Economia

Previdência

Com fila única do INSS em 2,9 milhões, MS tem 41,7 mil à espera de benefício

Nacionalização da análise promete reduzir desigualdades regionais e dar prioridade aos pedidos mais antigos, mas especialistas alertam que medida não resolve entraves estruturais do sistema previdenciário

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A nacionalização da fila de análise de benefícios do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) passou a valer neste mês como uma das principais apostas do governo federal para enfrentar o acúmulo histórico de processos e a demora na concessão de aposentadorias, auxílios e benefícios assistenciais. Em Mato Grosso do Sul, no entanto, a medida chega em meio a um cenário com mais de 41 mil pessoas aguardando por um benefício, conforme dados do Ministério da Previdência Social (MPS) de novembro de 2025.

Com o novo método de análise, os mais de 41 mil contribuintes de MS estão entre os mais de 2,9 milhões de todo o País que aguardam a análise por algum benefício entre aposentadorias, benefício por incapacidade temporária, pensões, entre outros. 

Em Mato Grosso do Sul a fila mais que dobrou em um ano, conforme o recorte mais recente divulgado. Enquanto em novembro de 2024 o número era de 16.749 pessoas esperando por algum tipo de auxílio, o volume alcançou 41.775 pessoas na fila no penúltimo mês do ano passado – salto de 150%.

Nesse contexto de crescimento que entra em vigor a unificação das filas regionais em uma fila única nacional. A mudança, implementada no dia 13, permite que processos de Mato Grosso do Sul sejam analisados por servidores de qualquer parte do País, independentemente da agência de origem do pedido. A expectativa é de reduzir desigualdades regionais e acelerar a concessão de benefícios, sobretudo nos estados onde o tempo de espera é maior.

Para a advogada previdenciária Kelly Ferreira do Valle, a nacionalização altera de forma significativa a lógica do atendimento dentro do INSS.

“É como se o governo acabasse com as ‘filinhas’ de cada agência e criasse uma fila única para o Brasil inteiro. Antes, se a agência de Campo Grande estivesse lotada, o seu processo ficava parado lá. Agora, com o sistema unificado, se um funcionário do Rio Grande do Sul ou da Bahia ficar livre, ele consegue puxar e analisar o processo de um morador daqui de MS na hora”, explica ao Correio do Estado.

Segundo ela, o principal ganho tende a ser a redução do tempo de espera, independentemente do local onde o segurado reside. “O grande benefício é a agilidade. A ideia é que não exista mais esse azar de morar em uma cidade onde o INSS demora mais; o tempo de espera agora tende a ser o mesmo para todo mundo”, afirma.
A advogada alerta, porém, para um efeito colateral temporário da mudança. Segundo Kelly Ferreira, durante a fase de transição e unificação dos sistemas, o portal e o aplicativo Meu INSS podem apresentar instabilidade ou até ficar fora do ar até o dia 31. “O pessoal vai precisar ter um pouquinho de paciência nesta semana de transição”, pontua.

AVANÇO

O avanço da fila em Mato Grosso do Sul ocorre mesmo após tentativas pontuais do governo federal para reduzir o estoque de processos. Entre maio e julho do ano passado, houve uma breve desaceleração, com queda de 40.840 para 37.907 requerimentos. O alívio, no entanto, durou pouco. Em agosto de 2025, a fila voltou a crescer, retomando o ritmo de alta que marcou os últimos 12 meses.

A oscilação reflete o impacto direto de programas criados para enfrentar o problema. O Programa de Enfrentamento à Fila, mantido até o dezembro do ano passado, chegou a reduzir temporariamente o número de processos pendentes. Ele foi substituído pelo Programa de Gestão de Benefícios (PGB), mas a iniciativa teve curta duração e acabou suspensa em outubro por falta de verba, interrompendo a principal estratégia de combate ao acúmulo de pedidos.

Para a advogada previdenciária Juliane Penteado, a medida tem méritos importantes, sobretudo no curto prazo. Um dos principais pontos positivos, segundo ela, é a redução do tempo de espera.
“A ideia central é justamente atacar a grande fila de processos pendentes no INSS, que chegava a milhões de pedidos antes da mudança, e reduzir o tempo de espera dos segurados”, explica.

