Correio B

CAUSOS DA BOLA

Correio antecipou em 1982 denúncia da 'Máfia da Loteria' em MS

Jornal soltou um mês antes de revista fato que marcaria jornalismo brasileiro

RAFAEL RIBEIRO

25/01/2019 - 20h35
Continue lendo...

Em outubro de 1982, a revista Placar chegava às bancas brasileiras para entrar na história. 

Reportagem de Sérgio Martins escancarou o que viria a ser conhecido como 'Máfia da Loteria': ou seja, um grupo de apostadores do principal jogo de azar da épóca fraudava resultados de partidas para poderem ganhar o prêmio máximo acretando os resultados dos 13 jogos que formavam as apostas dos concursos.

A denúncia rodou o mundo, virou um case de sucesso no jornalismo e até hoje é citada em faculdades como exemplo a ser seguido.

Mas, o que não se sabe pela maioria das pessoas, é que em Mato Grosso do Sul já se sabia da atuação da tal máfia, visto que o caso veio à tona um mês antes pelo Correio do Estado, em reportagem citada pela 'Placar' nas suas linhas que ganhariam a história.

"Biluca tentou subornar dois operarianos", estampava a manchete dos dias 18/19 de setembro daquele ano.

Chamada de 'Gang da Loteria' pelo jornal, é noticiado que o ex-zagueiro do próprio Operário tentou subornar dois jogadores, os atacantes Pastoril e Baianinho, para um clássico contra o Comercial, que aconteceria naquele final de semana, pelo Estadual daquele ano, vencido pelo Manda Brasa, que quebrou uma hegemonia de seis títulos do rival alvinegro (sendo três deles pelo campeonato do Mato Grosso unificado antes da divisão oficial).

A DENÚNCIA

Conforme estampou o Correio em sua edição bomba, a denúncia partiu de Pastoril, ídolo dos dois rivais campo-grandenses, revelado pelo Vasco e que até hoje mora na Capital.

Na manhã do dia anterior à reportagem, ele procurou o então diretor de futebol do Operário, Irineu Farina, para denunciar o esquema: uma oferta de 10 milhões de cruzeiros (cerca de R$ 3,7 mil em valores atuais) para ajudar a dar Comercial no clássico.

A grande surpresa para os jornalistas, segundo relata o jornal, foi o homem acusado pelo suborno: Biluca, um dos heróis da histórica campanha de 1977 do Mais Querido, terceiro colocado naquele Campeonato Brasileiro (história que ainda vamos tratar nessa coluna nobre leitor).

"Graças a Deus estou bem no Operário, ganho um bom salário, sou pobre, mas prefiro continuar assim, vivendo honestamente", disse Pastoril, após relatar o caso em detalhes (leia abaixo).

O ex-zagueiro foia lém e sugeriu que o colega conversasse com o ponta-direito daquele elenco, Baianinho, que sequer fora procurado pessoalmente. "É doloroso saber que existemdessas coisas no futebol brasileiro, sujo nível está caindo cada vez mais ao invés de voluir", disse o jogador.

Farina, visivelmente irritado, no relato da reportagem, disse "que há muito tempo já suspeitava do envolvimento de Biluca com a gang da Loteria Esportiva." "Faltava apenas uma prova. E agora está tudo claro. Tanto é que o Operário já denunciou o caso à Polícia Federal", disse.

Não demorou para a PF dar uma resposta. No dia 21 daquele mês, o caso foi oficialmente arquivado, por falta de provas, conforme estampava o Correio no topo de sua página de esportes.

O delegado federal Antônio Martinez Perez, responsável pelo processo, decidiu pelo arquivamento diante da falta de provas até mesmo para a tentativa de suborno a Pastoril pelo telefone.

Biluca, que chegara ao Operário vindo do América-RJ e ficara no Galo até 1979, se defendeu como pôde nas duas reportagens publicadas pelo Correio. Na histórica 'Placar', contudo, conversas suas com apostadores foram expostas.

