Economia

Medida

Desenrola dá 90% de desconto, trava bets e enfrenta alta inadimplência

Programa amplia alcance e mira apostas on-line, mas especialistas veem efeito limitado no longo prazo

Continue lendo...

O governo federal lançou, ontem, o Novo Desenrola Brasil, com promessa de descontos de até 90% nas dívidas, juros reduzidos, uso do FGTS e ampliação do alcance para famílias, estudantes, aposentados e empresas.

A medida provisória, assinada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, terá duração de 90 dias e inclui uma novidade simbólica: o bloqueio do CPF de beneficiários para participação em apostas on-line (bets) durante um ano.

O anúncio ocorre em um momento de forte pressão financeira em Mato Grosso do Sul. Conforme já adiantou o Correio do Estado, MS soma 1,29 milhão de inadimplentes, que acumulam 5,93 milhões de dívidas, totalizando R$ 10,55 bilhões, aponta a Serasa. O cenário expõe não apenas o tamanho do problema, mas também um perfil de endividamento que ajuda a explicar por que programas de renegociação tendem a ter efeito limitado.

Durante o lançamento, Lula enfatizou o caráter emergencial da medida e fez referência direta ao peso das dívidas menores no orçamento das famílias.

“Nós estamos tentando encontrar uma fórmula de tirar a corda do pescoço dessa gente para voltar a respirar normal”, afirmou. Ao mesmo tempo, o presidente reforçou a necessidade de mudança de comportamento financeiro: “A dívida tem que ser feita de acordo com o tamanho do passo que as nossas pernas podem dar”.

PERFIL

Os dados da Serasa mostram que a inadimplência em Mato Grosso do Sul está concentrada justamente nas linhas de crédito mais caras e em despesas essenciais. Bancos e cartões de crédito respondem por 29,21% das dívidas, seguidos por serviços financeiros (19,06%) e contas básicas, como energia e água (15,09%) .

Além do volume e do tipo de dívida, o perfil dos inadimplentes reforça o caráter estrutural do problema. O levantamento indica que a maioria dos negativados em MS é composta por homens (52,2%).

A faixa etária mais atingida está entre 41 e 60 anos (35,3%), seguida de perto pelo grupo de 26 a 40 anos (33,7%), ou seja, consumidores que já estão inseridos no mercado de trabalho e, em muitos casos, concentram responsabilidades familiares e financeiras.

O recorte mostra que a inadimplência não está concentrada nos mais jovens, como muitas vezes se supõe, mas em adultos com renda comprometida e maior exposição ao crédito.

Esse dado reforça a leitura de que o endividamento está mais ligado a fatores como custo de vida, renda e acesso a crédito caro do que apenas a comportamento de consumo.

O endividamento deixou de ser apenas consumo parcelado e passou a envolver a manutenção do dia a dia. Ao mesmo tempo, a forte presença do crédito rotativo e do cheque especial, com juros elevados, contribui para o crescimento das dívidas.

O valor médio devido por consumidor no Estado chega a R$ 8.169,62, enquanto cada dívida gira em torno de R$ 1.779,36.

O Desenrola Famílias, principal eixo do programa, permitirá a renegociação de dívidas com atraso entre 90 dias e dois anos, com juros de até 1,99% ao mês, parcelamento em até 48 meses e uso de até 20% do saldo do FGTS para abatimento.

Além disso, o governo incluiu mecanismos considerados comportamentais, como o bloqueio do CPF para apostas on-line durante o período de renegociação.

A medida foi destacada pelo ministro da Fazenda, Dario Durigan, como uma tentativa de evitar o agravamento do endividamento. “Uma pessoa que está endividada e precisa de ajuda do governo não pode jogar nas apostas on-line”, afirmou.

Fonte: Governo Federal

CONSUMO

Do ponto de vista econômico, o objetivo do Desenrola é reativar o consumo. Ao limpar o nome de milhões de brasileiros, o governo busca ampliar o acesso ao crédito e estimular a atividade econômica.

“O objetivo de programas de renegociação é permitir o consumo, que é um dos pilares do cálculo do PIB. Com a renegociação, indivíduos que não podiam consumir voltam a ser consumidores”, explica o mestre em Economia Eugênio Pavão.

