“Muito mais tranquilo, muito mais limpo e nos atenderam muito melhor aqui”, disse a turista argentina, acomodada em uma cadeira de praia nas areias de Ipanema, em entrevista para uma emissora de TV brasileira em dezembro do ano passado. Dois meses depois, a praia que inspirou e viu nascer a bossa-nova – e que segue como palco de uma permanente revolução cultural e comportamental – emplacou o segundo lugar no ranking que o guia Lonely Planet preparou para um novo livro temático.
Em “Best Beaches: 100 of the World’s Most Incredible Beaches”(“Melhores Praias: 100 das Mais Incríveis Praias do Mundo”, em tradução para o português), somente a The Pass, praia que fica em Byron Bay, na Austrália, está na frente de Ipanema. E olha que, sem querer polemizar, a Austrália é o país-sede do Lonely Planet, que surgiu apenas como publicação impressa, em 1973, e tem atualmente forte presença também na produção audiovisual e nos meios digitais.
No domingo, quase no apagar das luzes do verão, que oficialmente se encerrou ontem, Ipanema recebeu a visita de Helô Pinheiro, a modelo brasileira que inspirou a famosa canção de Vinicius de Moraes e Tom Jobim, “Garota de Ipanema”. Aos 80 anos, Helô curtiu a brisa com uma de suas netas, Bruna, e fez a praia saborear mais um tempinho de holofote na imprensa e nas redes sociais.
TUDO GOSTOSINHO
Mas, afinal, o que é que Ipanema tem? Quem responde são os fãs ardorosos da charmosa praia que moram em Campo Grande e não perdem uma chance de, sempre que possível, dar as caras na faixa de areia de menos dois quilômetros, que se estende da Pedra do Arpoador ao Jardim de Alah.
“Ipanema, sem dúvida nenhuma, está entre as melhores praias do Brasil. Realmente, é uma das mais incríveis, por mais que tenha as suas contradições nesse lugar da praia urbana, entre poluição e sociedade e injustiças sociais. Há outras praias interessantes, evidentemente, mas dá para entender quando Ipanema é escolhida entre as melhores praias do Brasil”, afirma o ator e diretor de teatro Fernando Lopes, carioca de nascimento e radicado em Campo Grande há quase duas décadas.
“Eu sou frequentador do Posto 9 há muitos anos. Ali, eu tenho amigos, tenho histórias. Quando eu morei no Rio, tinha uma relação muito fina com o Arpoador, com o Leme e com o Posto 9 em Ipanema”, diz o encenador teatral, que não se furta a listar, no ranking pessoal, outras praias do Rio, a exemplo de Grumari e da Prainha.
“Ipanema tem esse lugar do tudo gostosinho. Não é à toa que o maior bloco de carnaval que circula pela cidade do Rio e em Ipanema chama-se Simpatia É Quase Amor. Então, Ipanema tem esse lugar ainda. Se você vem, eu que sou carioca da zona oeste do Rio, nascido em Campo Grande, quando eu vinha de Campo Grande pela orla, vem pelo Recreio, Barra, São Conrado. Quando vira Leblon e Ipanema, tem aquela juventude, surfistas, futevôlei na praia. Quando você vira para Copacabana, já são os idosos jogando peteca”, descreve Lopes.
Nota do repórter: não confundir o bairro carioca ao qual se refere o ator com a capital de MS.
“Então, Ipanema é ‘simpatia é quase amor’ de todos os cariocas e de quase todos os brasileiros que moram ou conhecem Ipanema. E por que simpatia é quase amor? Porque amor é Copacabana ainda, né? E o amor é velho. E ‘simpatia é quase amor’ é mais moderno. Embora Roberto Carlos more na Urca, diria que Copacabana é Roberto Carlos e Ipanema é Tom Jobim e Vinicius”, compara.
