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Entre Costuras & CuLtura: Quando a moda entra em campo

Na apresentação da final da Copa do Mundo de Clubes da FIFA, Shakira mostrou mais uma vez por que é conhecida como a "rainha das Copas"

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Há muito tempo o futebol deixou de ser apenas um esporte. As grandes finais se transformaram em eventos culturais globais, capazes de reunir música, moda, entretenimento e milhões de espectadores diante da mesma tela. E, quando isso acontece, cada detalhe importa, inclusive o figurino.

Na apresentação da final da Copa do Mundo de Clubes da FIFA, Shakira mostrou mais uma vez por que é conhecida como a “rainha das Copas”. Mas, além da energia contagiante e da performance impecável, um elemento chamou a atenção de quem acompanha moda: o vestido que usava.

Desenvolvido especialmente para o espetáculo, o figurino foi confeccionado com mais de 200 mil cristais Swarovski, transformando a peça em uma verdadeira joia em movimento. O brilho intenso não era apenas um recurso estético.

Em produções dessa magnitude, cada cristal é pensado para refletir a luz das câmeras, valorizar os movimentos da artista e criar impacto visual para uma audiência de milhões de pessoas.

Esse é um aspecto pouco percebido pelo público: um figurino de palco não é simplesmente uma roupa bonita. Ele precisa atender a exigências muito diferentes das de uma peça de passarela.

Deve permitir liberdade total de movimentos, resistir ao ritmo intenso da coreografia, funcionar sob diferentes tipos de iluminação e, principalmente, comunicar sua mensagem mesmo para quem assiste a centenas de metros de distância ou pela televisão.

O vestido de Shakira traduz perfeitamente uma tendência que vem ganhando força na moda contemporânea: a união entre moda, tecnologia e performance. Cada aplicação de cristal, cada recorte e cada escolha de tecido fazem parte de um projeto que busca equilibrar glamour e funcionalidade.

Não por acaso, grandes maisons e marcas de luxo vêm estreitando sua relação com o universo esportivo. Louis Vuitton cria os baús dos principais troféus do mundo. Dior, Prada e Gucci vestem atletas em eventos internacionais. A moda passou a compreender que o esporte também é um dos grandes palcos da construção de imagem.

Shakira representa esse encontro como poucas artistas. Desde a Copa do Mundo de 2006, passando por “Waka Waka”, em 2010, até suas apresentações mais recentes, ela construiu uma identidade visual imediatamente reconhecível.

Franjas, brilhos, recortes estratégicos e referências à dança do ventre fazem parte de uma assinatura estética que atravessa décadas sem perder contemporaneidade.

Existe também um simbolismo interessante na escolha das cores do figurino. Os tons vibrantes de rosa, laranja e dourado dialogam com a energia latina que sempre caracterizou sua carreira.

São cores associadas ao movimento, à celebração e à vitalidade.  Exatamente a atmosfera que um espetáculo esportivo procura transmitir.

Vivemos um momento em que as fronteiras entre moda, música, esporte e entretenimento praticamente desapareceram.

Um desfile pode acontecer em um estádio. Uma campanha de luxo pode ser estrelada por um atleta. E uma final de campeonato pode se tornar uma das maiores vitrines de moda do planeta.

A roupa e a imagem comunicam valores, desperta emoções, constrói narrativas e ajuda a transformar alguns minutos de apresentação em imagens capazes de permanecer na memória coletiva por muitos anos.

Porque, no fim das contas, enquanto os jogadores disputam a taça dentro de campo, a moda também entra em jogo. E, quando bem executada, conquista seu próprio lugar entre os grandes momentos da história do espetáculo.

E por fim, 3 lições de estilo que podemos aprender com Shakira: 

            1.         Movimento também faz parte da elegância.

Franjas, tecidos leves e modelagens que acompanham o corpo tornam qualquer produção mais interessante. Uma roupa bonita é, antes de tudo, aquela que permite que você se mova com naturalidade.

