O agronegócio de Mato Grosso do Sul tem as florestas plantadas hoje como um pilar relevante de sustentação das atividades, principalmente as exportações.
Dados divulgados pelo último Boletim Casa Rural –Florestas Plantadas, divulgado pela Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso do Sul (Famasul), apontam que a participação do agronegócio nas exportações foi de 94,1%.
Destes, os produtos florestais, especialmente a celulose, superaram a receita do ano passado e assumiram o primeiro posto das exportações deste ano, representando 31% da receita e superando a soja. O valor do faturamento somente dos produtos florestais somou US$ 2,67 bilhões.
São cultivados 1,89 milhão de hectares de eucalipto em 74 municípios de Mato Grosso do Sul. E o ritmo acelerado também reflete nos empreendimentos, com três fábricas em funcionamento, uma com o projeto já em andamento e outra em fase de licenciamento.
O cenário do setor das florestas plantadas foi o que contextualizou o presidente da Reflore em entrevista ao Correio do Estado.
De acordo com o empresário, o crescimento florestal veio para ficar com os investimentos bilionários industriais que aconteceram e ainda se desenvolverão pelos próximos anos.
Confira a seguir.
Qual é hoje a área plantada com eucalipto em Mato Grosso do Sul, como essa área evoluiu nos últimos anos, e qual seria uma projeção para os próximos anos?
Quando deu início a Reflore há 20 anos, um pouquinho antes disso, 2003, foram criadas as câmaras setoriais. As florestas de eucalipto têm histórico aqui em Mato Grosso do Sul desde as décadas de 1970 e 1980.
Então elas foram plantadas na época dos incentivos fiscais, que trouxeram para Mato Grosso do Sul em torno de 500 mil hectares incentivados, dos quais foram plantados em torno de 300 mil nessa época.
Infelizmente, o desenvolvimento industrial da base, para usar essa base florestal, para o Estado foi inadequado. Então foi se perdendo todo esse investimento. Muito foi feito com carvão, muita coisa foi perdida, não foi utilizada, e não se deu a devida atenção, ou não se pôde dar.
Em 2003, foi feito um estudo. A gente participava da Câmara setorial de florestas plantadas, e nessa Câmara a gente fez um primeiro trabalho de levantamento. E naquele momento se encontrou ainda, em quantidade de florestas, 90 mil hectares.
Em 2006, a gente já estava talvez perto dos seus 200 mil hectares e passaram-se então os 20 anos e nós estamos atingindo os 2 milhões de hectares. Fechamos o ano muito próximos de 2 milhões de hectares de florestas plantadas.
Com todos os investimentos industriais que aconteceram e que vão acontecer, o que eu acredito é que a gente deverá passar ou estar próximo de 3 milhões de hectares de florestas nos próximos 10 anos.
Isso tudo vai depender da conjuntura econômica, da possibilidade da infraestrutura que o Estado precisa ter para atender mais indústrias, da infraestrutura social que os municípios precisam ter, de tudo que também a gente precisa desenvolver para que continuem crescendo.
E também para que a gente consiga plantar esses outros um milhão de hectares, espaço tem. É possível. Mato Grosso do Sul tem 36 milhões de hectares, dos quais são 16 milhões, 17 milhões de pastagens, ou seja, dá para ocupar outros espaços com a atividade, que é o que foi acontecendo, ocupando espaço que a pecuária foi deixando para trás.
E falo deixado para trás, porque é uma atividade que não era tão rentável, não tão boa, a floresta foi lá e ocupou os pastos, como a soja foi nas áreas melhores, como a cana também ocupou o seu espaço.
Isso criou uma diversificação muito interessante para um Estado que é exatamente ligado ao agronegócio e a diversificação dentro daquilo que ele tem como potencial. Então, em 20 anos crescendo até dois milhões de hectares, e temos perspectivas para chegar em três [milhões]. Para dar números redondos e ficar mais fácil para entender.
Qual é a importância econômica do setor de florestas plantadas hoje para Mato Grosso do Sul, em termos de geração de renda e movimentação econômica no estado?