Em estados como Mato Grosso do Sul, onde comércio e serviços dependem fortemente da renda das famílias, esse efeito pode ser imediato. Apesar do potencial de curto prazo, a avaliação de economistas é de que o programa não resolve as causas do endividamento.

“As causas da inadimplência no Brasil se dão por alguns fatores: renda média baixa, falta de educação financeira e juros altos em empréstimos de fácil acesso. Desta forma, os programas de renegociação são conjunturais, não atacam o problema, mas evitam um colapso financeiro maior”, afirma Pavão. Segundo ele, há risco de repetição do ciclo. “O governo ganha com o programa, mas não muda os hábitos. A maioria tende a voltar a consumir além da renda”, diz.

O economista também chama atenção para o efeito psicológico do crédito. “A facilidade para obter cartões e outros créditos cria a ilusão de renda maior, levando à inadimplência. Muitos acabam recorrendo a alternativas mais caras e retornam ao círculo vicioso”, completa.

BETS

A inclusão do bloqueio para apostas no Novo Desenrola Brasil expõe uma nova dimensão do endividamento no País. Embora ainda não apareça diretamente nas estatísticas tradicionais de inadimplência, o gasto com jogos on-line tem sido apontado como fator de desequilíbrio financeiro.

Ao impedir o acesso a bets durante o período de renegociação, o governo tenta evitar que o alívio financeiro seja desviado para esse tipo de consumo. 

A medida, no entanto, levanta questionamentos sobre sua eficácia isolada, já que não resolve outros fatores estruturais, como renda e custo do crédito.

O Novo Desenrola Brasil também amplia o alcance para empresas, produtores rurais e estudantes, com condições diferenciadas de renegociação e acesso a crédito. 

A expectativa é beneficiar milhões de brasileiros e melhorar o fluxo financeiro de pequenos negócios.

Assine o Correio do Estado

Levantamento

Em MS, 10% dos mais ricos concentram mais de um terço de toda a renda do Estado

Avanço econômico do Estado não foi acompanhado por uma redução significativa da desigualdade social

10/05/2026 15h30

Renda per capita dos 10% mais ricos de MS é de R$ 8.494

Renda per capita dos 10% mais ricos de MS é de R$ 8.494 FOTO: Gerson Oliveira/Correio do Estado

Continue Lendo...

Mato Grosso do Sul ficou mais rico em 2025, mas a desigualdade econômica continua sendo realidade no Estado. Dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) na PNAD Contínua mostraram que o rendimento médio per capita (por pessoa) do 1% mais rico da população é 47 vezes maior que o registrado entre os 10% mais pobres. 

Segundo a pesquisa, em 2025, o rendimento médio per capita total em MS foi de R$ 2.369, o maior já registrado na série histórica. Isso coloca o Estado em 8º lugar em comparação às outras UFs do Brasil. 

A renda per capita é obtida pela soma de todas as rendas de uma família que mora em um domicílio, dividido pelo número de moradores. Assim, chega-se em um valor médio a partir das rendas adquiridas. 

A população 1% mais rica do Estado tem rendimento médio per capita de R$ 18.932 e para os 10% mais ricos,  o valor é de R$ 8.494. Em contrapartida, a parcela mais pobre da população vive com rendimento mensal de R$ 403 por pessoa. 

Na prática, isso significa que, enquanto uma parcela dos moradores sul-mato-grossenses vive com R$ 13 reais por dia, a elite econômica do Estado supera os R$ 18 mil mensais por integrante da família. 

O levantamento mostrou ainda que os 10% mais ricos do Estado concentram 36,3% da massa total dos rendimentos, que ficou em R$ 6,75 bilhões. Já os 10% mais pobres ficaram com apenas 1,7% da renda total estadual. 

Para se ter uma dimensão, para alcançar a mesma fatia de renda apropriada pelos 10% mais ricos é necessário somar os rendimentos de quase 70% dos mais pobres. 

Em números, o salário médio da parcela mais rica do Estado é de R$ 31.079, enquanto da parcela mais pobre é de R$ 750.

