Correio B

DONA HELENA VOLTA AO CINEMA

Conheça a história de Helena Meirelles, que marcou a música regional de fronteira

História dessa grande artista vai virar filme pela terceira vez ainda em 2020

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Há exatos 96 anos, nascia Helena Meirelles, a dama da viola de Mato Grosso do Sul que derrubou preconceitos e encantou o guitarrista Eric Clapton com o seu jeito de tocar. 

Conheça a história dessa grande artista da música regional de fronteira, que vai virar filme pela terceira vez, com estreia ainda este ano. Artistas e admiradores falam sobre o legado da diva, que aprendeu a tocar sozinha e passou décadas se apresentando na zona

Parece meio cabeluda a história que liga a grande dama da viola de Mato Grosso do Sul à mais tradicional linhagem do blues, a música de raiz dos EUA, que surgiu na beira do Rio Mississipi, no meio das plantações de algodão. Os mais novos talvez nem saibam. Quem tem mais de quarenta deve se lembrar.

Até hoje, somente dois nomes brasileiros do violão - João Gilberto e Helena Meirelles - receberam elogios rasgados do guitarrista Eric Clapton, renovador do blues nos anos sessenta, chamado de Deus em pichações nas ruas de Londres. 

O músico baiano, um dos pais da bossa nova, foi elogiado pelo ilustre fã inglês em outubro de 2011, durante uma das turnês de Clapton no Brasil.

Helena Meirelles nasceu há exatos 96 anos, em Campo Grande, numa sexta-feira 13, e se tornou internacionalmente conhecida após figurar com destaque nas páginas da revista norte-americana Guitar Player em 1993. 

Teria partido do grande guitarrista o voto e os argumentos que fizeram Dona Helena integrar a lista dos 101 instrumentistas homenageados pela publicação. Um pôster encartado na revista estampava a palheta de feras como Jimi Hendrix, B.B. King e George Benson. 

Na imagem, a partir do ensaio fotográfico de Erik Butler, somente a dama da viola caipira e duas outras mulheres - a roqueira Lita Ford, dos EUA, e canadense K.D. Lang.

“Eu nasci em 1924. A minha tataravó é índia, pegada no mato do Paraná. A mãe do meu pai era paraguaia. O pai do meu pai era mineiro. O pai da minha mãe era paraguaio e minha vó era paulista. Eu tenho sangue de tudo o que é bicho. E bicho perigoso, venenoso. Porque eu fui cobra, fui braba”. É assim que a artista se apresenta, mirando a câmera com a expressão séria, que poucas vezes abandonava o seu semblante, no documentário Dona Helena (2006), dirigido por Dainara Toffoli.

O nome de Helena Meirelles chegou ao conhecimento da Guitar Player graças a um de seus sobrinhos, Mário de Araújo, filho da irmã Natália, que enviou uma fita com gravações caseiras para a revista. 

A partir daí, com o poder de repercussão da indústria cultural dos EUA, e sua enorme capacidade de erguer e derrubar carreiras, foi só questão de tempo. 

A cabocla matuta criada na Fazenda Jararaca, que aprendeu a tocar sozinha aos nove anos, escondendo-se da fúria repressora do pai, finalmente iria se tornar destaque em jornais, revistas e programas de tevê de todo o país, fazer shows concorridos na cidade grande, gravar discos. Ser, enfim, uma estrela.

E foi tudo muito rápido para quem fugiu de casa, aos 16 anos, com o primeiro marido, e havia passado mais de cinco décadas virando noites na zona do meretrício de cidades como Bataguassu (MS) e Presidente Epitácio (SP), localizadas nas margens opostas do Rio Paraná. 

Seu programa nos bordéis era tocar para a clientela, sempre acompanhada de doses e mais doses de pinga e do fumo mascado, outro companheiro inseparável até sua partida, em 28 de setembro de 2015 por causa de uma pneumonia. Mas Dona Helena fez de tudo na vida. Foi lavadeira, benzedeira, parteira. Só não foi capacho de ninguém. E punha sua arte acima de tudo.

