Enquanto Campo Grande já registrou mais que o dobro do volume de chuva esperado para outubro e com o último domingo do mês prometendo ser chuvoso, esse período mais úmido do ano traz um alerta para os donos de pets sobre os cuidados necessários com os animais domésticos, que vão desde uma higiene adequada até atenção quanto ao comportamento dos bichinhos, que costumam ficar mais dentro de casa nos dias de intempéries climáticas.
Segundo o Centro de Monitoramento do Tempo e do Clima de Mato Grosso do Sul (Cemtec-MS), as chuvas expressivas ficaram acima da média climatológica na maior parte de Mato Grosso do Sul, com destaque para os volumes registrados na Cidade Morena.
“Em Campo Grande, por exemplo, todas as estações de monitoramento registraram acumulados expressivos que superaram a média histórica mensal de 150,6 mm já nos primeiros 15 dias do mês: no Córrego Anhanduizinho foram observados 272,8 mm (81% acima do esperado), no Jardim Panamá, 238,2 mm (58%), na UPA Aparecida Gonçalves Saraiva, 235,0 mm (56%), e na estação Inmet/Embrapa, 221,6 mm (47%)”.
Como esclarece a médica-veterinária da Special Dog Company Kelly Carreiro, esses cenários de maior umidade exigem um cuidado redobrado dos tutores em manter a pele e a pelagem dos animais secas, além da devida atenção aos ambientes, observando possíveis alterações na saúde para que o bem-estar de cães e gatos seja mantido também nos dias chuvosos.
No calendário, a atual estação é a primavera, que começou às 20h05min do dia 22 de setembro e terminará às 17h50min do dia 21 de dezembro em Mato Grosso do Sul, estação caracterizada pela floração das plantas, mas também pelo aumento da umidade e o retorno das chuvas, sendo a transição entre o inverno (seco) e o verão (chuvoso).
“Chuva e umidade não significam que o pet necessariamente desenvolverá algum problema de saúde. No entanto, quando a pele e a pelagem permanecem molhadas por períodos prolongados, principalmente em animais que já apresentam sensibilidade cutânea ou alguma predisposição, alguns cuidados precisam ser reforçados”, destaca a médica-veterinária.
Pele dos pets
Segundo a especialista, nesses períodos caracterizados por chuvas consecutivas, a saúde da pele dos animais domésticos é justamente o ponto que exige maior atenção dos tutores e das tutoras de caninos e felinos.
Isso porque períodos de umidade prolongada tendem a favorecer a proliferação de microrganismos que contribuem para uma série de alterações dermatológicas, que podem apresentar piora em animais que já têm alguma predisposição.
Em regiões de dobras, como próximo das orelhas, nas patas e no espaço entre os dedos, essas alterações dermatológicas tendem a ter maior incidência. Para aqueles animais que têm pelos longos e/ou densos, a atenção precisa ser redobrada, já que se torna mais difícil tirar a umidade da pele.
Conforme a veterinária Kelly Carreiro, a atenção dos responsáveis precisa se estender inclusive para o cuidado cotidiano, com a higienização de caminhas, cobertores e tapetes, que, necessariamente, precisam estar completamente secos antes do uso.
Dias chuvosos
Os dias chuvosos tendem a alterar também a rotina dos animais, que passam a ver os passeios se tornarem cada vez menos frequentes ou até mais curtos, o que, por sua vez, pode gerar uma redução dos estímulos mentais e físicos, principalmente os cães, que precisam compensar essa menor atividade fora de casa.
Para os gatos, também há cuidados para preservar a necessidade de exploração e descanso da espécie.
Entretanto, para além de associar diretamente os dias chuvosos ao aparecimento de doenças, a auxiliar veterinária, tutora e pet sitter Bianca Bianchi ressalta a importância de considerar o que é melhor para o bem-estar do animal, já que não há um manual de instrução que pode ser aplicado a todos os pets.
“Sou da opinião que todos os cachorros precisam de passeio na rotina, mas quando recebo os pets para hospedar, eu tento seguir a rotina que o pet já tem em casa. A maioria passeia pelo menos uma vez ao dia, mas já recebi também pets que não passeiam, o tutor autorizou levar para passear e o animal simplesmente não se adaptou, ficou assustado, tentou fugir da coleira, então, temos que respeitar a rotina do animal”, diz.
Bianca explica que, nos dias mais chuvosos, se um pet já tem o hábito de passear, ela prefere adaptar o horário para um momento com menos chuva, ou ainda, esperar que toda a precipitação passe, em vez de simplesmente abrir mão do passeio. A profissional ainda dá dicas sobre o que fazer quando não é possível tirar o bichinho de dentro de casa.
“Gosto de atividades que cansam o pet mentalmente e fisicamente, então, além de jogar bolinhas para eles buscarem, dar os brinquedos recheados com petiscos, gosto também de brincar de cabo de guerra, com cordas, geralmente, e dar itens de diferentes texturas e cores para eles roerem.