            2.         Cor transmite emoção.

Os tons vibrantes de rosa, laranja e dourado reforçaram a energia latina da cantora. Antes de escolher uma roupa, pense também na mensagem que deseja transmitir: cores comunicam tanto quanto palavras.

            3.         O caimento vale mais do que o preço.

O sucesso do figurino não estava apenas nos 200 mil cristais, mas na modelagem impecável. No dia a dia, uma peça bem ajustada ao corpo costuma causar muito mais impacto do que uma roupa cara que veste mal.

Capa da semana Correio B+ - Especial

Entrevista exclusiva com o diretor de cinema Nilson Rodrigues

Bonito CineSur faz de MS o coração do cinema sul-americano. Em sua quarta edição, festival cresce, atrai estrelas e transforma cinema em formação, encontro, memória e desenvolvimento local

02/08/2026 11h00

Nilson Rodrigues: Bonito CineSur faz de MS o coração do cinema sul-americano. Em sua quarta edição, festival cresce, atrai estrelas e transforma cinema em formação, encontro, memória e desenvolvimento local

Nilson Rodrigues: Bonito CineSur faz de MS o coração do cinema sul-americano. Em sua quarta edição, festival cresce, atrai estrelas e transforma cinema em formação, encontro, memória e desenvolvimento local Foto: Divulgação

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Quantos filmes equatorianos você conhece? Quantos venezuelanos já assistiu? E quantas produções do Paraguai, país que divide fronteira com Mato Grosso do Sul, chegaram às salas de cinema ou às plataformas brasileiras?

As perguntas lançadas por Nilson Rodrigues, idealizador e diretor do Bonito CineSur, parecem simples, mas revelam um dos grandes paradoxos culturais do continente: a América do Sul produz filmes reconhecidos nos principais festivais do mundo, mas seus países ainda conhecem muito pouco o cinema realizado pelos próprios vizinhos.

“Quantos filmes equatorianos você conhece? Quantos filmes venezuelanos já viu? Quantos colombianos ou chilenos? A gente vê muito pouco”, provoca Nilson em uma conversa exclusiva para o Caderno B+ diretamente de Bonito.

“Não é que não exista uma produção relevante. O Paraguai foi premiado em Berlim, o Chile vai ao Oscar, a Colômbia vai ao Oscar. Existe uma produção argentina incrível, uma produção brasileira muito forte. O que existe é uma enorme barreira de circulação.”

Foi para começar a romper essa barreira que o Bonito CineSur nasceu, em 2023. Em apenas quatro edições, o Festival de Cinema Sul-Americano transformou Bonito, já conhecida mundialmente por suas belezas naturais, em um território de encontro entre realizadores, produtores, atores, distribuidores, críticos e públicos de diferentes países.

Na edição de 2026, realizada entre 24 de julho e 1º de agosto, o festival recebeu o recorde de 905 filmes inscritos. Na primeira edição, foram 657, o que representa crescimento de 37%. O público também mais do que dobrou: passou de 4.200 pessoas, em 2023, para 9 mil em 2025, alta de 114%.

Antes mesmo de contabilizar os resultados deste ano, mais de 18.200 pessoas já haviam participado das atividades do CineSur.

A quarta edição selecionou 32 produções competitivas de dez países da América do Sul, distribuídas entre longas e curtas sul-americanos, cinema ambiental e filmes de Mato Grosso do Sul.

A produção regional conquistou um espaço ainda maior: oito obras sul-mato-grossenses entraram na competição, duas a mais do que no ano anterior. Mas, para Nilson, os números são apenas uma parte da história.

“A gente partiu de uma tese: reunir a produção sul-americana recente e criar um ambiente de encontro entre produtores, atores, atrizes e realizadores. Um lugar onde também fosse possível discutir projetos e estimular coproduções”, explica. “Existe uma barreira muito grande entre os países. O festival nasce para criar condições de aproximação.”

