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DANÇA

Espetáculo de dança transforma a inquietação de Lídia Baís em poesia corporal

Inspirado na vida e na obra da pintora sul-mato-grossense, "L'Existence Lídia Baís" estreia na terça-feira propondo uma experiência sensível que une memória, imaginação e liberdade

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Antes de contar a história de Lídia Baís, o espetáculo “L’Existence” prefere fazer outra pergunta: o que permanece de um artista depois que sua vida termina?

Em vez de seguir uma cronologia ou reconstituir episódios biográficos, a montagem, que estreia na terça-feira, no Teatro Glauce Rocha, em Campo Grande, aposta na força da dança para revisitar a memória, a imaginação e o legado de uma das artistas mais importantes da história de Mato Grosso do Sul.

Inspirado na trajetória da pintora campo-grandense, “L’Existence – Lídia Baís” propõe uma experiência sensível, na qual personagens inspirados em suas pinturas surgem como fragmentos de uma existência que continua ecoando.

O espetáculo tem sessão única, às 20h, e é realizado com recursos do Fundo de Investimentos Culturais (FIC) do governo de Mato Grosso do Sul.

Mais do que contar quem foi Lídia Baís, a criação convida o público a sentir sua inquietação, sua coragem e a liberdade que marcaram sua produção artística e forma de viver. É um mergulho poético na vida de uma mulher que escolheu fazer da arte a própria existência.

LINGUAGEM DA MEMÓRIA

A riqueza de camadas de Lídia Baís foi o que inspirou a diretora artística e coreógrafa Monique Paes durante o processo de criação de “L’Existence”.

Segundo ela, a montagem nasceu de uma longa imersão na vida e na produção artística da pintora, envolvendo pesquisas históricas, observação de suas obras e experimentações corporais.

“A criação de ‘L’Existence’ nasceu de um mergulho profundo no universo de Lídia Baís. Estudei sua história, contemplei suas obras, ouvi inúmeras trilhas e, acima de tudo, aprendi a me escutar. Cada escolha coreográfica surgiu desse diálogo entre a pesquisa e aquilo que sua trajetória despertava em mim”, explica.

Monique também integrou a equipe do longa-metragem sobre Lídia Baís, atualmente em produção em Mato Grosso do Sul. A experiência ampliou sua compreensão sobre a artista e acabou influenciando diretamente a construção da linguagem cênica do espetáculo.

“Algumas de suas pinturas tornaram-se ponto de partida para a linguagem corporal do espetáculo. Em nenhum momento quisemos biografar sua vida. A intenção sempre foi de revelar ao público o quanto sua trajetória é rica, cheia de camadas, contrastes e perguntas que continuam ecoando no tempo”, afirma.

A proposta, segundo a coreógrafa, é permitir que cada espectador encontre seu próprio caminho dentro da obra.

“Acredito que a arte ganha força quando nos permite sentir antes de compreender. Mais do que contar uma história, buscamos criar uma experiência sensível. Com respeito, admiração e licença poética, apresentamos ‘L’Existence’”, conclui.

INTERPRETAR SEM PALAVRAS

4   Foto 4Toda a narrativa do espetáculo se dá a partir da morte de Lídia Baís e da repercussão póstuma de sua obra - Foto: Milena Yuka

No centro dessa experiência está a bailarina e diretora artística Ana el Daher, responsável por interpretar Lídia Baís em cena.

Ela conta que conhecia apenas superficialmente a artista antes de iniciar o projeto. A pesquisa transformou completamente sua percepção.

“Lídia se tornou para mim uma mulher muito à frente do seu tempo. Ela não aceitava viver dentro das regras impostas pela sociedade, pela família e pelo lugar onde estava. Ela queria muito mais. Foi uma mulher ousada, que foi atrás dos próprios sonhos e das próprias vontades. Hoje, vejo alguém que talvez tenha inspirado muitas outras mulheres na forma de pensar e de agir”, declara.

Levar uma personagem histórica ao palco sem recorrer às palavras foi um dos maiores desafios enfrentados durante o processo criativo.

“A dança não tem o poder da fala. A gente precisa mostrar tudo com a alma. Pouco se sabe exatamente sobre como Lídia era, então, tivemos muito cuidado para construir uma personagem respeitosa e, ao mesmo tempo, sensível. Foi um processo baseado em pesquisas, nos diários, nas pinturas, em relatos e também na orientação de uma historiadora profundamente dedicada ao universo da Lídia”, destaca.