Outro avanço está no melhor aproveitamento da capacidade técnica do órgão. Com a fila única, servidores de regiões onde o acúmulo de processos é menor podem atuar diretamente em estados com maior demanda, equilibrando a capacidade de análise no plano nacional. “Isso permite um uso mais racional da força de trabalho disponível”, observa.

A advogada também destaca a priorização dos pedidos mais antigos, especialmente daqueles benefícios que concentram a maior parte da demanda. “A fila única permite ao Instituto priorizar casos que aguardam há muito tempo, principalmente benefícios como o BPC [Benefício por Incapacidade Temporária] e os benefícios por incapacidade, que representam cerca de 80% da fila”, afirma.

Os resultados iniciais divulgados pelo governo indicam um impacto positivo. Nos primeiros dias de aplicação da nacionalização, mais de 105 mil processos tiveram a análise iniciada, com milhares de pedidos já concluídos.

DESAFIOS

Apesar dos avanços, a advogada alerta que a nacionalização da fila não resolve problemas estruturais do sistema previdenciário. “É uma medida tática, não estrutural. Ela não corrige deficiências do sistema, nem a falta de pessoal nem falhas no processo”, pondera.

Segundo Juliane, a fila existe, em grande parte, porque há menos servidores do que demanda. O efetivo atual do INSS é significativamente menor do que em anos anteriores, o que limita o impacto da redistribuição de processos, mesmo com a fila única. “Acredito que a intenção seja otimizar. Vamos aguardar para saber”.
Outro entrave é que a análise dos pedidos continua dependente da documentação correta. Muitos processos permanecem travados por erros de informação, registros incompletos ou pela necessidade de perícia médica.

“Esses fatores não são resolvidos apenas com a redistribuição das tarefas”, ressalta.
As perícias médicas, inclusive, seguem como um dos principais gargalos do sistema. Uma parcela expressiva da fila depende desse tipo de avaliação, que historicamente apresenta demora. Segundo a advogada, mesmo com mais servidores atuando à distância, sem reforço efetivo no número de peritos, a solução completa tende a demorar mais.

Juliane também chama a atenção para a dependência de programas temporários, como o pagamento de bônus por produtividade. “A redução da fila costuma depender desses programas, que são temporários, podem ser suspensos e têm eficácia variável ao longo do tempo”, finaliza.

Além disso, há críticas de sindicatos em relação às metas de produtividade, que, segundo as entidades, podem gerar sobrecarga de trabalho sem melhoria nas condições oferecidas aos servidores.

MEDIDA

Em publicação oficial, o governo federal informou que a nacionalização da fila já resultou no início da análise de 105.150 processos em todo o País, dos quais 48.574 já foram concluídos. A força-tarefa mobilizou 2.375 servidores, que atuam de forma complementar às atividades regulares do Instituto.

A medida foi formalizada por meio da Portaria Pres/INSS nº 1.919, que alterou o Programa de Gerenciamento de Benefícios e consolidou a fila única nacional, com foco nos pedidos que aguardam há mais de 45 dias.

O presidente do INSS, Gilberto Waller, disse que a mudança busca promover maior equidade no atendimento. “Essa nacionalização nos permite atuar com mais igualdade e com um maior número de servidores nos casos de maior espera. Com a mudança, a força de trabalho das regiões com melhores indicadores podem atuar nos processos daqueles que aguardam há mais tempo. Nossa prioridade é atacar a fila de verdade”.

Agronegócio

MS tem cinco cidades entre as maiores produtoras de soja do Brasil

O Estado responde, hoje, por 7,2% de participação da produção do grão no cenário nacional

22/03/2026 11h00

Projeção para próxima safra é de crescimento de 14% em MS

Projeção para próxima safra é de crescimento de 14% em MS FOTO: Gerson Oliveira/Correio do Estado

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Mato Grosso do Sul tem cinco cidades entre as 50 maiores produtoras de soja do Brasil. Os dados são da Pesquisa Agrícola Municipal (PAM), divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). 