Nilson Rodrigues: Bonito CineSur faz de MS o coração do cinema sul-americano. Em sua quarta edição, festival cresce, atrai estrelas e transforma cinema em formação, encontro, memória e desenvolvimento localNilson Rodrigues: Bonito CineSur faz de MS o coração do cinema sul-americano. Em sua quarta edição, festival cresce, atrai estrelas e transforma cinema em formação, encontro, memória e desenvolvimento local - Fotografando Bonito - Divulgação

Uma vida dedicada ao cinema

O CineSur também é resultado de uma trajetória de mais de quatro décadas. Produtor, exibidor e gestor cultural, Nilson Rodrigues começou a trabalhar com festivais ainda nos anos 1980.

Foi coordenador e diretor de diferentes edições do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, idealizou o Festival de Inverno de Bonito e o Festcine Pantanal, em Campo Grande, além de ter integrado a Diretoria Colegiada da Agência Nacional do Cinema, a Ancine, entre 2005 e 2009.

Como exibidor, fundou o Cine Cultura de Campo Grande e, posteriormente, o Cine Cultura Liberty Mall, em Brasília, voltado especialmente ao cinema brasileiro e à produção independente mundial. Como produtor, participou de títulos como Tainá 3 – A origem, O outro lado do paraíso e O pastor e o guerrilheiro.

Agora, vive um momento especialmente movimentado com dois novos filmes. Nilson é produtor de Honestino, dirigido por Aurélio Michiles e protagonizado por Bruno Gagliasso nas sequências dramatizadas, e de Justino – Nos Bastidores do Reino, novo longa de José Eduardo Belmonte.

Na entrevista, ele brincou com a coincidência entre os nomes: “Honestino e Justino. Honesto e justo”. “Estou muito animado. Um dos filmes entra nas salas de cinema e o outro inicia sua carreira nos festivais”, conta.

Esse trânsito entre festivais, salas de exibição, produção e políticas públicas deu a Nilson uma visão ampla das dificuldades enfrentadas pelo audiovisual.

“O mercado é ocupado pelo cinema hegemônico dos Estados Unidos, e nem pelo cinema norte-americano em toda a sua diversidade. O cinema independente dos Estados Unidos também é muito potente.

O que recebemos aqui é aquilo que vem da grande indústria”, observa. “E, da mesma forma que essa indústria ocupa o mercado brasileiro, ocupa também a Argentina, o Paraguai, a Bolívia e o Chile.”

O CineSur não pretende resolver sozinho um problema que envolve legislação, distribuição, investimento, regulação das plataformas e políticas públicas. Nilson é o primeiro a reconhecer os limites de um festival.

“O festival não resolve os problemas do mercado, da circulação ou da regulação. Mas conecta as pessoas. Estimula a produção e também a aquisição dos filmes”, afirma.

Um exemplo concreto aconteceu após a edição anterior, quando um filme chileno premiado em Bonito despertou o interesse de uma distribuidora brasileira. Para um longa que talvez não encontrasse espaço no Brasil, o encontro representou uma possibilidade real de chegar a um novo público.

“Isso tem importância. Precisamos trazer mais distribuidores para ver esses filmes, além de mais produtores. Mas isso também depende das condições econômicas do festival, da ampliação dos apoios e dos patrocínios”, diz Nilson.

Estrelas do continente em Bonito

A força de um festival também se mede por sua capacidade de reunir os grandes nomes do cinema sem afastá-los do público. Em 2026, Bonito recebeu artistas conhecidos nacional e internacionalmente, mas manteve sessões, debates e encontros com acesso gratuito.

A abertura foi apresentada por Reynaldo Gianecchini e pela atriz e coordenadora geral Andrea Freire. O primeiro fim de semana teve ainda a presença de Bruno Gagliasso e do diretor Aurélio Michiles, que apresentaram a pré-estreia nacional de Honestino, filme sobre o líder estudantil Honestino Guimarães, sequestrado e desaparecido durante a ditadura militar.