Em tempo, o Comerário polêmico terminou com empate por 1 a 1, com o ex-zagueiro entre os presentes no Morenão para acompanhar o jogo.

O ESCÂNDALO

A Loteca, que existe ainda hoje, foi regulamentada no Brasil em 25 de março de 1970 e é realizada desde 19 de abril, quando foi feita uma rodada experimental no extinto estado da Guanabara, com prêmio fixo de 200 mil cruzeiros novos (cerca de R$ 73 em valores atualizados) e 100 mil bilhetes distribuídos. O jogo número um foi um clássico Flamengo e Fluminense. As vendas de apostas foram feitas em 48 barracas improvisadas.

Naquela época, era necessário acertar os resultados de treze jogos selecionados pela Caixa para ganhar o prêmio. Durante a fase experimental, era possível até marcar treze palpites triplos (quando todas as colunas são marcadas em uma linha), mas ninguém chegou a fazer os treze pontos — as chances matemáticas eram de 1:1 594 323 para obter o feito. Oito apostadores foram premiados com doze pontos e dividiram o prêmio líquido, com cada um recebendo cerca de 10 mil cruzeiros novos (R$ 4 hoje). Outras rodadas experimentais foram realizadas em 3 de maio, também na Guanabara, e em 17 de maio, em São Paulo, Belo Horizonte e Brasília.

Oficialmente, os bolões começaram em 7 de junho, que foi também a primeira vez em que foram acertados treze pontos. O futebol já era febre no País, antes mesmo de a Seleção Brasileira ter faturado sua terceira Copa do Mundo, o que gerou muitas filas nas casas de apostas. O jogo mínimo custava 2 cruzeiros novos, com um duplo; o jogo com um triplo custava três cruzeiros novos.

O apostador preenchia um cartão e entregava-o na lotérica, que usava uma máquina manual da IBM, chamada Port a Punch, para furar dois cartões, um dos quais ficaria como comprovante com o apostador.Ao final de todos os jogos de domingo, um computador da Caixa Econômica Federal processava as apostas, em "apenas" dezessete minutos, de acordo com a revista Placar. O computador seguia lendo cartão por cartão até encontrar um com nove pontos (o mínimo para o prêmio ser rateado) e, então passava a separar todos os cartões com nove pontos até achar algum com dez; a partir daí seguia o mesmo processo, em busca de cartões com onze, doze e, eventualmente, treze pontos.

Segundo dados da própria Caixa, Campo Grande teve exatos e curiosos 13 acertadores da Loteca entre 1970 e 1984. Os dados, porém, são imprecisos, visto que a loteria só chegou em meados de 1971 e os prêmios eram pagos (e contabilizados) por Cuiabá até 1977.

Em 1978, no auge de popularidade da Loteria Esportiva, surgiram os primeiros boatos sobre uma máfia armada entre apostadores que se revezavam e faturavam prêmios gordos em dinheiro.

A coisa chamou a atenção primeiro pelo 'Jornal da Tarde', extinto jornal de São Paulo (SP), que denunciou um jogador que teria sido comprado da Francana, clube interiorano que estava nas primeiras divisões dos campeonatos Paulista e Brasileiro naquele ano, mas assim como no caso do Operário, a coisa foi arquivada por falta de provas. Mas elas viriam.

Em 1979, Milton Coelho da Graça, então diretor de redação da revista Placar, comentou com Juca Kfouri, então editor de projetos especiais e que cuidava da seção sobre a Loteria Esportiva, que vinha notando algumas coincidências quando poucas pessoas ganhavam em um teste.A pedido de Milton, Juca foi a Brasília (DF) pedir para ver os bilhetes premiados, mas o pedido foi negado, com a alegação de sigilo bancário.

