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Perdendo liderança, Orkut foi porta de entrada à web no Brasil

Perdendo liderança, Orkut foi porta de entrada à web no Brasil

TERRA BRASIL

12/09/2011 - 05h00
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O Orkut, a primeira tentativa do Google de ingressar nas redes sociais, foi ultrapassado pelo Facebook em agosto segundo o Ibope, e corre risco de perder uma supremacia de sete anos no País. Mas foi uma ferramenta importante na alfabetização dos usuários brasileiros na internet. Essa é a análise da pesquisadora em mídias sociais Raquel Recuero, para quem o site foi "fundamental" na entrada do brasileiro nas redes. "O Orkut acabou não só sendo a grande porta de entrada da internet para o brasileiro, como uma das principais motivações para isso. Para mim, seu papel na inclusão digital é incrível", afirma.

O Ibope confirmou nesta sexta-feira as informações publicadas pela IstoÉ Dinheiro, que antecipou na semana passada números da pesquisa Ibope Nielsen Online que indicam que o Facebook, maior rede social do mundo, finalmente ultrapassou o Orkut, serviço queridinho dos brasileiros, no País. De acordo com a pesquisa, o Facebook alcançou em agosto 30,9 milhões de usuários únicos, com o Orkut se mantendo praticamente estável em 29 milhões.

Números oficiais x pesquisas
O Facebook, que tem mais de 750 milhões de usuários em todo o mundo, afirmou em agosto que possui 25 milhões de membros brasileiros. O Orkut, com 85 milhões de usuários globalmente, tem 50,6% deles no Brasil, pouco mais de 43 milhões. Números de julho da comScore, outra empresa que mede audiência na internet, mostram o Orkut com 36 milhões de brasileiros, contra 26 milhões do Facebook.

A discrepância entre as pesquisas e os números oficiais pode ser explicada, em parte, pela metodologia da análise dessas empresas. Tanto o Ibope quanto a comScore levam em conta somente usuários que acessam a internet em casa ou no trabalho, deixando de lado quem acessa a web em lan houses, por exemplo, quesito que poderia aumentar a quantidade de brasileiros na rede do Google. Além disso, as pesquisas contam o número de visitantes únicos em um determinado período, e não a quantidade de pessoas cadastradas nos serviços.

"Há um percentual que me parece bastante significativo de acesso ao Orkut que vem de lan houses e espaços públicos que não está computado nessa audiência. No caso do Orkut, esse número pode ser significativo, uma vez que o acesso tem crescido, justamente, junto a esses grupos. No Facebook, ao contrário, o acesso estava focado nas classes A e B, e crescendo na classe média, ou seja, espaços onde o grosso dos números está no acesso de casa ou do trabalho", afirma Raquel.

Polêmicas à parte, mesmo sem levar em conta quem acessa a internet em espaços públicos, os últimos números da comScore não podem ser deixados de lado. Segundo a empresa, de julho do ano passado a julho deste ano, o Facebook teve um crescimento impressionante de 209%, contra apenas 20% do Orkut. O gráfico do aumento do número de membros das duas redes sociais indica que essa curva de crescimento, se já não se cruzou, deve se cruzar em breve.

Paixão brasileira
Lançada em 2004, o Orkut foi um sucesso quase imediato no Brasil, único país em que ainda mantém a liderança nas redes sociais. "É uma paixão do brasileiro", diz Manoel Fernandes, diretor da Bites, empresa especializada em análise de mídias sociais. Mas por que o brasileiro se identificou tanto com a rede do Google? "Foi um conjunto de fatores, meio que o sistema certo no lugar certo", analisa Raquel. A ausência de uma experiência anterior com redes sociais, já que o Friendster e o MySpace eram pouco conhecidos, foi uma delas. "Junto aos primeiros usuários está um grupo cujos convites eram altamente valorizados, os 'techies' e estudantes de informática, que estavam curiosíssimos com a ferramenta por conta da marca Google", afirma a especialista.

Outro fator a ser levado em conta na ascensão do Orkut por aqui foi a interface amigável, "que possibilitou que as pessoas entendessem a ferramenta sem precisar falar inglês", segundo Raquel. E a enxurrada de brasileiros na rede pode ter sido um dos fatores que levou o Orkut a não dar certo em outros lugares. "No início surgiu uma competição muito grande do Brasil por bater os outros países e essa competição resultou numa animosidade e agressividade bem grande para com os usuários dos demais países que usavam a ferramenta", diz Raquel.