João Moreira Salles participou de uma aula magna sobre o documentário e apresentou Minha terra estrangeira, codirigido por Louise Botkay. A programação também reuniu o documentarista Vincent Carelli, criador do projeto Vídeo nas Aldeias; o cineasta Luiz Carlos Lacerda, o Bigode; além de produtores, curadores, críticos e realizadores de vários países.

Até o encerramento, o festival ainda recebe Paulo Betti, responsável por uma conversa sobre interpretação para cinema e televisão, e Valentina Herszage, atriz de Ainda Estou Aqui, que apresenta com ele a cerimônia de premiação.

A grande homenageada da edição foi a chilena Paulina García, vencedora do Urso de Prata de melhor atriz no Festival de Berlim por Gloria. Atriz, diretora teatral e dramaturga, ela recebeu o Troféu Pantanal na abertura, que exibiu Querido Trópico, coprodução de Panamá e Colômbia na qual interpreta uma mulher que enfrenta o avanço da demência.

“Paulina é uma atriz incrível, maravilhosa, um orgulho para a América Latina e para a América do Sul”, afirma Nilson. “Esses momentos são especiais porque nos colocam diante daqueles que fizeram e continuam fazendo a história do nosso cinema. São artistas que revelam a grandeza da nossa produção.”

O festival também celebrou o cineasta argentino Luis Puenzo com uma sessão de A História Oficial, primeiro filme latino-americano a vencer o Oscar de melhor produção internacional. Lançada em 1985, a obra expôs o sequestro de crianças durante a ditadura argentina e ajudou o país a enfrentar uma memória que ainda estava aberta.

“O impacto desse filme na Argentina foi enorme”, ressalta Nilson. “Quando A História Oficial revelou o sequestro das crianças e a brutalidade dos militares, contribuiu para que o país olhasse para aquilo que havia acontecido.”

Nilson Rodrigues: Bonito CineSur faz de MS o coração do cinema sul-americano. Em sua quarta edição, festival cresce, atrai estrelas e transforma cinema em formação, encontro, memória e desenvolvimento localNilson Rodrigues: Bonito CineSur faz de MS o coração do cinema sul-americano. Em sua quarta edição, festival cresce, atrai estrelas e transforma cinema em formação, encontro, memória e desenvolvimento local - Fotografando Bonito

Cinema que chega à comunidade

Embora as estrelas ajudem a projetar o evento nacionalmente, uma das iniciativas mais importantes do CineSur acontece longe dos tapetes vermelhos.

O Bonito CineSur Educa oferece gratuitamente oficinas, palestras, debates e sessões dirigidas especialmente a estudantes, crianças, jovens, profissionais do audiovisual e moradores da cidade.

Nesta edição, a programação formativa incluiu oficinas de realização de documentário, roteiro, desenvolvimento de projetos audiovisuais e mercado. As chamadas “charlas cinematográficas” discutiram temas como protagonismo feminino, aquisição e licenciamento de conteúdo, crítica de cinema, memória, interpretação e os 40 anos do projeto Vídeo nas Aldeias.

Uma oficina de cinema de animação foi levada ao Projeto Garoto Cidadão, iniciativa que atende no contraturno escolar crianças e adolescentes da rede pública e em situação de vulnerabilidade social. Durante cinco manhãs, os participantes tiveram contato com técnicas de criação e produção de animações.

Os trabalhos desenvolvidos pelas crianças serão apresentados ao público na Mostra Comunidade, ao lado dos documentários realizados por moradores durante o festival.

A iniciativa muda a relação da população com o evento. Em vez de apenas receber artistas e filmes vindos de fora, Bonito também passa a produzir suas próprias imagens, registrar suas histórias e formar novos realizadores.

O festival promoveu ainda sessões infantojuvenis gratuitas, com filmes como Colegas e o herdeiro, Eu e meu avô Nihonjin e Dentro da caixinha – Mundo de Papel. Ao abrir espaço para crianças que muitas vezes não têm acesso regular a uma sala de cinema, o CineSur transforma a experiência cultural em uma ação de inclusão.