A construção da personagem exigiu um delicado equilíbrio entre fidelidade histórica e liberdade artística. Em vez de reproduzir gestos ou comportamentos documentados, o espetáculo procura traduzir sentimentos, inquietações e estados de espírito presentes na obra da pintora.

CORAGEM

Durante a pesquisa, um aspecto chamou especialmente a atenção da intérprete: a coragem com que Lídia enfrentou as limitações impostas às mulheres de sua época.

“O que mais me marcou foi perceber que ela não se rendia às obrigações impostas para ela. Mesmo sabendo das consequências, ela escolhia viver do jeito que acreditava. Em uma época em que isso era quase proibido para uma mulher, ela teve coragem de romper padrões e seguir o próprio caminho”, pontua Ana.

Essa dimensão da artista ultrapassa a biografia e dialoga com questões ainda muito presentes na sociedade contemporânea. Liberdade, pertencimento, autonomia e identidade aparecem como temas centrais da montagem, que pretende provocar reflexões sem oferecer respostas prontas.

Para Ana, esse talvez seja o maior legado deixado por Lídia. 

“Espero que o público saia curioso para conhecer mais sobre Lídia, mas também sobre si mesmo. Que cada pessoa se pergunte se está vivendo no lugar ao qual realmente pertence. Lídia era inquieta, e gostaria que essa inquietude também permanecesse com quem assistir ao espetáculo”, deseja a artista.

REALIDADE E IMAGINAÇÃO

A estrutura dramatúrgica parte de um ponto simbólico: o último suspiro de Lídia Baís.

A partir desse instante, memória, imaginação e criação passam a se entrelaçar em uma narrativa não linear, em que personagens inspirados em suas pinturas surgem como fragmentos de uma existência que continua viva.

Em vez de apresentar fatos históricos em sequência, o espetáculo cria imagens poéticas que dialogam diretamente com o universo visual da artista. A fronteira entre realidade e fantasia desaparece, permitindo que o público caminhe por um espaço onde as obras parecem ganhar corpo e movimento.

Essa escolha estética também dialoga com a produção de Lídia, marcada por figuras enigmáticas, atmosferas oníricas e uma permanente busca espiritual. Assim como suas telas nunca entregam todas as respostas, “L’Existence” convida cada espectador a construir sua própria interpretação.

ALÉM DE SEU TEMPO

Nascida em Campo Grande em 22 de abril de 1900, Lídia Baís ocupa um lugar singular na história da arte brasileira.

Dona de uma produção marcada por simbolismos, elementos surrealistas, expressionistas e forte espiritualidade, ela rompeu padrões sociais em uma época em que poucas mulheres conseguiam construir uma trajetória artística independente.

Ainda jovem, convenceu o pai a permitir que estudasse pintura no Rio de Janeiro, onde teve aulas com mestres como Henrique Bernardelli e Osvaldo Teixeira.

Na década de 1920, também passou uma temporada na Europa, especialmente em Berlim e Paris, cidades que ampliaram seu contato com movimentos artísticos modernos e influenciaram profundamente sua produção.

Ao longo da vida, Lídia construiu uma obra repleta de simbolismos, personagens misteriosos e reflexões existenciais. Também protagonizou escolhas que desafiaram convenções sociais. Casou-se apenas aos 38 anos, alterando sua idade para parecer mais jovem, e desfez o casamento apenas 15 dias depois.

Mais tarde, voltou-se aos estudos religiosos e filosóficos, adotando o nome de Irmã Trindade e dedicando seus últimos anos à espiritualidade.

SERVIÇO

Espetáculo “L’Existence – Lídia Baís”

Data: na terça-feira (4 de agosto).
Horário: às 20h.
Local: Teatro Glauce Rocha, na UFMS.
Ingressos: à venda na bilheteria do teatro e pelo link disponível na bio do Instagram @ciaselmazambuja.

