A Simasul, siderúrgica que opera há quase 9 meses sem a documentação devida para a produção de ferro-gusa, no município de Aquidauana, cidade sul-mato-grossense localizada no bioma Pantanal, informou ao Imasul que ficou 2 anos e meio sem monitorar os gases e resíduos das chaminés de um de seus fornos, por causa do excesso de chuvas. Ocorre que um laudo do próprio Instituto de Meio Ambiente de Mato Grosso do Sul (Imasul) para o qual as justificativas foram dadas, mostra que as chuvas alegadas não foram comprovadas.
O Correio do Estado apurou que o monitoramento de todas as fontes de emissão do empreendimento é condicionante da licença de operação do único forno da siderúrgica que está em situação regular: o alto-forno 2 (AF2).
O laudo de constatação LC031187/2026, lavrado pelo próprio Imasul, documenta que as seguintes fontes nunca foram monitoradas no período exigido: chaminé do AF2, quatro unidades de glendons, filtros manga, pontos de manuseio de carvão e minério, correias transportadoras e flare. Apenas quatro pontos foram coletados em dois anos e meio de operação — dado que o próprio órgão considerou insuficiente para embasar o Estudo de Dispersão Atmosférica (EDA), apurou o Correio do Estado.
Em reportagem publicada no dia 13 de outubro, o Correio do Estado mostrou que a Simasul poderia estar poluindo o Pantanal com o aval do Imasul. O outro forno da siderúrgica, o AF1, não tem licença de operação. Ele conta apenas com uma licença provisória, para comissionamento.
Culpa da chuva?
A tentativa de culpar o clima pelo “apagão” de dados no Alto-Forno 2 ruiu após uma checagem técnica do próprio Imasul. Um fiscal ambiental confrontou a alegação da Simasul — de que tempestades teriam impedido as medições de fumaça em fevereiro de 2024 — com os relatórios meteorológicos oficiais. O resultado foi conclusivo: choveu em apenas 11 dias daquele mês. Nos outros 18 dias de tempo seco, os testes poderiam ter sido feitos normalmente.
Na mesma inspeção, os fiscais descobriram duas estruturas clandestinas operando sem licença no complexo industrial: uma oficina mecânica e uma usina de oxigênio. A sequência de irregularidades no AF2 rendeu à empresa o Auto de Infração AI024880/2026, acompanhado de uma multa de R$ 120 mil.
Dar justificativas falsas ao órgão ambiental para esconder a falta de controle sobre a poluição não é apenas uma infração administrativa; é crime. O artigo 69-A da Lei Federal de Crimes Ambientais (Lei nº 9.605/1998) pune expressamente quem presta informações enganosas ou falsas a autoridades ambientais, prevendo pena de três a seis anos de prisão para os administradores e técnicos responsáveis.
O descumprimento das regras no Alto-Forno 2 acabou gerando um efeito dominó que travou toda a fábrica. Para obter uma Licença de Operação definitiva para o Alto-Forno 1 — ou uma autorização conjunta para rodar os dois fornos —, a lei exige a entrega de um Estudo de Dispersão Atmosférica. Trata-se de um modelo computadorizado que calcula como a fumaça e os poluentes se espalham pela cidade.
No entanto, como a Simasul passou dois anos e meio sem medir as emissões do AF2, não existiam dados de amostragem confiáveis para alimentar esse estudo. O relatório foi rejeitado três vezes pelo Imasul por falta de consistência técnica, criando um impasse: sem dados do AF2, o AF1 não podia receber sua licença definitiva.
Comissionamento
Foi para driblar essa trava legal que a empresa recorreu ao atalho do “comissionamento provisório”. Em vez de paralisação ou de uma regularização formal, a direção da Simasul pediu ao Imasul permissão para rodar o Alto-Forno 1 sob o pretexto de realizar testes e ajustes técnicos. O pedido foi aceito em 13 de março de 2026 pelo diretor-presidente do órgão, André Borges Barros de Araújo, que liberou 120 dias de testes. Em julho, às vésperas do vencimento, a siderúrgica pediu mais quatro meses de prorrogação, estendendo o período probatório para quase nove meses ininterruptos.
O Correio do Estado procurou novamente o Imasul e a siderúrgica Simasul. Não teve respostas até a publicação da reportagem. O espaço continua aberto.