Estado mais rico

Apesar da desigualdade, Mato Grosso do Sul registrou, em 2025, o maior rendimento domiciliar per capita da série histórica da pesquisa, chegando a R$ 2.369. 

A massa total de rendimentos mensais também bateu recorde e alcançou R$ 6,75 bilhões. Desse total, o 1% mais rico, sozinho, concentra R$ 551 milhões por mês, o equivalente a 8,2% de toda a renda gerada no Estado. Já entre os 10% mais ricos, a soma equivale a R$ 2,45 bilhões mensais. 

A renda cresceu, mas a desigualdade mudou pouco nos últimos anos. O índice de Gini, que é o indicador utilizado para medir a concentração de renda, passou de 0,454 em 2024 para 0,457 em 2025. Quanrto mais próximo de 1, maior a desigualdade social. 

A pesquisa também mostrou que houve melhora na renda das faixas mais pobres ao longo da série histórica. Em 2012, início da pesquisa, os 10% mais pobres tinham rendimento per capita médio de R$ 305. Em 2025, o valor chegou a R$ 403, já corrigido pela inflação. 

As principais fontes de renda que compõem o rendimento mensal também mudou. Os rendimentos vindos de todos os trabalhos são a maioria no percentual, chegando a 80,7% em 2025, crescimento em relação a 2024, que foi de 79,5%. 

A participação da aposentadoria nos rendimentos também mudou, saindo de 11,2% em 2012, 13,3% em 2024 e caindo para 12,6% em 2025. 

Também caiu a participação da renda de programas sociais na composição do rendimento total. Em 2020, com a pandemia, houve um aumento significativo (5,4%), mas com a retomada do mercado de trabalho, o percentual diminuiu a partir de 2021, chegando a 2,9% em 2025, valor menor que o do ano passado, que ficou em 3,2%. 
 

pressão inflacionária

'Tempestade perfeita' para alimentos preocupa e é risco também para 2027

Há probabilidade de que o El Niño de 2026 seja forte em meados do ano, coincidindo com período seco no Sudeste, combinação que pode adicionar até 2 pontos porcentuais à alta do IPCA no acumulado do biênio

10/05/2026 10h00

 Seis itens figuram no topo da lista de maior peso, com elevada sensibilidade ao aumento do petróleo e repasse de forma rápida, com transmissão em até um mês do choque

Seis itens figuram no topo da lista de maior peso, com elevada sensibilidade ao aumento do petróleo e repasse de forma rápida, com transmissão em até um mês do choque Foto: Gerson Oliveira / Correio do Estado

Continue Lendo...

Para além do choque dos efeitos da guerra, principalmente nos combustíveis, outro grupo começa a aparecer no radar como fonte de pressão inflacionária maior do que o previsto este ano e também no próximo.

Segundo economistas ouvidos pelo Broadcast (sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado), a dinâmica benigna dos alimentos observada em 2025 pode dar lugar a dois anos seguidos de alta acima do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), impondo ainda mais dificuldade à tarefa do Banco Central de trazer o indicador à meta de 3%.

Mais do que a escalada dos preços de fertilizantes causada pelo conflito entre Estados Unidos e Irã, que bloqueou o escoamento de parte relevante da produção do insumo, entram na conta também intempéries climáticas que têm potencial de causar uma tempestade perfeita para a inflação.

Em primeiro lugar, há a probabilidade não desprezível de que o El Niño de 2026 seja forte. O evento, que ocorre em meados do ano, coincidiria com o período seco na região Sudeste.

Esta seria uma combinação que, em estimativas como a da Warren Investimentos de um cenário extremo, pode adicionar até 2 pontos porcentuais à alta do IPCA no acumulado do biênio.

Grupo de maior peso no índice oficial de inflação, que mede a variação de preços de uma cesta de consumo de famílias com rendimentos de 1 a 40 salários mínimos, a parte de alimentação e bebidas representa mais de um quinto (21,3%) do IPCA.

Esse porcentual sobe a 24,3% no Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC), cuja cesta abrange famílias com renda mensal entre um e cinco salários mínimos.

O estrategista-chefe da RB Investimentos, Gustavo Cruz, relata que os clientes do agronegócio da instituição estão bastante preocupados com o aumento dos fertilizantes.