Nesse mesmo ano, Milton deixou a Editora Abril, que publicava 'Placar', e Juca foi promovido a seu posto. Ainda com as suspeitas em relação à Loteria Esportiva, todo o fim de mês provocava a redação: "Quem é o macho para descobrir a sacanagem da Loteria Esportiva?" Mas ninguém se pronunciava.[18] Em outra viagem a Brasília, pediu novamente para ver os cartões ganhadores. Desta vez, mostraram-lhe alguns: "Nego colocava jogo triplo em partida que se cravaria seco", conta Juca. "Corinthians × Juventus, triplo. Flamengo × Olaria, triplo. Vasco × Botafogo, Vasco. Atlético-PR × Coritiba, Coritiba. Inter × Livramento, triplo. Não é possível. Eles cravam triplo em jogo fácil e seco para jogo difícil. Tem alguma coisa estranha nisso", disse o jornalista, atualmente na 'ESPN Brasil' e 'Folha de S. Paulo' em seu livro, "Confesso que perdi".

O volante de apostas da Esportiva nos anos 1970: todomundo jogava em busca do sonho de virar milionário

Quando comentou suas suspeitas na redação, no dia seguinte, conseguiu um voluntário para a empreitada: Sérgio Martins. Juca deu a ele prazo de um ano, cumprido à risca: no número 648, de 22 de outubro de 1982, foi publicada extensa reportagem sobre o caso, com denúncias de corrupção e manipulação de resultados. 

Doze páginas de nitroglicerina pura sobre um escândalo gigantesco, abarcando mais de uma centena de pessoas do universo do futebol.

Um trabalho de formiguinha de Sérgio Martins, que venceu o Prêmio Esso de jornalismo e farejou pista de uma quadrilha em Santos e, a partir daí, passo a passo, montou o quebra-cabeça de uma história assaz alarmante.

"A Loteria Esportiva é séria até a bola rolar", admitiu o radialista Flávio Moreira, um dos envolvidos e que foi denunciante que topou expor toda a mutreta. Nenhum dos 125 denunciados, entre jogadores, dirigentes, árbitros, técnicos e personalidades, foi preso. 

O petardo jornalístico de 'Placar' foi sucesso absoluto leitores e a opinião pública. O mesmo não ocorreu entre a chamada grande mídia, que preferiu contestar a reportagem em vez de cavar ainda mais fundo.

A simpática zebrinha da 'Globo' estreou em 1978, ápice da popularidade da Loteca, e até hoje é lembrada pelos fãs de futebol

“Durante uma semana, apanhamos mais que Judas Iscariotes. Foram páginas e páginas de jornais repletas de desmentidos. Diariamente o Jornal Nacional mostrava os denunciados com suas versões. Placar, cuja edição vendera mais de 300 mil exemplares, era acusada de trair o futebol brasileiro, e a Caixa Econômica atestava a credibilidade da loteria que bancava”, conta Juca, em suas memórias.

O desfecho da história você já deve imaginar…

Pois é: não deu em nada!

As edições seguintes de 'Placar' trouxeram novas revelações e personagens. Porém, após mais de três anos de investigação, a Polícia Federal deu por encerrado o caso com somente 20 pessoas indiciadas. A tradicional lerdeza da Justiça fez com que os crimes prescrevessem e ninguém foi punido.

O gerente de Loterias da Caixa em 1989, Juarez José de Lima, garantiu à época que o escândalo não chegou a abalar a loteria. Mas os tempos áureos do jogo jamais voltaram, seja pela descrença de que seja 100% limpo para os mais antigos ou a rivalidade com outras loterias, como Loto e Sena, para os mais jovens.

A histórica Placar de 1982: Prêmio Esso e mancha eterna na credibilidade do futebol brasileiro

*Amigos e amigas leitores do Correio do Estado, o Campeonato Estadual de futebol de Mato Grosso do Sul começou. E, para embalar a bola que vai rolar pelos gramados, temos o prazer de apresentar a vocês nossa nova coluna: 'Causos da Bola'.