Para os gatos, as brincadeiras são mais ou menos as mesmas, esconder os petiscos ou a ração embaixo de tapetes ou dentro de objetos, caixas e brinquedos que eles tenham que rolar para soltar os grãos. Eles só não curtem muito o cabo de guerra, que os cães amam, e eu tento explorar a ‘gatificação’ da casa, então, usar as rampas e prateleiras que tem”, cita Bianca Bianchi.
Ela ainda lembra dos cuidados necessários reservados para quando o responsável e o animal retornam para o domicílio, mais do que o uso de itens específicos, como capas de chuva para cachorros, por exemplo, que aparecem com o intuito de proteger o pet em dias de chuva, mas que na prática não se fazem necessários.
“O que cães precisam, ao retornar do passeio, serem secos com toalhas e/ou secadores. A capa de chuva ajuda bastante a não ficarem tão molhados, mas seu uso não dispensa a secagem no retorno, além disso, tem que respeitar a vontade do animal, tem pet que não se acostuma com roupa ou capa, daí não adianta. Eu uso quando [o pet] já está acostumado a usar, o tutor manda junto e, quando está uma chuva mais fraca, já que com ela muito forte nem compensa, eu nem saio de casa com eles, espero diminuir”, explica.
Fique atento
Especialistas frisam que os donos precisam estar atentos até mesmo à própria frequência dos banhos, já que realizar essa limpeza diariamente pode inclusive prejudicar a saúde do pet, por danificar a oleosidade natural que alguns desses animais têm, deixando alguns cães mais suscetíveis a ressecamento, descamação e demais alergias.
Ainda assim, é necessário seguir a recomendação do médico-veterinário, que normalmente foca os fins medicinais para estabelecer uma rotina de higiene adequada.
Entre os riscos que a exposição às chuvas podem trazer para os pets, destaca-se, por exemplo, os casos de otite, que podem ser identificados quando o animal começa a apresentar o hábito de balançar a cabeça mais frequentemente, indicando sinais de inflamação no ouvido.
Além disso, a doença manifesta sinais como: vermelhidão, calor ou inchaço na orelha; secreção amarelada ou escura e excesso de cera; choramingo excessivo ou sinal de dor ao toque ou ainda cheiro forte no ouvido e a manutenção da cabeça inclinada para um dos lados.
Após terminar o passeio em dia chuvoso, é importante remover sujeiras e impurezas que ficam nas patas dos pets, optando por produtos recomendados por profissionais, o que envolve, por exemplo, sabonete neutro e produtos apropriados que não agridem a pele dos animais domésticos.
Há a opção de shampoos e condicionadores veterinários, além de lenços umedecidos e toalhas semelhantes àquelas que são usadas em bebês, desde que tenham uma formulação segura.
Também existe o banho a seco, que não é a maneira mais efetiva e profunda para limpar seu pet, mas aparece como um ótimo aliado para aqueles dias mais frios (ou sem muito tempo) em que você quer dar uma limpeza básica e rápida para deixar o pet cheiroso e ligeiramente limpo.
Bianca faz questão de ressaltar que deixa esses momentos para quando o tempo permite, evitando sair de casa com os bichinhos caso as intempéries climáticas estejam muito severas, não sendo seguro, por exemplo, passear durante tempestades com raios.
“Não passeio durante tempestade de raios ou com vento muito forte, por uma questão de segurança do pet e minha também. O passeio é importante, mas a segurança vem em primeiro lugar”.
Por fim, a pet sitter Bianca Bianchi comenta que há sinais quase inconfundíveis para os tutores e os responsáveis estarem de olho quando levarem seus animais domésticos para passear na chuva.
Segundo a profissional, esses amigos de quatro patas costumam deixar bem claro qualquer mínimo sinal de desconforto.
“Pets que gostam de água costumam se divertir na chuva, então, têm uma expressão claramente feliz, seguem o passeio cheirando, fazendo xixi e caminhando normalmente. Quando o animal começa a tremer, abaixa as orelhas e encolhe o rabo é um sinal de que é hora de encerrar o passeio e voltar para casa, para onde é seco e quentinho”, brinca ela.
Entrevista
Em entrevista ao Correio do Estado, a Dra. Márcia Chaves, veterinária clínica da CastraVet, em Campo Grande, afirma que há sim um risco caso as patas dos animais fiquem em contato com a água de enxurrada, poças e produtos de limpeza das ruas.
"O risco existe e não deve ser subestimado. A água de enxurradas e alagamentos pode carregar urina de animais, fezes, lixo, óleo, produtos químicos e outros contaminantes. Um dos principais cuidados é com a leptospirose, já que a bactéria pode estar presente em água ou solo contaminados pela urina de animais infectados", comenta.
Ela lembra ainda que alguns produtos presentes nas ruas podem causar irritação ou até lesões nas almofadinhas das patas, e o ideal - em caso de contato com essa água de enxurrada ou área potencialmente contaminada - é lavar as patas com água corrente limpa e um produto de higiene adequado para animais, enxaguando bem e secando principalmente entre os dedos.