As canções que ela tocava desde menina e as composições que vieram depois são duas facetas muito parecidas de uma mesma moeda apresentada em seus quatro discos lançados. E em antológicas apresentações ao vivo, de norte a sul do Brasil. 

Um repertório bastante representativo da música regional de fronteira do cerrado, que apresenta uma diversidade de gêneros, como o rasqueado, o chamamé, a guarânia e a polca paraguaia, e cala fundo no coração de quem carrega na alma o sentimento pantaneiro. 

Os quatro discos, lançados entre 1994 e 2002, venderam aproximadamente 100 mil cópias. De ouvidos aguçados e exigentes, Dona Helena não ficou satisfeita com o resultado do quarto trabalho, Ao Vivo - De Volta ao Pantanal, o primeiro a ser lançado fora da Eldorado. Há um quinto registro em disco, Os Bambas da Viola, com a sua participação apenas em uma das faixas.

Muita coisa é incerta e contraditória na sua biografia. Nascera em Campo Grande mesmo? Em Bataguassu? Ou Nova Andradina? As terras da antiga Jararaca, hoje chamada Fazenda Santa Inês, estão localizadas entre esses municípios, que distam mais de 300 quilômetros da capital. 

Fora uma Medeia inconsequente, que abandonava os filhos à própria sorte, ou mãe zelosa, capaz de dar conta deles desde o parto, que, aliás, costumava encarar sozinha, sem nenhuma ajuda? Ofereceu somente a sua música nos bailes da vida ou precisou submeter-se ao desejo dos homens para sobreviver. 

Qual era o seu instrumento? A viola ou o violão? Tocava bem, de fato? Ou todo o folclore construído em torno de uma imagem valoriza demais a sua habilidade musical?

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Uma lenda é uma lenda e elas costumam fazer a delícia dos biógrafos. Embora não exista ainda um livro escrito sobre Helena Meirelles, é possível encontrar estudos acadêmicos, dois documentários e mais uma produção audiovisual inédita, com estreia prevista para outubro ou novembro. 

Além do documentário de Dainara Toffoli, também está disponível no YouTube A Dama da Viola (2004), com direção de Francisco de Paula. São duas visões diferentes, embora não conflitantes, da trajetória da artista. 

O primeiro dedicado a flagrar o sucesso tardio e seus impactos na vida de uma senhora de personalidade forte, que nunca deixou de ser uma mulher simples e batalhadora. 

O segundo, rodado exclusivamente em locações sul-mato-grossenses, dedica-se a mostrar a rotina brejeira do campo, o contato com os animais e a paisagem natural que deram régua e compasso para a futura estrela cabocla brilhar.

O terceiro trabalho, que deve estrear nos próximos meses, é Flor da Guavira, também nome do segundo disco e de uma das canções mais conhecidas da violeira, com direção do jornalista Rogério Zanetti e produção de Marcos Roker. 

“Procurando por informações sobre ela, percebi que quase tudo era focado em sua vida pessoal: se é verdade ou não que tocava em "zona", que teve todos os filhos sozinha no mato, que gostava de beber. Durante as pesquisas percebi que quase tudo é lenda.

O filme é um antigo desejo de resgatar a história dessa artista única”, afirma Zanetti, que ainda sonha com um depoimento de Eric Clapton para o seu doc. Não bastasse a pandemia, o guitar hero revelou, há quatro anos, sofrer de neuropatia periférica, que compromete, inclusive, o movimento das mãos.

Com ou sem Clapton, será a volta da estrela pantaneira ao mundo do cinema. Logo ela, que entrou pela primeira vez em uma sala de projeção para assistir um filme sobre a própria história. 

Helena Meirelles teve três casamentos, muitos amores, onze filhos. E uma chance improvável de sucesso que a transformaria em um fenômeno, como aconteceu a sambista Clementina de Jesus, descoberta tardiamente em 1963 no Rio de Janeiro. 