Semanalmente, sempre aos sábados, convidamos você a viajar no tempo da história esportiva sul-mato-grossense através dos 64 anos acumulados nas páginas do jornal mais tradicional e querido do Estado.

Embarque com a gente nesta máquina do tempo e reviva junto conosco o que de melhor nosso arquivo tem a oferecer sobre os fatos esportivos. 

Legenda da Foto

Diálogo

Pelo andar da carruagem, a Justiça Eleitoral terá trabalho redobrado nas... Leia na coluna de hoje

Leia a coluna desta quarta-feira (5)

05/08/2026 00h02

Diálogo

Diálogo Foto: Arquivo / Correio do Estado

Continue Lendo...

Isabel Allende - escritora chilena

"A vida é puro ruído entre dois silêncios abismais. Silêncio antes de nascer, silêncio após a morte”.

FELPUDA 

Pelo andar da carruagem, a Justiça Eleitoral terá trabalho redobrado nas próximas eleições. Adversários estarão de olho em cada movimento dos concorrentes, munidos de binóculos de alta precisão. Qualquer detalhe poderá ganhar dimensão de denúncia, dependendo do olhar de quem estiver do outro lado. E a ironia corrre solta. Tipo: Atenção! Bebeu água gelada e deu mau exemplo, afetando a garganta dos idosos? Na disputa eleitoral, até o que parece irrelevante começa a ganhar importância. E desse jeito, logo vão precisar fiscalizar até quem espirrou fora de hora. Afe!

Diálogo

Unha e dedo

Os adversários do PT estão se divertindo com a aproximação entre Fábio Trad e Zeca do PT, principalmente porque a memória política tem dessas coisas: não costuma respeitar alianças de ocasião. Foi Trad quem ajudou  a derrubar a aposentadoria para ex-governadores.

Mais

A medida atingiu diretamente Zeca, que na época não economizou nos adjetivos contra, digamos, o seu algoz. Hoje, porém, os dois aparecem lado a lado. O tempo cura feridas, dizem. Em ano eleitoral, parece que também fornece esparadrapo, porque os dois estão grudados que só.

Diálogo Gleda Brandão Martins de Araújo, que comemora idade nova hoje - Foto: Arquivo Pessoal

 

DiálogoBarbara Guedes Nespoli - Foto: Arquivo Pessoal

Quem te viu...

Com as chapas definidas, algumas candidaturas chamam mais atenção que outras. Uma delas pertence à quem, tempos atrás, distribuiu críticas aos deputados com mais de 60 anos e chegou a dizer que a Assembleia não era “casa de repouso”. Agora, disputa vaga na Câmara Federal por um partido que abriga alguns dos veteranos que eram alvos de suas alfinetadas. Desde então, o discurso sobre renovação entrou em discreto silêncio. 

Realidade

O recuo de Nelson Trad Filho também enterrou o plano do MDB de indicar o ex-ministro Marun para a suplência ao Senado. Sem espaço na chapa majoritária, o partido oficializou apoio à reeleição do governador Riedel e voltou suas atenções para a eleição de deputados estaduais. Lideranças admitem que o cenário para a Câmara Federal é pouco favorável. O contraste evidencia a perda de protagonismo de um partido que já foi uma das maiores forças políticas de MS.

Confirmadas

O Republicanos homologou o nome do vice-governador Barbosinha para disputar a reeleição na chapa de Eduardo Riedel. A decisão confirma cenário antecipado pelo Correio do Estado ainda em julho de 2025, quando a permanência do vice na chapa já era tratada como provável. Na mesma reportagem, também foram apontadas a saída de Reinaldo Azambuja do PSDB para o PL e a reorganização do grupo governista. As previsões acabaram se confirmando um ano depois. Como se vê...

