Após denúncias de que a Fundação Nacional do Índio (Funai) estaria distribuindo leite em pó vencido, muitos deles roídos por ratos, agentes da Polícia Federal, que estão atuando na Operação Tekohá, estiveram na sede do órgão onde apreenderam mais de 700 pacotes do produto e ouviram depoimento da coordenadora regional da Funai Maria Aparecida Mendes e de um funcionário que é encarregado pela distribuição das cestas básicas.
O delegado Alexandre Fresneda, que acompanhou a diligência, disse que depois de receber a denúncia, foi com uma equipe até o prédio do órgão e pediu que a coordenadora regional da Funai acompanhasse a fiscalização.
Durante a vistoria, os agentes constataram que todos os sacos de leite em pó estavam com o prazo de validade vencido. O local foi fotografado e todo produto apreendido. “Pegamos cinco amostras do leite que serão analisadas pela perícia. Se o laudo constatar que o produto estava impróprio para o consumo, fica então caracterizado o crime contra a saúde pública. A partir de então deverá ser aberto um inquérito para apurar quem são os autores que deverão ser responsabilizados”, explicou.
O delegado informou ainda que a Polícia Federal encaminhou ofícios ao Procurador da República e também para a Funai de Brasília-DF. “Esses são os órgãos competentes para analisar se houve falha administrativa ou crime de improbidade, por parte da coordenação do órgão no município, já que se trata de alimentos possivelmente adquiridos com recursos públicos”, salientou Fresneda. O produto apreendido seria entregue ontem à tarde para famílias da Aldeia Jaguapiru. A entrega das cestas básicas ocorreu em frente a Escola Tengatuí Maragantu, no entanto, sem o leite em pó com prazo de validade vencido.
No momento da entrega uma nova denúncia contra a Funai, foi feita por indígenas. Dona Nilce de Souza, que tem uma filha deficiente de 18 anos, disse que outro item da cesta básica estaria impróprio para o consumo. O feijão. A índia, da etnia Guarani, afirma que o feijão que recebeu na última cesta básica, entregue pelo órgão, não cozinhou. “Esse é igual o que recebi da vez passada, com certeza não vai cozinhar também. O problema é que o médico da minha filha disse que ela está com anemia aguda e corre o risco de virar leucemia. O feijão é um item importante na alimentação dela”, desabafa a indígena.
O feijão entregue pela Funai é embalado em um saco plástico amarrado na ponta, que não possibilita a identificação do prazo de validade do produto. Na quarta-feira, durante visita ao galpão do órgão, a reportagem constatou que existem dezenas de sacos do produto, empilhados. A reportagem também constatou que o prazo de validade do macarrão, entregue dentro das cestas básicas, expira no próximo dia 19, ou seja, daqui 11 dias.
Inverno
Uma reportagem publicada ontem pelo Progresso mostrou que em pleno inverno, onde a queda de temperatura foi brusca, inclusive com registro de geada, foram constatados centenas de cobertores e mantas empilhadas no galpão da Funai. Ontem, durante a entrega dos alimentos, o órgão acabou distribuindo um “kit inverno”, com três mantas e dois cobertores, aos índios da Aldeia Jaguapiru. No entanto, as famílias da Aldeia Bororó não receberam cobertores, na última terça-feira, quando o órgão entregou as cestas naquela localidade.
A coordenadora regional da Funai, Maria Aparecida Mendes, informou que o órgão já realizou entregas desses produtos nas Aldeias Jaguapiru e Bororó e que não havia distribuído o restante por falta de condições.
Outro lado
A chefe regional do órgão chegou a confirmar que sabia que o leite em pó estava vencido e mesmo assim ordenou a entrega, porque recebeu a informação de uma pessoa de que o produto poderia ser consumido até um mês após o vencimento. Quanto ao fato de vários pacotes apresentarem furos causados por ratos, a chefe do órgão disse que vários deles chegaram a ser retirados das cestas por terem sido comidos por ratos. “Nós pegamos os produtos abertos e doamos para criadores de porcos. A Funai procurou retirar todos os que tinham sido roídos e fizemos a dedetização do prédio”, explicou.
Maria Aparecida ainda denunciou que a Funai de Dourados está sucateada e que faltam funcionários para ajudar na separação dos alimentos. “O órgão não conta com o mínimo de estrutura. Para fazermos as separações, sempre precisamos contar com a ajuda de voluntários”, disse a chefe regional.

