A escritora glória-douradense Mazé Torquato Chotil, autora de 15 livros, teve o romance policial “Na Rota de Traficantes de Obras de Arte” traduzido e publicado na França pela Hello Éditions. Com o título “Au cœur du trafic d’œuvres d’art”, a obra leva ao público francês uma história que atravessa Paris, Lyon, Marselha, Brasil e Paraguai, tendo como protagonista uma policial federal brasileira nascida em Mato Grosso do Sul.
Publicado originalmente no Brasil em 2019 pela Editora Penalux, o romance acompanha Marta, agente da Polícia Federal que chega a Paris para trabalhar em parceria com a Interpol, em Lyon, em uma investigação internacional contra uma quadrilha especializada em roubo e comércio ilegal de obras de arte.
A organização criminosa atua entre o Paraguai, o Brasil e a França, enquanto os quadros roubados chegam ao porto de Marselha antes de seguirem para Paris, onde são negociados com compradores europeus e americanos.
Mais do que uma trama policial, o livro também funciona como uma espécie de ponte entre diferentes territórios. Ao construir a investigação, Mazé incorpora elementos de sua própria origem e coloca Mato Grosso do Sul no centro da narrativa.
“Como nasci em Mato Grosso do Sul, pensei que, na nossa fronteira com o Paraguai, passa muito contrabando, inclusive de obras de arte. Então, imaginei a história passando pela região e, mais ainda, determinei que a heroína, Marta, fosse do nosso estado”, explica a autora.
A presença do Estado na história foi também uma maneira encontrada por Mazé para apresentar ao leitor aspectos pouco conhecidos de Mato Grosso do Sul. Na narrativa, o Pantanal aparece não apenas como cenário, mas associado às memórias, aos sentimentos e à identidade da personagem principal.
“Foi uma forma de falar do Pantanal e das coisas boas que o nosso estado oferece”, afirma.
CONEXÕES
A ideia de utilizar a fronteira com o Paraguai como ponto de partida para a história surgiu da observação de uma realidade que faz parte do cotidiano da região: a circulação de mercadorias e a atuação de redes de contrabando. A partir desse contexto, a autora criou uma trama ficcional na qual o comércio clandestino de obras de arte ganha dimensão internacional.
Marta, por sua vez, foi pensada como uma personagem capaz de conectar os universos da arte, da investigação e da identidade sul-mato-grossense.
“Imaginei que ela teria estudado Belas-Artes em Paris e decidido fazer carreira nesse mundo da proteção de obras de arte”, conta Mazé.
A escolha do tema também foi motivada pela existência de casos reais de roubos de obras de arte. Para construir o romance, a escritora realizou pesquisas em jornais e consultou informações disponibilizadas pela Interpol, buscando compreender como funciona o tráfico internacional e quais são os caminhos utilizados pelas organizações criminosas.
O resultado foi uma narrativa marcada por deslocamentos e operações em diferentes países. A escritora Claudia Marczak destacou justamente esse aspecto ao apresentar a obra, descrevendo-a como uma operação policial conduzida de maneira detalhada, na qual cada etapa da investigação acompanha os movimentos dos personagens e das redes criminosas.
Os detalhes da pesquisa também contribuíram para que a história adquirisse uma aparência de verossimilhança. Mazé relata que, recentemente, participou de uma apresentação do livro na Maison de l’Amérique Latine, em Paris, onde esteve presente uma agente da polícia francesa, uma espécie de “Marta” da vida real.
Segundo a escritora, a policial gostou da história e chamou atenção para a “veracidade” apresentada pela narrativa.
“Uma história, que já não me lembro qual, me chamou a atenção. A quantidade de roubos de obras de arte no Brasil, aqui na França e no mundo inteiro é uma realidade”, explica Mazé sobre a escolha do tema.
TRADUÇÃO FRANCESA
A publicação francesa representa também uma nova etapa para um livro lançado originalmente há sete anos. Para Mazé, ver uma obra ganhar outra língua significa ampliar as possibilidades de alcançar leitores que não teriam acesso à história em português.
“É sempre um prazer ter uma obra publicada em outra língua que não a sua. É uma forma de atingir um público maior”, afirma.
