Uma atriz, uma peça, um filme e um imenso legado que retoma seu espaço nos corações e nas mentes de artistas e fãs de diferentes gerações. A protagonista de tanta hipérbole, e mobilização, é a campo-grandense Glauce Eldé Ilgenfritz Correa de Araújo Rocha.
Suas duas décadas de carreira, percorridas – no teatro, no cinema e na tevê – apenas como Glauce Rocha (1933-1971), deixaram uma marca que ainda hoje cala fundo na sensibilidade de quem toma contato com a sua arte dramática, disponível, na tela, em um punhado de poucos e raros filmes com alguma condição de exibição.
Ou a partir de uma memorabilia, que, ainda de modo indireto, vem sustentando o reconhecimento da estrela – sem estrelismos – que foi Glauce em seu devido quadrante.
A bola da vez na agenda do mito erguido pela atriz genial e obstinada, em seus 24 filmes, 50 peças e nove novelas, é a projeção de “Glauces – Estudo de Um Rosto” (2001), um ensaio poético-visual com direção de Joel Pizzini.
O filme representa uma guinada na carreira do mesmo cineasta de “Caramujo-Flor”, “500 Almas”, entre outros trabalhos de fôlego, e ganha exibição gratuita hoje, às 19h, com a presença de Joel, na Estação Cultural Teatro do Mundo.
O programa chega à estação no rastro da temporada de verão de “Como Nascem as Estrelas”, monólogo com a estreante Laura Santoro, de 21 anos, em cena sob a direção de Fernando Lopes, o timoneiro da ECTM.
Sob uma dramaturgia que costura as biografias de Glauce Rocha e Clarice Lispector à trajetória da própria jovem atriz, a montagem ainda pode ser vista, em suas últimas sessões, de amanhã até domingo, às 20h. Já “Glauces – Estudo de Um Rosto” fica em cartaz somente hoje.
ATRIZ MODELO
“Ela fez desde Mazzaropi até Glauber Rocha. Tinha uma postura de dignificar todos os seus papéis. Vida e arte sempre caminhavam juntas para ela. Uma pessoa muito íntegra e inteira. Íntegra até no sentido moral e no sentido da entrega. A gente tem que se orgulhar de ela ser uma atriz sul-mato-grossense. É uma das maiores artistas brasileiras, que viveu uma vida breve, intensa e que dignificou a arte brasileira”, diz Joel.
“Para a nova geração, ela representa um modelo de atriz cinematográfica. Ela tem a dramaticidade, mas tem uma força no olhar, no gesto, no corpo, no tempo de expressão. É uma atriz que é muito inspiradora justamente nesse momento em que essas fronteiras estão mais tênues entre teatro e cinema”, afirma.
“Agora se fala em espetáculo audiovisual e de artes, onde tudo está sendo contaminado por todas as vertentes da arte. Ela já antecipou isso há muito tempo. Uma atriz que traz essa ruptura com a arte como ilusionismo, como algo distante. Tudo na performance dela era autenticado pela vida, contaminado pela experiência real”, emenda o diretor.
O magnetismo que a figura de Glauce passou a exercer em Laura e Fernando durante a alta da pandemia recai sobre Joel há mais de 20 anos.
ARQUEOLOGIA
“Quando eu me formei em Curitiba [PR], conheci o José Octávio Guizzo, um grande pesquisador do nosso estado, intelectual, ativista. Ele estava escrevendo um livro sobre Glauce Rocha. Então eu acompanhei a feitura desse livro, ele comentava das entrevistas que fazia, por exemplo, com o [Antonio] Abujamra, com o Antunes Filho. Tudo aquilo era uma coisa quase mítica. Isso foi acentuando o desejo de fazer um filme”, recobra Joel.
“O ‘Glauces’ nasceu muito dessa minha arqueologia afetiva. A Glauce era aquela artista que conseguiu sair do interior para se realizar como artista, se afirmar em uma carreira para cumprir a sua sina, seu sonho. Ela sempre foi uma referência para quem despertava algum pendor para a arte e via essas figuras como Aracy Balabanian, Glauce. Essas figuras, que saíram e conseguiram um espaço ao sol, sempre foram faróis”, conta Joel.
“Nesse primeiro momento, eu queria fazer um filme menos ambicioso esteticamente. Mas isso demorou e comecei a escrever o projeto e também a pesquisar os filmes em que Glauce tinha atuado, que não estavam acessíveis. A gente não conseguia. Eram todos em película, tinha que ir nos acervos das cinematecas”, relembra.
A FACE DE GLAUCE
“A Glauce estava muito ausente das fontes acessíveis, muito distante. Era um mito que você só conhecia por meio do ‘Terra em Transe’ [1967, de Glauber Rocha]. Era o único filme que circulava mais. E ‘Navalha na Carne’ [1969, Braz Chediak], em que ela está incrível, e ‘Os Cafajestes’ [1962, de Ruy Guerra], que é uma participação menor”, diz o diretor, que, após transformar a ideia em projeto, decidiu fazer um filme inteiro com a atriz em primeiro plano.
Parece até que Joel estava levando à risca o que disse Alex Viany (1918-1992) – “seu talento nervoso, explosivo, derrubava os limites do enquadramento” – ao tê-la no elenco de “Rua Sem Sol” (1953).
“Porque eu falava ‘não faz sentido, uma figura sobre quem todo mundo ouve falar, lê, mas não a viu em cena, não tem um material circulando. Vou fazer um filme em que ela esteja em primeiro plano’. Até para as pessoas conhecerem mais a partir da materialidade, das performances dela no cinema. No teatro, tinha pouquíssima coisa. Em termos audiovisuais, nada documentado”, detalha Joel.
“Comecei a trabalhar na curadoria do Tempo Glauber e lá foi encontrada uma caixa, doada pelo PUC de Minas, com as sobras do ‘Terra em Transe’. Isso foi incrível, uma coincidência. Eu fiz um acordo com o Tempo Glauber depois de ganhar um prêmio do Itaú Cultural para realizar o filme. Fiz um acordo e telecinei todas essas sobras por inteiro, que era o filme que a Glauce amava mais”, diz o cineasta.
PLENITUDE
“Era a plenitude de sua performance. O material ficou acessível, depois foi para os DVDs do filme e, com isso, eu tive acesso a 13 minutos de imagens da Glauce que não foram aproveitados na montagem final de ‘Terra em Transe’”, orgulha-se Joel.
Não é para menos. “Glauces – Estudo de Um Rosto”, além de um divisor de águas na carreira do realizador, ganhou dezenas de prêmios e foi selecionado para importantes festivais na França e na Suíça. Este repórter tem a alegria de estar como mediador do bate-papo logo após a sessão de hoje. Apareça.
Serviço
“Glauces – Estudo de Um Rosto”
(2001, 30 minutos, 35 mm)
Direção: Joel Pizzini
Hoje, às 19h
Estação Cultural Teatro do Mundo
Rua Barão de Melgaço,
nº 177, Centro
Entrada franca


O produtor musical e empresário João Marcello Bôscoli é a Capa exclusiva do Correio B+ desta semana - Foto: Divulgação - Diagramação: Denis Felipe - Por: Ana Claudia Paixão
O produtor musical e empresário João Marcello Bôscoli é a Capa exclusiva do Correio B+ desta semana - Foto: Divulgação - Diagramação: Denis Felipe - Por: Ana Claudia Paixão


