Quando estreou “Aquele, Aquela, Menos Ela”, que também traz sua assinatura na dramaturgia e na direção, a atriz Liz Nátali Sória era mãe de um menino de mais ou menos um ano.
A primeira encenação da peça foi em setembro do ano passado, apresentando a Campo Grande um dos espetáculos mais estimulantes da temporada.
Sozinha em cena durante os 50 minutos da montagem – ou acompanhada de quem está na plateia, como ela mesmo gosta de dizer –, Liz se move de um jeito irrequieto, firme e dócil a um só tempo, para apresentar diferentes fases e experiências da infância e da vida adulta sob a condução da personagem.
Ela, um avatar dos sabores, das dúvidas e dos desafios, na vida real, tem tudo a ver com os aprendizados naturais do crescimento e da afirmação do indivíduo. E tudo isso sob o acompanhamento musical de Vitor Zan.
O arranjador e sonoplasta preparou uma canção para cada momento do espetáculo, um infanto-juvenil para todas as idades, fazendo da música uma parte substantiva do que se acompanha no palco. A equipe envolvida ainda traz Cris Lima e Pedro Paes (cenário e figurino), Maria Chiang (arte gráfica) e Luciana de Bem (acompanhamento artístico).
Após algumas poucas apresentações desde sua estreia, “Aquele, Aquela, Menos Ela” – com todo o seu existencialismo pontuado com muito humor – pode ser vista novamente hoje, às 14h, no Teatro Aracy Balabanian, pela programação da 15ª Mostra Boca de Cena – Semana do Teatro e do Circo de MS, com entrada gratuita.
Porém, dessa vez, Nuno, o primogênito da atriz, está com um ano e sete meses e Liz, grávida, já com sete meses de gestação.
“E agora como vai ser, Liz?” é a pergunta do repórter para a intérprete de 36 anos, formada em Artes Cênicas pela Universidade de São Paulo e com mais de duas décadas de experiência que envolvem, por exemplo, um mergulho na eutonia, técnica que trabalha com micromovimentos e que valoriza a criatividade corporal a partir de noções como “fisiologia consciente”.
Eis a resposta:
“A gestação, como algo que ocorre no corpo, é impossível de ser ignorada na cena. A começar pelo figurino, que já não cabe mais com a barriga de quase sete meses. Precisamos adaptar a roupa de base, e isso foi possível com a ajuda da parceira Luciana de Bem. A história começa com a gestação e o parto da menina Ela. Será uma sobreposição de barrigas”.
“O espetáculo tem um formato épico, em que narro, faço as personagens e canto. É algo que demanda respiro e água no meio da cena, mesmo sem estar grávida. Nessa apresentação, ainda que o teatro tenha boa acústica, vou contar com um microfone headset [preso à cabeça], uma vez que o [meu] diafragma divide espaço com esse serzinho que já está todo formado aqui dentro. Isso torna o controle da voz e do fôlego mais desafiante”, diz a intérprete.
“Na gestualidade do espetáculo, a intenção é visitar uma história e um imaginário direcionados ao público infanto-juvenil, a partir de uma estética simples, de atuação serena, apesar da demanda intensa da cena. Para isso, a platéia também é convidada a ‘segurar a cena’ quando preciso pausar, beber água, mover o cenário”, afirma.
“Acredito que a gestação radicaliza essa proposta, já que preciso preservar tempos mais prolongados de fôlego e escutar ainda mais o que o corpo pede e pode oferecer. Vejo como uma oportunidade de investigação de um estado de cena, com o desejo de cumplicidade do público”, avalia a encenadora.
“Essa apresentação no Boca de Cena se localiza entre dois puerpérios. Me sinto feliz de ter essa interlocução artística nas vésperas de suspender mais uma vez muitas das minhas atividades de criação para a dedicação desafiante que essa primeira fase de cuidado materno exige”, celebra a atriz.
“A figura materna é uma construção social”
Primeiro, a gente precisa falar sobre a figura materna como um papel social que é uma construção histórica e socialmente concebido. Nem todas as mães são iguais, e elas nunca foram iguais historicamente.
Fazer essa comparação com “a minha mãe” ou “a minha avó” ou com as mães de antigamente, como elas eram e como “eu” sou hoje, não faz sentido. Porque esse papel social só faz sentido quando a gente compara esse tempo histórico.
Se a gente pegar uma comparação de uma mãe do início do século 20, que seria, por exemplo, a minha avó, ela era uma mãe que casava jovem, que tinha filhos aos 13 anos – e tinha muitos filhos. A grande maioria tinha em torno de 10 filhos.
A função principal dessas mães era realmente a maternidade, mas também a sobrevivência. Estavam ali para tentar fazer com que todos fossem sobreviver. E muito dificilmente todos sobreviviam.
A gente tem as mães, já em meados do século 20, que seriam como a minha mãe. São aquelas que foram mães que precisavam olhar mais para a família, em que o núcleo familiar reduziu de tamanho. Era um entendimento em que a mulher era mais responsável pela criação e pela educação dos filhos.
E foi quando historicamente ela tomou toda a responsabilidade da criação, em que o homem vai para o trabalho ou para a vida pública e a mulher se fecha dentro da sua casa entre quatro paredes.
