Quando as temperaturas caem, é comum trocar a água morna por banhos mais quentes, deixar o protetor solar de lado e reduzir os cuidados com a hidratação da pele. O inverno, para muitos, transmite a sensação de que a pele está protegida dos efeitos do clima e da radiação solar.
No entanto, essa percepção é equivocada e pode resultar em uma série de problemas, que vão desde ressecamento intenso até envelhecimento precoce.
Ao contrário do que muita gente imagina, a pele não sofre menos durante os meses frios. Ela apenas enfrenta desafios diferentes dos observados no verão.
A combinação entre temperaturas baixas, vento, baixa umidade do ar e banhos muito quentes compromete a barreira cutânea, estrutura responsável por manter a hidratação natural e proteger o organismo contra agentes externos.
Segundo a dermatologista Marcela Cestari, o inverno exige adaptações na rotina de cuidados justamente porque as condições climáticas favorecem a perda de água pela pele.
“A pele não descansa no inverno, apenas enfrenta desafios diferentes. No verão, o principal agressor costuma ser a exposição solar. Já no inverno, o ressecamento ganha protagonismo por causa do ar mais seco, do vento frio e dos banhos quentes, que favorecem a perda de água e enfraquecem a barreira cutânea”, explica.
Quando essa barreira é comprometida, a pele perde parte da sua capacidade natural de reter água. O resultado aparece de forma gradual: sensação de repuxamento após o banho, aspereza, descamação, coceira e vermelhidão passam a fazer parte da rotina.
Em casos mais severos, podem surgir fissuras dolorosas, especialmente nos lábios, nas mãos, nos pés e nos calcanhares, além do aumento da sensibilidade e do risco de dermatites.
CUIDADO INDISPENSÁVEL
Entre os erros mais frequentes durante o inverno está abandonar o uso diário do protetor solar. Como os dias são menos ensolarados e as temperaturas, mais agradáveis, muitas pessoas acreditam que a proteção contra os raios ultravioleta deixa de ser necessária. A realidade, porém, é outra.
Marcela Cestari explica que, embora a incidência da radiação UVB – responsável pelas queimaduras solares – seja menor durante o inverno, os raios UVA permanecem praticamente constantes durante todo o ano.
“A radiação UVB realmente diminui no inverno. Mas os raios UVA atravessam nuvens, vidros e continuam atingindo a pele diariamente”, esclarece.
Essa diferença é fundamental para compreender por que o filtro solar não deve ser um produto restrito ao verão. Enquanto os raios UVB costumam provocar vermelhidão e queimaduras perceptíveis logo após a exposição, a radiação UVA age silenciosamente.
Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 95% da radiação ultravioleta que chega à superfície terrestre é composta por raios UVA. Eles penetram em camadas mais profundas da pele, estimulando alterações nas fibras de colágeno e elastina, responsáveis pela firmeza e a elasticidade cutânea.
Os efeitos não aparecem imediatamente, mas se acumulam ao longo dos anos.
Rugas, manchas, flacidez, perda de viço e alterações na textura da pele fazem parte do chamado fotoenvelhecimento.
De acordo com informações da Sociedade Canadense de Dermatologia, aproximadamente 90% do envelhecimento visível da pele está relacionado aos danos provocados pela exposição solar ao longo da vida.
PERIGO ESCONDIDO
Nada mais confortável durante o inverno do que um banho quente e demorado. No entanto, esse hábito representa um dos maiores vilões para a hidratação natural da pele.
A água em temperaturas elevadas remove parte da camada lipídica – uma fina película de gordura produzida naturalmente pelo organismo –, que atua como um escudo protetor.
Sem essa proteção, ocorre maior evaporação da água presente na pele, deixando-a mais seca e vulnerável à ação de agentes irritantes.
“A barreira cutânea funciona como uma espécie de escudo que retém água e impede a entrada de agentes irritantes. Quando a água está muito quente, essa proteção é removida, favorecendo o ressecamento, a coceira e, em alguns casos, o desenvolvimento de dermatites”, explica a dermatologista.