Segundo ela, o Google agiu tarde no processo que eles chamaram de "localização", separando os usuários de cada país na rede. "Foi aí que o Orkut começou a crescer então na Índia e em alguns outros países. Mas já era tarde demais. O Facebook já despontava dominante ou quase dominante em boa parte dos países de língua inglesa. Embora outros países tivessem outros sites como "referenciais" (como o Orkut no Brasil), o Facebook foi pouco a pouco ficando hegemônico", diz.

A diferença entre as redes
Porém, se engana quem pensa que o Orkut está morrendo. Os milhões de usuários da rede mantêm vivas as comunidades da rede social, o que, para o diretor da Bites, é a principal diferença do Orkut para a concorrente. "O Facebook é uma rede em que as pessoas se agregam àqueles que são parecidos com elas, seus amigos, enquanto o Orkut as pessoas podem se agrupar em torno de temas, as comunidades", afirma Fernandes.

Para o analista, que elabora estratégias para empresas dentro das redes sociais, o Orkut é um ambiente muito mais favorável para promover um novo produto ou serviço justamente por causa desses fóruns. "No Facebook você tem uma dificuldade de olhar por dentro, de se relacionar com as pessoas. No Orkut é mais fácil para as marcas se relacionarem. É muito mais fácil identificar um tema dentro de uma comunidade do Orkut do que no Facebook, onde as pessoas se aglutinam em torno da fan page", analisa.

Nos últimos meses, o Orkut passou por diversas mudanças de layout e implementou novas funcionalidades na tentativa de manter o ritmo de crescimento no País, muitas delas inspiradas no Facebook, como o botão "gostei" e a publicação das atualizações nos mesmos moldes do Mural do site de Zuckerberg. Para Raquel, os jogos sociais foram fundamentais para acelerar o crescimento do Facebook por aqui, mesmo que tardiamente. "Os aplicativos foram o grande diferencial, que realmente conseguiu fazer com que o Facebook conseguisse entrar em nichos que não conseguia, como o Brasil. O crescimento do Facebook inicialmente esteve intrinsecamente conectado ao crescimento de jogos como o Farmville. Claro que, uma vez alcançada uma certa massa crítica, o sistema passou a crescer por si só", analisa.

Outro fator importante para a popularização da rede de Mark Zuckerberg foi a preocupação com a privacidade, que chegou atrasada ao País, segundo a pesquisadora. "As pessoas vêm no Facebook uma chance de 'recomeçar' sua rede social, dessa vez com mais critério do que no Orkut, onde uma das práticas era adicionar todo mundo", diz.

A "orkutização"
Nos últimos tempos, ser usuário e defensor do Orkut não tem sido uma tarefa muito fácil. O termo "orkutização" é usado pejorativamente para tudo que se torna popular, qualquer produto ou serviço que comece a cair no gosto das classes C e D. Para Fernandes, o preconceito de que o usuário do Orkut vem de classes mais baixas não passa de uma bobagem. "Em comunidades mais sérias, o nível de discussão dos usuários é muito alto. Em comunidades segmentadas de carros ou política, por exemplo, os fóruns têm um ótimo nível", afirma.

Raquel acredita que existam, sim, muitos usuários da classe C e D no Orkut, apesar de achar necessário o acesso a esses dados para confirmar. Para ela, esse preconceito é um fenômeno recente, que vem justamente do fato de o Orkut ter sido a porta de entrada do brasileiro na internet. "O preconceito está na sociedade, é intrínseco e expresso nessas ferramentas. Não acho que o Orkut seja causa do preconceito, ele só está abrindo o que já está dentro da sociedade brasileira."

Mesmo com o investimento pesado que o Google vem fazendo na sua mais recente investida nas redes sociais, o Google+, é difícil imaginar o que pode acontecer com o Orkut daqui pra frente. O diretor da Bites diz que deseja "vida longa" ao site que conquistou os brasileiros, e a pesquisadora Raquel Recuero continua achando que ele tem uma importância muito grande no País. "Acho que jamais teremos um fenômeno semelhante, em termos de importância para um país. Mas também não sei por quanto tempo sobreviverá", diz.

Clima

Efeitos do super-El Niño no Pantanal de MS preocupam o governo federal

Bioma é uma das seis áreas apontadas como em maior risco pelo Ministério do Meio Ambiente em razão do fenômeno

05/09/2026 08h45

Pantanal de Mato Grosso do Sul tem risco de sofrer novamente com incêndios florestais em razão da atuação do super-El Niño

Pantanal de Mato Grosso do Sul tem risco de sofrer novamente com incêndios florestais em razão da atuação do super-El Niño Foto: Rodolfo césar

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O Pantanal de Mato Grosso do Sul, mais especificamente a região de Corumbá, é uma das seis áreas florestais que mais apresentam riscos de incêndios em razão dos efeitos do super-El Niño neste semestre. A previsão indica períodos longos sem chuva e baixa umidade, cenário que facilita o surgimento de focos de incêndio no Estado.

