Para muitas mulheres, a dança é apenas uma atividade física ou uma forma de expressão artística, para outras, ela representa um recomeço.
Em Campo Grande, o projeto Dança da Vida tem mostrado que a dança do ventre pode ir muito além dos palcos e das apresentações, tornando-se um instrumento de acolhimento, fortalecimento da autoestima, promoção da saúde mental e inclusão social.
Idealizado pela professora e bailarina Nidal Abdul, o projeto oferece aulas gratuitas de dança do ventre em diferentes bairros da Capital e nasceu a partir de uma inquietação surgida ao longo de anos de convivência com alunas de diferentes realidades.
Ao perceber que a dança promove mudanças profundas na forma como as mulheres se relacionam consigo mesmas e com o mundo, ela decidiu criar uma iniciativa que ampliasse esse acesso para quem dificilmente conseguiria frequentar aulas particulares.
Foi assim que surgiu o Instituto Dança da Vida Nidal Abdul, uma organização da sociedade civil (OSC) criada para desenvolver projetos sociais tendo a dança como principal ferramenta de transformação.
Segundo Nidal, a proposta nasceu da observação das inúmeras experiências compartilhadas por mulheres que chegavam às aulas carregando traumas, inseguranças, baixa autoestima e diferentes tipos de sofrimento emocional.
“Comecei a perceber que algo mais genuíno poderia ser feito através da dança. Ela já transformava vidas naturalmente, mas pensei que seria possível intensificar esse processo e criar um projeto voltado especificamente para isso”, explica.
DEMOCRATIZAÇÃO
A iniciativa foi estruturada para atender mulheres de todas as realidades sociais. Não há restrições quanto à idade, profissão ou condição financeira. O objetivo é garantir que qualquer mulher tenha acesso à prática da dança, independentemente de poder ou não pagar por uma escola especializada.
Além de democratizar o acesso à cultura, o projeto também acolhe mulheres vítimas de violência, pacientes em tratamento de doenças, mães, idosas, jovens e todas aquelas que encontram na dança um espaço de pertencimento e reconstrução.
Atualmente, o projeto Dança da Vida atende mulheres nos Bairros Caiobá, Itamaracá, Ana Maria do Couto, Coophavila II e Moreninhas. A expansão já está em andamento e novas inscrições foram abertas para que a iniciativa alcance mais três bairros da Capital, chegando à meta de oito polos de atendimento.
A escolha das regiões não aconteceu por acaso. Nidal conta que realizou um levantamento para identificar bairros populosos e que pudessem atender mulheres também de regiões vizinhas.
“O objetivo foi criar polos estratégicos. Quando escolhemos um bairro como a Coophavila II, por exemplo, também conseguimos atender mulheres do Aero Rancho, do Tarumã e de outras regiões próximas. Isso facilita muito o acesso”, diz.
Como não existe limite fixo de participantes, o projeto busca acolher todas as mulheres interessadas. As aulas são totalmente gratuitas e não exigem experiência anterior com dança, basta comparecer usando roupas confortáveis para exercícios e participar.
SUPERAÇÃO
O projeto atende atualmente os Bairros Caiobá, Itamaracá, Ana Maria do Couto, Coophavila II e Moreninhas, mas será expandido para outros três novos locais - Foto: DivulgaçãoAo longo dos anos, Nidal acompanhou inúmeras trajetórias de transformação, entre elas, uma das mais marcantes é a de Suzana.
Ela sofreu um grave atropelamento em 2008 e ficou paraplégica. Anos depois, em 2019, decidiu iniciar as aulas de dança do ventre. O que começou como uma tentativa de reencontrar qualidade de vida acabou mudando completamente sua trajetória.
“É emocionante ver uma mulher cadeirante se tornar uma profissional da dança. É uma história que inspira todas as outras participantes e mostra que os limites muitas vezes existem apenas quando não há oportunidades”, afirma Nidal.
Mas Suzana está longe de ser um caso isolado. A professora relata que acompanha diariamente mulheres em tratamento contra o câncer, participantes que enfrentaram relacionamentos abusivos, perdas familiares, problemas emocionais e outras situações delicadas.
Em comum, todas encontram nas aulas um ambiente seguro para reconstruir a confiança e fortalecer os vínculos sociais.
Segundo ela, as mudanças aparecem rapidamente.
“O que mais percebo é a melhora do humor, da autoestima, do bem-estar e da socialização. As mulheres passam a acreditar mais nelas mesmas, e isso acaba se refletindo em todas as áreas da vida”, pontua.
OPORTUNIDADE DE DESENVOLVIMENTO
Além das aulas semanais, todas as participantes têm oportunidade de integrar festivais, apresentações culturais e eventos realizados pelo estúdio, independentemente do bairro onde frequentam as atividades.
Essa vivência artística amplia ainda mais o sentimento de pertencimento. Muitas mulheres que nunca haviam subido num palco passam a se apresentar diante do público, superando medos e descobrindo novas capacidades.
Embora a dança do ventre ainda seja cercada por estereótipos, Nidal destaca que a modalidade trabalha consciência corporal, coordenação motora, fortalecimento muscular, postura, flexibilidade e expressão artística, respeitando os limites de cada participante.
Ao contrário do que muitos imaginam, não existe um corpo ideal para praticar a modalidade. Mulheres de diferentes idades, biotipos e condições físicas podem participar das aulas, adaptadas conforme as necessidades de cada turma.
EXECUÇÃO DO PROJETO
O projeto Dança da Vida também dialoga diretamente com políticas públicas voltadas às mulheres, ao promover inclusão, acesso à cultura, fortalecimento da autonomia, convivência comunitária e valorização da saúde física e emocional.
A iniciativa é executada pela Fundação de Cultura de Mato Grosso do Sul (FCMS) e pela Secretaria de Estado de Turismo, Esporte e Cultura (Setesc), por meio de termo de fomento viabilizado por emenda parlamentar.
Apesar dos resultados alcançados, manter o projeto em funcionamento continua sendo o principal desafio.
Como todas as atividades são oferecidas gratuitamente, a continuidade depende da renovação dos recursos públicos e da aprovação de novos financiamentos.
“O maior desafio é manter o projeto funcionando. Os recursos têm prazo determinado e, quando encerram, precisamos buscar novas formas de financiamento para que as mulheres continuem sendo atendidas”, explica.
Mesmo diante das dificuldades, Nidal afirma que ver diariamente a transformação vivida pelas participantes faz todo o esforço valer a pena.
“Para mim, é algo sublime. A dança é a minha vida. Ver tantas mulheres mudando, recuperando a autoestima e encontrando felicidade através dela é muito mais do que um dia imaginei”, destaca Nidal.
>> SERVIÇO
As interessadas em participar podem realizar a inscrição gratuitamente pelo WhatsApp (67) 99245-0766. Não é necessário ter experiência anterior, apenas disposição para conhecer uma atividade que, para muitas mulheres, tem representado um novo capítulo de suas histórias.