Diálogo

O tabuleiro da disputa pelo Senado começa a ganhar forma e os pré... Leia na coluna de hoje

Leia a coluna dessa quarta-feira (29)

29/07/2026 00h02

Diálogo

Diálogo Foto: Arquivo / Correio do Estado

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Charles Chaplin - Ator e produtor inglês

"Pensamos demasiadamente e sentimos muito pouco. Necessitamos mais de humildade que de máquinas. Mais de bondade e ternura que de inteligência. Sem isso, a vida se tornará violenta e tudo se perderá”.


FELPUDA 

O tabuleiro da disputa pelo Senado começa a ganhar forma e os pré-candidatos já afiam os discursos. Têm representantes da direita, da direita conservadora, do centro-direita, da esquerda e da esquerda mais à esquerda. Ideologias à parte, todos compartilham o mesmo objetivo: conquistar os votos dos mais de dois milhões de eleitores de Mato Grosso do Sul. Até as convenções, o movimento é de cálculo e cautela. Depois delas, o jogo será de ataque. Resta saber quem dará o xeque e quem acabará levando xeque-mate nas urnas. É esperar para ver.

Diálogo

Ruídos

A relação do PT de MS com os indígenas, seus eleitores tradicionais, começa a dar sinais de desgaste antes mesmo de a campanha ganhar as ruas. O que até então parecia uma parceria política sólida já enfrenta ruídos, cobranças e descontentamentos. 

Mais

E o problema não ficará restrito aos gabinetes, pois ruas, avenidas, praças e aldeias também serão palco da disputa. Na eleição, discurso bonito precisa resistir ao teste das realidade e memória do eleitor. Se a relação continuar se deteriorando, o prejuízo político será inevitável. 

DiálogoFrancisca Viana da Silva e Petrucio Narciso da Silva, que hoje comemoram 55 anos de casamento (Bodas de Ametista) - Foto: Arquivo Pessoal

 

DiálogoMaria Braz - Foto: Divulgação

Não basta

Na guerra pelo voto do distinto eleitor, alguns candidatos com mandato estão mergulhando na prestação de contas de tudo o que fizeram. Mostrar trabalho é obrigação, mas transformar campanha eleitoral em relatório de atividades não garante voto. O eleitor quer saber o que mudou na vida dele e não apenas quantos requerimentos foram apresentados. Afinal, quem ocupa cargo público não está fazendo favor, pois é empregado do povo. 

Fico

Para alegria dos pré-candidatos a deputado federal da direita, o Coronel David (PL) decidiu não disputar uma das oito cadeiras da Câmara Federal. O parlamentar vai mesmo buscar a reeleição e já comunicou sua decisão ao presidente do Partido Liberal, Reinaldo Azambuja. Com isso, encerram-se as especulações.

Ligeira

A Federação PSOL-Rede foi a primeira de MS a registrar oficialmente sua chapa para as eleições de 2026 no DivulgaCandContas, do TSE. Lucien Rezende aparece como candidato a governador e está entre os primeiros que disputam tal cargo já cadastrados pela Justiça Eleitoral no país. 

Juntos

O vereador Marcos Trad é um dos seis nomes da chapa do PT para disputa da Câmara Federal. Assim, ele estará com seu irmão Fábio Trad, candidato a governador, na mesma trincheira da esquerda.