A vida desregrada nos faz aproximá-la das divas do blues, como Billie Holiday e Janis Joplin, que tiveram bem menos sorte do que Helena, não resistiram ao vício e se foram cedo demais. 

A quase ausência feminina no panorama establishment do violão brasileiro traz ainda à lembrança um nome célebre, Rosinha de Valença, rara exceção a obter reconhecimento na música popular por tocar tão bem.

Confira, a seguir, quem foi Dona Helena para alguns artistas que acompanham a sua trajetória, trabalharam e conviveram com ela ou pertencem à nova geração de fãs.

Jas Obrecht, editor da Guitar Player de 1978 a 1998

Helena tem uma técnica muito boa. Um estilo maravilhoso de dedilhar com a mão direita. E com a mão esquerda, ela não tem medo de chegar aos registros agudos, de experimentar mudanças de ritmo e de compasso. 

(...) Quando a minha vida acabar e eu me aproximar dos portões de São Pedro, de onde eu estiver, eu espero ouvir a música da Helena ou Jimi Hendrix tocando All Along the Watchtower. Pois se ouvir algum deles, sei que entrarei e irei pro céu. (depoimento recolhido no documentário Dona Helena)

Rogério Zanetti, diretor de Flor da Guavira, ainda inédito

Estamos documentando uma artista já falecida, não a temos para falar conosco. Então, o personagem principal é o violão que ela mais gostava de tocar. Os artistas entrevistados estão sempre com esse violão em punho, entre eles, Marcelo Loureiro, Michel Teló, Márcio di Camillo e Sérgio Reis. 

(...) Decidimos fazer um documentário que tratasse de seu trabalho musical, a maneira incomum de tocar seu instrumento, e, além disso, buscar registros de sua história pessoal, como por exemplo, chegar ao local exato em que nasceu.

Mário de Araújo, sobrinho e produtor

A relação da Helena com homem sempre foi muito conflitiva. Era comigo também. Muitas vezes eu tinha impressão disso, de que ela me via como um homem, não como um sobrinho, afilhado, nascido nas mãos dela, produtor dela, e tentando conduzir a carreira e coisas boas para ela. Mas um homem tentando dominar. Dirigir a vida dela. E ela reagia a essas coisas.

Marcelo Fernandes, professor de violão da UFMS

Tem um certo romance em cima, uma imagem construída, sobre quem de fato parece ter sido. Ela personifica a figura da violeira. Formalmente, sua música parece com tudo o que você tem no universo caipira. Representa uma tradição de 200 anos que, para mim, morreu com ela. 

Helena era uma mestra, que carrega essa tradição da música caipira nela e incorporou tudo isso. 

As harmonias, acordes e melodias são muito simples do ponto de vista da construção. Mas, quanto à execução, ela tem um jeito de tocar que é uma perfeição. Quando a gente chega perto, encontra uma objetividade sagaz. Talvez a maior objetividade que já vi num artista. É certo ou errado, limpo ou sujo. Ela não erra. Tem uma cognição musical superior à média das outras pessoas. Mesmo com todos os percalços da vida, ela não erra. É uma pessoa que quer fazer o certo e, com esforço enorme numa direção, chega a um resultado inusitado.

Tatiana Toffoli, roteirista e montadora de Dona Helena (2006)

Eu nunca tinha conhecido uma mulher tão forte e determinada. Um talento e uma dedicação imensa ao violão. Também se dedicou muito a um dos filhos, que tinha uma questão neurológica. Então se realizou também como mãe. 

Gravei a entrevista com o filho, o segundo marido, as senhoras que conheceram ela na zona. 

Ela não sabia que a gente estava entrevistando essas pessoas porque a gente tinha medo de que ela dissesse que não era para entrevistar. Então a gente não falou mas logo depois ela ficou sabendo e não gostou muito, porque eu acho que ela queria dominar a narrativa do início ao fim.

 Sempre lembro dela falando “se não trabalhar, não vai; bom pra mim, melhor pra mim fica se eu morrer trabalhando”. Estar na frente de uma mulher tão potente foi muito marcante, um privilégio enorme.