ANIVERSARIANTE 

  • Gleda Brandão Martins de Araujo, 
  • Joana Carvalho, 
  • Guilherme Ferreira de Brito,
  • Solange Regis Wanderley, 
  • Luciana Rodrigues, 
  • Cristiane Ramos Rodrigues Palacios, 
  • Conceição Nogueira Silva, 
  • Robson Jara Ottano,
  • Elbio Afonso Meneghel,
  • Fatima Regina Silva Correa,
  • Irene Corrêa Nogueira Marques Machado,
  • Jorge Massamori Miura,
  • Marco Antônio Casadei,
  • Pedro Isao Costa Muta,
  • Magnólia D’ Mó Domelles Bordignon Tokikawa,
  • Cleunir Tadeu Florêncio,
  • Juvenal Valentim,
  • Leonardo Planez Diniz,
  • Gilberto Emanoel da Silva,
  • Sílvio Colombelli,
  • Lídio Nogueira Lopes, 
  • Diva Maria Atallah, 
  • Wellighton Fernandes Varela,
  • Gervasio Tadashi Karimata,
  • Marlene Vicente da Silva,
  • Wesley Neres da Silva Campos,
  • William Rodrigo Rechimbach Paim,
  • Lucia Cristina Morel Fai,
  • Eliane Teixeira de Almeida,
  • Matheus Martelli, 
  • Zany Pereira de Castilho,
  • Eduardo Crivellente Neto, 
  • Mirna Sandra Di Giacomo Adri, 
  • José Carlos Manhabusco, 
  • Alvaro Coelho de Paula, 
  • Fauze Antônio Moaccar Orro,  
  • Aparecida Borgo,
  • Leila Mansur Saad,
  • Ésio Vicente de Matos, 
  • Gilson Alves de Souza,
  • Jéssica Monteiro Ferzeli, 
  • Zenilda dos Santos Alcântara,
  • Loacir da Silva,
  • Marcelo Câmara Rasslan, 
  • Dr. Leandro Pedro de Melo,  
  • Dra. Livia Maria de Souza,
  • Ruth dos Santos Pires,
  • Dr. Roberto Tambelini, 
  • Tomaz Soares Aragão,
  • Eluanyr de Lara e Souza,
  • Sandra de Abreu Marques,
  • Adélia Paredes Pacheco,
  • Tânia Maria Albuquerque,
  • Arituza Corrêa Alvarenga,
  • Wolmer Tardin Filho,
  • Iracema Amâncio Bezerra,
  • Edimilson Malangoli,
  • Luciene Estevão de Andrade,
  • José Franzini,
  • Sonia Maria de Andrade,
  • Ítalo Borges,
  • Aparício Rodrigues de Almeida Junior,
  • Renato de Souza Coelho,
  • Dr. Onofre Cândido Rosa, 
  • César Antonio Guazzelli,
  • Daniela Vieira Perez, 
  • Dra. Emmanuella Nunes da Costa,
  • Maria Helena Charbel, 
  • Telmo Verão Farias,
  • Cândido Ottoni,
  • Jeferson dos Santos Souza,
  • Celeido Carlos Vargas,
  • Celsomilio dos Reis Fraga,
  • Maria Rita Ferreira de Almeida,
  • Vicente Custódio da Silva,
  • Idaici Simão Kehdy Nascimento,
  • Maria Cleide Espíndola da Cunha,
  • Lorena Assis,
  • Maria José Carvalho,
  • Paula Rodrigues Lima,
  • Rosa Maria Vieira,
  • Meire Oliveira Bandeira, 
  • Eliane Cristina Junqueira Nelli,
  • Anderson Barbosa Passos,
  • Débora Maciel,
  • Osvaldo Consalter,
  • Marcelo Crepaldi Dias Barreira,
  • Soraya de Oliveira da Costa,
  • Dr. Alberto Kenzi Arakaki, 
  • José Benedito Martins,
  • Eda Maria Furlani Piedade,
  • Sandra Câmara Martins e Souza,
  • Magno Pereira Ozório,
  • Antonio dos Santos de Almeida Filho,
  • Vanessa Fuchs Loureiro,
  • Fábio Santos Ascenço,   
  • Erik Nascimento Sativa,
  • Marcio Kalat Mayer,
  • Eneida de Araujo Schneider,
  • Teresinha Roseli Borelli 
  • Del Guerra,
  • Marcos Andre Egami,
  • Karen Miriam Ide,
  • Eder Marcelo Mochiuti,
  • Luiz Felipe Viegas Josgrilbert,
  • Viviane Sayuri Ogura Arashiro,
  • Ana Carolina Fregonese Barros.

