Validade dos medicamentos variava de fevereiro a abril de 2026, envolvendo vitaminas, inibidores de apetite, ansiolíticos e soros fisiológicos
A vigilância sanitária de Campo Grande apreendeu um montante de 1.294 frascos de medicamentos vencidos em um armazém nos fundos da Clínica Canela, na Rua Joaquim Murtinho em Campo Grande.
Em primeira lista, a quantidade divulgada era de 484, mas foi atualizada para quase 1,3 mil frascos.
Entre os medicamentos apreendidos, estão vitaminas e ansiolíticos, além de soro fisiológicos. Entre eles, frascos de:
- inositol 10% - pseudovitamina B8, utilizado para melhorar o metabolismo de gorduras e glicose;
- piridoxal-5-fosfato - forma ativa da vitamina B6, auxiliando na produção de serotonina e dopamina, ajudando a melhorar o humor, a qualidade do sono e a disposição.
- taurina - utilizado para melhorar o desempenho muscular do corpo e ajuda a controlar a pressão arterial;
- picolinato de cromo - utilizado como suplemento alimentar, ajudando no metabolismo de carboidratos, no controle da glicemia e na diminuição na compulsão por doces;
- hidroxitriptofano - medicamento que auxilia no alívio de sintomas depressivos, controla a insônia, auxilia na redução de compulsão alimentar e reduz o apetite.
De acordo com o Procon, a data de vencimento dos medicamentos variava de fevereiro a abril de 2026.
A clínica possui agora prazos para apresentar sua defesa junto aos órgãos participantes da fiscalização. O Procon concedeu 20 dias para que o estabelecimento encaminhe seu posicionamento oficial sobre as irregularidades constatadas no local.
Além dos medicamentos antiarrítmicos vencidos, os representantes do CRM que estiveram no local identificaram irregularidades como falta de insumos nos carrinhos de emergência, prescrição de terapia hormonal de maneira inadequada e publicidade forçada, além de denúncias de venda casada, quando o estabelecimento "força" o cliente a comprar medicamentos oferecidos pela próprio local.
Ainda, o local também foi alvo do Procon, presentes para a apuração sobre a questão da venda casada, onde o consumidor acabava com um medicamento manipulado pela própria clínica, bem como sobre casos de publicidade enganosa e dos alvarás de localização e funcionamento que estariam vencidos sem apresentação, até o momento, de um protocolo de entrada para renovação.
A vigilância foi acionada pois foram encontrados medicamentos vencidos juntamente com os medicamentos regulares, causando mistura entre as medicações.
Uma funcionária da clínica foi levada para a delegacia para prestar depoimentos e, em seguida, foi detida.
Mesmo com as irregularidades, a Clínica segue aberta e funcionando normalmente.
O CRM afirmou que aguarda o recebimento dos relatórios oficiais de todos os órgãos envolvidos na investigação do caso para uma análise técnica e administrativa. Os procedimentos éticos e as investigações internas estão em sigilo e, caso sejam comprovadas a existência de irregularidades éticas e profissionais, serão aplicadas as medidas previstas em lei.
O que diz a Clínica Canela
Em nota, a Clínica Canela afirmou que segue colaborando com as investigações e que as fiscalizações ainda estão em andamento.
Segundo a clínica, o local não realiza a fabricação, manipulação e rotulamento de medicamentos de forma irregular, bem como a comercialização dos fármacos de forma proibida. De forma pontual, afirmou ainda que "não há venda casada", e os pacientes são livres para escolher onde adquirir os medicamentos prescritos.
Leia a nota completa na íntegra:
A Clínica Canela informa que está colaborando integralmente com os órgãos competentes em procedimento de fiscalização ainda em andamento.
A instituição reforça que não fabrica, não manipula, não rotula e não comercializa medicamentos de forma irregular. Sua atuação é exclusivamente médica, com avaliação, acompanhamento e prescrição individualizada, quando indicada.
Não há venda casada. O paciente tem total liberdade para adquirir qualquer tratamento prescrito onde desejar, em estabelecimento regular de sua confiança.