“Precisamos produzir cinema, produzir séries e nos ver”, resume Nilson. “É muito estranho viver em um país e ficar experimentando apenas aquilo que supostamente acontece nos Estados Unidos. Precisamos das nossas imagens e das nossas histórias.”

Meio ambiente, identidade e território

Realizar um festival em Bonito também significa assumir uma responsabilidade ambiental. Por isso, o CineSur criou uma mostra competitiva dedicada ao tema, reunindo filmes que discutem mudanças climáticas, contaminação das águas, exploração de recursos naturais, preservação dos territórios e resistência dos povos originários.

“A gente não poderia fazer um festival de cinema em Bonito sem criar uma mostra ambiental”, diz Nilson. “O cinema é uma grande ferramenta de debate e reflexão sobre a necessidade de preservação do planeta e sobre as responsabilidades ambientais que temos.”

O diretor destaca que as urgências não são iguais em todos os países. O Chile enfrenta determinadas questões, enquanto a Amazônia brasileira, colombiana e equatoriana apresenta outras. Bolívia, Argentina e Paraguai também chegam ao festival com seus próprios conflitos ambientais.

“Nos filmes, você vê cada país trazendo suas urgências. O cinema participa desse debate e permite que a gente conheça realidades diferentes das nossas”, afirma.

Nilson Rodrigues: Bonito CineSur faz de MS o coração do cinema sul-americano. Em sua quarta edição, festival cresce, atrai estrelas e transforma cinema em formação, encontro, memória e desenvolvimento localNilson Rodrigues: Bonito CineSur faz de MS o coração do cinema sul-americano. Em sua quarta edição, festival cresce, atrai estrelas e transforma cinema em formação, encontro, memória e desenvolvimento local - Divulgação

Impacto além das telas

O CineSur também movimenta hotéis, restaurantes, transporte, serviços técnicos e profissionais da economia criativa. Em 2025, a programação reuniu 63 filmes de dez países, somou 120 horas de atividades gratuitas e envolveu 60 instituições públicas e privadas.

Foram contratados 250 serviços profissionais ligados à produção, equipamentos, hospedagem, alimentação e deslocamento. O evento alcançou 9 mil pessoas presencialmente e mais de 619 mil nas redes sociais.

Os resultados ajudam a demonstrar que cultura e turismo não são forças concorrentes. Ao contrário: um festival amplia o calendário da cidade, atrai visitantes, gera renda, cria empregos temporários e oferece novas experiências a quem chega a Bonito.

A logística, porém, é um desafio. Passagens aéreas caras, distâncias e a necessidade de transformar espaços em salas com padrão de exibição cinematográfica aumentam os custos.

“É claro que fica mais caro. Trazer as pessoas para cá é desafiante. Mas Bonito está no coração da América do Sul”, defende Nilson. “Mato Grosso do Sul faz fronteira com dois países. O festival tinha que ser feito aqui. Estamos construindo, aos poucos, um território de encontro dessas cinematografias sul-americanas. Nunca tive dúvida disso.”

As próximas pontes

Para a quinta edição, Nilson quer ampliar a presença de distribuidores, instituições de fomento e autoridades responsáveis pelas políticas cinematográficas dos países. O objetivo é avançar não apenas nas coproduções, mas também na codistribuição.

“A coprodução é fundamental porque, quando um filme é realizado entre dois países, ele passa a ter duas nacionalidades e pode ser tratado como produto nacional nos dois lugares”, explica. “Ainda fazemos poucas coproduções entre os países sul-americanos.”

O próximo passo seria criar mecanismos para que os filmes também fossem distribuídos em conjunto.

“Já temos alguns programas e editais de coprodução entre Brasil, Argentina e Uruguai, mas precisamos avançar. Está faltando pensar a codistribuição: criar estímulos para que o filme seja distribuído lá e aqui. Assim ampliamos as possibilidades de conhecer aquilo que produzimos.”