Dainara Toffoli, diretora de Dona Helena 2006

Fomos para Presidente Epitácio, fazer os acertos e assinar o contrato. Uma semana antes de voltarmos, ligamos pra Dona Helena e de repente ouço a (produtora) Mônica (Schmiedt) dizer “como assim Dona Helena? A Sra. está fazendo outro documentário?!” Caí para trás. Ela já tinha assinado um outro contrato de um outro documentário sobre a vida dela e estava rodando na mesma época que nós. 

Foi um susto porque é muito complicado você ter um outro produto, os dois sendo lançados na mesma época, concorrendo pela atenção das tevês, festivais etc. O estar no mundo da Dona Helena era estar tocando. 

A viola foi uma companheira de verdade a vida inteira, era ali que ela se refugiava e se expressava. Ela tem uma história de vida fantástica, uma mulher que o tempo inteiro tentou ter autonomia. Essa necessidade era materializada em poder ou não tocar e ela exigia isso.

Francisco de Paula, diretor de A Dama da Viola (2004)

Teve uma sessão de gala com tapete vermelho muito emocionante no Cine Odeon (RJ), onde se tocava Villa-Lobos e outras trilhas. Ela foi muito aplaudida, as pessoas que não a conheciam foram abraçá-la. Ela foi muito reverenciada e ficou muito feliz. Quando perguntei se tinha ficado satisfeita com o resultado do filme, ela falou “nunca me vi tão grande”. 

Ela nunca tinha entrado num cinema. A primeira vez foi para ver um filme sobre ela mesma e ficou impressionada com o tamanho da tela. Depois falou “nossa, que lugar esquisito; tudo escuro e ninguém fala nada, eu morrendo de vontade de  dançar”. 

Vou disponibilizar, na página da Helena do Facebook, algumas músicas e depoimentos que ela gravou e não entraram no filme.

Jerry Espíndola, cantor e violonista

Disseram que ela queria me conhecer e fui até o camarim. Ela falou assim “você é o irmão daquelas loucas? A última vez que vi suas irmãs, a gente matou duas garrafas de pinga”. 

As irmãs eram a Alzira e a Tetê. Helena é uma violeira muito roots, sem técnica. Ali é só coração, coração puro, super simples o trabalho dela. Tecnicamente falando, não é uma virtuose. É uma mulher que saiu de casa para tocar violão numa época onde o machismo imperava. As mulheres não tinham direito a nada. 

A história dela como mulher é muito mais importante do que a obra.

Brenda Violeira do Pantanal, 18 anos, nascida em Corumbá e radicada em São Paulo

Toco viola desde os quatro anos e um dia resolvi me aprofundar na cultura musical do estado, principalmente do pantanal. Foi quando me deparei com um toque suave instrumental, acompanhado só por violão e baixo, chamado A Volta da Guirá Campana. Logo em seguida aprendi a tocar essa música, porque gostei muito e comecei a pesquisar mais sobre a intérprete. 

Hoje Dona Helena Meirelles virou a minha inspiração. Foi como achar um tesouro. Não me conquistou só pela música, mas também pela história de vida. Onde faço show, não deixo de tocar uma música dela. Fico muito feliz porque ela diz no documentário que queria deixar uma sementinha e as pessoas já pedem que eu toque.

Geraldo Espíndola, cantor e compositor

Lembro que uma vez fomos tocar em Corumbá e ficamos no mesmo hotel. Ela falava “você fumantes têm que parar de fumar, isso só atrapalha” e gargalhava.

