A Polícia Federal (PF) e a Receita Federal deflagraram ontem uma operação contra grupo criminoso envolvido com o contrabando de produtos que entravam no País sem nota fiscal.
Durante a investigação, foi descoberto que policiais civis, tanto da ativa como da reserva, atuavam em conjunto com a organização. Um dos envolvidos já foi alvo de outras duas operações, a Omertà e a Snow, por lavagem de dinheiro e tráfico de drogas.
A operação, denominada Iscariotes, cumpriu quatro mandados de prisão, dois deles contra os policiais civis Célio Rodrigues Monteiro, conhecido como Manga Rosa, e Edivaldo Quevedo da Fonseca.
Célio é velho conhecido do noticiário policial, não só pelo atendimento prestado, mas sim por já ter sido duas vezes flagrado em operações passadas.
A primeira foi em 2020, quando foi um dos alvos da terceira fase da Operação Omertà, do Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco), por participação em lavagem de dinheiro.
Em 2023, porém, a Justiça absolveu Márcio Rios e Célio do crime de lavagem de dinheiro.
Entretanto, durante a Operação Snow, foi alvo de busca e apreensão do Gaeco em 2024. A investigação apurava um esquema de tráfico de cocaína com participação de agentes de segurança pública, e Célio teria sido flagrado em uma das conversas com traficantes. Entretanto, em nenhuma dessas operações o policial foi condenado.
Ainda na ativa, Célio chegou a receber progressão de carreira em janeiro deste ano, conforme publicação no Diário Oficial do Estado (DOE). Ocupando o cargo de investigador de polícia judiciária ele chegou ao nível cinco da carreira. Até o mês passado, o salário dele era de R$ 14,1 mil. Ele atua na Delegacia de Sidrolândia.
Agora, novamente alvo de investigação e de novo preso, o policial é suspeito de integrar organização criminosa que atua na prática de contrabando, descaminho, lavagem de capitais e outros crimes.
PF e Receita Federal apreenderam mercadorias no Camelódromo - Foto: Marcelo Victor / Correio do EstadoDe acordo com a Polícia Federal, a investigação apurou que policiais atuavam desde o “fornecimento e monitoramento de informações sigilosas extraídas de sistemas policiais oficiais até o transporte físico das mercadorias, com aparente utilização da função pública para favorecer a atuação do grupo”.
“No curso da investigação, foram realizados diversos flagrantes, inclusive envolvendo a atuação direta de policiais”, diz nota da Polícia Federal.
SEGUNDO POLICIAL
O segundo policial preso é Edivaldo Quevedo da Fonseca, que já havia sido detido em dezembro de 2024 pela Polícia Rodoviária Federal (PRF). Na época, ele estava com o carro cheio de mercadorias do Paraguai sem nenhuma documentação.
Após a prisão, Edivaldo, que é vinculado à 5ª Delegacia de Polícia Civil, recebeu liberdade em 2025, mas assumiu o compromisso de comparecer à Justiça Federal, confirmar endereço fixo e informar o local de trabalho. O investigador recebe salário de R$ 14,6 mil por mês.
MANDADOS
A Operação Iscariotes, deflagrada ontem, cumpriu 31 mandados de busca e apreensão em Campo Grande e algumas cidades de Minas Gerais.
Na Capital, muitos dos mandados foram cumpridos no Camelódromo. Quatro boxes do local e uma sala no piso superior foram interditados durante a manhã de ontem, quando os policiais cumpriam as ordens judiciais.
Segundo a PF, “a operação decorre de investigação de longo curso, que revelou a atuação estruturada de um grupo criminoso especializado na importação fraudulenta de grande quantidade de eletrônicos de alto valor agregado, desacompanhados de documentação fiscal e sem a devida regularização perante os órgãos de controle aduaneiro. Após o ingresso irregular no País, os produtos eram distribuídos em Campo Grande e em outras unidades da Federação, especialmente no estado de Minas Gerais, muitas vezes de maneira fracionada em meio a cargas lícitas”.
“No curso da investigação, foram realizados diversos flagrantes, inclusive envolvendo a atuação direta de policiais”, completa a PF, em nota.
SEJUSP
A Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp), em nota, afirmou que acompanhou as investigações por meio das corregedorias das instituições estaduais.
“A Sejusp ressalta que não compactua com quaisquer desvios de conduta por parte de seus servidores, adotando postura de rigor e transparência na apuração dos fatos.
Destaca, ainda, que serão instaurados os competentes processos administrativos disciplinares para a apuração individual de eventuais responsabilidades, e tomará medidas cabíveis necessárias ao longo de toda apuração.
A secretaria reafirma seu compromisso com a legalidade, a ética e a integridade no serviço público”, conclui a nota.
*Saiba
Além dos mandados de prisão e busca e apreensão, a PF também cumpriu um mandado de monitoração eletrônica e 12 de indisponibilidade de bens de pessoas físicas e jurídicas, no valor de R$ 40 milhões, incluindo o sequestro de pelo menos 10 imóveis e 12 veículos.
(Colaborou João Pedro Zequini)

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