Nilson lembra uma frase de Luiz Carlos Barreto, homenageado na abertura do festival poucos dias depois de sua morte: um país que não produz seu próprio cinema é como uma casa sem espelhos, na qual as pessoas não conseguem se ver.

O Bonito CineSur amplia essa imagem. Um continente que não assiste ao próprio cinema também perde a capacidade de se reconhecer.

Em quatro anos, o festival ainda não derrubou todas as barreiras de circulação, e jamais prometeu fazer isso sozinho. Mas já mostrou que, entre as fronteiras de Mato Grosso do Sul, é possível criar um espaço no qual a América do Sul finalmente começa a olhar para si mesma.

CULTURA

Filme sobre a ditadura paraguaia vence Festival Bonito CineSur

Cerimônia de encerramento foi realizada na noite de sábado (1º)

02/08/2026 10h30

 Bonito CineSur apresentou 32 filmes de dez países sul-americanos entre curtas e longas

Bonito CineSur apresentou 32 filmes de dez países sul-americanos entre curtas e longas Foto: Elaine Patricia Cruz/Agência Brasil

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O filme paraguaio ¿Quién Mató a Narciso? foi escolhido pelo júri oficial como o grande vencedor da categoria de melhor longa sul-americano do festival de cinema Bonito CineSur. A cerimônia de encerramento do festival foi realizada na noite de sábado (1º) no Centro de Convenções, na cidade de Bonito (MS). Bonito CineSur apresentou 32 filmes de dez países sul-americanos entre curtas e longas Bonito CineSur apresentou 32 filmes de dez países sul-americanos entre curtas e longas

¿Quién Mató a Narciso? é um filme dirigido por Marcelo Martinessi e baseado no livro Narciso, escrito pelo jornalista paraguaio Guido Rodríguez Alcalá.

Narciso é inspirado no assassinato do jovem Bernardo Aranda, em 1959, um locutor de rádio homossexual que amava o rock and roll e que foi queimado enquanto dormia. O crime jamais foi solucionado, mas, para a Comissão da Verdade e Justiça paraguaia, o assassinato pode ter sido tramado pelo governo militar.

Considerado a ditadura mais longa da América do Sul, o governo militar comandado pelo general Alfredo Stroessner promoveu quase 20 mil prisões arbitrárias ou ilegais, 59 execuções, 336 desaparecimentos e torturou quase 19 mil pessoas durante os 35 anos em que ele permaneceu no poder. Além disso, 3.470 pessoas precisaram ser exiladas, segundo dados divulgados em 2003 pela comissão. Entre os grupos que mais sofreram violações nesse período estavam os formados por pessoas LGBT+, como Aranda.

“De verdade, este prêmio proporciona um desfecho mais do que lindo”, disse o ator Diro Romero, que interpreta Narciso no cinema. “Todos queremos colaborar e continuar contando histórias. Valorizamos nossas narrativas e acreditamos que é preciso contá-las e mostrá-las ao mundo. Temos muito a contar, muitas mensagens a transmitir.”

Em entrevista à Agência Brasil logo após a premiação, o ator reforçou que é preciso contar a história sobre as ditaduras sul-americanas para que elas jamais voltem a se repetir.

“Dizemos que a ditadura terminou há vários anos, mas não somente sentimos que há indícios de que ela segue entre nós, como também estamos começando a ter certos sinais no mundo para os quais temos que estar alertas. Então, este é o momento de abrir os olhos e nós, através do cinema, vamos fazer com que isso não chegue novamente no futuro”, destacou.

Três estatuetas

Outro grande premiado da noite pelo Bonito Cinesur foi o diretor colombiano Alejandro Calderón, que levou três estatuetas para casa. O primeiro troféu conquistado por ele foi por Hipopótamos, el Arca de Escobar, selecionado como melhor curta-metragem de cinema ambiental escolhido pelo júri.