ANIVERSARIANTES 

  • Artur Fernandes Filho (Tuca),
  • Luciana Tavares Marcondes de Souza,
  • Leôncio de Souza Brito Neto,
  • Patricia Carvalho Pereira Chaves,
  • José Armando Cerqueira Amado,
  • Milton da Costa Lima,
  • Claydêe Ignacio Ribeiro,
  • Dra. Djanir Corrêa Barbosa Soares, 
  • Marcos Ramirez Meza,
  • Pedro Roberto Sanches,
  • Maria Luisa da Conceição Martins,
  • Veimar Seabra Santana,
  • Genésia Rodrigues de Oliveira Sayd Pinto,
  • Silvestre Pereira da Silva,
  • Primos Zafari de Cauli,
  • Maurício Antunes Strang,
  • Rosely Torres Alves da Rocha,
  • Diana Francisca de Oliveira Melges,
  • Abel Conceição,    
  • Elisandro Cerioli, 
  • Marco Antônio Martins,
  • Isabella de Castro Bertelli, 
  • Camila Ávila Corrêa da Costa Cance,
  • Juliana Magri, 
  • Luiz Marques Vieira,
  • Cláudio Duailibi,
  • Pedro Mendes Couto,
  • Carlos Dódero Duailibi,
  • Dra. Denise da Silva Viégas,
  • Cristiana Junqueira Mendes,
  • Beatriz Sanches Pimentel,
  • Domingos Garde Filho,
  • Jéferson Matas Ibrahim,
  • Dilma de Medeiros Baréa,
  • Odácio Pereira Moreira,
  • Tainná Martins Escobar,
  • Ana Daiana Grunewaldt,
  • Marcelino Tadashi Akimura,
  • José Roberto Brun Filho,
  • Cely Maura Uehara,
  • Mauro Brisola Girão,
  • Jeny Ferreira Soares,
  • Ademar Rotili Nunes Junior, 
  • Marta Zierman Landfeldt,
  • Teresa Cristina Buainain Balbuena,
  • Victorino Martos Caetano Fonseca,
  • Dr. Benedito Dutra Pimenta, 
  • Márcia Regina Rezek,
  • Nacif Matheus Chacha, 
  • Maria Luisa Caldas Corrêa da Costa,
  • Selene Rocha Zeola,
  • Sandra Regina Zeola,
  • Ary Fernando Bittar,
  • Deize Benevides,
  • Honorio Pimentel Alencar,
  • Maria Madalena Carvalho,
  • Silvia Helena Franzini,
  • Luiz Fernando de Souza Oliveira,
  • Marisa Galdeiro Alencar,
  • Rodrigo Marques Moreira,
  • Lázaro Corrêa da Costa Filho,
  • Ivone Cardoso Ramalho Gomes,
  • Maurílio Vieira Tôrres,
  • Antônio de Oliveira Resende Filho,
  • Itamar de Souza Novaes,
  • Iderli de Souza,
  • Maria Regina França, 
  • Maria Rosa Anderson Nasser, 
  • Carla Cristina Ferreira de Almeida,
  • Maria do Carmo Oliveira Nunes,
  • Lucas Arruda dos Santos,
  • João Luiz Fontes de Castro,
  • Maria Janete Dutra,
  • Luiz Antônio Corrêa da Silva,
  • Zuleide Menezes Arruda,
  • Luiz Salgado de Almeida,
  • Maria Rita de Oliveira,
  • Cândida Maria de Souza,
  • Tathiane Franzoni da Silveira,
  • Aderbal Luis Lopes de Andrade,
  • Jari Francisco Souza,
  • Luiza Castro,
  • Maria Aparecida Leite,
  • Luana Martins de Oliveira,
  • Sueli Zaneide Furine,
  • Lindinalva da Silva Leal,
  • Cajamar Paulo da Silva,
  • Zulma Paula da Silva,
  • Maria Dalva Portilho de Souza,
  • Rafael Antonio Mauá Timoteo,
  • Camila Andrigheto Meneghel Hage, Nelida Home Dias,
  • Hélio Augusto Lazzarini Pereira,
  • João Paulo Avansini Carnelos,
  • Cristiana Jerônimo Diniz Junqueira,
  • Rodrigo de Oliveira Mecca,
  • Maria Lucia de Souza Morais,
  • Rogério Vilmar Castilho Guedes,
  • Valdemiro Mendes Arguilheira,
  • Célia Figueiras Hairrman, 
  • Tomaz Yukio Shishido,
  • Cassia de Lourdes Lorenzett,
  • Luana Ueti Barasioli Brustolin,
  • Marley Lima de Oliveira Mota,
  • Leny Baptista Ferreira Bizelli,
  • Ruth Elizabeth Tormena,
  • Claudia Hideko Matsusita Nakasato,
  • Ellen Clea Stort Ferreira Cervieri,
  • Edison Luiz Bazan Miglioli,
  • Wladimir Aldrin Pereira Zandavalli.

Lançamento

Corumbaense resgata a arquitetura moderna da cidade no livro "Ladeira do Porto Acima..."

"Ladeira do Porto Acima..." reúne pesquisa, história, patrimônio e identidade cultural para revelar um capítulo ainda pouco conhecido da arquitetura sul-mato-grossense; lançamento acontece hoje, em Campo Grande

28/07/2026 08h30

Escola Estadual Maria Leite, arquitetada por Oscar Niemeyer em 1952, é considerada a primeira obra de arquitetura moderna em Corumbá

Escola Estadual Maria Leite, arquitetada por Oscar Niemeyer em 1952, é considerada a primeira obra de arquitetura moderna em Corumbá Foto: Bosco Delvizio

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Quando se fala em patrimônio arquitetônico de Corumbá, é comum que as primeiras imagens remetidas à memória coletiva sejam os casarões históricos, as fachadas neoclássicas do Porto Geral e os edifícios erguidos durante o auge econômico da navegação fluvial no fim do século 19.

