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Gastronomia

Livro lançado na Capital resgata várias receitas de imigrantes da Ilha de Okinawa

Obra reúne pratos, histórias e tradições preservadas por gerações de imigrantes e que, até hoje, permaneciam restritas ao ambiente familiar

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Os sabores e saberes da culinária okinawana, mantidos por décadas dentro das casas de famílias imigrantes, ganham agora registro inédito em livro. A obra “Kwachi Sabirá – Culinária, histórias e receitas dos primeiros imigrantes okinawanos em Campo Grande” será lançada neste sábado, a partir das 18h, na Associação Okinawa de Campo Grande, reunindo receitas, memórias e tradições que atravessaram gerações.

O lançamento marca um momento histórico para a cidade, que abriga a segunda maior comunidade okinawana do Brasil. Ao longo dos anos, a presença desses imigrantes ajudou a construir uma identidade cultural singular, resultado da fusão entre costumes trazidos da ilha de Okinawa e influências locais – combinação que tem como maior símbolo o sobá, reconhecido como patrimônio imaterial de Campo Grande.

Embora muitas vezes associada à culinária japonesa, a gastronomia de Okinawa possui características próprias. Isso porque a ilha foi, por séculos, um reino independente, com língua, cultura e tradições distintas do Japão. Essa singularidade também se reflete nas receitas reunidas no livro, que preserva, inclusive, a nomenclatura original dos pratos na língua okinawana.

De acordo com uma das autoras, Renata Kawano, a imigração japonesa em Campo Grande teve uma característica particular: cerca de 70% dos imigrantes que chegaram à cidade eram oriundos de Okinawa. “No livro usamos os nomes na língua de Okinawa, como uma forma de resgatar esses termos”, explica.

A publicação é resultado de aproximadamente um ano de trabalho e contou com a participação ativa da comunidade. Assinam a obra Marcel Arakaki Asato, Dirce Kimié Guenka, Nilton Kiyoshi Shirado e Renata Naomi Otto Kawano. O livro surge como um esforço coletivo para preservar uma herança cultural que corria o risco de se perder com o tempo.

“Este livro nasceu da necessidade urgente de preservar, registrar e transmitir a rica herança culinária trazida pelos milhares de imigrantes okinawanos que chegaram a Campo Grande há mais de um século. Eles trouxeram histórias, danças, músicas, receitas de comidas simples e uma forma de cozinhar que sustentava o corpo e as memórias da terra natal”, destaca Marcel Arakaki.

Como parte desse resgate, a equipe entrevistou membros mais antigos da comunidade, todos com mais de 90 anos, que compartilharam lembranças sobre os hábitos alimentares e o cotidiano das primeiras gerações.

Entre eles estão Cândida Adania, Jorge Tetsu Taira e Nobukatsu Higa, cujos relatos ajudaram a reconstruir parte dessa história.

O livro apresenta receitas emblemáticas da culinária okinawana, como o castirá – bolo de rapadura bastante conhecido entre descendentes, mas hoje pouco consumido até mesmo em Okinawa; o andagui, bolinho doce semelhante ao bolinho de chuva brasileiro; o arroz vermelho, tradicional em celebrações por simbolizar prosperidade; e a sopa de cabrito, antes preparada apenas em ocasiões especiais e atualmente servida na festa junina da associação.

Também não poderia faltar o sobá, prato que se tornou um dos maiores símbolos gastronômicos de Campo Grande, embora sua versão local tenha se transformado ao longo do tempo, distanciando-se da receita original da ilha.

A ideia de reunir esse patrimônio em livro surgiu após a visita de chefs de Okinawa à cidade, quando os autores perceberam que diversas receitas já haviam sido adaptadas pelas famílias locais. A constatação reforçou a urgência de documentar essas transformações e preservar as origens.

A obra contou ainda com apoio do governo de Okinawa, especialmente por meio dos autores Dirce Kimié Guenka e Nilton Kiyoshi Shirado, que atuam como Embaixadores da Boa Vontade da província.

Publicado em português, inglês e japonês, o livro busca alcançar não apenas leitores brasileiros, mas também descendentes e interessados em outras partes do mundo.

