Correio B

Entrevista

Tetê Espíndola, 70 anos: "Sinto minha voz como uma luz que veio do universo"

Após a apresentação de domingo, no Parque das Nações Indígenas, Tetê Espíndola faz mais um show na Capital amanhã, no Blues Bar

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Tetê, já que a nossa conversa parte da celebração dos seus 70 anos, gostaria de começar retomando algo do passado da família Espíndola, que aparece no curta-metragem “A Voz do Poço” (2013).

Este curta-metragem é uma espécie de retrato caleidoscópio do que foi a nossa infância em Mato Grosso do Sul, feito por minha filha [Patrícia Black, atualmente com 34 anos] cineasta. No filme, ela partiu de algo muito profundo, uma espécie de cerne do que são as nossas memórias em comum, da nossa casa, da nossa mãe, das nossas histórias de criança e, principalmente, da nossa relação com a imaginação, com o medo e a assombração. Para assim falar de algo muito particular a ela e que ela, sem dúvida, herdou.

Éramos oito crianças criativas, lideradas por minha mãe [Alba Miranda}, que no fundo era uma grande artista, uma mãe que estava sempre envolvida em mistérios e acontecimentos sobrenaturais. Um deles, a peça central desse filme, é a memória que temos, ou, pelo menos, achamos que temos, de um poço dentro da nossa casa, de onde saía uma voz chamando pelo nome da minha mãe. “Albaaaaaa”, dizia.

O filme explora o chamado dessa voz como mote, servindo como um pulo para o inconsciente familiar e para várias simbologias visuais que nos marcam como uma família do Centro-Oeste. Também foi uma forma de a Pati entrar em contato com a avó, com quem pouco conviveu. A “avó do poço”.

O que mais dos tempos da Tetê menina você lembra com frequência?

Lembro-me das serenatas do Trio Paraguaio que papai [Francisco Espíndola] e mamãe recebiam às 4h, ecoando pela madrugada. Eu era muito pequena na época e ficava admirando aquela harpa enorme, até que um dia descobri o seu tamanho real.

Aproveitando: quando a Terezinha Maria tornou-se Tetê?

A Terezinha… Uma daquelas crianças, entre sete outras, cheia de teatralidade e musicalidade na cabeça, cheia de imagens, sons e cheiros de uma natureza muito profunda. Geraldo Espíndola, meu irmão, me apelidou de Tetê quando eu ainda era criança. Quando o grupo LuzAzul começou, em 1975, eu já era conhecida como Tetê. Por outro lado, Tetê Espíndola surgiu com o álbum “Pássaros na Garganta” [1982].

Como era a Campo Grande em que você foi se descobrindo como artista, em meados dos anos 1970? 

Era uma cidade do interior em que a sociedade voltava sua atenção para a casa da Vasconcelos Fernandes, onde a arte florescia. A família Espíndola era um ponto focal, nossa casa era um centro de atenção por sermos uma família de artistas. Elis Regina visitou nossa casa durante seu primeiro show na cidade. Mais tarde, os Mutantes também se encontraram com os Espíndola. Nos reunimos no “Campão” para observar o céu e os discos voadores.

Os desafios de ser mulher e artista no interior do Centro-Oeste não receberam grande destaque em minha jornada, não foram um impedimento, pois foi um caminho muito espontâneo e natural. A pressão externa e da sociedade nunca veio de minha família ou daqueles próximos a mim. Por outro lado, houve desafios relacionados à arte que brotava naquela região e naquele momento no Centro-Oeste do Brasil, e não mais apenas na região litorânea e no Sudeste, onde a atenção midiática estava mais concentrada.

O que sente a cada retorno a MS?

Mato Grosso nunca saiu de mim, sinto-me enraizada em Campo Grande. Tenho consciência de que não preciso morar aqui para preservar minhas raízes. Embora tenha saído aos 20 anos, meu pertencimento ao antigo Mato Grosso está firmemente estabelecido. Sempre volto a Campo Grande para rever minha família e meus amigos de adolescência.

E quanto ao aprendizado musical e à formação técnica na craviola e no canto? Sabe-se que, entre os Espíndola, a música foi passando de irmão para irmão…

Quem me incentivou a tocar craviola foi Geraldo Espíndola. Ele começou a compor e fiquei encantada com a sonoridade. Nunca toquei violão, aprendi a tocar craviola de ouvido, ouvindo meu irmão. Comecei a compor em 1975 e nunca mais parei. Em relação à minha voz, ela cresceu muito quando iniciei as emissões de pássaros, que, na verdade, é o meu exercício sonoro e de aquecer as cordas vocais. Mas atualmente estou, sim, fazendo exercícios fonoaudiólogos com Luiz Cantoni [otorrinolaringologista e foniatra], um grande amigo.

