgar, em agosto deste ano, a constitucionalidade da criminalização do porte de drogas para consumo próprio. 

O objetivo é a reintegração da legislação já em vigor desde 2006 sobre o uso e o tráfico de drogas, que estabelece que a posse de entorpecentes é crime, no entanto, não é passível de punição com prisão.

Na última discussão, realizada no dia 25 de agosto, o julgamento foi novamente paralisado, após o ministro André Mendonça fazer pedido de vista do processo. Atualmente, o placar está em cinco votos a favor da descriminalização e um contra.

A favor estão Gilmar Mendes (relator), Luís Roberto Barroso, Edson Fachin, Alexandre de Moraes e Rosa Weber. Contra, apenas Cristiano Zanin.

Os ministros André Mendonça, Nunes Marques, Cármen Lúcia, Dias Toffoli e Luiz Fux ainda não votaram.
Para o titular da Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp), Antonio Carlos Videira, com a descriminalização, o Estado e o País podem ser fortemente afetados com o aumento do tráfico de drogas, já que ainda não estão preparados para uma fiscalização efetiva.

Além disso, o sistema penitenciário de Mato Grosso do Sul apresenta números alarmantes no que diz respeito aos encarcerados por delitos ligados a tráfico de drogas e associação criminosa.

De acordo com os últimos dados do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), 13.977 presos estão envolvidos com tráfico de drogas no Estado, enquanto 2.852 foram detidos por associação para o tráfico.

Do total, a maioria é de homens com idade entre 30 anos e 40 anos que foram presos por tráfico e não participam de nenhuma associação criminosa.

"Mato Grosso do Sul faz fronteira com o Paraguai e a Bolívia e, com isso, acaba sendo corredor e rota de drogas que têm como destino outros estados e países", destaca o secretário.
O sistema carcerário de Mato Grosso do Sul é composto por um total de 130 estabelecimentos penitenciários, responsáveis por abrigar a população carcerária do Estado.

No entanto, as estatísticas mais recentes mostram esses locais têm 9.394 vagas, enquanto o número de presos alcança alarmantes 18.396 pessoas, resultando em um deficit de 7.504 vagas.

 
Está em discussão a descriminalização do porte de drogas para consumo próprio, já previsto em lei desde 2006, mas normalmente não cumprido, com tentativas de definir a quantidade de maconha que diferencia o tráfico do consumo próprio. Como essa decisão pode afetar o Estado?

O reflexo será o aumento da criminalidade, uma vez que o Brasil ainda não está preparado para o controle efetivo dessas pequenas quantidades para consumo pessoal, e as organizações criminosas podem explorar essa vulnerabilidade.

No Estado, a maioria dos presos está encarcerada em razão do tráfico de drogas. Por que esse tipo de crime é tão comum em Mato Grosso do Sul? Em que o aumento desse tipo de crime impacta o Estado?
Mato Grosso do Sul faz fronteira com o Paraguai e a Bolívia e, com isso, acaba sendo corredor e rota de drogas que têm como destino outros estados e países.

Tanto é que Mato Grosso do Sul é hoje líder nacional de apreensão de drogas, com mais de 260 toneladas tiradas de circulação até o dia 21 de agosto.

E essa eficiência das polícias acaba tendo muito impacto na segurança pública, como o aumento no volume de procedimentos policiais, como inquéritos policiais, aumento do número de incinerações de drogas e, consequentemente, aumento da massa carcerária. Há um impacto direto também no caixa do Estado, que arca com o custo desses presos.

No Brasil, o Ipea divulgou um estudo que indica que o perfil da maioria dos presos por tráfico era de pessoas pretas e moradoras de favelas. Isso também se reflete no Estado? Esse perfil está associado às prisões por esse tipo de crime?

Não reflete, não há esse perfil, uma vez que a grande maioria dos presos do tráfico são pessoas de outros estados, que acabam sendo abordadas e presas em Mato Grosso do Sul durante o transporte de drogas.

Muitos dos presos de Mato Grosso do Sul também não fazem parte de alguma facção criminosa ou organização para o tráfico de drogas. Por que isso ocorre?

Porque as grandes organizações criminosas estão concentradas e atuam nos grandes centros brasileiros, como Rio de Janeiro e São Paulo, por exemplo, e Mato Grosso do Sul é apenas corredor [para escoamento das drogas].