Castirá (bolo de rapadura okinawano)

Ingredientes

 

  •  1 rapadura (500 g);
  •  5 xícaras de água;
  •  1 ovo;
  •  4 colheres (de sopa) de óleo;
  •  1 colher (de sopa) de bicarbonato de sódio;
  •  4 xícaras de farinha de trigo;
  •  Gengibre ralado (opcional);
  •  Gergelim para finalizar.

Modo de Preparo

  • Coloque a rapadura picada em uma panela com as 5 xícaras de água. Ferva até dissolver completamente. Desligue o fogo e deixe esfriar. Separe meia xícara desse caldo e reserve para a finalização. 
  • Em uma tigela grande, coloque o restante do caldo de rapadura já frio. Acrescente o ovo, o óleo e o bicarbonato. Misture delicadamente. Adicione a farinha aos poucos, mexendo com colher de pau ou espátula – sem bater, apenas incorporando. Se desejar, coloque um pouco de gengibre ralado.
  • Despeje a massa em uma assadeira untada e enfarinhada. Leve ao forno médio (180 °C) por aproximadamente 35 minutos a 45 minutos, ou até firmar e dourar levemente.
  • Retire do forno e, ainda quente, regue a superfície com o meio copo do caldo de rapadura reservado, espalhando com uma colher. Polvilhe gergelim por cima – o caldo ajuda a fixar.

Observações:

O castirá deve ficar firme, mas úmido por dentro. O gengibre é opcional, mas bastante tradicional entre as famílias antigas.

Sobá

Ingredientes

Para o macarrão (aprox. 1 kg)

  •  1 kg de farinha de trigo branco comum;
  •  3 ovos (ou 6 ovos, se não usar água de cinzas);
  •  2 colheres (de chá) de sal;
  •  Água, apenas o suficiente para dar o ponto;
  •  2 colheres (de sopa) de óleo;
  •  Ajinomoto a gosto;
  •  Opcional da tradição: água de cinzas.

Preparo: 

Ferver 1 litro de água com 1 xícara de cinzas de carvão ou lenha. Deixar decantar e usar apenas o líquido claro.

Proporção: Para 1 kg de trigo, usar 1 xícara de café dessa água.

Para o caldo (rende cerca de 5 tigelas)

  •  1 kg de osso de vaca;
  •  500 gramas de osso de porco;
  •  Meio copo americano de shoyu;
  •  Hondashi a gosto;
  •  Sal, se necessário.

Para servir

  •  Omelete fina fatiada;
  •  Cebolinha picada;
  •  Carne de porco, costelinha ou carne bovina cozida e fatiada;
  •  Alga kombu ou kamaboko, conforme costume familiar (opcional).

Modo de Preparo

Macarrão

  • Misture a farinha, o sal, os ovos, o óleo e o ajinomoto.
  • Vá adicionando água (ou água de cinzas + água) aos poucos, até formar uma massa firme e homogênea.
  • Sove bem até ficar lisa.
  • Abra a massa com rolo ou cilindro e corte em tiras próprias para sobá.
  • Polvilhe farinha para não grudar e reserve.

Caldo

  • Aqueça uma panela grande sem óleo e coloque os ossos diretamente sobre o fundo quente.
  • Deixe queimar levemente, mexendo sempre. Essa etapa dá profundidade ao sabor.
  • Acrescente água até cobrir os ossos e deixe ferver.
  • Vá retirando a espuma que se forma na superfície.
  • Cozinhe por 2 a 3 horas, até a carne se desprender dos ossos.
  • Tempere com hondashi e shoyu. Ajuste o sal se necessário.
  • Coe o caldo, se desejar, e reserve.

Montagem

  • Cozinhe o macarrão em água fervente até ficar al dente.
  • Divida o macarrão em tigelas.
  • Cubra com o caldo quente.
  • Finalize com:
  • Omelete fatiada;
  • Cebolinha;
  • Carne fatiada (porco, costela ou bovina);
  • Sirva bem quente.

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AGENDA CULTURAL

Fim de semana tem festival, estreia no cinema e mais; confira

Programação do fim de semana em Campo Grande tem atividades que vão da literatura ao teatro, passando por cinema, atrações infantis e até evento voltado à juventude

27/03/2026 09h30

Comédia que marca a aposentadoria de Fernanda Montenegro chega às telonas

Comédia que marca a aposentadoria de Fernanda Montenegro chega às telonas Divulgação

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O segundo dia do Festival da Juventude conta com uma programação repleta de atividades, que começam pela manhã e seguem até a noite, ocupando diferentes espaços da UFMS.

