Com menor oferta de animais e alta demanda, a arroba do boi gordo chegou a ultrapassar o patamar de
R$ 340 em Mato Grosso do Sul.
Dados da Granos Corretora, sem a incidência do Funrural, mostram que a cotação saiu de R$ 298 em maio de 2025 para R$ 337 em maio deste ano, acumulando alta de 13% em 12 meses.
Considerando o imposto, o valor chega a R$ 342,50, consolidando uma recuperação importante da pecuária de corte estadual.
O aumento da demanda global por carne bovina leva à alta das exportações, consequentemente o preço da arroba do gado sobe e a carne ao consumidor final também.
Em Campo Grande, o preço médio dos cortes bovinos aumentou 12% no mesmo intervalo de um ano e pode subir ainda mais, de acordo com os especialistas.
Pesquisa da reportagem aponta que o quilo do contrafilé saiu do preço médio de R$ 51,91 em maio do ano passado para R$ 56,59 nesta semana.
Já o corte favorito do churrasco, a picanha é comercializada por R$ 93,85 ante os R$ 88,94 de 2025.
Além da alta nos preços médios, a variação entre supermercados e casas de carne da Capital chega a 78,70%. No caso da picanha, por exemplo, os valores variam de R$ 64,90 a R$ 115,98. A costela vai de R$ 21,89 a R$ 25,90. Enquanto o valor para comprar um quilo de patinho varia de R$ 39,89 a R$ 52,98.
“Para o consumo interno, o desafio é manter o preço no patamar atual, pois a tendência é de redução do consumo”, analisa o mestre em Economia, Eugênio Pavão.
Dados do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), a inflação oficial, mostram que as carnes aumentaram 6,65% nos 12 meses finalizados em abril. Ainda conforme o levantamento, elaborado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o coxão mole aumentou 9,71% no período.

VALORIZAÇÃO
Após um longo período de desvalorização no preço pago ao produtor, a arroba do boi voltou a subir.
Conforme o boletim Casa Rural, elaborado pela Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso do Sul (Famasul), em maio do ano passado, o gado era vendido a R$ 298 no mercado físico de Mato Grosso do Sul.
Ontem, o gado foi negociado a R$ 336,92. No mesmo intervalo, a vaca custava R$ 300, em 2025, e passou a R$ 320,60 – alta de 6,9%.
A série histórica mostra a intensidade da recuperação recente. Em maio de 2021, a arroba era negociada a
R$ 290,58. Um ano depois, em maio de 2022, manteve-se próxima desse nível, a R$ 289,48, antes de recuar para R$ 247,07, em 2023, e atingir o menor patamar de R$ 212,76, em 2024.
Conforme o boletim, a menor oferta de animais prontos para abate é um dos fatores que sustentam a alta recente.
“A menor oferta de animais contribuiu para a manutenção dos preços da arroba ao mesmo tempo em que a demanda segue consistente. As exportações estão em bom ritmo, com volumes diários acima de 13 mil toneladas o que corresponde ao aumento de 15% quando comparado a abril de 2025”.
Além da menor oferta, dados da Agência Estadual de Defesa Sanitária Animal e Vegetal (Iagro) indicam redução no número de abates no Estado.
“No trimestre, o número de animais abatidos foi 1,03 milhão de cabeças, o que representou redução de 4,3% em relação aos 1,08 milhão de animais de 2025. Do total de animais abatidos, 539,8 mil foram fêmeas. O abate dessa categoria foi 2,2% menor que o trimestre de 2025 mas representou 52% do total de abates. O que correspondeu a aumento de 1 ponto porcentual em relação aos 51% de igual período de 2025”.
O relatório demonstra, ainda, que MS movimentou 371,2 mil animais para abate em março, representando alta de 13,7% em relação a fevereiro e aumento de 5,2% em relação aos 352,9 mil animais de março de 2025.
FUTURO
O mercado futuro do boi gordo segue pressionado e volátil, com os efeitos negativos do clima refletindo uma maior oferta de animais prontos para o abate no mercado físico.
E a restrição da União Europeia para os produtos de origem animal exportados do Brasil também contribui para um cenário negativo, adicionando uma maior preocupação sobre o futuro da exportação da carne bovina.
Enquanto o Brasil projeta uma perda de US$ 2 bilhões, o impacto direto nas exportações de carne bovina do Estado é estimado em US$ 126 milhões, baseando-se nos dados consolidados do levantamento de comércio exterior de Mato Grosso do Sul de 2025.
A eventual restrição somente poderá ocorrer caso as garantias formais exigidas pelo bloco não sejam apresentadas até 3 de setembro deste ano.
Segundo dados da Secretaria de Meio Ambiente, Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação (Semadesc), a carne bovina representa cerca de 10% de tudo o que Mato Grosso do Sul exporta para o bloco europeu, que é hoje o segundo bloco econômico mais importante, atrás apenas da Ásia.
Em 2025, o Estado enviou mais de 14 mil toneladas de proteína para os europeus, com destaque para a Itália, o terceiro principal destino de todas as exportações estaduais.
Para o setor produtivo sul-mato-grossense, a medida é vista como um golpe em um momento de fragilidade do mercado interno.
O pecuarista Alessandro Coelho explica que o cenário já era de pressão em razão do baixo poder aquisitivo do brasileiro e da escassez de oferta causada pelo forte abate de fêmeas nos últimos anos.
“Estamos com demanda interna enfraquecida e custos de reposição em valores históricos. O mercado europeu é exigente, mas remunera muito bem a carne que acessa aquele destino”, afirma Coelho.
Para ele, a solução não deve ser uma imposição generalizada, mas sim técnica: “O que não pode é generalizar as exigências para todos, gerando custos inviáveis. Falta uma classificação para individualizar o produtor. Mato Grosso do Sul tem uma das pecuárias mais eficientes do Brasil e, sendo remunerado adequadamente, o produtor se adequaria prontamente aos protocolos”, defende.