Em que momento se deu conta de que possui uma voz que mais ninguém tem?

Minha voz é uma luz, eu a sinto como uma luz que vem do universo, é mágico. Nesse momento da minha vida, em que comemoro meus 70 anos de vida, estou em um momento único com a minha voz, pois estou ouvindo minha voz de outra maneira, a sinto e a escuto de outra maneira. Eu percebi que minha voz era diferente através do som da craviola, pois é um instrumento que tem um som muito volumoso e foi fazendo minha voz aparecer. Minha voz vai do contralto ao sopraníssimo.

Como vê tamanho reconhecimento e essa redescoberta do teu maior sucesso depois de quase quatro décadas? Uma canja da Márcia Fu em um programa de tevê e a gravação da Lauana Prado foram como um novo fio de pólvora para “Escrito nas Estrelas” (Carlos Rennó/Arnaldo Black), não?

Este novo momento é muito diferente para mim, pois tudo é mais rápido. Sinto saudades da época das rádios. Com o retorno do sucesso de “Escrito nas Estrelas”, houve a conquista de um novo público graças às redes sociais. Para mim, este novo momento tem sido como um déjà vu, pois foi na mesma época em que ganhei o Festival, em 1985. O lado bom de tudo isso é que este momento coincidiu com o ano de comemoração dos meus 70 anos, amplificando ainda mais meus projetos e minha agenda de shows variados.

De 1985 para cá, o que realmente estava “escrito nas estrelas” e o que nem elas poderiam ter previsto?

Eu não imaginava que retornaria o sucesso de “Escrito nas Estrelas”. Isso é muito mágico e único, foi como um fenômeno. Mas o que não mudou foi meu amor pelo Arnaldo Black [músico e arquiteto, com quem é casada há quatro décadas]. Acho que o amor foi crescendo junto com nossas expedições e entrelaços nos projetos que fizeram o amor florescer.

O que ainda sente vontade de dizer dentro do que pode uma canção?

Em relação a canções, tenho vontade de fazer canções ecológicas, algo que alertasse a humanidade em relação à guerra e à destruição, pois isso me preocupa como humana, pessoa e mãe.

Por que gravar mais um disco após 20 álbuns lançados? Como será ou está sendo esse novo trabalho? Li recentemente você se referindo a esse novo disco como “sertanejo lisérgico”. Acho que o Arrigo Barnabé tinha usado essa expressão, no passado, para se referir ao álbum “Pássaros na Garganta”. E por que essa diversidade de formatos de shows para a temporada 2024?

O Arrigo está produzindo “Sertanejo Lisérgico” e estamos aguardando o momento ideal para lançamento e show. Este ano, em comemoração a minha multiplicidade, tenho atualmente sete formações diferentes de show com os meus queridos músicos amados e a minha família.

A sua obra parece ser, além de tudo, também o depoimento da relação de uma artista com a natureza, mesmo com os longos anos de vida na urbe paulistana. Como vê esse lado da sua sensibilidade e da sua expressão?

Minha obra é diversa. Eu adoro cantar sobre a natureza, um repertório que vai de Tom Jobim a Arnaldo Black. Gosto de cantar o amor e a sensualidade de outras canções. A Tetê intérprete é muito mais a intérprete do lado urbano, onde atingiu a relação humana, do que da natureza, embora ela seja uma pesquisa intrínseca à minha musicalidade.

Como quer ser lembrada?

Eu já serei lembrada pra sempre com “Escrito nas Estrelas”, mas serei sempre lembrada também como a cantora que tem pássaros na garganta.

Serviço

7º Festival Engepar Viva Campo Grande – show “A Era dos Festivais” Com Tetê Espíndola, Sérgio Espíndola (violão e voz), Antônio Porto (baixo), Ana Paula Ferreira (piano) e Sandro Moreno (bateria), apresentando canções de Chico Buarque, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Elis Regina, Jair Rodrigues, entre outros nomes, reveladas em festivais.
Produção: Jerry Espíndola.
Pós-show: Os Walkirias (pop-rock).
Amanhã, às 20h30min, no Blues Bar. Rua 15 de Novembro, nº 1.186, Centro. Telefone: (67) 99234-4811. Ingressos: R$ 100 antecipado e R$ 150 na hora.

cinema

Seis filmes seguem na disputa para representar o Brasil no Oscar

Decisão sobre o título deverá ser tomada em 16 de setembro

09/09/2026 22h00

sSeis filmes brasileiros que continuam em disputa pela vaga de representante do Brasil no Oscar 2027

sSeis filmes brasileiros que continuam em disputa pela vaga de representante do Brasil no Oscar 2027 Foto: Divulgação

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A Academia Brasileira de Cinema anunciou nesta quarta-feira (9) os seis filmes brasileiros que continuam em disputa pela vaga de representante do Brasil no Oscar 2027.  A decisão sobre o longa que vai tentar uma vaga na categoria de melhor filme internacional será tomada em 16 de setembro.