O contato com a Hello Éditions ocorreu depois que a autora enviou à editora o texto já traduzido para o francês. A editora, que está começando a conquistar espaço no mercado francês, levou alguns meses para analisar o material antes de dar uma resposta positiva.
Mazé acredita que um episódio recente envolvendo o roubo de joias no Museu do Louvre pode ter despertado ainda mais a atenção dos editores para uma história centrada no universo do tráfico de bens artísticos e culturais.
A edição francesa passou por etapas de tradução e edição, com ajustes e adaptações destinados ao público local. Embora a estrutura e a essência da história tenham sido preservadas, alguns detalhes precisaram ser observados para que a narrativa funcionasse culturalmente também para o leitor francês.
O novo título, “Au cœur du trafic d’œuvres d’art”, já pode ser encontrado em livrarias e também começou a chegar às bibliotecas francesas.
Para a escritora, essa circulação pode representar apenas o começo de uma nova trajetória para o romance. A expectativa é de que a obra também alcance outros territórios de língua francesa, como Bélgica, Suíça e Canadá.
A autora ainda lembra que, há cerca de uma década, participou, ao lado de Henrique de Medeiros, de uma apresentação sobre Mato Grosso do Sul na Embaixada do Brasil na França. A programação contou com poesia de Henrique traduzida para o francês, música típica e comidas tradicionais do Estado.
“Nosso estado é pouco conhecido por aqui”, afirma. Segundo ela, a experiência mostrou o interesse do público francês diante da possibilidade de conhecer uma região brasileira que normalmente não aparece com frequência no imaginário europeu.
LIVROS EM FRANCÊS
Com a chegada de “Au cœur du trafic d’œuvres d’art”, Mazé Torquato Chotil alcança a marca de seis livros publicados em francês. A relação com a língua e com o mercado editorial francês, porém, começou antes da tradução de suas obras brasileiras.
Protagonista sul-mato-grossense é quem desvenda o crime sobre o qual a narrativa se desenvolve - Foto: DivulgaçãoEntre os títulos publicados estão “Ouvrières chez Bidermann – Une histoire des vies”, lançado em Estaimpuis em 2010; “L’Exil ouvrier: la saga des Brésiliens contraints au départ (1964–1985)”, de 2015; “Maria d’Apparecida – Une Maria pas comme les autres”, de 2019; “Mon enfance dans le Mato Grosso”, publicado pela Le Poisson Volant em 2022; e “Sources vivantes”, da Biblio, também de 2022.
Dois desses livros foram escritos diretamente em francês. O primeiro foi “Ouvrières chez Bidermann”, por tratar de uma história francesa. O segundo nasceu da pesquisa de doutorado realizada pela autora na França, “Trabalhadores exilados”, posteriormente traduzido para o português e publicado no Brasil.
A escritora destaca, porém, que chegar ao mercado francês não é um caminho simples para autores de língua portuguesa. Segundo ela, a participação de obras traduzidas do português no mercado editorial francês ainda é pequena.
“Entre as obras traduzidas do português na França, em 2025, foram somente 0,6%! Muito pouco. Então, é sempre uma vitória quando conseguimos ultrapassar essas barreiras”, afirma.
Por isso, a publicação do sexto título em francês representa mais do que uma nova edição. É, para Mazé, a continuidade de um percurso construído entre diferentes países, línguas e experiências.
“É um passo a mais, avançando na difícil estrada da escrita, da publicação e da tradução”, resume.
PRÓXIMOS PROJETOS
A trajetória internacional de Mazé, entretanto, está longe de terminar. A escritora afirma que tem outros projetos em andamento e que há obras aguardando a oportunidade de chegar ao público francês.
O próximo projeto que ela pode adiantar é uma biografia dedicada a uma importante figura de Mato Grosso do Sul. A previsão é de lançamento no próximo ano.
A escolha reforça uma característica presente em sua trajetória: a disposição de utilizar a literatura para preservar memórias, contar histórias e apresentar personagens e lugares de Mato Grosso do Sul para além das fronteiras brasileiras.
Ana Jeckel é a Capa exclusiva do Correio B+ desta semana - Foto: Márcia Molina - Diagramação: Denis Felipe - Por: Flávia Viana
Ana Jeckel é a Capa exclusiva do Correio B+ desta semana - Foto: Márcia Molina - Diagramação: Denis Felipe - Por: Flávia Viana