No entanto, existe uma outra cidade construída ao longo do século 20, marcada pelas linhas retas, pelos volumes geométricos e pelos princípios da arquitetura moderna, que permanece pouco conhecida, pouco estudada e, principalmente, pouco protegida.

É justamente esse patrimônio que ganha protagonismo em “Ladeira do Porto Acima... Arquitetura Moderna e Memória de Corumbá”, livro do arquiteto e urbanista corumbaense Bosco Delvizio, que será lançado hoje, às 19h, na Casa de Cultura, em Campo Grande, com entrada gratuita.

A publicação, realizada pelo Instituto de Arquitetos do Brasil – Departamento de Mato Grosso do Sul (IAB-MS), com patrocínio do Conselho de Arquitetura e Urbanismo de Mato Grosso do Sul (CAU-MS) e selo da Life Editora, é fruto de uma adaptação da dissertação de mestrado desenvolvida por Delvizio na Universidade Católica Dom Bosco (UCDB), em 2004.

Mais do que uma revisão acadêmica, a obra transforma uma extensa pesquisa em um convite para revisitar Corumbá por meio de suas edificações e compreender como a arquitetura também constrói memória, identidade e pertencimento.

Natural de Corumbá, Bosco Delvizio, hoje aos 72 anos, acumula quase cinco décadas de atuação profissional.

Formado em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Gama Filho, no Rio de Janeiro (RJ), iniciou a carreira participando de projetos imobiliários e institucionais na capital fluminense antes de retornar a Mato Grosso do Sul.

Em Campo Grande, atuou na administração pública, na iniciativa privada, em entidades profissionais e também como professor universitário, sempre mantendo vivo o interesse pela cidade onde nasceu.

Segundo o autor, publicar o livro representa um compromisso pessoal com sua terra natal.

“A realização e a publicação do livro, decorrente do desenvolvimento em versão adaptada da minha pesquisa de mestrado, me leva a compreender que, muito mais que uma escolha, esse trabalho se revela como meu compromisso em destacar a importância do rico e desconhecido patrimônio arquitetônico de minha cidade natal, especialmente centrado na produção da arquitetura moderna”, afirma.

ALÉM DOS CASARÕES

Sem a intenção de realizar um inventário completo das construções existentes em Corumbá, Delvizio seleciona edifícios que ajudam a compreender as transformações urbanas do município ao longo do século 20.

O objetivo é mostrar que a história arquitetônica da Cidade Branca não terminou com o período áureo da navegação fluvial.

Pelo contrário, ela continuou sendo escrita por arquitetos e engenheiros que trouxeram novas linguagens estéticas, novos conceitos construtivos e uma visão moderna para os espaços públicos e privados.

A pesquisa analisou 15 edificações representativas, organizadas em três grandes grupos: arquitetura neoclássica, art déco e arquitetura moderna.

A escolha foi proposital, permitindo estabelecer um contraste entre diferentes estilos para compreender como os próprios moradores reconhecem – ou deixam de reconhecer – o valor patrimonial de cada um deles.

Ao longo do estudo, Delvizio entrevistou cerca de 200 corumbaenses, de diferentes idades e perfis, numa espécie de consulta pública sobre o patrimônio arquitetônico da cidade.

O levantamento investigou o conhecimento da população sobre os edifícios históricos, sua importância cultural e o grau de identificação dos moradores com essas construções.

O resultado revelou que a arquitetura neoclássica continua sendo a mais valorizada pelos entrevistados.

Entretanto, também evidenciou que existe um importante conjunto de edifícios modernos praticamente invisível para boa parte da população, apesar de seu enorme valor histórico.

“Corumbá conta com um acervo histórico e cultural representativo da arquitetura moderna, mas sem proteção legal”, alerta o arquiteto.

Segundo ele, as constantes transformações urbanas colocam em risco construções que representam momentos importantes da história brasileira.