Além da temperatura, o tempo de permanência no chuveiro também influencia. Banhos longos potencializam a retirada dessa camada protetora, agravando ainda mais o ressecamento característico da estação.
A recomendação é optar por banhos mornos e mais rápidos, especialmente para pessoas que já apresentam pele sensível ou doenças como dermatite atópica.
OLEOSIDADE É DIFERENTE DE HIDRATAÇÃO
Existe a crença de que quem produz muito sebo naturalmente não precisa utilizar hidratantes. Na prática, porém, oleosidade e hidratação são características completamente diferentes.
“Uma pele pode apresentar excesso de oleosidade e, ao mesmo tempo, estar desidratada. Quando a hidratação é negligenciada, a barreira cutânea se fragiliza e a produção de sebo pode até aumentar como mecanismo de compensação”, DIZ a dermatologista sobre o efeito rebote.
Por isso, é recomendado que todos os tipos de pele sejam hidratados diariamente, escolhendo produtos adequados para cada necessidade.
O QUE REALMENTE AJUDA
Nos últimos anos, as redes sociais popularizaram tendências de cuidados com a pele que prometem resultados rápidos. Entre elas está o chamado skin flooding, técnica que consiste em aplicar diversas camadas de produtos hidratantes para potencializar a retenção de água.
Embora a proposta tenha conquistado milhões de visualizações, Marcela Cestari ressalta que o benefício nem sempre está relacionado à quantidade de cosméticos utilizados.
Segundo ela, um hidratante de boa qualidade aplicado corretamente costuma ser suficiente para garantir proteção adequada.
“O que realmente faz diferença é aplicar um bom hidratante enquanto a pele ainda está úmida. Um produto bem formulado já reúne ingredientes capazes de atrair água, suavizar a pele e reduzir sua perda. Muitas vezes, o excesso de etapas agrega mais marketing do que benefício real”, afirma.
Entre os ativos mais indicados para restaurar a barreira cutânea durante o inverno estão as ceramidas, ácido hialurônico, glicerina, pantenol e niacinamida. Esses ingredientes ajudam a reter água, fortalecer a proteção natural da pele e reduzir a perda de hidratação.
ÁREAS ESQUECIDAS
Embora o rosto concentre grande parte dos cuidados estéticos, outras regiões do corpo costumam sofrer ainda mais durante o inverno.
Lábios, mãos, pernas, cotovelos, joelhos, pés e calcanhares apresentam menor produção de oleosidade e ficam mais suscetíveis ao ressecamento intenso e ao surgimento de rachaduras.
As mãos, por exemplo, são constantemente lavadas e expostas ao álcool em gel, fatores que favorecem ainda mais a perda de hidratação. Já os lábios possuem uma pele extremamente fina e praticamente não contam com glândulas sebáceas, tornando-se especialmente vulneráveis às baixas temperaturas.
Nesses casos, o uso frequente de hidratantes específicos e protetores labiais pode evitar fissuras dolorosas e desconforto ao longo da estação.
BONS HÁBITOS
Apesar da quantidade de produtos disponíveis no mercado, uma rotina eficiente não precisa ser complexa.
Para preservar a saúde da pele durante o inverno, três hábitos simples fazem toda a diferença: hidratar a pele diariamente, preferencialmente logo após o banho, quando ela ainda está levemente úmida; manter o uso do protetor solar todos os dias, independentemente da temperatura ou da presença de sol aparente; e evitar banhos muito quentes e demorados.
“Regularidade é mais importante do que uma rotina complexa. Hábitos simples, quando realizados diariamente, oferecem muito mais proteção à pele do que cuidados intensivos feitos apenas de forma esporádica”, conclui Marcela Cestari.
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Osmar Bastos, em noite de posse na Academia Brasileira de Medicina Veterinária, reconhecimento pelo trabalho científico e jornalístico na profissão que escolheu há 50 anos - Foto: Arquivo Pessoal
Vladimir Maluf - Foto: André Ligeiro