Logo às 9h, o público interessado em audiovisual poderá participar da oficina de roteiro cinematográfico ministrada pelo cineasta sul-mato-grossense Joel Pizzini.

A atividade propõe uma imersão nos processos criativos do cinema, abordando desde a construção de ideias iniciais até a elaboração de projetos autorais.

Os participantes terão contato com noções fundamentais, como estrutura narrativa, desenvolvimento de personagens e organização dramática, com foco na produção de curtas-metragens de ficção e documentário. Pizzini, reconhecido internacionalmente por seus ensaios documentais, traz ao encontro sua experiência consolidada no cinema e nas artes visuais.

Ainda pela manhã, às 10h, o debate A Política É para Mim? integra a programação do Conexão Gerações e reúne o deputado federal Vander Loubet e a deputada Camila Jara.

A proposta é aproximar os jovens da política institucional, mostrando que a atuação política vai além do noticiário e pode ser uma ferramenta concreta de transformação social.

A mediação fica por conta do escritor e performer Febraro de Oliveira, que conduz o diálogo entre diferentes trajetórias e perspectivas.

À tarde, a partir das 13h30min, o Festival da Juventude abre espaço para um dos momentos mais relevantes de toda a programação: o Fórum das Juventudes. Com caráter participativo, o encontro reúne jovens e gestores públicos em um ambiente de escuta ativa e construção coletiva.

Dividido em cinco eixos temáticos, o fórum aborda questões estruturais que impactam diretamente a juventude. O primeiro eixo trata da educação e do mercado de trabalho, discutindo desde a permanência escolar até políticas de primeiro emprego e geração de renda.

Já o segundo eixo foca no acesso à cultura, ao esporte e ao lazer, valorizando produções juvenis, coletivos culturais e expressões periféricas.

O terceiro eixo coloca em pauta temas como diversidade, igualdade e participação social, enfrentando questões como racismo, machismo e LGBTfobia. O quarto eixo aborda sustentabilidade, mobilidade e direito à cidade, destacando o papel da juventude na preservação ambiental. Por fim, o quinto eixo discute saúde mental, tema urgente diante do aumento de casos de ansiedade, depressão e pressão social entre jovens.

No fim das atividades, uma plenária reúne as principais propostas discutidas, que serão sistematizadas e utilizadas como base para a construção do novo Plano Estadual de Juventude.

A programação cultural de hoje segue ao longo da tarde com múltiplas linguagens artísticas. Às 14h30min, o professor Elton Furnaletto apresenta palestra sobre literatura em podcasts e lives, explorando novas formas de consumo e produção literária fora dos meios tradicionais.

A partir das 15h, a Praça da Juventude recebe a Vila das Letras, um espaço dedicado à circulação de livros, com exposição, venda, troca e doação, reunindo coletivos literários da região.

No mesmo horário, a contação de histórias “Pantanal de Lino”, com Salim Haqzan, leva ao público narrativas inspiradas na vida ribeirinha, mesclando lendas, causos e elementos da cultura pantaneira.

Já às 15h30, o Slam Plural toma o Palco Livre com uma apresentação de poesia urbana protagonizada por mulheres e pessoas LGBTQIAP+, reforçando a importância da diversidade de vozes na cena cultural contemporânea.

O teatro também marca presença com a “Tragicomédia de Dom Cristóvão e Sinhá Rosinha”, apresentada pelo grupo Teatro Imaginário Maracangalha. A peça utiliza humor e crítica social para abordar temas como autonomia feminina e relações de poder.

Na sequência, às 17h, o Circo do Mato apresenta “O Grandioso Mini Cirquim Nas Arábias”, espetáculo que mistura referências da cultura árabe e pantaneira em números que combinam humor, magia e técnicas clássicas circenses.

O audiovisual ganha espaço às 17h30min, com o projeto Exibidinhas, que exibe produções de estudantes da UFMS e promove debates sobre os processos criativos envolvidos.

Às 18h, dois eventos simultâneos movimentam o festival: a Batalha de Rimas, que reúne jovens em disputas de improviso poético, e a palestra da psicanalista Maria Homem, que propõe uma reflexão profunda sobre as juventudes contemporâneas.