Segundo o levantamento, os municípios destaques do Estado na produção do grão são Ponta Porã, Maracaju, Sidrolândia, Dourados e São Gabriel do Oeste, colocando Mato Grosso do Sul entre os destaques no mapa da produção agrícola brasileira, especialmente no cultivo da soja, principal cultura do País. 

As cidades presentes no ranking estão localizadas em regiões estratégicas para o agronegócio sul-mato-grossense. Ponta Porã, que produziu 869 mil toneladas em 2024, e Maracaju, com 844 mil toneladas, se destacam historicamente como polos de produção. 

Já Sidrolândia (729 mil toneladas) e Dourados (621 mil toneladas) reforçam o papel da região centro-sul como motor agrícola. São Gabriel do Oeste (482 mil toneladas) consolida a expansão da soja em novas áreas produtivas. 

“Não é apenas a cidade que pavimenta ruas, mas a que abre caminhos para o futuro, atrai investimentos, qualifica pessoas e faz a economia girar. Ponta Porã já é um território de força econômica, referência no comércio e nos serviços, com uma base sólida no agronegócio, onde nossa liderança é absoluta”, afirmou o prefeito de Ponta Porã, Eduardo Campos. 

No entanto, a produção de Mato Grosso do Sul ainda pode ser maior que a contabilizada pelo IBGE. Dados do projeto SIGA-MS, executado pela Associação dos Produtores de Soja de Mato Grosso do Sul (Aprosoja/MS) contabilizaram uma produção de soja de 1,52 milhões de toneladas em Maracaju e de 1,03 milhão em Ponta Porã. 

Para o coordenador técnico da Aprosoja/MS, Gabriel Balta, o projeto utiliza imagens de satélite, sensoriamento remoto e validação em campo, garantindo maior acurácia na identificação das áreas cultivadas e na estimativa da produtividade. 

“O SIGA-MS é único no país. Ele combina monitoramento por satélite com a validação em campo, oferecendo dados que refletem de forma muito próxima a realidade da produção. Isso traz segurança tanto para produtores quanto para o mercado”, explicou. 

Carro-chefe

A soja segue como líder em produção do agro brasileiro e de Mato Grosso do Sul. Estimativas do IBGE apontam que a produção nacional da oleaginosa deve atingir 173,3 milhões de toneladas em 2025, um crescimento de 4,3% em relação ao ano anterior, consolidando um novo recorde histórico. 

Mato Grosso do Sul também avança. A estimativa é de cerca de 15 milhões de toneladas produzidas nesta safra, um crescimento de aproximadamente 14%, impulsionado tanto pelo aumento da área plantada quanto pela melhora da produtividade. 

Na distribuição da produção pelas unidades da Federação, Mato Grosso lidera como o maior produtor nacional de grãos, com participação de 30,2% na safra nacional. Em seguida, aparecem o Paraná, com 13,9%, Rio Grande do Sul, com 11,7%, Goiás, 10,7%, Mato Grosso do Sul, 7,6% e Minas Gerais, com 5,5% de participação. Juntos, estes estados  representaram 79,6% na estimativa da produção brasileira para 2026. 

Expansão

Essa expansão da soja impacta diretamente a economia sul-mato-grossense, principalmente nas regiões agrícolas do interior, onde a cultura domina grande parte das áreas de plantio. 

O aumento da produção também impulsiona outras cadeias do agronegócio como o transporte, armazenagem e exportação. 

Além disso, a soja costuma determinar o ritmo da segunda safra do milho, já que a colheita da soja libera as áreas agrícolas para o plantio do cereal. 

A colheita da safra 2025/2026 já está em andamento em Mato Grosso do Sul. Segundo levantamento da Aprosoja/MS, até fevereiro, cerca de 27,7% da área cultivada já havia sido colhida, o que corresponde a, aproximadamente, 1,3 milhão de hectares. 

A expectativa é que o avanço da colheita e as condições climáticas ao longo do ano confirmem as projeções de crescimento da produção. 


