De Roma a Campo Grande? Sim. Da Bíblia ao Facebook? Sim. Do sagrado ao profano? Para a terceira pergunta, Américo Calheiros prefere estender-se um pouco mais: “No sentido literal, que sai das páginas da Bíblia para uma ferramenta tão moderna e indiscriminada, às vezes, até de abusiva utilização, sim. No sentido de que me contrapus ao que a Bíblia ensina, não, pois, nessa obra, não coloco em cheque a minha fé”.
A explicação do escritor tem a ver com os dois livros que lança amanhã, às 19h, em mais uma rodada de autógrafos na Academia Sul-Mato-Grossense de Letras (ASL): “A Caminho de Roma” e “Cara a Cara com Campo Grande”.
É mais uma oportunidade para conhecer as novas obras do autor que, em sua incursão pelo território das letras, já conta com uma dezena de outros trabalhos publicados, entre os quais destacam-se “Da Cor da Sua Pele”, “Na Virada da Esquina”, “Poesia Pra Que Te Quero” e “Campo Grande, Aquarela de Luz”.
POESIA COMO PRECE
“A Caminho de Roma” se inspira em passagens bíblicas do Antigo e do Novo Testamento, que sempre provocaram em Américo as mais distintas reflexões. Dessa inquietude, com a devida licença poética, ele fez uma releitura muito pessoal e as apresenta em forma de poemas de forte narrativa, sem perder a ternura espiritual.
Prefaciando a obra, o padre Rodrigo Augusto de Souza, do Santuário Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, destaca que “o poeta Américo Calheiros percorreu com desenvoltura o inestimável universo polissêmico da Bíblia. Tratou com enlevo as parábolas, as metáforas, os discursos, os poemas e os diferentes gêneros literários presentes na Bíblia”.
Já a escritora, poeta e ensaísta Raquel Naveira, que assina a apresentação do livro, além de comentar cada poema, traça um perfil da Roma que serviu de pano de fundo “ao embate entre forças pagãs, politeístas, e a revelação do monoteísmo de um único Deus, que dera seu próprio filho em sacrifício pela salvação dos homens”. Ela salienta ainda que a interlocução com a Bíblia e a religião constitui um traço inédito na obra do escritor e poeta Américo Calheiros.
“É fruto de minhas interrogações diante de passagens bíblicas e seus personagens. É um livro que escrevi em pouquíssimo tempo, e que brotou quase pronto da minha inspiração literária e de meu encontro com as ideias certas para que ganhasse vida no papel”, afirma o autor, que destaca, por exemplo, entre as várias histórias da Bíblia retomadas em seu livro, “a passagem que enfoca a multidão furiosa querendo apedrejar a mulher adúltera”.
Calheiros faz um cotejo do episódio com a realidade atual. “Sempre me faz refletir sobre o quanto a violência contra a mulher é um ato que tem raízes tão antigas e mais de dois mil anos depois, ainda continua com a mesma força e crueldade. Mudar essa condição é mais que urgente”, afirma.
DO POST À PAGINA
“Cara a Cara com Campo Grande” é fruto de publicações do autor no Facebook. Em sua quase totalidade, com revisão e devida organização gráfica, o livro nasceu do conhecimento e do olhar pessoal do escritor sobre a cidade, principalmente em consequência de seu trabalho como gestor da cultura por 10 anos na Capital.
Em 156 páginas ilustradas com fotos coloridas, Américo enfoca 60 pontos históricos e culturais de Campo Grande que, muitas vezes, passam despercebidos pela própria população.
Com o desejo de evidenciar que a capital de Mato Grosso do Sul, apesar de jovem, tem muita história e importantes marcos turístico-culturais que precisam ser reconhecidos, valorizados e cuidados, ele percorreu a cidade de ponta a ponta, elencando locais que mais dão visibilidade à face de Campo Grande e levantando um acervo vivo da sua história.
O livro vem, nas palavras do autor, como uma “ode de amor” para Campo Grande. E, a propósito, o sociólogo Paulo Cabral abre o prefácio dizendo que “a empatia é percebida com mais frequência no relacionamento entre pessoas, mas não se restringe ao campo interpessoal, pode se estender a inúmeros outros objetos, desde determinadas causas até lugares”.