Os títulos que continuam em disputa são:

  • 100 Dias, de Carlos Saldanha;
  • A Fabulosa Máquina do Tempo, de Eliza Capai;
  • A Natureza das Coisas Invisíveis, de Rafaela Camelo;
  • Feito Pipa, de Allan Deberton;
  • Nosso Segredo, de Grace Passô;
  • Vicentina Pede Desculpas, de Gabriel Martins.

A lista dos finalistas saiu de uma pré-lista de 15 filmes,  divulgada pela Academia Brasileira de Cinema no mês de agosto.

Oscar

Ter sido escolhido como o representante brasileiro ao Oscar não significa que o filme já terá garantida uma indicação ao prêmio. Cada país indica um filme como representante para a disputa. O Oscar analisa essas indicações e faz uma seleção dos filmes que, de fato, vão concorrer ao principal prêmio do cinema mundial.

A cerimônia que premiará os melhores filmes do Oscar está marcada para 14 de março de 2027.

Em 2025, o Brasil conquistou o primeiro Oscar com o filme Ainda Estou Aqui, de Walter Salles, na categoria de melhor filme internacional. Neste ano, o Brasil voltou a ser indicado com o filme O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, que acabou perdendo o prêmio para o norueguês Valor Sentimental.

 

Preservação da fauna

Projeto monitora bugios e macacos-prego no corredor do Rio Sucuriú

Nove grupos de primatas já foram identificados na região; entre eles, a família formada por Baru, Pequi e o filhote Bacuri, acompanhada ao longo das campanhas de campo

09/09/2026 08h30

Mãe e filhote bugio-preto

Mãe e filhote bugio-preto Foto: Divulgação

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No alto das árvores que formam o corredor do Rio Sucuriú, em Inocência, no leste de Mato Grosso do Sul, famílias de bugios e macacos-prego vêm sendo acompanhadas de perto por pesquisadores do projeto Sucuriú, da Arauco.

O trabalho busca entender como esses animais vivem, se deslocam e utilizam a paisagem, reunindo informações que podem contribuir para a conservação das espécies e para a manutenção da conectividade entre áreas de vegetação.

Ao todo, nove grupos de primatas já foram identificados na área monitorada pelo projeto Sucuriú. O acompanhamento é direcionado principalmente ao bugio-preto (Alouatta caraya) e ao macaco-prego-do-papo-amarelo (Sapajus cay), espécies classificadas como Vulneráveis (VU) no Brasil, categoria que indica alto risco de extinção na natureza.

“Esse é um trabalho construído ao longo do tempo. Não se trata apenas de saber se determinada espécie está presente, mas de reunir informações sobre os grupos, seus deslocamentos e as áreas que utilizam. A combinação das metodologias permite ampliar esse conhecimento e criar uma base cada vez mais consistente para as ações de conservação”, afirma Gonzalo Flores, Especialista de Biodiversidade da Arauco.

Entre os grupos que passaram a ser reconhecidos pelas equipes está uma família de bugios formada por Baru (pai), Pequi (mãe) e Bacuri (filho).

O filhote nasceu durante o período de monitoramento e recebeu o nome após uma votação que reuniu mais de 270 participantes, entre trabalhadores da obra e integrantes da comunidade externa.

Desde então, a família continua sendo reencontrada durante as campanhas. Nos registros mais recentes, Bacuri apareceu interagindo com os pais, enquanto outros filhotes do grupo foram observados em momentos de brincadeira.

As imagens ajudam os pesquisadores a acompanhar o desenvolvimento dos animais e compreender melhor a dinâmica das famílias ao longo do tempo.

“A possibilidade de reencontrar os mesmos grupos ao longo das campanhas é muito importante porque permite acompanhar essas famílias no tempo. No caso de Baru, Pequi e Bacuri, seguimos registrando o grupo e reunindo informações que ajudam a compreender sua composição, o uso da paisagem e seus deslocamentos pelo corredor do Rio Sucuriú”, explica Carolina Garcia, bióloga e responsável técnica da Sauá Consultoria Ambiental.