O Estado busca, por meio do Supremo Tribunal Federal, 

uma ajuda com os custos para manutenção dos presos por tráfico, em razão de serem de outros estados ou países. Qual o andamento dessa ação? Há algum indício de que o Estado receberá essa verba da União? Qual o valor de custeio de um preso atualmente no Estado?
A ação já foi encerrada, e o Supremo entendeu que, enquanto não existirem presídios federais somente para presos do tráfico de drogas, esses presos devem ficar em presídios estaduais.
Temos hoje 20.809 presos em Mato Grosso do Sul, e cada um deles custa ao Estado em torno de R$ 2.000 por mês.

De acordo com dados do CNJ, Mato Grosso do Sul tem enfrentado crises carcerárias e superlotação nos últimos anos. Qual a atual situação dos presídios do Estado? Ainda há uma crise carcerária? Como isso pode ser resolvido?

Nos últimos anos, foram entregues duas novas unidades prisionais no Complexo da Gameleira, com capacidade para mais de 1.200 presos. Há mais uma unidade feminina em construção, também na Gameleira, com mais 407 vagas.

Além disso, nos últimos anos houve investimentos focados na reestruturação das unidades prisionais em todo o Estado, com reformas e ampliações.

Ademais, estão em andamento investimentos, tanto do governo do Estado como do governo federal, de mais de R$ 105 milhões, que serão empregados tanto em ampliações como em construções de novas unidades prisionais, principalmente no interior do Estado, para que os presos possam cumprir suas penas no local e região onde moram.

Houve ainda um reforço de 912 novos policiais penais, que foram contratados pelo governo do Estado por meio de concurso público, realizado nos últimos anos, que contratou todos os aprovados em todas as fases do certame.
 

Perfil

Antonio Carlos Videira 

Antonio Carlos Videira ingressou na carreira na área de segurança pública em 1990, quando foi aprovado no concurso para escrivão de polícia e, no mês de outubro daquele ano, tomou posse na Delegacia de Polícia Civil de Fátima do Sul.

Atuou no Grupo de Operações de Fronteira (GOF), na época comandado pelo coronel da Polícia Militar Adib Massad, onde permaneceu até 1999. Em 1995, concluiu o bacharelado em Direito pelo Centro Universitário da Grande Dourados (Unigran) e, na sequência, cursou pós-graduação em Processo Civil, também na Unigran.

Aprovado no concurso para delegado de Polícia Civil, assumiu no ano 2000 a Delegacia de Polícia Civil de Jateí, onde permaneceu por três anos. Em 2003, foi transferido para o Departamento de Operações de Fronteira (DOF), onde ficou locado até assumir a Delegacia Especializada de Repressão aos Crimes de Fronteira (Defron).

Em 2011, passou a ocupar o cargo de delegado regional da Polícia Civil de Dourados. Em 2015, a convite do então governador Reinaldo Azambuja, passou a ocupar o cargo de superintendente de Segurança Pública da Sejusp. Neste ano, Videira foi nomeado secretário de Estado de Justiça e Segurança Pública, assumindo a Sejusp a convite do governador Eduardo Riedel.

vale da celulose

Venda de florestas garante lucro astronômico a gigante da celulose

O lucro da Eldorado no ano passado chegou a R$ 4,55 bilhões, o que representa aumento de 315% na comparação com o ano anterior

01/04/2026 14h20

A Eldorado funciona em Três Lagoas desde 2012 e no ano passado produziu quase 1,8 milhão de toneladas de celulose

A Eldorado funciona em Três Lagoas desde 2012 e no ano passado produziu quase 1,8 milhão de toneladas de celulose

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Com 1,789 milhão de toneladas produzidas ao longo de 2025, o mesmo volume do ano anterior, a Eldorado Celulose, indústria intalada em Três Lagoas, reportou lucro líquido de R$ 4,552 bilhões no ano passado, conforme balanço anual divulgado pela empresa nesta semana. 

O volume é 315% superior ao do ano passado, quando a empresa fechou com lucro líquido de R$ 1,095 bilhão. A explicação  principal para este resultado, segundo informações constantes no balanço da empresa petencente aos irmãos Joeley e Wesley Batista, é que a empresa vendeu ou permutou milhares de hectares de plantações de eucaliptos. 

