O procedimento cirúrgico realizado em Neymar no último dia 22 de dezembro, envolvendo uma artroscopia para tratamento de lesão no menisco do joelho esquerdo, reacende um debate importante no esporte de alto rendimento e também na prática clínica cotidiana: o que, de fato, determina o retorno seguro ao esporte após uma cirurgia no joelho?
Para responder a essa pergunta e esclarecer outras dúvidas relacionadas ao tema, consultamos o fisioterapeuta Dr. Eduardo Maltez.
“O que vai resultar numa recuperação segura não é apenas a cirurgia, nem apenas o tempo de recuperação, mas também a integração entre aspectos físicos, funcionais, neurológicos, psicológicos e de performance. Um retorno seguro exige que essas demandas sejam treinadas progressivamente durante a reabilitação. Liberar um atleta sem expô-lo a esse contexto é devolvê-lo à competição sem preparo para a realidade esportiva”, explica o especialista.
*A cirurgia como ponto de partida, não de chegada*
“A artroscopia do menisco tem como objetivo corrigir a alteração estrutural do joelho, reduzir sintomas mecânicos e criar um ambiente biológico favorável à recuperação. No entanto, uma cirurgia tecnicamente bem-sucedida não devolve automaticamente força, controle motor, confiança ou capacidade esportiva plena.
O procedimento resolve o problema anatômico, mas o desempenho esportivo depende de um processo de reabilitação criterioso e progressivo, orientado por critérios funcionais e não apenas por prazos fixos.”
*Reabilitação moderna baseada em evidência*
“Os protocolos contemporâneos de fisioterapia esportiva abandonaram a lógica exclusiva do calendário e passaram a priorizar critérios objetivos de progressão, como controle de dor e edema, recuperação da amplitude de movimento, ganho de força e potência, qualidade do movimento e tolerância à carga.
A adaptação do tecido ocorre por meio de estímulos adequados. Carga insuficiente fragiliza, e carga excessiva perpetua inflamação e dor. O equilíbrio entre esses fatores é determinante para uma recuperação consistente.”
*Dor não é sinônimo de lesão*
“A neurociência da dor trouxe um avanço fundamental para a reabilitação esportiva: dor não é uma medida direta de dano tecidual. Após uma cirurgia, mesmo com o tecido cicatrizado, o sistema nervoso pode permanecer em estado de proteção, amplificando sinais dolorosos diante de estímulos normais do movimento.
Por isso, o objetivo do processo não é a ausência completa de qualquer sensação, mas sim uma dor previsível, controlada e compatível com a progressão funcional. O cérebro precisa reaprender que o joelho é seguro para suportar carga e movimento.”
Saúde B+: Cirurgia no menisco e retorno ao esporte: o que realmente define a volta de um atleta - Divulgação*O papel determinante dos fatores psicológicos*
“Os aspectos emocionais e psicológicos são decisivos no retorno ao esporte. Medo de nova lesão, insegurança, hipervigilância corporal e perda de confiança alteram o padrão de movimento, aumentam a rigidez muscular e reduzem a capacidade de resposta do atleta.
Esses fatores não são subjetivos ou secundários. Eles têm impacto direto na biomecânica, no controle motor e no risco de novas lesões. A psicologia esportiva, integrada ao processo de reabilitação, contribui para restaurar a confiança corporal, reduzir o medo do movimento e preparar o atleta para a imprevisibilidade do esporte.”
*Critérios reais para o retorno ao esporte*
O retorno adequado ocorre quando há alinhamento entre:
- Dor baixa e estável;
- Edema controlado;
- Amplitude funcional;
- Força e potência adequadas;
- Qualidade de movimento;
- Tolerância à carga semanal;
- Prontidão psicológica e confiança no movimento.
“Sem esse conjunto, o atleta retorna fisicamente liberado, mas funcionalmente limitado”, diz o fisioterapeuta Dr. Eduardo Maltez.
Para concluir, o especialista reforça a importância do cuidado paralelo com a saúde física e mental do atleta para a sua recuperação. “Logo, podemos concluir que a cirurgia trata o tecido, reabilitação reconstrói a função, neurociência regula a dor, a preparação física restabelece a performance e a psicologia esportiva devolve a confiança e valida o retorno.
O verdadeiro retorno ao esporte acontece quando corpo, cérebro e emoção estão preparados para a complexidade do jogo, e não apenas quando o joelho está cicatrizado”, finaliza.