Ela abordará temas como excesso de informação, crises sociais e os desafios de construir identidade em um mundo em constante transformação.

À noite, o Teatro Glauce Rocha recebe o espetáculo “O Amigo Fiel”, inspirado na obra de Oscar Wilde. A montagem apresenta uma crítica atemporal ao egoísmo e à hipocrisia nas relações humanas, mantendo atuais discussões que atravessam gerações.

Encerrando a programação do dia, às 21h, o grupo Quintal do Caramelo leva ao público um show de samba marcado por releituras e clássicos brasileiros.

Amanhã, o Festival da Juventude continua, com uma programação ainda mais diversificada. A Vila das Letras permanece ativa durante todo o dia, enquanto oficinas ocupam diferentes espaços da universidade.

Entre os destaques está a oficina de escrita criativa com Monique Malcher, que propõe o uso da etnografia como ferramenta para criação literária. Já a atriz Shirley Cruz conduz uma imersão em interpretação para cinema e TV, compartilhando sua experiência em mais de 40 produções audiovisuais.

Outras oficinas abordam slam, mediação de leitura, desenvolvimento de aplicativos e tradução literária, ampliando o caráter formativo do festival.

As mesas de conversa trazem discussões sobre literatura periférica e escrita feminina, reunindo artistas e autores da cena local.

A programação artística deste sábado inclui o espetáculo circense “Fragmentada”, apresentações de dança contemporânea e a final da Batalha de Rimas, que promete movimentar o público.

Às 17h, a escritora indígena Geni Nuñez conduz a palestra Retrato do Amor Quando Jovem, propondo reflexões sobre afeto, ancestralidade e identidade.

Na sequência, o festival realiza a premiação dos concursos literários e audiovisuais, destacando jovens talentos nas categorias conto, crônica, poesia e cinema.

A noite segue com música: Karla Coronel apresenta o show “Ecos do Tempo”, enquanto Chico Chico encerra a programação com um espetáculo que mistura folk, blues e sonoridades brasileiras.
Mais detalhes e a programação completa podem ser vistos no site www.festjuv.com.br/2026/programacao.

Comédia que marca a aposentadoria de Fernanda Montenegro chega às telonasFoto: Zabenzi

SHOW COMEMORATIVO

Fora da UFMS, este sábado também reserva um momento histórico para a música brasileira. O grupo Demônios da Garoa comemora 80 anos de carreira com um espetáculo que resgata clássicos e reafirma sua relevância.

A apresentação combina tradição e tecnologia, utilizando recursos visuais para criar uma experiência imersiva, sem perder a essência que consagrou o grupo como um dos mais importantes da música popular brasileira.

O show acontece no Palácio Popular da Cultura, às 20h. Ingressos podem ser adquiridos pelo site www.pedrosilvapromocoes.com.br.

COP15

Hoje, às 19h, o espetáculo “Guadakan” ocupa o Teatro Aracy Balabanian, com uma proposta que une arte e consciência ambiental. Inspirado na biodiversidade do Pantanal, o projeto dialoga com os debates da COP15 da Convenção sobre Espécies Migratórias.

Com música ao vivo e dança, a montagem propõe uma reflexão sobre a relação entre seres humanos e natureza, destacando a importância da preservação ambiental.

FEIRA

Também hoje, a Feirinha Casa Hub reúne gastronomia, música e empreendedorismo em um ambiente pensado para a convivência. Com cerca de 20 expositores, o evento oferece desde comidas típicas até produtos artesanais.
A música ao vivo e o pôr do sol na Avenida Afonso Pena ajudam a transformar a feira em um dos principais pontos de encontro da cidade.

SHOPPINGS

Para quem busca opções mais acessíveis e familiares, o Shopping Campo Grande reúne atrações como a Arena Nickelodeon, com personagens como Bob Esponja, além do parque Yuup Experience.

No cinema, o destaque é o filme “Velhos Bandidos”, estrelado por Fernanda Montenegro, Lázaro Ramos, Bruna Marquezine, Vladimir Brichta e Ary Fontoura.

Já o Shopping Norte Sul Plaza promove oficinas de Páscoa para crianças e um plantão de vacinação, ampliando o acesso à saúde.