Além disso, ele conquistou mais duas estatuetas pelo longa-metragem Páramos II: El Origen, escolhido tanto pelo público quanto pelo júri oficial como o melhor filme de cinema ambiental. No documentário, Alejandro Calderón reúne um grupo de especialistas para explicar a formação desses ecossistemas e sua importância para o ciclo hídrico, citando os riscos que esse bioma corre por causa da exploração de seus recursos para a mineração, a monocultura e a pecuária.

“Isso é incrível [ser premiado]. Sinceramente, nunca imaginei que isso aconteceria. Estou muito empolgado e isso é também uma recompensa pelos anos de esforço da equipe viajando pela Colômbia, atravessando montanhas, páramos e rios, enfrentando muitas dificuldades e perigos, pois esse é um trabalho de alto risco”, disse ele à reportagem.

Ao receber os prêmios, Calderón prestou uma homenagem especial a 150 ativistas ambientais colombianos que foram assassinados nos últimos três anos. “A Colômbia é o país com o maior número de assassinatos de líderes ambientais – pessoas que dependem do meio ambiente”, citou ele, ao discursar.

“Muitos dos diversos líderes ambientais retratados em nossos filmes sofreram ameaças e alguns deles nos pediram para que déssemos mais visibilidade ao seu trabalho. Eles encaram a visibilidade como uma forma de proteção: em vez de permanecerem ocultos, querem que o mundo saiba quem são e o que fazem, para que todos possamos trabalhar juntos em sua proteção”, disse o diretor à reportagem.

O festival

Na quarta edição, o Bonito CineSur apresentou 32 filmes de dez países sul-americanos entre curtas e longas. Além disso, o festival promoveu aulas, debates, atividades de formação, encontros com realizadores e sessões especiais em homenagens à atriz Paulina Garcia e aos cineastas Vincent Carelli e Luiz Puenzo.

Já para as próximas edições, destacou o diretor do festival Nilson Rodrigues, a expectativa é conseguir reunir ainda mais países sul-americanos, de modo que se forme um bloco para produção e divulgação audiovisual.

“Nós precisamos ser um bloco, precisamos criar condições para circular os nossos produtos entre nossos vizinhos. Se a Europa se transformou em um bloco, quando circulam produtos, pessoas e a economia se desenvolve, nós também haveremos de ser um bloco, na América do Sul. Mas cedo ou mais tarde nós seremos”, disse ele, durante a cerimônia de premiação.

“O festival é um espaço onde a gente pode ver os filmes, pode celebrar, pode trocar ideias, pode criar conexões, mas ele não resolve as coisas. Nós queremos mais coproduções, nós queremos codireção. Para isso, é preciso que as instituições se envolvam. No ano que vem nós queremos trazer aqui para o festival os ministérios da Cultura desses países e suas organizações para criar programas bilaterais ou multilaterais para que a gente possa se conhecer mais e para que a gente possa ter o direito de se ver nas telas de cinema”, acrescentou Rodrigues.

Confira a lista com todos os filmes premiados pelo festival Bonito CineSur:

Melhor filme sul-mato-grossense

  • Higa Ke – Olho por Olho (escolhido pelo júri popular)
  • Natasha (escolhido pelo júri oficial)

Melhor curta de cinema ambiental

  • Buen Vivir – Ñutse Canseye, do Equador (escolhido pelo júri popular)
  • Hipopótamos, el Arca de Escobar, da Colômbia (escolhido pelo júri oficial)

Melhor longa de cinema ambiental

  • Páramos II: El Origen, da Colômbia (escolhido pelo júri popular)
  • Páramos II: El Origen, da Colômbia (escolhido pelo júri oficial)

Melhor curta sul-americano

  • A Vida de Jerônimo Dentro e Fora da Casca, do Brasil (escolhido pelo júri popular)
  • Sukua, da Colômbia (escolhido pelo júri oficial)

Melhor longa sul-americano

  • Naira, do Peru (escolhido pelo júri popular)
  • ¿Quién Mató a Narciso?, do Paraguai (escolhido pelo júri oficial)

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