Música "Dona Helena" De Jerry Espíndola e Marcelo Ribeiro

Discografia

  • Helena Meirelles - Eldorado/1994
  • Flor da Guavira - Eldorado/1996
  • Raiz Pantaneira - Eldorado/1997
  • Ao Vivo - De Volta ao Pantanal - Sapucay/2002
  • Os Bambas da Viola - Kuarup/2004

Playlist

  • Guaxo
  • Chuíta
  • Epitaciana
  • Fandango em Porto Quinze
  • Fiquei Sozinha
  • Flor Pantaneira
  • Quatro Horas da Madrugada
  • Laranja Potã
  • Rincão Guarani
  • Samba do Zé
  • Saudades do Meu Velho Pai

Filmografia

  • Helena Meirelles, a Dama da Viola - Francisco de Paula / 2004 (disponível do YouTube)
  • Dona Helena - Dainara Toffoli / 2006 (disponível no YouTube)
  • Flor da Guavira - Rogério Zanetti / lançamento previsto para setembro

Homenagens:

  • Revista Guitar Player (EUA) - 1993
  • Concha Acústica Helena Meirelles (Campo Grande/MS) - 2003
  • Revista Rolling Stone Brasil - 2012
  • Women’s Music Event Awards by Vevo - 2017
  • Prêmio Bertha Lutz / Senado Federal - 2019
  • Museu Municipal Helena Meirelles (Bataguassu/MS) - 2019

Diálogo

Doze mil e duzentas autuações por descumprimento de horários, outras... Leia na coluna de hoje

Leia a coluna desta terça-feira (9)

09/06/2026 00h02

Diálogo

Diálogo Foto: Arquivo / Correio do Estado

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Davi Roballo - escritor brasileiro

"Quem quiser encontrar o sentido da vida, deve preparar-se para nunca o encontrar, pois ele tem mil faces e muda constantemente”.

 

FELPUDA

Doze mil e duzentas autuações por descumprimento de horários, outras 3,4 mil por omissão de viagens e 197 ônibus circulando acima da idade permitida pelo contrato. Os números ajudam a explicar a crise enfrentada pelo Consórcio Guaicurus. Durante audiência pública, foram reforçadas as conclusões já apontadas pela CPI da Câmara. O relatório dos vereadores recomendou a substituição imediata dos veículos irregulares e até intervenção na empresa. Os levantamentos da comissão confirmaram falhas operacionais recorrentes e outros problemas.Mas nadica de nada foi feito!...

Ampliando

A Câmara dos Deputados aprovou projeto que amplia direitos de pessoas com diabetes tipo1, além de reforçar o acesso a medicamentos pelo SUS. O texto passou pelo Senado, sem alterações.

Mais

O enquadramento como pessoa deficiente irá dependerdos critérios do Estatuto da Pessoa com Deficiência. Concessão do Benefício de Prestação Continuada também exigirá avaliação. 

DiálogoFoto: Divulgação/Alems

O maior tatu do mundo poderá ganhar uma data especial em Mato Grosso do Sul. Tramita na Assembleia Legislativa projeto de lei que institui o Dia Estadual do Tatu-Canastra, a ser celebrado em 13 de agosto. A proposta busca fortalecer ações de preservação da espécie, considerada vulnerável devido à perda de habitat, incêndios florestais e degradação ambiental. O tatu-canastra pode atingir até 1,5 metro de comprimento, pesar cerca de 50 quilos. Ele tem hábitos noturnos, baixa população e reprodução lenta, fatores que aumentam seu risco de extinção. A data escolhida coincide com o Dia Internacional do Tatu e conta com respaldo técnico do Instituto de Conservação de Animais Silvestres. A proposta é do deputado Rinaldo Modesto.

Diálogo Geraldo Maiolino - Foto: Arquivo Pessoal 

 

DiálogoDra. Fabiane Parizotto - Foto: Arquivo Pessoal

Mexidão

Ainda repercute o vídeo de Fábio Trad, pré-candidato ao governo, no qual dispara críticas contra lideranças evangélicas e senadores alinhados ao bolsonarismo. Na defesa de Lula e da indicação (rejeitada) de Jorge Messias ao STF, misturou religião, política e até referências bíblicas. Sobrou para os parlamentares, chamados de “fariseus”. Nem as Escrituras escaparam da sua artilharia verbal. Quando alhos, bugalhos e ideologia dividem o mesmo discurso...