Porque agora é uma vida menor, com a família menor, e a família assume o papel da criação, mas ela (a mãe) sendo a responsável pela casa, pelos filhos, pela educação, pela saúde, pela vida privada do filho. Então tem um movimento.
Nesse momento, a mãe assume a responsabilidade. Ela é a criadora e a educadora do filho. O pai sai de cena.E nós temos as mães de hoje. Elas conseguem escolher mais. A maternidade já é uma escolha. Não que a minha mãe não tivesse essa escolha, mas era tão natural casar, ter filhos, etc.
Hoje, já existe uma discussão maior sobre se vai ter filhos ou não. E essa escolha é fundamental. Porque, a partir do momento em que você está mais ciente do que você precisa fazer ou quer fazer, essa escolha vai te trazer um resultado lá na frente.
As mães de hoje têm a possibilidade de ter uma escolha mais consciente. Elas têm uma diminuição da responsabilidade pela criação dos filhos, e socialmente isso já é bem mais dividido.
Até porque quase todas as mães já estão no mercado de trabalho, já têm uma vida pública maior.
A criação dos filhos precisa ser dividida com o cônjuge, com o pai da criação. Já existe muito conteúdo acessível para preparar essa mãe nesse cuidado com os filhos, uma característica que não existia antes.
Mas essa mãe que nós temos hoje, exatamente pelo fato de ela poder dividir, que é maravilhoso e correto, muitas vezes essa divisão acaba não sendo tão clara e conversada.E quem sofre com isso são as crianças, em que historicamente é a mulher que cuida, mas agora a mulher já acha que ela não precisa mais cuidar sozinha. Mas isso também não ficou tão bem conversado na família, e essa mãe não se sente à vontade.
Mesmo se sentindo sobrecarregada, ela não consegue falar, dividir isso com seu cônjuge. E quem pode estar sofrendo nisso é a própria relação que ela tem com o filho. Nós temos muito conteúdo, mas nós nem sempre temos a mãe que está disposta a acessá-lo, pois ela acha que é uma maternidade que deveria ser instintiva.
“Ah, a minha mãe cuidava sem todo esse manual, sem todo esse conhecimento,
e deu certo. Então por que eu preciso disso?”. Por isso que voltei nesse papel histórico. Porque eu não posso comparar.Então, tem muito material, mas existe uma negação muito grande. É como se a maternidade fosse algo divino ou inato ou instintivo. E não é. É uma construção histórica, e eu preciso entendê-la como tal.
E aí cai muito no que é que é esse maternar. Porque o maternar não é o criar, que foi o criar voltado à sobrevivência, não é só o educar. Mas é o amar, o cuidar, o estar junto.
E não tem como você fazer isso tudo se você não olhar para você como mãe e partir do ponto mais importante de todos, que é o seu desejo de ser mãe. O ponto mais importante começa aí. A maternagem precisa ser um desejo acima de qualquer coisa.
Porque ser mãe é muito difícil. Talvez seja um dos trabalhos mais difíceis do ser humano. Ele é 24 horas por dia e é eterno. E (presume-se que) se ele não está sendo difícil, é porque você está fazendo errado.
O fazer sozinho não deveria ser uma possibilidade. O maternar não deveria ser sozinho. Não que necessariamente você precise ter um cônjuge. Mas você deveria ter uma aldeia para te ajudar. Precisa de uma rede de apoio.
Então, a sua escolha perpassa por aí também. Não pode ter um desejo só egoísta seu. Mas você está disposta a negociar, a pedir ajuda, a entender que você não vai dar conta sozinha? Estamos falando da vida de uma outra pessoa.
Tem isso de você entender as suas limitações também. Por isso que é tão grandioso. Porém, a partir do momento em que você entende se é o seu desejo, mesmo sendo o trabalho mais difícil e mais exaustivo, com certeza será a sua maior vitória. Porque passa a ser a sua maior realização. É grandioso o trabalho.
O afeto que é gerado quando existe esse vínculo do filho com a mãe é um afeto de alegria, de amor. E um afeto que expande a “alma”. Alma entre aspas, porque é da energia vital do ser humano. Essa de amor é para multiplicar esse amor para o outro, para o filho, para a criança, para a sociedade de uma forma geral.
Para dividir, para você deixar de pensar só em você, para pensar no outro. É experimentar a expansão legítima desse amor.
Mas você só consegue isso e supera essa adversidade do cansaço, das dificuldades, da sua mudança, de todas as suas limitações, se você estava preparada para tanto, se você queria isso, se você sabia que você enfrentaria isso. E se você estava disposta. Porque, imagine, você enfrentar tudo isso e ainda sem querer, não tem como ter tanta felicidade.
Agora, se você está preparada, queria e conquista isso, não tem nada que pode ser melhor. Ou (ao menos) será uma realização muito grande.
O maternar pode ser uma possibilidade gigantesca nessa experiência maravilhosa que é a expansão da nossa alma por puro amor. Se a gente escolher ser mãe, que a gente saiba dos riscos. Mas que também saiba das vitórias que a gente vai ter. E que são vitórias maravilhosas.
*Depoimento da psicóloga e professora universitária Camila Torres Ituassú, de 44 anos.
Foto: Reprodução
Mônica, Marcela e Eduardo Riedel - Foto: Arquivo Pessoal
Dra Juliana Lusvarghi - Foto: Arquivo Pessoal



