"A gente tende a buscar um culpado e um inocente, mas Oleanna desmonta essa lógica. As certezas vão se deslocando o tempo todo, e isso me interessa como ator, porque são personagens contraditórios, tridimensionais".
Depois de dar vida a Silvio Santos no musical biográfico “Silvio Santos Vem Aí” — trabalho que marcou seu retorno ao Brasil, em 2021, após uma década nos Estados Unidos — Velson D’Souza vive um novo momento na carreira. O ator se prepara para estrear “Oleanna”, de David Mamet, com direção de Daniela Stirbulov, em temporada no Teatro Vivo, em São Paulo, em um movimento que marca sua volta ao teatro de prosa.
O projeto retoma um interesse antigo. Velson teve o primeiro contato com o texto durante o mestrado em Acting, em Nova Iorque, entre 2011 e 2014, e desde então carregava o desejo de montá-lo.
“Foi um texto que me marcou profundamente, pela complexidade dos temas e pela precisão da escrita. Durante muito tempo eu quis montar essa peça, mas ainda não tinha a idade do personagem. Agora senti que era o momento certo”, afirma.
A peça coloca em cena o embate entre um professor universitário e sua aluna, em uma relação atravessada por disputas de poder, linguagem e interpretação. A encenação evidencia o quanto essas dinâmicas podem ser instáveis, especialmente quando intenção e percepção não caminham juntas, revelando tensões que se desdobram a partir de pequenas ações e leituras divergentes.
Oleanna também ganhou adaptação para o cinema em 1994, com roteiro e direção do próprio David Mamet, baseada na peça original escrita dois anos antes. Na versão, o personagem John foi interpretado por William H. Macy — referência que atravessa diferentes leituras da obra ao longo do tempo e dialoga com a construção do personagem no palco.
É nesse território de incerteza que Velson ancora sua investigação. “A gente tende a buscar um culpado e um inocente, mas Oleanna desmonta essa lógica. As certezas vão se deslocando o tempo todo, e isso me interessa como ator, porque são personagens contraditórios, tridimensionais”, diz.
Além de estar em cena, Velson também assina a produção do espetáculo. O trabalho ao lado da diretora Daniela Stirbulov e do diretor de produção Fabio Camara estrutura um processo que equilibra criação e gestão, permitindo ao ator manter o foco na construção do personagem sem perder a visão do todo.
O projeto marca também um retorno ao teatro de prosa, linguagem que sempre esteve na base de sua formação. Após anos dedicados ao teatro musical, ele volta a esse território em busca de novos desafios.
“Depois de um tempo longe, senti vontade de voltar e me provocar. É um texto extremamente exigente, com uma estrutura muito precisa e um personagem cheio de contradições. Sem dúvida, é um dos trabalhos mais desafiadores que já enfrentei”, afirma.
Nos últimos anos, Velson esteve em produções de grande escala no teatro musical, como o protagonismo em “Silvio Santos Vem Aí” e mais recentemente em “Jersey Boys”, no papel de Tommy DeVito. Pelo trabalho, foi indicado ao Prêmio Destaque Imprensa Digital (DID) na categoria Destaque Ator Coadjuvante. Sua interpretação de Silvio Santos também foi reconhecida pela premiação, com indicação na categoria Destaque Ator.
Na televisão, Velson também construiu uma trajetória consistente, com passagens por diferentes emissoras e momentos distintos da carreira. Ainda na década de 2000, integrou produções do SBT como “Cristal”, “Revelação” e “Vende-se Um Véu de Noiva”.
Mais recentemente, voltou à emissora no elenco adulto de “A Infância de Romeu e Julieta”. Já na Record, esteve na série bíblica “Paulo, o Apóstolo”, onde interpretou Tito, personagem ligado à expansão do cristianismo nas primeiras comunidades. Os trabalhos no audiovisual ampliam seu repertório e evidenciam sua circulação entre diferentes linguagens e formatos.
Atualmente, Velson se dedica também à formação de atores no Espaço Colab, onde ministra o Curso de Técnicas Americanas de Interpretação para TV e Cinema, dando continuidade à pesquisa que desenvolveu ao longo de sua trajetória internacional. Em paralelo, prepara a estreia de “True West”, de Sam Shepard, que irá produzir e protagonizar ao lado de Fernando Belo, com previsão de estreia em novembro no Teatro do Núcleo Experimental.
“Tenho direcionado bastante minha energia para o Espaço Colab e para esse momento de aprofundamento no teatro e no trabalho de formação”, finaliza.
Velson é a Capa do Correio B+ desta semana, e em entrevista ao Caderno ele fala sobre seu retorno dos EUA, trabalhos, desafios e novas estreias.
O ator Velson D’Souza éa Capa exclusiva do Correio B+ desta semana - Foto: Joaquim Araújo - Diagramação: Denis Felipe Por: Flávia VianaCE - Você morou por 10 anos nos EUA. Ao retornar ao país, em 2021, com o musical “Silvio Santos Vem Aí”, que momento aquele trabalho representou na sua carreira?
VS - Foi um momento de retorno, mas não de recomeço do zero. Eu estava voltando com uma bagagem construída lá fora, com outra relação com o trabalho, e uma outra pessoa. E já voltar com um protagonista de um musical desse tamanho foi muito significativo. Era um desafio grande, num contexto novo pra mim de novo… então tinha uma mistura de risco e afirmação. Acho que marcou esse lugar de “estou de volta, mas diferente”
CE - O que ficou, como aprendizado ou marca, da experiência de interpretar uma figura real tão conhecida como Silvio Santos?