Eventuais apontamentos administrativos ou operacionais estão sendo apurados internamente, com adoção imediata das medidas cabíveis e revisão dos protocolos internos.
A Clínica respeita o trabalho das autoridades, confia na apuração técnica dos fatos e reafirma seu compromisso com a ética, a segurança dos pacientes, a transparência e o cumprimento da legislação.
Polêmicas
Jonathas Canela faz parte do corpo médico da Clínica Canela, e já viralizou nas redes sociais entre passeios em helicópteros, viagens e pela vida luxuosa alcançada através dos tratamentos e atendimentos a personagens influentes e rendem uma relação próxima com famosos nacionais, como Neymar Pai e Rafaela Santos, que também teria sido paciente do médico.
Dono de uma Porsche, já foi responsável por promover passeios com donos de super máquinas em Campo Grande, uma vez que Jhonatas é tido como referência em tratamentos para emagrecimento saudável, saúde da mulher, hormonal e, principalmente, a terapia de injetáveis, conhecida como soroterapia, bem como as famosas canetas emagrecedoras.
Porém, o outro lado da balança dos quase duzentos mil seguidores traz uma coleção de reclamações de pacientes, sendo que muitos já recorreram à Justiça e ao Conselho Regional de Medicina de Mato Grosso do Sul (CRM-MS).
Há cerca de um ano, porém, como bem acompanha o Correio do Estado, o Dr. Canela foi alvo de pacientes por suposto superfaturamento nos tratamentos emagrecedores, com queixas dos altos valores cobrados.
A Tirzepatida, por exemplo, medicamento usado para tratamento de diabetes, mas que começou a ser injetada para tratamento de obesidade, chegou a ser vendida à clínica pelo valor de R$2.300 o frasco, porém, uma ex-paciente contou que, quando queria fazer o tratamento com o médico na Clínica foi informada que "por dose seria mais caro".
"Chegaram a me cobrar R$11.800 somente a dose, sem contar o restante dos procedimentos no tratamento", disse ela, expondo uma margem de lucro de 413% somente com a venda do medicamento.
Com casos de soros injetáveis que variavam entre "R$13 a R$18", vendidos no tratamento por R$800 até R$1.300, um lucro de mais de 6.000%, através de vídeos na própria rede social Jonathas já chegou a publicar alertas sobre medicamentos emagrecedores afirmando que "se não for essa caneta, é falsa!" e fazendo menção ao produto que é vendido exclusivamente em seu consultório.
Inclusive, em sua própria receita o médico deixa claro que as medicações deveriam ser compradas exclusivamente na clínica, já que "esses produtos manipulados não se encontram no mercado na forma de especialidades farmacêuticas e os que são vendidos como especialidades farmacêuticas se encontram em dificuldade de compra", conforme a imagem abaixo.
Receituário médico apresentado por ex-paciente.
Entre pacientes que afirmam que deixaram os tratamentos por causa dos valores abusivos, uma das atendidas chegou a processar a clínica, alegando que Jhonatas não teria levado em conta os problemas psiquiátricos dela e seus agravantes no procedimento.
Jhonatas Canela está inscrito no Conselho Nacional de Medicina, onde consta que não possui nenhuma especialidade médica registrada. Formado pela Universidade do Oeste Paulista, se formou em 2018 e, atualmente, é pós-graduando nas áreas que atua.
No entanto, foi esclarecido ao Correio do Estado que o recomendado é que o médico seja especialista na área para prescrever e realizar tratamentos. A especialidade recomendada na aplicação de substâncias e tratamentos corporais é a endocrinologia, que atua diretamente nas condições de diabetes, obesidade e desequilíbrios hormonais.
Jhonatas também se envolveu em polêmicas quando, em 2024, o Conselho Federal de Medicina se manifestou, em nota, sobre a decisão da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) de proibir a comercialização e uso de implantes de terapia hormonal manipulados em farmácias magistrais, conhecidos como "chip da beleza".