Vitrine

A audiência pública promovida pelo deputado Pedro Kemp, em Corumbá, transformou-se numa vitrine de críticas ao projeto de concessão da Hidrovia do Rio Paraguai. Foi feito o alerta que dragagens permanentes e até explosões de formações rochosas podem alterar a dinâmica natural do rio. O receio é que o ciclo  de cheias e vazantes do Pantanal seja afetado diretamente. Para os participantes, falta transparência e sobram dúvidas. 

Questionando

Outro ponto que provocou reação foi o avanço dos investimentos antes mesmo da conclusão do licenciamento ambiental. Durante o debate, lembraram que bilhões de reais já foram destinados à estrutura logística ligada à hidrovia, enquanto estudos seguem em discussão. Também surgiram questionamentos sobre a baixa geração de empregos do modelo proposto e a ausência de representantes da sociedade civil nos órgãos de acompanhamento. Kemp defendeu mais estudos e pediu a suspensão da obra até que os impactos sejam esclarecidos. 

ANIVERSARIANTES 

Geraldo Palhano Maiolino;
Paulo Roberto Álvares Ferreira;
Rejane Amorim Monteiro Mishima;
Fabiana Martins Jallad;
Ludmila Guimarães de Almeida;
Aluízio de Albuquerque;
Nicolas Godoy;
Valentina Toshiko Nomura Oyadomari;
Adão Nerez Marques;
Ieda de Oliveira Freitas;
João Carlos Nocera;
Dra. Maristela Harume Ogatha;
Armando Eijo Oshiro;
Roger Azevedo Introvini;
Sergio Romero Bezerra Sampaio;
Sivalte Carvalho da Silva;
Ricardo Arguelho de Queiroz;
Raulindo dos Santos;
Roney Hudson Valentim Fagundes Moreira;
Nilza Batista Siqueira;
Emilio Chehade Ibrahim Elosta;
Dr. Waldemar Casuo Abe;
Eduardo Rafael Fregatto;
Ademir Dias;
Thais Alfonso Matos;
Lauro Takeshi Miyasato;
Manoel Barbosa;
Antonio Claudio Duarte Mendes;
João Batista da Silva;
Roberta Somensi;
Eulina Espíndola;
André Luiz de Souza Anzoategui;
Maria Rodrigues Correa;
Marcos Assunção de Freitas;
Henrique Pires de Freitas;
Marina Giacomini;
Regis Lamas de Morais;
Generoso Pereira de Arruda;
Elcy Figueiredo Nunes de Barros;
Paulo Batista;
Antonio Lucas Brito Lustosa;
Jair da Conceição;
Valeria Alves Leão;
Wilson Rosilho;
Dr. Claudio Vinicius Sorrilha;
Luiza Kanashiro;
Gilson Perrupato de Souza;
Joaquim Olegário Almeida;
Antonio Firmino Ferreira Melo;
Cícero Gomes Coimbra;
Jessé Duarte Passos;
Nilda Rodrigues Cubel;
Alexandra Vilalba Duarte;
Maria Tagliari;
Oldemar Sanches;
Erone Amaral Chaves;
Meire Takimoto;
Regina de Souza;
Jofeli Paes de Carvalho;
Márcia do Vale Fernandes;
Wanderley Barros de Almeida;
Noemia Barbosa Navas;
Dr. Patrick Costa Vieira;
Vera Rute Pereira;
Maria Antonia Oliveira de Souza;
Varlene Rodrigues da Silva;
Paulo Márcio Silveira;
Paolla Menezes Moreira;
Neide Furquim de Oliveira;
Fábio Portela Machinsky;
Ademar Trelha;
João Henrique Maia;
Helena Florípedes Assunção;
Mário Sérgio da Costa;
Dra. Luciana Ramires;
João Vieira de Almeida Neto;
Reynaldo Passanezi;
Cleide Aparecida de Souza Leão;
Mariana Bernardy;
Carlos Alberto Avalos Cabanha;
Suzy Margareth Guilherme Rosalino;
Silvio Bueno Pereira;
Neuzinete Aparecida Montalvão;
Elton de Campos Galindo;
Carla Roa de Medeiros Guimarães;
Aleixo Fernandes Brugeff;
Eduardo Humberto Fernandes Brugeff;
Paula Barcellos Rodrigues;
Dra. Cibelle Olarte Dittimar;
Dr. Lucio Rogério Costa de Paula;
Hélio Sacht;
Márcia Cristina Chita do Espirito Santo;
Luiz Aranha de Albuquerque Júnior;
Cleide Barbosa de Araujo Adania;
Eduardo Cação;
Daniel Hidalgo Dantas;
Karla Danielle de Albuquerque Arruda;
Wolney Sandim Borges;
Délcio Ruiz Barbosa;
Márcia Mariko Asano;
Eusa Helena Medina Yano;
Guilherme Kaiper Cruz de Faria;
Anapaula Souza Moreira Stagliano;
João Marcos Arruda Dassoler;
Mário Massahide Goto Junior;
Rosana Paradeira Satti Donega. 