"Em 2025 a Companhia realizou operações de permuta e venda de madeira e recebeu R$ 5,286 bilhões. Esses valores foram classificados como adiantamentos de clientes", diz nota explicativa da empresa 

Somente no último trimestre do ano estas operações garantiram à  contabilidade da Eldorado um lucro líquido de R$ 2,884 bilhões. Por conta disso, a empresa destaca que o resultado anual de R$ 4,552 bilhões ocorreu "principalmente em função do mesmo fator". 

Parte da venda das florestas em pé foi anunciada agosto do ano passado em um acordo com concorrente Suzano, que tem duas indústrias no Estado, sendo uma em Três Lagoas e outra em Ribas do RIo Pardo. Este acordo rendeu aporte R$ 1,317 bilhão. Parte deste dinheiro, R$ 465 milhões, entrou nos cofres da Eldorado somente em janeiro deste ano.

Conforme este acordo, a Eldorado transferiu madeira madura (a ser colhida entre 2025-2027) para a Suzano, enquanto a Suzano cedeu um volume equivalente de madeira mais jovem (para colheita entre 2028-2031) para a Eldorado.

Ao longo dos últimos anos, por conta da previsão de dobrar sua capacidade de produção, a Eldorado plantou mais eucalpitos do que consumia. Porém, esta segunda linha de produção não saiu do papel e por conta disso existe sobra de florestas. Ao todo, são em torno de 300 mil hectares de plantações. 

QUEDA DE PREÇOS

Se fossem contabilizados somente os resultados relativos às vendas de celulose, os números da indústria que desde 2012 atua em Mato Grosso do Sul bem mais modestos. A quantidade de vendas cresceu 3% de um ano para outro.

Mas, o valor médio da celulose no ano passado caiu 16% na comparação com o ano anterior, recuando de 659 dólares para 549 dólares por tonelada, mostram os dados relativos ao balanço anual da empresa. 

Por conta disso, a receita líquida consolidada atingiu R$  5,879 bilhões em 2025, com redução de 8% frente ao período anterior, quando a gigante do setor faturou R$ 6,373 bilhões. 

Quando a empresa fala de EBITDA ajustado, que é um indicador de desempenho de um negócio usado para calcular o lucro sem fatores excepcionais, os números também são diferentes aos do lucro líquido.

"O EBITDA ajustado alcançou R$ 2,961 bilhões em 2025, redução de 10% em relação a 2024. O desempenho foi impactado principalmente pela menor receita liquida, reflexo do menor patamar de preços (-16%)", diz trecho do balanço anual. 

Depois de cerca oito anos de disputa, 2025 foi marcado pelo fim da disputa pelo controle da Eldorado. Em um acordo anunciado em maio, os irmãos Batista concordaram em pagar US$ 2,7 bilhões à Paper Excellence para recomprar pouco mais de 49% das ações da empresa. 

Esta negociação, conforme revela agora o balanço da empresa, teve custos multimilionários somente com gastos jurídicas. Somente no último trimestre foram contabilizadas  "referente às despesas jurídicas relativas à aquisição da Eldorado e encerramento do litígio entre os sócios, no montante de R$ 76 milhões". Mas, o valor foi bem maior. "No ano cumulado, esse efeito somou R$ 435 milhões". 

COMBATE AO TRÁFICO

Mais de 20 toneladas de insumo para cocaína são apreendidas na fronteira

Irregularidades na documentação levaram à apreensão de carga na fronteira com a Bolívia

01/04/2026 13h22

Imagem Divulgação

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A Polícia Federal, em ação conjunta com a Receita Federal, apreendeu cerca de 27 toneladas de carbonato de cálcio, produto utilizado no processo de produção de cocaína, em Corumbá, com destino à Bolívia.

O caminhão seguia com documentos que indicavam como destino o país fronteiriço. Durante fiscalização, foram verificadas irregularidades nos papéis apresentados, entre elas a ausência de licença válida para o transporte.

Segundo nota da PF, o carbonato de cálcio possui diversas aplicações lícitas na indústria, como nos setores de construção civil, papel, tintas, plásticos, cosméticos e fármacos. Contudo, o produto também está sujeito a controle e fiscalização, pois pode ser utilizado nas fases iniciais do processo de produção de cocaína.

A apreensão ocorreu em um esforço conjunto de inteligência entre a PF e a Receita Federal, na fronteira com a Bolívia, com foco na repressão ao desvio de insumos químicos e ao tráfico internacional de drogas.

As circunstâncias da ocorrência seguem sob análise pelos órgãos competentes.
 

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