Eu acredito que hoje a celulose é o produto principal das indústrias de base florestal. Mas não tem só a celulose como consumidora de madeira de eucalipto. Tem celulose, tem madeira de energia, tem um carbono vegetal da siderurgia.
Nós temos a madeira serrada, que ainda é muito pouco, mas pode ser utilizada. A biomassa que é usada em toda agroindústria, principalmente na indústria dos frigoríficos, nas indústrias e grãos, e hoje está na ordem o milho que é um grande consumidor de biomassa. Então, é uma gama diversificada.
Porém, se usarmos só celulose com o básico, o produto florestal, o produto de base origem florestal que é o eucalipto, ele hoje já é a primeira da pauta de exportação do Estado passando o complexo de soja.
Então, esse é o tamanho da importância que o setor criou e por trás de tudo isso, em todos os efeitos diretos e indiretos dos investimentos industriais que estão acontecendo nos municípios.
Em Mato Grosso do Sul, grande parte dos produtores atua por meio de parcerias florestais com grandes empresas. Do ponto de vista econômico, o que esse modelo representa para o produtor? Quais são as principais vantagens e o que ele ganha, na prática, ao optar por esse tipo de parceria?
Eu acho que é o melhor modelo. Talvez seja por isso o sucesso que Mato Grosso do Sul tem, porque diferente de a indústria chegar e ir comprando e tirando as pessoas da sua terra, ela vem e faz uma parceria.
Nós não temos um dado, porque isso tem muito a ver com a estratégia de cada empresa, então elas até divulgam, mas de forma muito genérica, mas eu consigo entender a gente que está sempre no mercado, que pelo menos 80% do que é plantado hoje é em parceria rural nas terras.
A base desses dois milhões de hectares para atender, boa parte, [ou seja] 80% eu diria que o próprio dono da terra faz uma parceria com a indústria.
E é muito bom, porque o produtor não dispõe do seu patrimônio, o patrimônio também valoriza ao longo do tempo, e há uma continuidade de uso daquela terra.
E há também situações diferenciadas, onde o produtor continua. Tem na sua produção de uma parte da sua propriedade, aquela outra parte que ele tem menos interesse, ou que ele talvez não tenha capacidade de produzir o que gostaria, e ele cede, e consegue fazer uma parceria para, por exemplo, plantar eucalipto.
Com isso, ele diversifica a renda da propriedade. Então, para o produtor: renda garantida de longo prazo, que possa, inclusive, dar uma diversificação na sua atividade, eu posso fazer um manejo consorciado que também é possível.
O estado de Mato Grosso do Sul também é o primeiro ILPF, que é o sistema de lavoura-pecuária-floresta.
Então, isso também faz com que você possa diversificar o uso da sua terra, dar mais potencialidade para ela tirar mais recursos da sua terra, porque ela está ficando cara e escassa, a brincadeira que sempre usamos de falar que quem fez terra não está fazendo mais, né? Já fez. Ela sempre vai ser um recurso escasso, e o que tiver está aí.
E eu acho que é esse convívio com a indústria, esse modelo que a indústria criou em Mato Grosso do Sul, que eu acho que é diferenciado, não acontece em quase nenhum outro lugar, [o modelo] de parcerias, tem dado muito certo. Você vê mais gente fazendo parceria do que vendendo a terra.
Para a indústria é muito melhor pagar o arrendamento do que ter o capital de comprar terra que é muito mais caro. Precisaria de muito mais dinheiro para fazer os projetos, se tivesse que comprar a terra, mas ela vai lá e arrenda.
Acho que é uma parceria que vem dando certo. É um negócio aí, eu acho que tem muito produtor no Estado conseguindo bons resultados por meio dessas parcerias.
A partir deste ano, Mato Grosso do Sul deve receber mais uma fábrica, e o setor florestal segue em expansão. Considerando que, em algumas regiões, grande parte das áreas já está contratada ou arrendada, o que essa nova unidade muda, na prática, na vida do produtor? Há impacto direto para quem já está no sistema ou a demanda atual já absorve essa produção?
Eu sempre gosto de olhar para trás e fazer um panorama para frente, principalmente baseado nos grandes investimentos industriais que estão acontecendo.