Conforme previsões de especialistas, o El Niño deve atingir patamares muito intensos e prejudicar diversos setores do País este ano, especialmente no último trimestre. Por isso, desde os primeiros meses deste ano, a União tem se encontrado com autoridades ambientais e representantes dos governos estaduais e municipais para debater soluções e ações diante da chegada do fenômeno.

Segundo levantamento do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) e do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), o período crítico do El Niño na Região Centro-Oeste acontece entre julho e outubro, com atraso nas chuvas e fortes ondas de calor.

Diante disso, três cenários pessimistas podem ser favorecidos em Mato Grosso do Sul: possível escassez hídrica; elevação da demanda por irrigação e comprometimento de pastagem; e propagação de incêndios florestais. O último é o que mais preocupa as autoridades do governo federal.

Tanto que, das seis áreas que foram listadas como as que devem correr mais risco de serem afetadas pelo El Niño, o Pantanal sul-mato-grossense é uma delas. Em coletiva de imprensa na semana passada, o ministro João Paulo Capobianco, do MMA, disse que a situação atual ainda não preocupa, mas que o governo está preparado caso “algo saia do trilho”.

“Nós estamos monitorando e faremos todo o empenho caso algo aconteça. No momento, o quadro não é tão grave ainda como foi em 2024. Mas, estamos monitorando a situação e, apesar do El Niño ser mais grave, ele ainda está chegando. Vamos repetir o esforço do ano de 2024 no Pantanal, com certeza de acordo com a evolução do quadro”, disse.

Vale lembrar que 2024 foi um dos piores anos relacionados aos incêndios florestais no bioma. Para efeito de comparação, entre junho e outubro daquele ano, mais de 13,3 mil focos de incêndio foram registrados no Pantanal, de acordo com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), o que levou o governo federal a enviar um efetivo militar especial para ajudar a controlar a situação.

“Em 2024, nós tivemos um ano bastante rigoroso no Pantanal. Normalmente, os incêndios no Pantanal iniciam a partir de agosto, e nós tivemos uma antecipação naquele ano. Desenvolvemos ali uma estratégia, muito bem-sucedida na minha opinião, com a implantação de uma base operacional do Ibama em Corumbá, que teve um papel muito relevante”, relembra o ministro.

Atualmente, brigadas do Centro Nacional de Prevenção e Combate aos Incêndios Florestais (Prevfogo), órgão especializado ligado ao Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), já estão instaladas em Corumbá para prevenir e mitigar os incêndios na área.

SEIS MESES DE ATENÇÃO

Em junho, o governo de MS decretou estado de emergência ambiental diante da previsão do super-El Niño atingir Mato Grosso do Sul favorecendo a ocorrência de focos de incêndio. A previsão é de que o decreto dure por 180 dias, valendo para os 79 municípios sul-mato-grossenses.

Na própria publicação que garante o decreto, o governo estadual disse que a intensificação do El Niño “favorece a formação de material combustível altamente suscetível à ignição e à rápida propagação do fogo, ampliando o risco de incêndios florestais em diversas áreas do Estado, especialmente no Bioma Pantanal”.

BASE DO SUS

Também em razão o El Niño de alta intensidade que se aproxima, o governo federal anunciou que Campo Grande vai receber a Força Nacional do Sistema Único de Saúde (FN-SUS) a partir de novembro, programa que atua em eventos que demandam apoio especializado para responder a situações emergenciais que afetam a saúde da população.

Durante a apresentação da ministra Miriam Belchior, da Casa Civil, foi divulgado que a Capital foi uma das cidades selecionadas para receber a FN-SUS, que é acionada pelos governos estaduais ou municipais em casos de desastres naturais e necessidade de maior assistência à população.

Neste caso, partiu do próprio Ministério da Saúde colocar um posto em Campo Grande, antes mesmo do El Niño chegar.

“Nós estamos criando em Mato Grosso do Sul para ter pontos melhor distribuídos para agilizar esse atendimento e fazer um processo de educação permanente e estruturação das capacidades locais de pronta resposta, tanto dos estados quanto dos municípios”, disse a ministra.

Além de Campo Grande, apenas Brasília vai contar com o programa na Região Centro-Oeste. 

A FN-SUS foi criada como resposta ao temporal na Região Serrana do Rio de Janeiro, em 2011, conhecido como o maior desastre natural por deslizamentos da história do Brasil. Na ocasião, o evento deixou 918 mortos, cerca de 100 desaparecidos e mais de 35 mil desabrigados.