HABITANTES DA MATA

A vida dos bugios e macacos-prego está diretamente ligada à continuidade da vegetação. Como vivem e se deslocam predominantemente pelas árvores, essas espécies dependem da conexão entre as copas para alcançar alimento, abrigo e outras áreas utilizadas pelos grupos.

Mãe e filhote bugio-pretoPai bugio-preto - Foto: Divulgação

Por isso, saber onde os animais estão e como circulam pelo território é uma informação importante para compreender a conectividade dos ambientes ao longo do corredor do Rio Sucuriú.

Além de sua importância como parte da fauna local, os primatas exercem funções fundamentais nos ecossistemas. Ao consumirem frutos e se deslocarem entre diferentes áreas, transportam e dispersam sementes, contribuindo para a regeneração da vegetação e para a diversidade das florestas.

A dependência que possuem de ambientes florestais também faz com que sejam considerados bioindicadores, já que a presença e a dinâmica desses animais podem ajudar a revelar as condições de conservação e conectividade das áreas onde vivem.

TECNOLOGIA ALIADA

Para acompanhar os animais, as equipes combinam diferentes métodos. O trabalho inclui observação direta em campo, armadilhas fotográficas – as chamadas câmeras-trap – e drones equipados com sensores termais.

Cada ferramenta oferece uma possibilidade diferente de observação. Enquanto o acompanhamento em solo permite registrar mais detalhes sobre o comportamento e a composição dos grupos, os drones ajudam a localizar animais em regiões onde a vegetação fechada dificulta a visualização.

Os números mostram a diferença no alcance das metodologias. Em aproximadamente 25 horas de busca ativa em campo, dois grupos foram identificados. Já em cerca de 24 horas de voo, os drones localizaram sete dos nove grupos conhecidos na área monitorada: seis de bugios e um de macacos-prego.

A tecnologia, no entanto, não substitui o trabalho realizado diretamente na mata. A combinação dos métodos permite ampliar a capacidade de localizar e reencontrar os animais durante as campanhas.

Nas próximas etapas, também está previsto o uso de GPS – telemetria em macacos-prego, recurso que poderá fornecer novas informações sobre os deslocamentos da espécie.

O trabalho técnico é desenvolvido pela Sauá Consultoria Ambiental, parceira do projeto Sucuriú e integrante do Grupo de Assessoramento Técnico (GAT) do Plano de Ação Nacional para a Conservação de Espécies Ameaçadas de Extinção da Ictiofauna, Herpetofauna e Primatas do Cerrado, Pantanal e Amazônia (PAN CERPAM), coordenado pelo ICMBio.

FAUNA DIVERSA

Embora os primatas sejam um dos principais focos do acompanhamento, o monitoramento também vem revelando a diversidade de outros animais presentes na região.

As câmeras instaladas no território já registraram espécies como tatu-canastra, anta, lobo-guará, tamanduá-bandeira e jaguatirica. Um grupo de queixadas com mais de 10 indivíduos também foi identificado.

A construção dessa base de informações permite acompanhar a fauna antes, durante e depois das intervenções previstas na região. Parte dos dados será utilizada para avaliar medidas de mitigação relacionadas às obras de captação de água e do emissário de efluentes tratados.

As intervenções exigirão alterações em trechos de vegetação próximos ao rio e podem criar descontinuidades no dossel – a camada formada pelas copas das árvores –, afetando especialmente espécies arborícolas.

Para reduzir esse impacto, estão previstas duas passagens superiores de fauna, estruturas suspensas com aproximadamente 180 metros de vão livre. A expectativa é de que elas ajudem a restabelecer a conexão entre os trechos de vegetação.

O monitoramento atual permitirá entender como os primatas utilizam a paisagem antes da implantação das estruturas, prevista para o primeiro semestre de 2027. Depois, as campanhas continuarão para verificar se os animais passam a utilizar as travessias e se elas cumprem a função de reconectar os ambientes.

Ao todo, estão previstas 20 campanhas de monitoramento ao longo de cinco anos, com quatro etapas realizadas anualmente.

RECONHECIMENTO

O uso de drones termais para localizar primatas em áreas de vegetação fechada também rendeu reconhecimento ao trabalho realizado no corredor do Rio Sucuriú. A iniciativa conquistou o Prêmio Destaques do Setor ABTCP 2026, na categoria Recursos Naturais e Bioeconomia.

Entre os pontos destacados estão o caráter não invasivo do monitoramento, o desenvolvimento de parâmetros específicos para detectar primatas e a combinação de diferentes metodologias para acompanhar os grupos e avaliar a conectividade da paisagem.

A entrega do prêmio está marcada para o dia 6 de outubro.

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