Colaborou com Tatyane Gameiro. 

crônica

Todo mundo sabe...

04/08/2026 09h15

Continue Lendo...

Sabe o que exatamente o que você deveria fazer, o que deveria pensar, como deveria reagir, que remédio tomar, que caminho seguir, onde errou e, naturalmente, como consertar a própria vida. Tudo isso antes mesmo de você terminar a primeira frase.

Ainda outro dia comecei a comentar porque prefiro viajar de um determinado jeito. Não consegui chegar ao ponto principal. Vieram logo as explicações, os conselhos e as soluções. “Você precisa relaxar.” “Está complicando demais.” “Faz assim que dá certo.”

Ninguém perguntou por que eu pensava daquela forma.

Tenho a impressão de que estamos vivendo a era dos especialistas em tudo. Há quem saiba como você deve educar os filhos, cuidar da saúde, administrar o dinheiro, enfrentar um luto, escolher um restaurante, votar, viajar e até envelhecer. Tudo em poucos segundos e sem fazer uma única pergunta.

A internet, claro, ampliou esse fenômeno. Antes, o palpiteiro de plantão ficava restrito à mesa do bar ou ao almoço de domingo. Hoje ganhou plateia, seguidores e algoritmos. Nunca foi tão fácil distribuir opiniões. Nunca foi tão difícil encontrar alguém disposto a ouvir.

O filósofo francês Michel de Montaigne escreveu que “a palavra é metade de quem fala e metade de quem ouve”. Fico pensando se não estamos perdendo justamente essa segunda metade. Já não escutamos para compreender. Escutamos apenas o suficiente para formular uma resposta.

No outro extremo estão os eternamente ofendidos. Uma opinião diferente, uma frase mal colocada, uma brincadeira que não agrada e instala-se o tribunal. Discordar virou ofensa. Contradizer passou a ser falta de respeito. Parece que desaprendemos uma das habilidades mais importantes da convivência: aceitar que o outro pense diferente de nós.

Confesso que percebo esse comportamento com mais frequência desde que entrei na terceira idade. Parece que os cabelos brancos conferem aos outros uma curiosa autoridade para nos explicar a vida. Não é exatamente desrespeito. É uma condescendência apressada, como se experiência tivesse prazo de validade. Como se envelhecer apagasse tudo o que aprendemos pelo caminho.

Curiosamente, quando eu era mais jovem, gostava de ouvir as pessoas mais velhas. Nem sempre concordava, mas havia uma curiosidade sincera sobre o que elas tinham vivido. Hoje tenho a impressão de que muita gente prefere ensinar a aprender.

Talvez o filósofo estoico Epicteto tivesse razão ao lembrar que temos dois ouvidos e apenas uma boca. A natureza parecia saber alguma coisa que nós esquecemos. E talvez seja esse o verdadeiro problema do nosso tempo. 

Não é que todo mundo fale demais. Como lembrava Rubem Alves em seus escritos sobre a arte de escutar, o grande problema é que muita gente não ouve para compreender; apenas espera a vez de falar. 

É que todo mundo já sabe.
 

NEWSLETTER

Fique sempre bem informado com as notícias mais importantes do MS, do Brasil e do mundo.

Fique Ligado

Para evitar que a nossa resposta seja recebida como SPAM, adicione endereço de

e-mail [email protected] na lista de remetentes confiáveis do seu e-mail (whitelist).