O Correio do Estado entrou em contato com a Secretaria Municipal de Saúde (Sesau) para saber mais detalhes sobre a implementação do programa e por quanto tempo a FN-SUS deve ficar em Campo Grande. Porém, a Pasta disse que ainda não foi comunicada sobre a vinda do programa ao município.

Entrevista

"A recusa familiar à doação está em torno de 60% entre as famílias entrevistadas"

A coordenadora da Central Estadual de Transplantes afirma que desconhecimento sobre a vontade do paciente ainda é um dos principais motivos para a negativa dos familiares

05/09/2026 08h30

Claire Carmen Miozzo - Coordenadora da Central Estadual de Transplantes de Mato Grosso do Sul

Claire Carmen Miozzo - Coordenadora da Central Estadual de Transplantes de Mato Grosso do Sul Divulgação

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À frente da Central Estadual de Transplantes de Mato Grosso do Sul (CET-MS), Claire Carmen Miozzo acompanha de perto os desafios para ampliar a doação de órgãos, reduzir a fila de espera e aumentar o número de procedimentos realizados no Estado. 

Em entrevista exclusiva ao Correio do Estado, ela falou sobre a situação atual da fila por transplantes, a recusa familiar à doação, os critérios de prioridade, os avanços registrados neste ano e os principais obstáculos enfrentados pelas equipes de saúde.

Claire também destacou a importância de as pessoas manifestarem ainda em vida aos familiares o desejo de serem doadoras, já que a autorização da família continua sendo indispensável para a efetivação da doação no Brasil.

Segundo ela, o acolhimento das famílias e a compreensão sobre o diagnóstico de morte encefálica são fatores decisivos para aumentar o número de doadores.

Atualmente, MS tem 811 pacientes na fila de espera por transplantes – 308 pacientes na espera por um transplante de rim, 484 pacientes na espera por um transplante de córnea e 19 pacientes na espera por um transplante de fígado.

Ao mesmo tempo, o Estado registra avanço nos procedimentos, especialmente nos transplantes renais, que chegaram a 103 procedimentos entre janeiro e agosto deste ano.

Na entrevista, Claire detalha ainda como funciona a captação de órgãos no interior, quais transplantes já são realizados em MS e o que ainda precisa avançar para que mais pacientes tenham acesso ao procedimento.

Em abril, MS tinha 846 pessoas aguardando por um transplante. Qual é o número atualizado da fila e por que ela continua crescendo apesar do aumento dos procedimentos?

Atualmente, nós temos 811 pacientes na lista de espera por transplantes em MS. Desse total, 308 pacientes aguardam por um transplante de rim, 484, por córnea e 19, por fígado. Esse número está abaixo dos 846 pacientes registrados em abril. 

A lista varia constantemente porque, ao mesmo tempo em que realizamos transplantes e retiramos pacientes da fila, também recebemos novos pacientes que passam a ter indicação para o procedimento.

Quanto tempo, em média, um paciente espera por transplantes de rim, córnea, fígado e pâncreas no Estado? Há pessoas que morrem antes de receber o órgão?

O tempo de espera varia bastante porque são vários os fatores que influenciam um transplante de órgãos e tecidos. 

Isso depende muito da quantidade de doadores que nós temos, dos tipos sanguíneos desses doadores, da idade e das características de cada órgão ou tecido.

Por isso, não existe um tempo único de espera. Esse período varia de órgão para órgão e também no caso das córneas, de acordo com as características de cada paciente e com a disponibilidade de doadores compatíveis.

Quais critérios definem a posição do paciente na fila e em quais situações alguém pode receber prioridade?

Os critérios são específicos para cada modalidade de transplante e dependem da avaliação médica e do cumprimento dos requisitos necessários para que o paciente seja incluído na lista. 

As prioridades também são definidas de acordo com o órgão ou tecido e seguem os critérios estabelecidos no regulamento técnico do Sistema Nacional de Transplantes, previsto na Portaria do Ministério da Saúde nº 8.041, de 25 de setembro de 2025, que estabelece a Política Nacional de Doação e Transplante.

Em 2024, a recusa familiar à doação chegava a aproximadamente 70% em MS. Esse índice diminuiu e quais são os principais motivos apresentados pelas famílias?

Atualmente, nós ainda temos uma recusa familiar alta. A recusa familiar à doação está em torno de 60% entre as famílias entrevistadas em MS. 

Apesar disso, percebemos uma mudança nesse cenário e um aumento na aceitação da doação de órgãos e tecidos.

