Grafiteiro não. Um aprendiz da arte no mundo aberto de infinitas possibilidades do grafite.
É assim que responde, sem pestanejar, o artista urbano e muralista Akira, quando indagado sobre a sua identidade artística e sobre a expressão que escolheu para deixar uma marca por aí, nas esquinas de Campo Grande e do mundo.
Todos querem saber, desta vez, qual foi a viagem por trás da mais recente criação do artista de acesso público em Campo Grande – a fachada do The Bar, point noturno inaugurado recentemente na esquina da rua José Antônio Pereira com a Pernambuco.
Quem passa por perto, em vez do tom ocre e sóbrio do estabelecimento anterior, depara-se com um fundo escuro preenchido com traços e figuras de cores vivas e apelo pop.
A sensação é de que a festa começa sem precisar entrar no local se olhos entregam-se ao movimento daquela animação na fachada de quase 140 metros quadrados que toma o visual ali, no movimentado encontro de ruas da região do Monte Castelo – São Francisco.
MÃO LIVRE
Sua técnica é a mão livre – “não uso guias ou stencil” – com a qual ataca paredes, muros, fachadas ou qualquer superfície usando sprays, aerógrafos, pincéis e os mais variados tipos de tintas (óleo, acrílica, látex etc.).
“É na base do olhômetro”, arremata Akira, que assume mas evita a alcunha de batismo – Flávio Osvaldo Orsetti – recebida há 34 anos em São Paulo (SP), a cidade-natal. O artista enfatiza, inclusive, que grafa em caixa alta – AKIRA – o nome artístico. Bem entendido.
Radicado na capital morena há uma década, ele segue com sua militância em prol dos “pets de rua”, trocando sua arte por alimento e outros cuidados para cães, gatos, aves e até tartarugas.
Akira está em Sorocaba há um mês, envolvido com a criação de mais uma visual exclusivo e descolado par... outro bar. O artista está, por contrato, proibido de dar qualquer pista dessa novidade no interior de São Paulo.
Mas Akira faz um três-por-quatro específico do novo trabalho que vem chamando a atenção em Campo Grande:
“O The Bar, me chamaram para pintar um local que ainda estava no projeto, me pediram artes no estilo moderno e ousado, que chamasse a atenção de quem passasse pelo local. Junto com os proprietários, foram diversas propostas até chegarmos na arte final”, diz o muralista, que elenca, entre suas referências, quatro ícones da arte urbana - Kobra, Banksy e a dupla Os Gêmeos.
GRAFITE COMERCIAL
“Foram cinco dias, montando e desmontando andaime. O maior desafio. Ficou pronto em agosto de 2021. Trabalho sozinho, é uma área que é muito difícil um se adaptar ao traço do outro. Prefiro trabalhar assim.
O tamanho aproximado, na parte mais alta, é de 30 metreos de comprimento por cinco metros de altura na parte mais alta”, descreve. Akira desmistifica a aura underground que, embora faça parte da essência do grafite, já foi superada em termos de visibilidade de mercado.
“Como eu faço o que chamo de grafite comercial, os clientes acabam me passando a ideia, eu monto uma arte no papel, digitalizo e mando como se estivesse pronta na parede do cliente, são raros desenhos que faço livremente e nos quais que eu componho à minha própria escolha”, prossegue o artista.
“Eu acho que o grafite ganhou um espaço enorme recentemente, como parte de decoração em ambientes que antigamente eram fechados para esse tipo de arte devido à discriminação”, afirma.
“Hoje a arte urbana alcança desde a periferia a classe nobre. Eu acho que Campo Grande precisaria reconhecer um pouco mais os artistas que a cidade tem. São muitos que fariam da cidade um exemplo para outras. Talvez mais apoio a artistas regionais como acontece em outras cidades do Brasil e do mundo”, reivindica Akira, que está partindo, ele próprio, para outras praças.
Depois de Sorocaba, já visualiza outras paragens para multiplicar seu estilo.
“Sorocaba é uma cidade com poucos artistas porém perto de São Paulo, que tem muitos. Vou tentar ganhar espaço por aqui também. Quero criar nome para alcançar mais publico e mais espaço urbanos pelo Brasil afora. Já recebi convites para o Rio de Janeiro, Curitiba, Mato Grosso. Agora é só questão de planejamento. Não tenho limites, vou para onde me chamar”, anuncia.
SULFITE
Formado em design gráfico, Akira começou a desenhar na infância em folhas sulfites.
“Desde pequeno fui aquele cara que desenhava para a sala inteira em trabalhos. Depois na adolescência acabei no rumo da pixação em São Paulo, já nessa correria, tive contato com o grafite, porém não realizava nenhum. Ainda em São Paulo comecei a fazer Bomb, que são letras um pouco mais trabalhadas que a pixação e às vezes não eram autorizadas pelos proprietários dos locais”, conta.
“Fui pegando gosto e procurando referências de grafite. Me mudei para Campo Grande em 2012, e em 2015 com incentivo da minha mãe e desempregado na época, fiz minha primeira arte urbana autorizada na banca de jornal na Marechal Rondon com a 14. De lá até hoje, criei meu nome, reconhecimento e espaço em CG até chegar no The Bar e outros locais”, finaliza o artista.



Dra. Bruna Gameiro