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CINE CAMPO GRANDE

Venda expõe impasse entre planejamento e preservação do patrimônio histórico

Venda do Cine Campo Grande expõe impasse entre planejamento institucional, entraves urbanos e mobilização pela preservação do patrimônio histórico

26/03/2026 09h00

Cine Campo Grande se consagrou por décadas como um dos principais polos culturais da Capital

Cine Campo Grande se consagrou por décadas como um dos principais polos culturais da Capital Gerson Oliveira / Correio do Estado

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O leilão do Cine Campo Grande, último cinema de rua da capital sul-mato-grossense, foi finalizado na tarde de ontem e se transformou em um dos temas mais sensíveis do cenário cultural local.

O caso evidencia uma disputa que envolve memória coletiva, políticas públicas, planejamento institucional e o futuro do audiovisual em Mato Grosso do Sul. O espaço foi arrematado com um único lance de R$ 4.944.755,22, valor mínimo estipulado para o imóvel.

A decisão de levar o prédio a leilão ocorreu após a Prefeitura Municipal de Campo Grande não aprovar o projeto de reestruturação do espaço, apontando como um dos principais entraves a ausência de estacionamento subterrâneo.

O argumento, no entanto, tem sido questionado por artistas, cineastas e especialistas, que destacam que cinemas de rua, por sua própria natureza, historicamente funcionam em áreas centrais e não dependem desse tipo de estrutura.

Um exemplo disso é o Cinema São Luiz, que, com 74 anos de história, tornou-se um dos mais emblemáticos cinemas de Recife e um dos últimos cinemas de rua do Brasil mesmo sem estacionamento próprio.

Em 2008, o prédio foi revitalizado e tombado como monumento histórico pelo governo do estado de Pernambuco. Mais recentemente, foi cenário das gravações de “O Agente Secreto”, filme que concorreu ao Oscar em quatro categorias.

DE POINT A NADA

Inaugurado na década de 1980 e administrado pela Cinematográfica Araújo, o Cine Campo Grande foi, durante décadas, um dos principais pontos de encontro da cidade.

Localizado em uma área estratégica, na Rua 15 de Novembro, entre as Ruas Rui Barbosa e Pedro Celestino, o cinema oferecia fácil acesso à população e atraía públicos diversos, desde estudantes até trabalhadores do comércio.

Com ingressos acessíveis e programação popular, o espaço se consolidou como uma alternativa democrática de lazer. Para muitos campo-grandenses, foi ali o primeiro contato com o cinema.

O fechamento, em 2012, marcou o fim de uma era. Naquele momento, o filme que liderava as bilheterias nacionais era “Os Vingadores”, símbolo de uma indústria que migrava cada vez mais para os cinemas multiplex em shoppings.

Enquanto a franquia ganhava sequências, o Cine Campo Grande permanecia fechado, tornando-se um retrato do esvaziamento dos centros urbanos e da mudança nos hábitos de consumo cultural.

PROMESSA

Em 2013, o prédio foi adquirido pelo Sesc-MS, com a proposta de revitalizá-lo e transformá-lo em um centro cultural. O projeto previa um espaço multifuncional, com teatro, cinema, biblioteca, salas de música, oficinas e áreas de convivência.

A iniciativa gerou expectativa na comunidade, que via na proposta a possibilidade de reativar o centro da cidade e criar um polo de produção e difusão artística.

No entanto, o projeto nunca saiu do papel. Em 2015, o Sesc apontou a falta de área para estacionamento como um dos principais entraves para a aprovação da obra.

Ao longo dos anos seguintes, novos anúncios foram feitos, incluindo a afirmação, em 2022, de que o projeto estava pronto e seria executado, com prazo de conclusão até 2024.

Mesmo assim, as obras não começaram.

Relatório da Controladoria-Geral da União (CGU) chegou a classificar o imóvel como ocioso, recomendando medidas para dar uma destinação ao espaço. Paralelamente, o prédio sofreu com abandono, invasões e incêndios, incluindo um caso em 2023 que atingiu a sala de projeção.

O LEILÃO

Diante desse cenário, o Sesc-MS decidiu levar o imóvel a leilão. Em posicionamento oficial, a instituição afirma que a decisão foi motivada pelas condições estruturais do prédio, que inviabilizaram a continuidade do projeto.