Nós tivemos, lá em 2019, o início pela Suzano. A Suzano hoje tem duas linhas em Três Lagoas. Nesse meio de tempo, nós tivemos o investimento da Eldorado, que também é uma produtora em Três Lagoas.
Após Eldorado, a quarta indústria, que foi acontecendo em Mato Grosso do Sul foi a Suzano de Ribas do Rio Pardo, com uma produção que deve chegar a dois milhões de toneladas.
A próxima indústria que está a caminho é a de Inocência, que é a da Arauco, que deve estar funcionamento final de 2027 para 2028. Então, essa será nossa quinta indústria. [Uma] que já recebeu a licença prévia ambiental, agora para Bataguassu, da Bracell, seria a nossa sexta indústria.
Então, esses são investimentos consolidados, a fábrica da Bracell ainda precisa sair do papel, que para funcionar ainda precisa do projeto, só está em licenciamento, porém, até a quinta que seria a de Inocência, o projeto já está sendo implementado.
Então, essas são cinco indústrias hoje, com a sexta em projeto, isso não tem muito mais volta, isso deve acontecer. E é por isso que a gente imagina que as áreas precisam crescer para atender isso. Fora as indústrias que nós estamos falando, as demais consumidoras de madeira, que, em um segundo grande volume, é a biomassa, a madeira para a energia.
E aí tem grandes perspectivas de investimento na parte de etanol de milho, que consome muito a biomassa, que também deverá se movimentar para fazer o plantio, já diferente das regiões onde estão a celulose, elas estão mais onde está a produção agrícola, porque consome milho no seu processo também. Então, são outros grandes consumidores, são os dois grandes consumos com perspectivas de crescimento.
Esse monte de investimentos em indústrias traz mais concorrência para a terra, para quem tem a terra, para quem produz a floresta, tem mais alternativas de negócio. E com certeza, há uma disputa maior para a terra, haverá uma pressão sobre valores, ou seja, o seu preço pode subir, aquele produtor que pretende comprar terra pode ser mais difícil.
Agora, aquele produtor que tem a terra, seu patrimônio pode valorizar, você pode ter opções de parcerias, você pode procurar outras parcerias. E para quem vende a madeira é ótimo, porque também tem alternativa de vender a madeira, que nós já tivemos situações ao contrário, em que tinha madeira, mas não tinha para quem vender.
A demanda por madeira é muito maior hoje do que a oferta. O problema sempre vai ser o tempo, porque uma floresta de eucalipto demora seus seis a sete anos, porque é o prazo ideal para que tenha um retorno adequado para quem planta.
O eucalipto tem um papel importante na interiorização do desenvolvimento econômico do Estado. Como a Reflore avalia esse impacto nos municípios do interior de Mato Grosso do Sul?
Do ponto de vista econômico eu acho isso excepcional, porque a gente vai para regiões que precisam dos investimentos que atraem desenvolvimento. A indústria vai para o interior, porque ela precisa de espaço para plantar. Por isso que ela vai para essas regiões, onde há espaço para crescer suas florestas.
Parafraseando nosso governador são as dores do crescimento.
Com alguns prefeitos dessas regiões que vão receber essas indústrias, e eu já falei com alguns, que vão ter muito problema, porque você vai aumentar a sua arrecadação, vai ter que ter mais escola, ter que ir atrás de mais professor, de mais hospitais, mais gente para trabalhar na prefeitura, para atender tudo isso.
O desenvolvimento é outro e é isso que a indústria traz. Porém, obviamente que nós temos discutido muito, e é uma pauta muito importante na Reflore, essa infraestrutura social dos municípios.
*Perfil
Júnior Ramires
É natural do estado de São Paulo, formado em Administração e produtor florestal há 52 anos em Mato Grosso do Sul. Dessas cinco décadas, ocupa há 30 anos, especificamente, a gestão dos negócios florestais da empresa, que tem operações no município de Ribas do Rio Pardo. É um dos membros fundadores da Reflore MS e já foi presidente em anos anteriores, além da presidência atual.

