Nem todas as pessoas que dão entrada no maior hospital de Mato Grosso do Sul tem alguém aguardando notícias na sala de espera ou na cadeira de acompanhante. São pessoas sem documentos, que não se lembram quem são, de onde vieram, ou que simplesmente ficaram desacordadas por longos períodos de tempo, fazendo com que as equipes tenham de lidar com algo além da doença.
Uma história como essa ganhou notoriedade há alguns anos nas palavras do jornalista Chico Felitti, que narrou a saga de quatro meses em busca dos parentes de um personagem urbano paulistano: o Fofão da Augusta. Internado no Hospital das Clínicas, ninguém sabia seu nome verdadeiro. Foram semanas e mais semanas de investigações para descobrir quem estava por trás da caricata figura.
Mas não é preciso ir longe para saber que várias pessoas têm destinos semelhantes. E, em Campo Grande, os responsáveis por esse trabalho de Sherlock Holmes são os assistentes sociais.
A supervisora do serviço no maior hospital do Estado é Emily Moraes. Ela conta ao Correio do Estado que, na maioria dos casos, os pacientes chegam desacordados, então primeiramente é preciso ficar atento aos detalhes: condições e características das roupas, cicatrizes, tatuagens, marcas de nascença.
Em algumas ocasiões a equipe está com sorte, as pessoas acordam e aos poucos verbalizam um nome ou uma palavra que ajuda os assistentes sociais a terem um norte. Porém, em vários casos é necessária uma dose extra de esforço para completar todos os campos do prontuário.
Segundo a assistente social, o primeiro passo da busca é procurar os órgãos públicos da região ou da cidade em que o paciente foi encontrado. Muitas vezes eles podem dar a primeira pista para a solução do caso.
Qualquer dado ajuda, eles servem basicamente para a checagem em sistemas públicos, como o do Sistema Único de Saúde (SUS), por meio do CadSUS, que dispõe de informações como endereço, contatos e filiações.
Contudo, há situações em que é preciso contar um pouco com o acaso e com uma dose extra de coincidência para desvendar o drama desses pacientes.
Em certa ocasião, um homem deu entrada pela ala vermelha do pronto-socorro (destinada aos casos mais graves). “Histórico de higiene precária, possível usuário de entorpecentes e em situação de rua”, contou Emily à equipe de reportagem.
A assistente social colocada no caso passou dias a fio tentando localizar alguma pista do paciente desconhecido. Um dia, ela parou para atender os filhos de uma mulher que estava internada no leito ao lado daquele indigente. Quando o grupo entrou na enfermaria para visitar a mãe, qual não foi a surpresa de todos quando eles identificaram o paciente como sendo o irmão que não viam há nove anos e que estava ali, em estado crítico, ao lado da mãe.
“Todo o setor parou para ver aquela cena, da mãe e do filho um ao lado do outro, depois de anos de separação. No dia seguinte, os dois faleceram. Ela por volta das 10h e o filho às 16h”, conta Emily.
Desconhecidos
Somente este ano, a Santa Casa já recebeu seis pacientes que deram entrada como desconhecidos. Quatro deles as equipes conseguiram identificar ainda na fase de internação, e dois fugiram antes de serem tratados. “Geralmente o paciente desconhecido chega desacordado, por motivos de embriaguez, queda em via pública ou acidente de trânsito em rodovias. É comum nos casos de dependência química o paciente abandonar o tratamento antes do reconhecimento. Mesmo quando a equipe já conseguiu o contato ou a localização dos familiares, esses pacientes por muitas vezes não aguardam e logo saem do local sem ter finalizado o tratamento”, explica a assistente.
Em um dos casos recentes, os funcionários do hospital conseguiram encontrar o pai de uma jovem desconhecida. Descobriram que ela era de Londrina, no Paraná, e conseguiram falar com a filha da moça. Ela ficou feliz ao telefone e disse que não via a mãe há quatro anos. A filha se preparou para vir a Campo Grande, mas, um dia antes de desembarcar na cidade, a paciente fugiu.
Um trabalho como esse não é feito sozinho, diz Emily. Os assistentes sociais entram em contato com as forças policiais, com as secretarias públicas de assistência social, com os veículos de imprensa e com outros hospitais e unidades de saúde e internação.
O procedimento padrão é pedir à Delegacia de Pronto Atendimento Comunitário (Depac) a coleta para exame de impressão digital, mas, como o resultado não sai em menos de duas semanas, os trabalhos de investigação sempre continuam.
Segundo Emily, são bastante frequentes casos de bolivianos e paraguaios que dão entrada na unidade sem terem regularizado as suas documentações. Nesses casos, as equipes entram até mesmo em contato com profissionais da fronteira para comunicar os casos nas emissoras locais de rádio e tentar encontrar o paradeiro das famílias.
“Há também uma parceria com consulados estrangeiros existentes no município, como o do Paraguai, o do Líbano, entre outros, para, por meio da interpretação da língua materna, conseguirmos regularizar a situação deste paciente nas documentações e fornecer a alta responsável e com as devidas orientações”, pontua.
Por exemplo, há o caso de um homem que foi encontrado desacordado no meio da rua em Pedro Gomes e deu entrada em dezembro do ano passado via transferência. Ninguém sabe quem ele é ou onde mora. O exame de impressões digitais não retornou com dados nos bancos de informações públicas. “Esse paciente encontra-se em recuperação progressiva e ainda temos a esperança de que ele melhore mais e consiga ajudar na busca por identificação e localização dos familiares e amigos”, relata.
Não é um trabalho fácil. Em todos esses casos, a assistência social é o único meio que os pacientes têm para encontrarem suas famílias, quando assim desejam. Emily completa dizendo que sente admiração por cada um dos colegas que ajudam nesse serviço, de dar um nome a alguém cuja identificação na ficha é marcada por uma interrogação.
Da esquerda para a direita: Edineide Dias, professora de canto e preparadora vocal; Nara Borges, presidente da Fundação Barbosa Rodrigues; Lilla Gábor, musicista e pedagoga musical húngara e Ana Lúcia Gaborim, professora do curso de Música da UFMS