NIEMEYER EM CORUMBÁ

Entre os exemplos apresentados no livro, um ocupa posição de destaque: a Escola Estadual Maria Leite, considerada a primeira obra da arquitetura moderna em Corumbá.

Projetada por Oscar Niemeyer em 1952 e inaugurada em 21 de setembro de 1954, a escola representa um marco não apenas para a cidade, mas para toda a arquitetura moderna em Mato Grosso do Sul.

Para Bosco Delvizio, trata-se de um patrimônio cuja importância ainda precisa ser mais conhecida pela sociedade.

“É necessário reconhecer e divulgar junto à população o valor representativo dessa e de tantas outras obras”, ressalta.

Escola Estadual Maria Leite, arquitetada por Oscar Niemeyer em 1952, é considerada a primeira obra de arquitetura moderna em CorumbáCasa do ex-prefeito e arquiteto José Sebastião Cândia - Foto: Bosco Delvizio

Depois dela, outras obras passaram a incorporar os princípios do movimento moderno internacional, especialmente durante as décadas de 1950 e 1960. Entre elas está a antiga sede da Receita Federal, instalada na Alfândega do porto, cuja linguagem arquitetônica rompe visualmente com os edifícios históricos do século 19.

O período coincide com um momento de forte incentivo ao desenvolvimento nacional, quando o governo federal investia na modernização das cidades brasileiras e na construção de edifícios públicos alinhados aos novos conceitos arquitetônicos.

Corumbá acompanhou esse movimento graças também ao trabalho de profissionais que, após estudarem fora do Estado, retornaram para aplicar novas referências em sua cidade natal.

O ARQUITETO PREFEITO

Entre esses personagens está José Sebastião Cândia, figura de destaque na história urbana corumbaense.

Arquiteto e prefeito de Corumbá entre as décadas de 1950 e 1960, Cândia foi um dos responsáveis por introduzir a arquitetura moderna na cidade. Sua atuação administrativa caminhou lado a lado com sua produção arquitetônica, ajudando a transformar a paisagem urbana naquele período.

Escola Estadual Maria Leite, arquitetada por Oscar Niemeyer em 1952, é considerada a primeira obra de arquitetura moderna em CorumbáEdifício I.O.S.A., inaugurado em 1959, com 13 andares, foi a primeira grande obra de verticalização na cidade - Foto: Bosco Delvizio

Delvizio resgata uma memória pessoal que ajuda a explicar seu fascínio pela profissão.

Quando criança, durante as aulas de desenho ministradas pelo padre Lourenço, costumava observar um homem que desenhava na escola. Algum tempo depois, ao ver uma fotografia publicada em um jornal, percebeu que aquele desenhista era também o prefeito da cidade. Era José Sebastião Cândia, autor do projeto do novo edifício de sua escola.

“Fiquei admirado ao reconhecer ele em uma foto no jornal. Na mesma pessoa, prefeito e ‘homem que desenhava’, estava lá o arquiteto José Sebastião Cândia. Quanta coisa fazia o arquiteto!”, recorda o autor.
Esse episódio se tornou uma das inspirações que o levaram a seguir a carreira de arquiteto.

A SUBIDA DA LADEIRA

O próprio título da obra carrega uma metáfora profundamente ligada à cidade.

“Ladeira do Porto Acima...” faz referência às tradicionais ladeiras que conectam o Porto Geral à parte alta de Corumbá.

Para Delvizio, subir essas ladeiras significa muito mais do que vencer um desnível físico.

“Como tantas vezes escalei as do Porto Geral de Corumbá, subir uma ladeira exige constância, fôlego e concentração, mas amplia o olhar, muda perspectivas. Trago aqui visibilidade a essa arquitetura que é vista na parte alta da cidade quando se sobe as ladeiras do porto”, pontua.

Ao revisitar essas lembranças, o arquiteto afirma reencontrar também os caminhos da própria infância.
“Hoje, com o livro em mãos, vejo atalhos da minha infância”, destaca.

SERVIÇO

Lançamento do livro “Ladeira do Porto Acima... Arquitetura Moderna e Memória de Corumbá”
Data: hoje.
Horário: às 19h.
Local: Casa de Cultura de Campo Grande – Avenida Afonso Pena, nº 2.270, Centro.
Entrada: gratuita.

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