Para chegar à mesa, uma boa carne precisa de muito mais do que fogo e tempero. Antes de virar um corte servido ao cliente, existe uma cadeia de escolhas, técnicas, histórias e experiências que ajuda a definir o sabor.
É justamente a partir dessa ideia que o casal Maira Ribeiro e Luiz Fernando Rodrigues construiu a proposta da Prime Steak House, restaurante inaugurado no sábado, em Ponta Porã, que aposta na parrilla, em cortes selecionados e em uma experiência que pretende ir além da comida.
A abertura da casa, porém, não nasceu de um plano traçado durante anos, pelo contrário, a história da Prime começou de maneira quase inesperada, a partir de uma oportunidade que surgiu justamente quando os dois imaginavam que o próximo passo seria outro.
Maira e Luiz se conheceram em Piracicaba, no interior de São Paulo, por meio de amigos em comum. Os dois estudaram no Senac Águas de São Pedro, instituição que tinha apenas dois cursos na época: Hotelaria e Gastronomia. Maira cursou Hotelaria entre 2015 e 2016, enquanto Luiz fez Gastronomia entre 2012 e 2013.
Embora tenham passado pela mesma instituição em períodos diferentes, a formação acabou se tornando um dos primeiros pontos de ligação entre os dois.
A gastronomia, no entanto, já fazia parte da história de Luiz antes mesmo da formação profissional. O chef é a sexta geração de uma família ligada ao setor e cresceu em meio à rotina de restaurantes.
Foto: Roberlânia GonçalvesDepois da faculdade, ele trabalhou no grupo de resorts Club Med, experiência que permitiu contato com diferentes cozinhas, técnicas e culturas gastronômicas.
Foi justamente a partir dessa trajetória que surgiu a mudança que levaria o casal para Ponta Porã. Depois de quatro anos morando em Piracicaba, Luiz recebeu a proposta para retornar à cidade natal e ajudar a mãe e a avó, que mantêm um restaurante familiar há 33 anos. Maira decidiu acompanhá-lo na aventura.
“De certa forma, a gastronomia e a hospitalidade sempre fizeram parte da nossa história”, conta Maira.
Os quatro anos seguintes foram vividos em Ponta Porã, até que surgiu a possibilidade de abrir um negócio próprio. Ainda assim, o projeto não estava desenhado.
Até o dia 20 de julho, o casal acreditava que o caminho seria continuar ligado ao restaurante da família, o Verde Vida. Naquela data, porém, receberam uma proposta de conhecidos da cidade que haviam fechado um estabelecimento e pensaram nos dois como possíveis responsáveis pelo novo negócio.
A conversa evoluiu rapidamente. Eles analisaram a proposta, avaliaram as possibilidades e decidiram assumir o desafio.
“Não foi nada planejado, realmente caiu na nossa mão e nós decidimos abraçar isso tudo”, resume Maira.
A decisão significou transformar, em poucas semanas, uma oportunidade em um restaurante.
Entre assumir o espaço e colocar a Prime Steak House em funcionamento, vieram obras, definição de identidade visual, contratação e treinamento da equipe, escolha de fornecedores, aquisição de equipamentos, criação do cardápio e uma série de testes.
Para o casal, a Prime representa justamente a decisão de parar de esperar pelo momento ideal e assumir a oportunidade que apareceu.
“Poderíamos continuar esperando pelo cenário perfeito ou assumir o desafio. Escolhemos assumir o desafio”, diz Maira.
O processo exigiu uma rotina intensa. Ao mesmo tempo, permitiu que os dois colocassem em prática experiências acumuladas em diferentes momentos da vida profissional.
Para Maira, a hotelaria passou a ser uma espécie de guia para pensar o atendimento. “Na hotelaria, aprendemos que atendimento não é apenas servir bem, mas perceber detalhes, antecipar necessidades e fazer com que cada pessoa se sinta realmente bem recebida”, explica.
É essa visão que ela pretende levar para a Prime. A ideia é construir um atendimento profissional, mas sem transformar a experiência em algo excessivamente formal.
O conceito de luxo, para ela, também passa longe da ostentação. Está relacionado ao cuidado com o cliente, ao ambiente preparado, à atenção aos detalhes e à sensação de acolhimento.
“Luxo não significa necessariamente formalidade ou algo inacessível. Para mim, luxo está muito ligado ao cuidado”, afirma.
FOGO COMO PROTAGONISTA
Na cozinha, Luiz traz a experiência acumulada em resorts e diferentes cozinhas para uma proposta centrada na carne e no fogo. A parrilla é um dos elementos principais do restaurante, mas o objetivo não é simplesmente reproduzir o modelo tradicional de uma steakhouse.