Médica veterinária clínica do centro que fica na Rua Paissandu, 1074, na Capital do Mato Grosso do Sul (antigo Núcleo de Castração São Francisco de Assis), a Dra. Márcia lembra que não se deve usar produtos de limpeza como água sanitária ou desinfetantes diretamente nas patas dos animais domésticos.
"E existe uma preocupação adicional: depois do passeio, muitos cães naturalmente lambem as patas. Então aquilo que ficou aderido à pele pode acabar sendo ingerido. Uma regra simples é: as patas também precisam de higiene depois de um passeio em condições de risco", completa.
E os pugs?
Sobre as populares raças braquicefálicas, como é o caso dos bulldog, shih-tzu e do popular pug, que costumam apresentar maiores dificuldades respiratórias, a veterinária clínica reforça que esses já possuem características anatômicas que podem dificultar a passagem do ar. Justamente por isso, nos dias frios e principalmente quando há muita umidade, é necessário observar mais atentamente a respiração desses animais.
"É importante evitar exercícios muito intensos ou passeios prolongados em condições climáticas desfavoráveis. Cães idosos, filhotes e aqueles que já apresentam algum problema respiratório precisam de atenção ainda maior".
Segundo a médica, o tutor precisa estar atentos a sinais como:
- respiração mais difícil que o habitual,
- aumento dos ruídos respiratórios,
- tosse,
- cansaço excessivo ou
- intolerância ao exercício.
"Se houver dificuldade respiratória importante, língua ou mucosas arroxeadas, fraqueza ou desmaio, é uma emergência veterinária. E vale lembrar: não devemos esperar o cachorro 'pedir para parar' quando ele já está com dificuldade para respirar. A prevenção é muito mais segura", complementa a Dra. Márcia Chaves.
A Dra. Márcia Chaves ainda indica que nem todo comportamento destrutivo ou excesso de latidos, que muitas vezes os donos costumam associar a falta de passeios, significa necessariamente ansiedade. Em outras palavras, para além de "gastar energia" ou só fazer as necessidades, os passeios são verdadeiras oportunidades de explorar cheiros, encontrar estímulos diferentes, observar o ambiente e, como bem cita a profissional, exercer os comportamentos naturais.
"Quando essas oportunidades desaparecem durante vários dias, alguns cães podem ficar frustrados, entediados ou mais inquietos. Isso pode aparecer como destruição de objetos, vocalização excessiva, dificuldade para relaxar ou busca constante pela atenção do tutor", afirma.
Após alguns dias sem os costumeiros passeios, os primeiros sinais podem ser bastante sutis, como uma maior agitação do animal que procura alguma coisa para fazer o tempo todo, quando o pet começa a insistir mais pela atenção ou até demonstra dificuldade para descansar.
A médica pontua que as alternativas dentro de casa são necessárias também, como o procurar petiscos, brinquedos recheáveis, atividades de olfato e pequenos treinamentos, porque uma coisa é importante: "o cachorro também precisa cansar a cabeça, não apenas o corpo", cita. Porém, há também riscos nas brincadeiras dentro de casa e é importante estar atento ao tipo de atividade e também o modelo do piso, para evitar que o pet escorregue e se machuque.
"Fazer o cachorro correr em alta velocidade, dar arrancadas, frear bruscamente ou mudar de direção repetidamente em um piso liso pode provocar escorregões. E uma escorregada pode causar distensões musculares, torções e outras lesões ortopédicas. Também é importante melhorar a aderência do ambiente. Tapetes antiderrapantes e passadeiras podem ajudar bastante, principalmente nos locais onde o cão costuma correr ou levantar. Manter as unhas adequadamente aparadas também ajuda na estabilidade", cita.
Em complemento, a Dra. Márica Chaves destaca que uma das alternativas que acabam fortalecidas pelo instinto de proteção, as botinhas antiderrapantes, também podem ser uma opção para aproveitar aquele passeio em chuvas mais amenas, mas que também é preciso ter cuidado.
"As botinhas antiderrapantes podem ser úteis, principalmente em determinadas situações, mas precisam ter tamanho adequado, não apertar e permitir que o animal caminhe naturalmente. Elas não substituem um ambiente seguro. E em superfícies molhadas ou rampas, a principal recomendação é simples: diminuir a velocidade e evitar que o cão corra", diz.
Ela termina reforçando que quando o tempo não permite um passeio convencional, não é necessário escolher entre deixar o animal parado ou colocá-lo para correr dentro de casa, sendo possível oferecer atividades que estimulem o corpo, a mente e os sentidos de maneira segura.
"Cuidar de um animal não é apenas oferecer comida, água e abrigo. É também permitir que ele seja aquilo que ele é: um animal, com necessidades de movimento, exploração, interação e comportamento", conclui.

Kailani Polleto
Marina Schaeffter e Cristiani Guessi