O principal motivo apresentado pelas famílias é o desconhecimento sobre a vontade da pessoa que morreu, se ela tinha ou não o desejo de ser doadora.

É por isso que nós insistimos tanto na importância de conversar com a família e deixar claro, ainda em vida, que a pessoa deseja ser doadora. 

Na prática, comunicar à família o desejo de ser doador ainda é mais importante do que registrar essa vontade em documento ou na Autorização Eletrônica de Doação de Órgãos?

Sim. No Brasil, a legislação estabelece o consentimento familiar. A família precisa autorizar a doação mediante duas testemunhas. 

Por isso, mesmo que a pessoa manifeste formalmente em vida o desejo de ser doadora, o mais importante é conversar com a família e deixar essa vontade muito clara.

No momento da doação, nós vamos precisar da autorização familiar para que o processo possa ser realizado.

Quais são os principais mitos e receios manifestados pelas famílias, especialmente em relação ao diagnóstico de morte encefálica e à retirada dos órgãos?

Para nós, um dos pontos mais importantes é garantir que a família não tenha nenhuma dúvida em relação ao diagnóstico de morte encefálica.

Ela precisa ser bem acolhida durante todo o período de internação e estar sempre sendo informada sobre o que está acontecendo com o familiar que se encontra em uma situação grave. Esse esclarecimento é fundamental. 

A família precisa compreender cada etapa do processo, principalmente o diagnóstico de morte encefálica, para que tenha segurança sobre tudo o que está sendo feito pela equipe de saúde.

Mato Grosso do Sul realizou 368 transplantes em 2025. Os números deste ano indicam um novo crescimento e quais procedimentos mais avançaram?

Nós já tínhamos avançado em relação aos anos anteriores no número de transplantes e, neste ano, também estamos tendo um crescimento importante. 

O principal avanço neste ano está no transplante renal. Até o fim de agosto, nós já realizamos 103 transplantes de rim em MS, o que mostra um desempenho bastante significativo nessa modalidade.

Quais transplantes já podem ser realizados em MS e quais ainda obrigam os pacientes a procurar tratamento em outros estados?

Hoje, nós realizamos em MS transplantes de rim, fígado, pâncreas, tecido musculoesquelético, medula e córnea.

Quando o paciente necessita de um procedimento que ainda não é realizado no Estado, como transplante de coração ou pulmão, ele é encaminhado para centros transplantadores de outros estados que estejam habilitados para realizar esse tipo de procedimento.

Como funciona a captação de órgãos em cidades do interior e quais dificuldades de distância, transporte e estrutura hospitalar podem impedir o aproveitamento de uma doação?

Nós acompanhamos todo o processo de captação de órgãos no Estado, inclusive nos municípios do interior. 

Quando há um diagnóstico de morte encefálica em um hospital do interior e a família autoriza a doação, nós acompanhamos esse processo, providenciamos o transporte do material biológico necessário para a realização dos exames e também solicitamos o transporte das equipes responsáveis pela retirada dos órgãos até o hospital onde está o doador. 

Toda essa logística é muito importante porque os procedimentos precisam ser realizados dentro dos prazos adequados para que os órgãos possam ser aproveitados e transplantados com segurança.

O que precisa mudar para reduzir a fila de espera: maior conscientização das famílias, ampliação das equipes, novos hospitais habilitados ou mais investimentos em logística?

Nós precisamos, principalmente, aumentar o número de doadores, mas esse também é um processo no qual estamos avançando. 

As famílias são extremamente solidárias. O que elas precisam é ser acolhidas adequadamente dentro dos hospitais e estar bem informadas sobre o que é um diagnóstico de morte encefálica. 

O transplante depende da solidariedade de uma família em doar os órgãos e as córneas de seu ente querido.

Essa decisão acontece em um momento de muita dor e tristeza, por isso é tão importante que as famílias estejam bem acolhidas e que já tenham, de alguma forma, conhecimento sobre a vontade daquela pessoa em relação à doação. 

Hoje, nós temos equipes habilitadas, temos hospitais e temos uma estrutura que já nos permite realizar mais transplantes e mais captações. Avançamos bastante, mas ainda temos muito o que conquistar.

{ PERFIL }

Claire Carmen Miozzo

Farmacêutica-bioquímica e sanitarista, ela tem ampla experiência na área de transplantes. Atua na Central Estadual de Transplantes de Mato Grosso do Sul (CET-MS) desde 2003, onde exerce a função de coordenadora.

Ao longo de mais de duas décadas, desenvolveu atuação voltada à organização, coordenação e acompanhamento das atividades relacionadas à doação e ao transplante de órgãos e tecidos.

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