Fechando a obra, a professora, poeta e escritora Sylvia Cesco, no texto que denomina de “interpílogo” (interlúdio + epílogo), explica que Américo “nos guiou pelos encantos, recantos e belezuras de Campo Grande, verdadeiros pontos turísticos da capital de Mato Grosso do Sul”. E conclui dizendo: “Sua narrativa surpreendeu pela forma jornalística ágil e didática, como informou e roteirizou os lugares, contando sua história e suas curiosidades”.
“‘Cara a Cara’ é resultado do meu imenso carinho para com esta cidade, ainda tão jovem, com marcas tão significativas de sua memória, espalhadas pelos distintos locais e nem sempre distinguidas pela própria população. É preciso cantar, em prosa e verso, esses patrimônios vivos, valorizá-los e preservá-los”, enfatiza Calheiros, que toma como exemplo de sua prédica um dos mais importantes monumentos da Capital.
“O relógio da [Rua] 14 de Julho, em dose dupla com a réplica na Avenida Calógeras, esconde quase quatro décadas da história de Campo Grande. Isso, no que concerne ao comportamento vigente nesse período, aos acontecimentos sociais, políticos e econômicos que fizeram da Cidade Morena o que ela é hoje e aos traços culturais que marcaram esse tempo e que foram pouco registrados. O relógio pode nos lembrar fortemente todos esses aspectos, nele embutidos se conhecermos melhor a nossa história”, defende.
PROCESSO CRIATIVO
“Escrever é compartilhar com o leitor o seu universo mais diversificado, em certas ocasiões o mais íntimo. É revelar suas distintas facetas, possibilitando-lhe a sua própria visão dentro do que você lhe entrega”, diz Calheiros.
“No caso específico dessas duas obras, o meu principal objetivo é, em uma, proporcionar a descoberta de uma Campo Grande que está escondida de nosso olhar mais atento. E, em outra, a reflexão mais profunda sobre passagens bíblicas que a gente pensa que já estão esgotadas no que propõem”, afirma o escritor.
Ele conta que a sua escrita alterna momentos de fluência com uma carpintaria que requer seguidos arremates: “O meu processo criativo varia de obra para obra. Porém, mescla sempre inspiração e transpiração. Às vezes, os poemas, as crônicas, os aforismos, as histórias, enfim, nascem prontos. Em outras ocasiões, a minha criação literária é um dolorido parto, em que reescrevo uma ideia mais de 10 vezes até chegar no formato que busco. Escrever não é um exercício fácil”.
TRAJETÓRIA
Pernambucano de nascimento, sul-mato-grossense de coração, Américo Calheiros é professor, escritor e teatrólogo. Formado em Letras, com pós-graduação em Gerência de Cidades, cursou a Escola de Teatro Martins Pena, no Rio de Janeiro, buscando aprimoramento no teatro vinculado à educação.
Criou o Grupo de Teatro Amador Campo-grandense (Gutac), escreveu e produziu mais de 80 espetáculos teatrais, introduzindo essa arte em escolas e comunidades e incentivando um grande número de artistas.
É autor das seguintes obras: “Sem Versos”, “Coletânea de Textos Teatrais de MS” (em parceria com outros autores), “Memória de Jornal”, “Da Cor da Sua Pele”, “A Nuvem que Choveu”, “Poesia Pra Que Te Quero”, “Na Virada da Esquina”, “Inteiras e Meias Verdades – Reflexões em Citações” e “Campo Grande – Aquarela de Luz”, além de “Cara a Cara com Campo Grande” e “A Caminho de Roma”.
É também membro da ASL e do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso do Sul e presidente da Aliança Francesa de Campo Grande. Foi presidente da Fundação Municipal de Cultura por 10 anos, na Capital, e da Fundação de Cultura de Mato Grosso do Sul (FCMS) por oito anos.


Sabrina Sato - Divulgação
O ator Gustavo Falcão é a Capa exclusiva do Correio B+ desta semana - Foto: Gabí Souza - Diagramação: Denis Felipe
O ator Gustavo Falcão é a Capa exclusiva do Correio B+ desta semana - Foto: Record TV - Diagramação: Denis Felipe


