Já está disponível para ser baixado o e-book “Entre Fios e Tecelagem: A produção, o uso e as apropriações da faixa paraguaia no Pantanal de Mato Grosso do Sul”, de autoria de Claudia de Medeiros, Daiane Lima dos Santos e Wanessa Pereira Rodrigues.
A obra é o resultado final do projeto Faixa Paraguaia – Tecendo a Nossa História e pode ser acessada gratuitamente pelo site faixaparaguaia.com.br.
A influência da indumentária nos países latinos, as histórias e as trocas culturais envolvendo esse item transfronteiriço, a produção com os diferentes tipos de teares, o passo a passo para a confecção do produto e um pouco do perfil das artesãs do Pantanal que se debruçam sobre essa arte secular são alguns dos vários aspectos abordados pela publicação de 145 páginas.
A obra foi elaborada com o objetivo de preservar o conhecimento secular e difundir a importância da faixa paraguaia na formação da identidade e dos costumes contidos na região pantaneira.
“O e-book não é a finalização de um projeto, mas o começo de uma nova etapa do nosso trabalho de difusão”, anuncia a coordenadora do Ponto de Cultura Sapicuá Pantaneiro e idealizadora do projeto, Claudia de Medeiros.
RECONHECIMENTO E RENDA
“Agora, o próximo passo é buscar o reconhecimento da faixa paraguaia como patrimônio cultural, o que traz uma nova fase”, afirma Claudia, que tem trabalhado arduamente em sua pesquisa para sistematizar a história da faixa paraguaia, cujo conhecimento histórico e de produção por pouco não foram perdidos pelo descaso – aliás, de quem mesmo? – no desenrolar do tempo.
“Inicialmente, quando eu comecei a trabalhar com projetos no [Ponto de Cultura] Sapicuá Pantaneiro, em 2003, eu fiz uma pesquisa em que viajei pelo Pantanal, da Nhecolândia ao Nabileque, e pelas diversas falas das comunidades, a gente identificou que alguns produtos que representam a cultura pantaneira estavam se perdendo”, ressalta a pesquisadora.
Claudia identificou nesse cenário a ameaça do desaparecimento da faixa paraguaia ou pantaneira, como também é denominado regionalmente o artefato.
“Porque quase ninguém mais sabia tecer e estava caindo em desuso por conta de não ter a faixa em oferta. Foi a partir daí que montamos o projeto [Ponto de Cultura] Sapicuá Pantaneiro, voltado para valorizar e difundir esse conhecimento da confecção da faixa paraguaia com as comunidades pantaneiras”, conta.
Todo um trabalho árduo que, relata Claudia com alegria, acabou estimulando outros frutos gerados a partir desses 20 anos de dedicação à pesquisa e à capacitação de artesãs e artesãos pantaneiros em torno da indumentária. Tanto esforço parece ter valido a pena.
Além do e-book, o projeto permitiu, por exemplo, a geração de renda para as comunidades.
NOVELA
“A faixa se tornou o carro-chefe do projeto a partir da adesão das comunidades pantaneiras, em que a gente sempre foi capacitando pessoas, as quais deram continuidade e foram ensinando outras. Com a chegada da novela ‘Pantanal’, veio um marketing muito forte em cima da cultura pantaneira e houve esse destaque da faixa pantaneira, porque hoje ela é usada não só na cintura, mas como elemento que compõe outros produtos”, contextualiza a coordenadora.
Algo que a produtora cultural e muitas artesãs puderam, inclusive, ver de perto. É que Claudia e algumas mulheres pantaneiras, detentoras do conhecimento de produção da faixa pantaneira, assumiram o papel de confeccionar os itens que compuseram o figurino do elenco de atores de “Pantanal”.
Esse trabalho só foi possível pois, “lá atrás”, segundo conta, o Ponto de Cultura Sapicuá Pantaneiro surgiu para se debruçar em uma pesquisa de valorização dos saberes tradicionais de produção do acessório.
Agora, o e-book está disponível para o público em geral e em especial para artistas, artesãs e artesãos que queriam aprender mais sobre a história e o modo de confeccionar esse item de vestimenta tão importante para a cultura, a identidade e a memória do povo pantaneiro.
OFICINAS
“Entre Fios e Tecelagem: A produção, o uso e as apropriações da faixa paraguaia no Pantanal de Mato Grosso do Sul” é um projeto incentivado pelo Fundo de Investimentos Culturais (FIC-MS), com recursos do governo do Estado, e contribuirá para o reconhecimento da faixa paraguaia como patrimônio imaterial do Pantanal feito via Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).
Além do e-book, o projeto também gerou outros produtos, como o fomento da pesquisa cultural voltada à história da faixa paraguaia e as novas oficinas de capacitação de artesãs e artesãos na região do Pantanal, com destaque para a colaboração da arquiteta Luciana Teixeira. Seu trabalho e contribuição também estão registrados no livro digital.
GUERRA DO PARAGUAI
A faixa paraguaia, também chamada de faixa pantaneira, é um legado herdado da cultura fronteiriça após a Guerra do Paraguai ou a Guerra da Tríplice Aliança, como defendem os revisionistas, que ocorreu na segunda metade do século 19.
Além da sua singular beleza, o acessório na vestimenta do homem pantaneiro tem suas funcionalidades próprias.
Enrolada na cintura, ela tem o objetivo de dar sustentação à coluna do peão nas longas cavalgadas, uma vez que seu trabalho implica extensas jornadas no campo, Pantanal adentro.
Ainda, de protegê-lo contra insetos ao vedar o cós da calça contra a picada ou a entrada de bichos, considerando que o bioma pantaneiro é um ambiente de natureza, digamos, pouco “domesticada”.