“Quer dizer, Ipanema tem o charme da bossa-nova ainda. É um bairro de cultura leve, de cultura charmosa, com a Casa de Cultura Lauro Alvim, por exemplo, que é na beira da Praia de Ipanema, uma casa de cultura com um cineminha gostosinho, dois teatros gostosinhos. Tudo gostosinho. Ainda tem esse brilho no olho ali. É um bairro supergostoso de caminhar [a] qualquer hora do dia”, desmancha-se Lopes.
ICÔNICA
“Cresci no Rio de Janeiro e pude curtir algumas praias e verões fantásticos na Cidade Maravilhosa. Ipanema sempre foi uma praia icônica, desde o seu início no Arpoador até o Jardim de Alah. Marcávamos os encontros pelos pontos ‘Country’, ‘Garcia D’Ávila’, ‘Farme’, ‘Castelinho’, entre outros”, conta o escritor Henrique de Medeiros, que fez grande parte de seus estudos no Rio de Janeiro e também é fã declarado da praia estrelada.
“Uma galera de setenta e oitenta, onde tudo aconteceu e gerou o comportamento e as liberdades de hoje. Lembro muito da época do Pier, que foi um tempo muito especial na paisagem de Ipanema e no comportamento daquela geração. Continuo frequentando até hoje, quando vou ao Rio, e Ipanema foi e é esse ícone de referência internacional com a imagem Jobim-Vinicius da garota de Ipanema”, afirma Medeiros.
“É frequentada por gente diversa que discute assuntos diversos: a legalização das drogas, a homossexualidade, o feminismo. Pensar aqui na Leila Diniz de topless. Quando eu penso em Ipanema, só me vem coisa boa. É claro que todos os defeitos de ser uma praia urbana, e em uma cidade como o Rio de Janeiro, cheia de contradições, estão lá. Você tem as injustiças também todas. As babás de branco, negras ainda, a orla escravocrata, aquele lugar que vem ainda dessa relação de trabalho entre a classe média branca e os negros ali”, pondera Fernando Lopes.
“Ipanema ganhou muita notoriedade com as novelas de Manoel Carlos. É um fascínio cosmopolita. Você tem uma praia urbana, ainda sem grandes arranha-céus, embora os prédios sejam altos. Você encontra ainda casas. Uma praia urbana com essa característica ainda de veraneio. Esse é um fascínio que figura na mente das pessoas. Caminhar pela orla de Ipanema até a subida da Niemeyer, o Jardim de Alah, o encontro da Lagoa Rodrigo de Freitas com a praia”, diz o encenador, que dirige a Estação Cultural Teatro do Mundo.
É, SIM, A MELHOR
“O Rio de Janeiro é a minha segunda terra, amo aquele lugar. Ipanema é beleza, água de coco e conversa. É a praia que eu vou de manhãzinha de bicicleta dar um mergulho. Gosto da praia de Ipanema vazia, mas às vezes também vou no agito do fim de semana e fico até o clássico pôr do sol. Dei meu primeiro mergulho do ano lá. Acho que a essência do charme da mulher e do homem carioca está nessa praia. Pelo conjunto da obra, é, sim, a melhor praia do Brasil”, atesta a atriz Beatrice Sayd.
Conhecida por interpretar personagens de impacto no teatro e na tevê, como a empregada doméstica Edilene, da novela “Amor de Mãe”, Beatrice vive na ponte MS-RJ e, enquanto se prepara para dar vida à artista Lídia Baís no cinema, pilota com parceiros dois novos projetos teatrais em território carioca.
“Costumo ir uma vez ao mês para lá. Eu morei no Rio desde os 18 anos e voltei para Campo Grande no fim de 2022, para cuidar da minha mãe. Tenho um apartamento na Lagoa”, conta a atriz campo-grandense de 45 anos.
Nas imagens desta página, Beatrice, Henrique e Fernando estão in loco na Praia de Ipanema.



Dra. Bruna Gameiro