 

jornada de trabalho

Se aprovado, fim da 6x1 deve afetar preços relativos num primeiro momento, dizem analistas

Os impactos seriam consequência do aumento dos custos das empresas à medida que as horas trabalhadas diminuíssem, sem alteração dos salários

22/03/2026 08h00

O fim da 6x1 deve afetar preços relativos num primeiro momento, dizem analistas

O fim da 6x1 deve afetar preços relativos num primeiro momento, dizem analistas Foto: Gerson Oliveira / Correio do Estado

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O fim da jornada de 6 dias de trabalho por 1 de folga, se aprovado, terá impacto nos preços relativos da economia, pelo menos em um primeiro momento, preveem especialistas consultados pelo Broadcast, sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado.

De imediato, os custos das empresas subirão na medida em que as horas trabalhadas diminuírem e considerando que os salários não poderão ser reduzidos.

No médio prazo, segundo os especialistas, o mercado se ajustará e as empresas se adequarão à nova realidade, como aconteceu em 1988, quando, na esteira da nova Constituição, a jornada de trabalho foi reduzida de 48 para 44 horas semanais.

A inflação, num primeiro momento, deve subir também porque, segundo o sociólogo, professor e coordenador do Fórum das Centrais Sindicais, Clemente Ganz Lúcio, com um dia a mais de folga o trabalhador passará a consumir mais.

Na outra ponta, para atender ao aumento da demanda, o setor produtivo terá que produzir mais. Para isso terá que contratar mais funcionários, fazendo com que a roda da economia passe a girar mais rápido. "O resultado será de um saldo positivo para a economia", defende Ganz Lúcio.

Daniel Teles Barbosa, sócio da Valor Investimentos, também vê o fim da jornada 6x1 alterando os preços relativos da economia por meio de uma inevitável melhora na massa salarial. Setores que não podem interromper suas atividades aos fins de semana vão ter de buscar reposição nos seus dias de folga dos seus empregados ou pagar horas extras.

Para o executivo, num cenário de mercado de trabalho superaquecido, com escassez de mão de obra e plataformas e aplicativos levando vantagem na disputa de trabalhadores com rendas mais atrativas, o setor formal terá que melhorar salários e benefícios para conseguir atrair o trabalhador informal para um ambiente em que terá de cumprir horários, estar sujeito a regras e normas.

"Um motorista de aplicativo hoje consegue movimentar no mês de R$ 6 mil a R$ 9 mil", disse Teles.

De acordo com o coordenador do Fórum das Centrais Sindicais, Ganz Lúcio, num primeiro momento, será inevitável alguma pressão sobre custos das empresas, sobretudo nos das micro e pequenas, que são mais intensivas em mão de obra e carentes de condições para se automatizarem e inovarem.

Um estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) quantifica o impacto que o fim da jornada 6x1 exercerá sobre custos.

O efeito será diferente para cada setor e porte, indo de 0,5% a 6,5%, sendo que as empresas maiores e mais automatizadas sofrerão menos pressão que as micros e pequenas.

Tendência Mundial Inevitável

Para o presidente do Sindicato das Micro e Pequenas Indústrias do Estado de São Paulo (Simpi), Joseph Couri, a redução da jornada trabalho é uma tendência mundial, inevitável e bem-vinda Defende a melhora da qualidade de vida do trabalhador, mas também algum incentivo para que as micro e pequenas empresas possam se automatizar.

Enquanto grandes associações entendem que o debate sobre o fim da jornada 6x1 não cabe em um país com baixo ganho de produtividade e escassez de mão de obra, Couri diz que é só pagar o que o trabalhador pede e merece que a mão de obra aparece.

Ainda, de acordo com ele, o impacto não será generalizado porque muitas empresas já cumprem uma jornada de 40 horas semanais.

"Quanto menos mecanizado for um segmento, maior será o impacto do fim da jornada 6x1 sobre seus custos. Quanto mais mecanizado, menos impacto terá", avalia o presidente do Simpi, para quem alguma contrapartida para os micros e pequenos deveria acompanhar a mudança.

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