Colaborou com Tatyane Gameiro

Lançamento literário

Suicídio indígena é tema do novo livro do poeta e teatrólogo Américo Calheiros

Obra do poeta e teatrólogo transforma em versos a dor provocada pelos altos índices de suicídio entre os povos originários e propõe reflexão sobre uma das mais graves questões sociais de Mato Grosso do Sul

08/06/2026 08h30

O título

O título "Suicígena" é um neologismo criado por Américo Calheiros que traduz a essência da obra Foto: RAQUEL DE SOUZA

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Amanhã será lançada uma obra que promete provocar reflexão e ampliar o debate sobre uma das mais delicadas questões sociais do Estado. O poeta, escritor e teatrólogo Américo Calheiros lança o livro “Suicígena”, publicação que reúne poemas inspirados na realidade enfrentada pelos povos indígenas de Mato Grosso do Sul, especialmente diante dos elevados índices de suicídio registrados entre essas populações.

O evento acontece a partir das 19h, na sede da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras (ASL), em Campo Grande, com entrada gratuita e aberta ao público.

Publicado pela Life Editora, o livro surge como um manifesto poético diante de uma realidade que há décadas desafia autoridades, pesquisadores, lideranças indígenas e organizações de direitos humanos.

A motivação para a criação da obra nasceu do impacto causado pelos números divulgados pelo Relatório de Violência contra os Povos Indígenas no Brasil, elaborado pelo Conselho Indigenista Missionário (Cimi).

Conforme os dados referentes a 2022, Mato Grosso do Sul registrou, em média, 24 casos de suicídio para cada 100 mil habitantes indígenas.

O índice é três vezes superior à taxa observada na população brasileira em geral, que no mesmo período foi de 8 casos a cada 100 mil habitantes, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública.

Foi diante dessa realidade que Américo Calheiros encontrou na poesia uma forma de expressar sua inquietação e contribuir para que a temática alcance novos espaços de discussão.

O próprio título do livro sintetiza essa proposta. “Suicígena” é um neologismo criado pelo autor a partir da fusão parcial das palavras “suicídio” e “indígena”, dando origem a um conceito que traduz a essência da obra.

“É a síntese perfeita do espírito do livro, cuja ideia surgiu sob a égide dos suicídios indígenas em Mato Grosso do Sul, à medida que fui tomando contato, pela imprensa, desse fato e também das precárias condições de vida dos indígenas, que são o imediato pano de fundo dessa situação e fator determinante para a perda da vontade de viver das populações indígenas”, resume o autor.

Embora o tema central seja o suicídio indígena, Calheiros explica que o livro também se debruça sobre elementos que envolvem a cultura, a identidade e a resistência dos povos originários. Segundo ele, trata-se da primeira vez que sua produção literária aborda diretamente essa temática, motivada pela necessidade de ampliar a conscientização da sociedade.

“Foco de preconceitos dos mais diversos, de assoladora discriminação, do desinteresse e da desconsideração dos poderes constituídos, a população indígena foi, no decorrer da história, alvo dos maiores genocídios, que quase a exterminaram. Movido pelo sentimento que tudo isso me provocou, recorri à manifestação poética para tocar mentes e corações alheios à essa questão”, afirma.

