Nem sempre o que é mais prático acaba sendo o melhor para a sua alimentação e, portanto, para a sua saúde também. Isso se estende à quentinha que milhões de brasileiros levam diariamente para o trabalho.
Os cuidados na preparação, na montagem, no transporte e no acondicionamento dos alimentos estão entre os principais pontos de atenção a serem observados por quem é adepto das marmitas.
A nutricionista Solange Schenfeld, que faz atendimento em uma Unidade Básica de Saúde (UBS) de São Paulo, destaca a importância de priorizar a qualidade de vida à praticidade.
"Por vezes, pensamos que a praticidade é a melhor escolha ao fazer o consumo de alimentos industrializados, que são os processados ou ultraprocessados. Entretanto, o impacto na saúde é tremendo e acaba resultando no surgimento ou no agravo das doenças crônicas não transmissíveis [DCNT], que requerem investimento de tempo em consultas médicas e tratamentos medicamentosos", explica a especialista.
Solange ressalta que o refino moderno retira dos alimentos nutrientes e micronutrientes de alto nível de importância para o organismo e traz o aumento de calorias, com a adição de gorduras, sal e açúcares.
"Podemos estar superalimentados, mas estamos subnutridos", afirma.
Sobretudo no preparo de marmitas, a atenção precisa ser redobrada. A profissional recomenda a elaboração caseira à compra de marmitas prontas, em razão do conhecimento da procedência dos alimentos, garantindo a qualidade da refeição com ingredientes naturais, orgânicos, frescos e sustentáveis (uso de talos, folhas, sementes e cascas).
Além disso, há a higienização ou desinfecção adequada dos utensílios utilizados no processo e no manuseio de legumes, folhosos e frutas, assim como a questão dos temperos utilizados, sendo comum em restaurantes o uso de aditivos industrializados e o excesso de sal.
O tempo e a temperatura também devem ser observados, evitando o favorecimento do crescimento microbiano. "É possível fazer a marmita no momento do preparo do jantar ou tirar uma tarde para cozinhar e congelar as porções", sugere.
Entre as técnicas que preservam os nutrientes dos alimentos, a nutricionista pondera que, no caso da salada, ela deve ser sempre fresca, higienizada e sem excesso de umidade (água).
CARNES E LEGUMES
Quando se trata de legumes e verduras, é indicada a técnica de branqueamento, para conservação da cor, da crocância e dos nutrientes do alimento.
"É preciso primeiro ferver a água para adicioná-los. Deixe-os cozinhar por alguns minutos [para escaldá-los] e depois imediatamente mergulhe-os em água bem gelada, pois é esse choque que os manterá conservados", recomenda.
Em relação às proteínas, a nutricionista indica que o melhor é optar por carnes magras e priorizar a frequência de carnes brancas (frango sem pele e peixes). Ela orienta que as preparações devem ser grelhadas, cozidas, refogadas ou assadas.
Outro ponto importante para esse alimento é o descongelamento, que não deve ser feito em temperatura ambiente. O correto é descongelar na geladeira para, então, iniciar o preparo.
RECIPIENTE E CONGELAMENTO
O recipiente também é um ponto de atenção, pois os potes de plástico, mesmo sendo livres de bisfenol A, podem correr o risco de conter substâncias tóxicas que fazem mal à saúde.
"Muitas pessoas utilizam vasilhas de plástico, mas o pote de vidro é muito melhor, considerando os aspectos de higienização, facilidade e sustentabilidade", detalha.
Outra dica é não colocar a marmita ainda quente no congelador, porque ela cria cristais de gelo que também impactam na qualidade da comida.
"Primeiramente, o pote deve ser colocado na geladeira para esfriar, antes de ser levado ao freezer, onde pode ser preservado por até 90 dias. Se houver peixes e frutos do mar, a validade do congelamento é reduzida a 30 dias. O transporte deve ser realizado em bolsa térmica, acrescido de gelo, e as marmitas devem ser acondicionados sob refrigeração [geladeira] até o momento do consumo", pontua.
EM ALTA
Estudos atuais indicam que o uso de marmita é uma tendência crescente e vem ganhando mercado entre os consumidores, independentemente da classe social.
"Outro fator importante a ser considerado é a economia, pois investir em produções caseiras reduz os custos individuais e familiares", completa a especialista.
Dicas para montar a sua quentinha
Separados
Para que os sabores não sofram interferência ao se misturarem, é importante separar bem os alimentos. Dessa forma, tudo se manterá mais fresco, já que os alimentos quentes não correm o risco de murcharem ou danificarem os alimentos frios, como vegetais crus.
Recipiente
A melhor alternativa é investir em um recipiente com várias divisórias e que pode ir ao micro-ondas tranquilamente.
Opte sempre por potes feitos de plástico polipropileno, que são mais resistentes e não contaminam o alimento com toxinas prejudiciais à saúde.
Bolsa térmica
Se o trajeto não for longo, não há necessidade da bolsa térmica. Nos casos em que é preciso conservar o alimento por bastante tempo, a bolsa térmica é perfeita, pois evita a exposição da marmita a choques térmicos. Os gelos de silicone não derretem e, por serem reutilizáveis, evitam gastos.
Molhos
Deixe sempre para adicionar molhos e temperos apenas quando for consumir a salada, para que as folhas não fiquem murchas e sem sabor. Carregue os molhos em potinhos à parte para uma salada sempre fresquinha.
Cardápio e fogão
Agende um dia da semana para deixar tudo pré-preparado. No domingo, por exemplo, você pode ir ao mercado e comprar o que vai precisar para a semana.
Outro ponto importante é um cardápio com alimentos diversos. Priorize ingredientes mais leves, saladas, alguma proteína e legumes. Além de manter a dieta, você manterá a saciedade por mais tempo ao longo do dia.
Plano B (para quem vive no corre-corre):
- Prepare o almoço do dia seguinte junto ao jantar;
- Cozinhe tudo de uma vez;
- Varie os temperos;
- Seja realista no planejamento;
- Foco na hora de escolher o que comprar;
- Molhos e condimentos na quantidade certa = refeições sempre no ponto.



Dra. Bruna Gameiro