VS - O Silvio sempre esteve muito presente na minha trajetória, de certa forma. O SBT foi onde fiz muitos trabalhos na televisão, então já existia uma relação, uma proximidade com esse universo. E aí, de repente, eu estava interpretando justamente essa figura tão icônica. O maior desafio foi fugir da caricatura.
Porque o Silvio é um dos personagens mais imitados do Brasil — todo mundo tem uma referência muito marcada. Então o trabalho foi tentar humanizar esse personagem. Entender o que está por trás daquilo, o pensamento, o tempo, a lógica dele… e não só reproduzir os trejeitos. E isso me fez evoluir muito como ator. Foi um exercício de precisão e de escolha — de entender o que realmente comunica, em vez de tentar fazer tudo.
CE - Depois, você integra o elenco de Jersey Boys, vivendo Tommy DeVito. O que esse trabalho acrescentou ao seu repertório?
VS - Foi, até então, o maior desafio da minha carreira. É um espetáculo muito exigente em todos os sentidos. Tem a questão do canto, principalmente em quarteto, que pede muita precisão.
Tem a dança, o ritmo… e, ao mesmo tempo, o personagem também conduz a narrativa. Eu abro o espetáculo falando diretamente com a plateia, faço essa ponte o tempo todo, e preciso trazer o público pra dentro da história logo de cara.
E tudo isso intercalando com as músicas. Então é um trabalho de muita resistência também — são quase três horas unindo canto, dança e interpretação sem perder a energia. Isso me acrescentou muito nesse lugar de precisão e de controle. De sustentar um personagem complexo dentro de uma estrutura muito rigorosa.
CE - Ao revisitar sua trajetória, você identifica algum ponto de virada que te trouxe até este momento?
VS - Acho que estudar fora foi o maior ponto de virada. Me trouxe método, técnica, e mudou minha relação com o trabalho. Eu evoluí não só como ator, mas como pessoa também.
Isso me trouxe mais consciência de processo, de construção. E a produção sempre fez parte do meu caminho. Eu comecei minha carreira nos anos 2000 produzindo meus próprios projetos. Então hoje é quase um retorno a isso, mas com outra maturidade, outra bagagem. Acho que tudo isso foi me trazendo até esse momento com mais clareza do que eu quero fazer.
O ator Velson D’Souza éa Capa exclusiva do Correio B+ desta semana - Foto: Caio Gallucci - Diagramação: Denis Felipe Por: Flávia VianaCE - O que te levou a escolher Oleanna, de David Mamet, neste momento da sua carreira?
VS - Eu conheci esse texto durante o mestrado em Nova Iorque e ele nunca saiu de mim. Sempre quis fazer. Na época eu não tinha a idade do personagem. Agora tenho essa maturidade como ator — e senti que era o momento.
E também porque é um texto que continua muito atual. A gente acha que avançou, mas ainda está lidando com as mesmas questões de poder, de comunicação, de interpretação. E é uma peça que não te dá resposta. Ela te coloca num lugar desconfortável. Isso me interessa muito hoje como artista.
CE - Além de atuar, você também assume a produção do espetáculo. Como isso impacta seu olhar sobre o trabalho?
VS - Amplia meu olhar. Eu passo a pensar mais no todo, na estrutura do espetáculo, em como tudo está funcionando. Mas eu só consigo fazer isso porque tenho uma equipe que sustenta a produção. Então isso me dá tranquilidade pra, como ator, conseguir me concentrar no que preciso fazer em cena. No fim, aumenta a responsabilidade, mas também me dá mais liberdade e consciência do que estamos fazendo.
CE - Como foi, para você, o desafio de transitar entre uma novela voltada ao público infantil no SBT e uma produção bíblica na Record, com linguagens e públicos tão distintos?
VS - É muito desafiador porque muda bastante o estilo e o tom. No SBT eu estava numa novela infantil, num núcleo cômico, fazendo comédia na TV pela primeira vez. Já a novela bíblica tem outro registro, outro tempo, outra escala.
Eu amo muito a versatilidade e a possibilidade de fazer trabalhos muito distintos, personagens complexos e diferentes. O desafio é entender a linguagem de cada projeto sem perder a verdade. Porque, no fim, o trabalho é o mesmo: construir uma relação viva com aquilo que você está fazendo.
CE - Você também se dedica à formação de atores no Espaço Colab. Como esse trabalho dialoga com sua atuação no teatro e no audiovisual?
VS - Dialoga totalmente. Dar aula me obriga a organizar o pensamento, a entender o processo com mais clareza. E isso volta pra mim como ator. Eu fico mais consciente do que estou fazendo, mas sem tentar controlar demais. É um lugar de troca. Não é só ensino — é investigação. E eu aprendo muito ali também. Muito com os alunos. Tem muita troca real.
CE - A futura montagem de True West, de Sam Shepard, aponta para que tipo de caminho dentro da sua trajetória?
VS - Acho que aponta para um aprofundamento. Eu tenho me interessado cada vez mais por textos que lidam com relações humanas de forma mais direta, mais exposta, mas também muito instável. O Shepard tem isso, assim como o Mamet. Então vejo como uma continuidade de pesquisa mesmo. Um caminho mais focado nesse tipo de material e nessa linguagem.
CE - O que você busca explorar como artista nos próximos projetos?
VS - Eu tenho buscado projetos que realmente me desafiem. Que me tirem de um lugar confortável. Tenho me interessado por trabalhos mais diretos, mais expostos, onde a relação está muito em primeiro plano — sem muita coisa pra “esconder” o ator. E também quero continuar participando mais da construção dos projetos, não só como ator, mas também produzindo. No fundo, o que eu busco é continuar investigando. Não repetir fórmula.