CONSCIENTIZAÇÃO

Em “Suicígena”, a poesia assume o papel de transformar estatísticas em experiências humanas, revelando as consequências do preconceito, da exclusão social e dos conflitos por terra que marcam a realidade de diversas comunidades indígenas em Mato Grosso do Sul.

O Estado concentra uma das maiores populações indígenas do País, reunindo povos como guarani, kaiowá, terena, kadiwéu, kinikinau, ofaié e atikum, entre outros.

Nas últimas décadas, a disputa por territórios tradicionais e as dificuldades relacionadas ao acesso à saúde, à educação, ao trabalho e à preservação cultural se tornaram fatores frequentemente apontados por especialistas como elementos que contribuem para o agravamento de doenças mentais.

A obra de Américo Calheiros não pretende oferecer respostas definitivas acerca desse problema, mas provocar reflexão e incentivar o diálogo sobre a necessidade de políticas públicas mais efetivas.

“A sociedade mundial tem uma dívida incomensurável com os povos originários. Claro que as vozes indígenas já estão dizendo o que precisam e o que querem, só precisam, efetivamente, ser ouvidas. Se a minha poesia contribuir, que seja um pouco, com essa causa, fico feliz”, detalha Calheiros.

A apresentação do livro ficou a cargo da escritora e ensaísta Ana Maria Bernadelli, integrante da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras, que define a obra como um exercício de sensibilidade e compromisso social.

“A poesia contida na obra não busca o consolo fácil nem a metáfora ornamental. Ela é lâmina afiada e brasa sobre a pele da indiferença. O poeta Américo Calheiros, ciente da responsabilidade de sua voz, transforma em palavra o luto e a dor dos indígenas que, despojados de suas terras, de seus deuses e de sua dignidade, veem na morte seu último refúgio”, define.

O AUTOR

Professor e teatrólogo, Américo Calheiros é formado em Letras pela antiga Faculdade Dom Aquino de Filosofia, Ciências e Letras (FUCMT) e realizou especialização na Escola Martins Pena de Teatro, no Rio de Janeiro. Há décadas radicado em Campo Grande, dedicou 18 anos ao magistério em escolas de primeiro e segundo graus da Capital.

Sua atuação, entretanto, extrapola a sala de aula e a literatura. Ao longo da carreira, participou ativamente da formulação de políticas culturais e do fortalecimento das artes no Estado.

Entre suas contribuições está a coordenação da comissão executiva responsável pelos festejos do primeiro centenário de Campo Grande.

Também criou o Grupo Teatral Amador Campo-Grandense (Gutac), iniciativa que ajudou a implantar o teatro como ferramenta educativa na Rede Municipal de Ensino, despertando em inúmeros estudantes o interesse pelas artes cênicas.

Américo ainda presidiu a Fundação Municipal de Cultura, Esporte e Lazer de Campo Grande (Funcesp) e a Fundação de Cultura de Mato Grosso do Sul (FCMS), além de desenvolver diversos projetos culturais, entre eles, o programa Cesta Básica da Cultura, voltado à democratização do acesso às manifestações artísticas.

Sua produção literária reúne diferentes gêneros e temas, passando por poesia, contos e crônicas.

Entre os títulos publicados estão “Sem Versos”, “Memória de Jornal”, “Da Cor da Sua Pele”, “A Nuvem que Choveu”, “Poesia pra que Te Quero”, “Na Virada da Esquina” e “Campo Grande Aquarela de Luz – Patrimônio Vivo”.

O reconhecimento por sua contribuição à cultura sul-mato-grossense também veio por meio de homenagens institucionais.

Em setembro de 2010, recebeu da Assembleia Legislativa o título honorífico de cidadão sul-mato-grossense.

Em 2015, passou a integrar o Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso do Sul e, atualmente, ocupa a Cadeira nº 7 da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras, anteriormente pertencente ao saudoso acadêmico padre Félix Zavattaro.

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