Por conta do alto grau de poluição, a água do lago de 1,5 mil hectares da Usina do Mimoso, em Ribas do Rio Pardo, tornou-se imprópria até para consumo de bovinos e irrigação agrícola, conforme evidencia relatório do Instituto de Meio Ambiente de Mato Grosso do Sul (Imasul) que veio a público no começo de agosto.
Conforme este relatório, a partir do despejo diário de 206 milhões de litros de rejeitos pela maior fábrica de celulose do mundo, da Suzano, a água do Rio Pardo e consequentemente do lago da hidrelétrica que começa cerca de dez quilômetros rio abaixo, é classificada como hipereutrofizada, que é o pior nível possível para classificação da qualidade de um curso hídrico.
O principal poluente é o fósforo, que serve como nutriente para a proliferação de plantas aquáticas. Estas plantas ajudam a reduzir a poluição. Porém, por conta da quantidade excessiva destes nutrientes, elas estão se espalhando de forma descontrolada e encobrindo boa parte do lago.
De acordo com o relatório, hipereutrofizados “são corpos d´água afetados significativamente pelas elevadas concentrações de matéria orgânica e nutrientes, com comprometimento acentuado em seus usos, associados a episódios de florações de algas ou mortandades de peixes, com consequências indesejáveis para seus múltiplos usos, inclusive para as atividades pecuárias nas regiões ribeirinhas”.
E o lago é circundado de fazendas de criação de gado, que em muitos locais têm acesso direto a esta água. E, conforme a literatura veterinária, hiperutrofização significa que o corpo d'água possui uma quantidade excessiva de nutrientes (como fósforo e nitrogênio), o que gera uma proliferação intensa de algas tóxicas e cianobactérias
Estas algas, por sua vez, tendem a liberar toxinas letais que podem matar o gado rapidamente por falha hepática ou parada respiratória. Além disso, o mau cheiro, a turbidez e o gosto ruim da água fazem com que os animais bebam menos, reduzindo o ganho de peso e a produção de leite. E, a alta concentração de matéria orgânica favorece a proliferação de bactérias e parasitas que causam diarreias e infecções.
Além de ser amplamente utilizada para criação de bovinos, a água também é utilizada para irrigação de lavouras, conforme mostram imagens de satélite das imediações do lago. Mas, o alto grau de poluição também representa risco para esta atividade.
Além de as plantas flutuantes atrapalharem a coleta da água, entupindo as bombas de captação, o excesso de nutrientes pode contaminar hortaliças e frutas, caso a água ela seja aspergida diretamente sobre os vegetais.
Mas, até mesmo plantações de soja e milho correm risco, pois o “excesso de matéria orgânica em decomposição reduz o oxigênio na zona radicular e pode alterar negativamente o equilíbrio químico e a salinidade do solo”, ensina a Embrapa.
E, além de prejudicar a produção agrícola e pecuária, a poluição da água já inviabilizou uma série de atividades de lazer que durante décadas foram praticadas nas águas do lago da hidrelétrica de Mimoso, criada faz 55 anos. Além de ser utilizado por pescadores esportivos, o lago servia como palco para passeios e até competições de jet ski, que estão complestamente suspensas.
O relatório do Imasul, feito com base em amostras de água coletadas em 12 de agosto do ano passado, revela que nos quatro locais analisados acima do local de despejo dos rejeitos da fábrica de celulose foram encontrados 90 partículas de fósforo na água, o que já mostra um certo grau de poluição, mas em nível aceitável.
Nas cinco amostras seguintes, entre o local de despejo dos rejeitos e a represa da hidrelétrica, a quantidade de partículas de fósforo variou entre 1.281 e 3.037 partículas de fósforo. Isso é 30 vezes acima do tolerável, diz o relatório. E é justamente este nutriente que serve de alimento para as plantas aquáticas que estão encobrindo o lago.
As plantas também prejudicam a produção de energia na hidrelétrica que tem capacidade para gerar 29 megawats. As plantas flutuantes provocam seguidos entupimentos de equipamentos e por conta disso a produção de energia precisa ser interrompida constantemente.
A empresa responsável pela usina também está sendo obrigada a impedir que mais de 25% do lago seja encoberto pela vegetação. E uma das principais formas de fazer isso é liberar água extra por um vertedouro lateral da represa E, fazendo liberação extra, falta água para produzir energia em períodos de estiagem.
O lago da hidrelétrica foi criado em 1971 e o problema da proliferação das macrófitas começou nos primeiros meses do ano passado. A fábrica da Suzano entrou em operação em julho do ano anterior. A Suzano garante cumpre todas as normas legais para filtragem dos rejeitos.
LOCAL INADEQUADO?
Não existe na legislação nenhuma norma prevendo a quantidade de fósforo que pode estar presente nestes rejeitos. Mas, o relatório do Imasul deixa claro é alta a quantidade de poluentes jogados pela indústria. “Apesar de não haver padrão legal estabelecido para o parâmetro fósforo total em efluentes, a concentração desse parâmetro medido foi de 0,646 mg L/T, indicando a entrada deste nutriente no corpo hídrico em alta concentração”. As normas do Conama determinam que a qualidade da água de nenhum curso hídrico podem sofrer alterações significativas depois que recebem qualquer tipo de rejeito.
Embora não diga explicitamente, o relatório do Imasul dá a entender que a fábrica, autorizada pelo próprio Instituto, foi construída no local inadequado, já que alguns quilômetros rio abaixo a água é represada e em água parada a poluição se acumula e surge o ambiente propício para proliferação das plantas aquáticas e de algas.
No último parágrafo do relatório os técnicos deixam claro esta convicção: “Soma-se a isso outro fator muito importante, que é a redução da velocidade da água pela barragem da Usina, responsável por mudar as características físicas, químicas e biológicas do curso hídrico, devido à transformação de um ambiente lótico (água corrente) para lêntico (água parada)”.