A entidade reforça ainda que continuará investindo em cultura por meio de outras iniciativas, como o Cine Sesc, a Mostra Sesc de Cinema e o Sesc Lab Mais, além de estudar novos projetos para criação de um espaço mais amplo e moderno que possa integrar diferentes linguagens artísticas.

No entanto, ao vender o imóvel, o destino do prédio deixa de estar sob controle da instituição, podendo resultar em usos completamente distintos de sua vocação cultural.

MUITAS PERDAS

O caso do Cine Campo Grande ganha ainda mais peso quando se observa o histórico da cidade. Campo Grande já chegou a ter mais de 20 cinemas de rua ao longo de sua trajetória. Espaços como Alhambra, Santa Helena, Acapulco, Center e Plaza desapareceram gradualmente, acompanhando transformações urbanas e econômicas.

Hoje, restaram apenas a memória desses locais e o prédio do Cine Campo Grande, o último vestígio físico dessa história.

Para a cineasta Marinete Pinheiro, essa perda é também simbólica. “Antes da popularidade da televisão, os cinemas eram os principais espaços de convivência social. E todos os anteriores já foram apagados da cidade”, afirma.

Ela ressalta que o valor do espaço vai além da arquitetura ou da função comercial. “Existe uma dimensão afetiva, de relações humanas, que foi construída ali ao longo de décadas”, completa.

MOBILIZAÇÃO

A decisão de leiloar o Cine Campo Grande provocou uma mobilização no meio audiovisual do Estado. No domingo, artistas, estudantes e profissionais do audiovisual realizaram uma manifestação em frente ao prédio.

O ato teve forte carga simbólica: um documentário sobre a história dos cinemas da cidade foi exibido nos tapumes do local, transformando o espaço abandonado em uma tela de resistência.

A mobilização levou à formação de uma comissão representativa, que se reuniu com o Sesc-MS nesta segunda-feira, com apoio da vereadora Luiza Ribeiro (PT), presidente da Comissão de Cultura da Câmara Municipal.

Para a parlamentar, a venda representa um prejuízo irreparável. “O valor financeiro não compensa o dano permanente que a cidade terá ao perder o último cinema de rua”, afirmou.

Cine Campo Grande se consagrou por décadas como um dos principais polos culturais da CapitalMobilização resultou na reunião entre o Sesc-MS, a vereadora Luiza Ribeiro (PT) e facilitadores do audiovisual em MS, mas já não havia como voltar atrás na venda do imóvel - Foto: Divulgação

DEMANDA CRESCENTE

O debate ocorre em um momento de expansão do audiovisual no Estado. Mato Grosso do Sul recebeu cerca de R$ 9 milhões apenas neste ano por meio de programas como os Arranjos Regionais.

Somados aos recursos da Lei Paulo Gustavo e da Política Nacional Aldir Blanc, os investimentos chegam a quase R$ 20 milhões.

A produtora cultural e coordenadora do Ministério da Cultura no Estado, Caroline Garcia, destacou que o governo federal tem ampliado significativamente o apoio ao setor. “Temos recursos, políticas públicas e produção crescente. O desafio agora é garantir espaços de difusão”, afirma.

Ela também ressaltou que o Ministério não foi previamente informado sobre a decisão de leiloar o imóvel, apesar de manter diálogo com o Sesc-MS.

PATRIMÔNIO SIMBÓLICO

Para o cineasta Joel Pizzini, o Cine Campo Grande representa um capital simbólico da cidade. “O movimento é espontâneo e reflete uma tomada de consciência da classe audiovisual, que quer devolver seus filmes ao público”, declara.

Ele destaca que o momento atual é diferente de décadas anteriores, com maior produção regional e políticas de incentivo mais robustas. “O cinema de rua tem função formativa e reflexiva. É um espaço de construção de pensamento”, defende.

Pizzini também aponta que a ausência de estacionamento pode ser reinterpretada à luz das novas políticas de mobilidade urbana, que incentivam deslocamentos a pé e o uso de transporte coletivo.

O caso do Cine Campo Grande sintetiza um dilema recorrente nas cidades brasileiras: como conciliar preservação da memória com demandas contemporâneas de planejamento urbano e viabilidade econômica.
Para muitos, a perda do cinema representaria mais um capítulo de apagamento cultural.

“Será um novo trauma para a cidade”, afirma Pizzini, ao lembrar o desaparecimento de outros espaços históricos.

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