A Prime trabalha com cortes clássicos, como picanha angus, ancho, chorizo, T-bone e prime rib. A casa também aposta em preparos que procuram aproximar a alta gastronomia dos ingredientes e dos sabores conhecidos pelo público da região.
Restaurante une a carne na brasa às referências da fronteira - Foto: Roberlânia GonçalvesUm dos exemplos é o steak pantaneiro, que combina cupim, mandioca cremosa e farofa de banana. Outro destaque é a costela preparada durante 12 horas, em um processo de cocção prolongada que busca preservar a suculência e desenvolver sabor.
A intenção, segundo Luiz, é respeitar a matéria-prima e utilizar a técnica para valorizá-la, sem transformar a comida em algo excessivamente complicado.
“Quero que o cliente perceba o cuidado em cada detalhe e saia daqui lembrando não só do prato, mas da experiência como um todo”, explica o chef.
A formação e a experiência profissional também aparecem na elaboração do cardápio. Luiz explica que as referências internacionais adquiridas durante a carreira serviram como base para desenvolver pratos próprios, mas não como receitas a serem simplesmente reproduzidas.
A cozinha da Prime deve trabalhar com cocções precisas, grelhados e preparos na brasa, molhos e fundos elaborados, além de técnicas variadas para entradas e acompanhamentos.
O cardápio, entretanto, foi pensado para não ser excessivamente extenso. O casal preferiu uma seleção mais enxuta, com pratos que tenham uma razão para estar ali e possam ser executados com qualidade.
“Não quero simplesmente reproduzir receitas que aprendi ao longo da carreira. Quero usar esse conhecimento como base para criar uma identidade própria para a Prime”, afirma Luiz.
FRONTEIRA NO PRATO
A localização de Ponta Porã, cidade sul-mato-grossense que faz fronteira com o Paraguai, é um dos elementos que ajudam a explicar algumas das escolhas do cardápio.
A fronteira reúne diferentes culturas, hábitos e influências gastronômicas. Para o casal, seria incoerente ignorar esse contexto ao criar um novo restaurante na cidade.
A Prime, portanto, não se apresenta como uma casa de culinária regional, mas incorpora referências locais de maneira pontual. A sopa paraguaia, por exemplo, aparece no cardápio como acompanhamento, com uma interpretação própria preparada na parrilla.
O steak pantaneiro segue a mesma lógica. O cupim, a mandioca cremosa e a farofa de banana são ingredientes e sabores que dialogam diretamente com o imaginário gastronômico de Mato Grosso do Sul, mas aparecem dentro de uma proposta contemporânea de steakhouse.
A intenção é de que a identidade regional não seja uma decoração, mas parte natural da experiência.
“Não queríamos simplesmente reproduzir um modelo de steakhouse que poderia estar em qualquer cidade”, explica o casal. “Estamos em Mato Grosso do Sul e em uma região de fronteira com o Paraguai, então achamos importante que isso aparecesse de alguma maneira na experiência”, destacam.
ALÉM DA CARNE
Embora o produto central seja a carne, a proposta é não limitar a casa aos apaixonados por cortes bovinos. O cardápio também conta com opções de frango e peixe, além de alternativas vegetarianas, entradas e acompanhamentos.
A estratégia é permitir que grupos com diferentes preferências consigam compartilhar a experiência.
A boutique de carnes é outro braço do projeto. Além de consumir os cortes preparados pela equipe da Prime, o cliente poderá escolher carnes selecionadas para levar para casa.
Mas, para Maira, a principal preocupação continua sendo a hospitalidade.
“Hospitalidade, para mim, é fazer alguém se sentir bem-vindo. É receber como gostaríamos de ser recebidos”, define.
Ela acredita que um cliente pode até esquecer detalhes de um prato, mas dificilmente esquece como foi tratado em determinado lugar. Por isso, o atendimento ocupa posição tão importante quanto a cozinha na concepção da Prime.
“Queremos que a pessoa se lembre da carne, dos acompanhamentos e dos drinks, mas queremos principalmente que ela se lembre de como se sentiu aqui”, afirma.
O ator Gabriel Chadan é a Capa exclusiva do Correio B+ desta semana - Foto: Bruno Rangel - Diagramação: Denis Felipe - Por: Flávia Viana
O ator Gabriel Chadan é a Capa exclusiva do Correio B+ desta semana - Foto: Théo Dorè - Diagramação: Denis Felipe - Por: Flávia Viana