"Eles já estão tentando travar preços em patamar mais alto. Uma parte diminui em lucro, e a outra é repassada. Teremos alimentos mais caros pela frente porque não tem como fugir da alta desse insumo."

Segundo estudo da Warren, seis itens figuram no topo da lista de maior peso que, além de possuírem elevada sensibilidade ao aumento do petróleo, mostram repasse de forma rápida, com transmissão em até um mês do choque. São eles:

  • Carnes;
  • Carnes e peixes industrializados;
  • Aves e ovos;
  • Leite e derivados;
  • Panificados, e
  • Óleos e gorduras.

Mas também há itens alimentares nos grupos de repasse com média velocidade, que ocorre entre dois e quatro meses, tais como: cereais, leguminosas e alimentação fora de casa, e, ainda, no grupo de repasse lento, que se dá cinco meses ou mais após o choque: farinha, féculas e massas e bebidas e infusões.

Até 2027

Assim, aponta Andréa Angelo, estrategista de inflação da plataforma de investimentos, estes preços representam uma parte significativa do impacto total - calculado em 1,7 ponto porcentual até 2027 -, do grupo de preços sensíveis à elevação do barril de óleo tipo Brent no IPCA.

Os efeitos, explica Angelo, vêm dos custos de deslocamento dos produtos, principalmente no leite, e também do avanço dos fertilizantes - que, no cenário da Warren, se concentram mais em 2026 do que no ano seguinte.

"Alimentos in natura capturam o efeito de fertilizantes mais caros de forma rápida. Mas na parte de grãos e commodities, dependendo de quanto a safra 2026/2027 encarecer devido ao choque, o impacto pode ser mais significativo em 2027", ponderou.

Essa é a visão de Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados, que está mais preocupado com a dinâmica dos alimentos no próximo ano do que no atual. Em suas estimativas, o IPCA de alimentação e bebidas pouco vai desacelerar entre 2026 e 2027, de 5,4% para ao redor de 5%, mas os riscos são para cima.

"Esse ano teremos uma pressão sazonal normal de alimentos, mas esse combo que pode afetar 2027 é mais preocupante, com o efeito adicional de fertilizantes que vamos precisar acompanhar, porque depende do andamento da guerra", disse Vale.

Caso o El Niño de fato escale para forte - possibilidade considerada por entidades como a Organização Meteorológica Mundial (OMM), uma agência da ONU, e o Centro Europeu de Previsão Meteorológica de Médio Prazo -, coincidir com o déficit hídrico na fase crítica do milho da segunda safra, de abril a junho, e o câmbio se depreciar, haverá um impacto de 0,39 a 0,49 ponto na inflação ao mês, estima o economista.

Nessa hipótese, a inflação acumulada em 12 meses de alimentação pode bater em 10% ainda este ano, diz. "Ainda não é o cenário mais provável, mas tem uma possibilidade não trivial." Mesmo o cenário-base é desafiador para o BC, apontou, por adicionar mais um elemento de risco em um IPCA já pressionado.

Sócio e economista-chefe da G5 Partners, Luis Otávio de Souza Leal aponta que, segundo seus cálculos, anos com formação do El Niño registraram inflação anual média de alimentos de 11,6%. Sem o fenômeno climático, o dado ficou em 6,1%.

"Culturas de safra curta, como legumes, verduras, frutas, podem ser impactadas. E aí teremos sim uma inflação maior de alimentos no segundo semestre", prevê. Se o evento começar em junho, o efeito nos preços fica mais concentrado este ano, diz Leal.

Caso o início se dê em agosto, a produção de alimentos in natura seria mais afetada em 2027. Nas estimativas da G5, a variação dos alimentos no domicílio vai avançar de 5% este ano a 7% no próximo.

 

Assine o Correio do Estado

NEWSLETTER

Fique sempre bem informado com as notícias mais importantes do MS, do Brasil e do mundo.

Fique Ligado

Para evitar que a nossa resposta seja recebida como SPAM, adicione endereço de

e-mail [email protected] na lista de remetentes confiáveis do seu e-mail (whitelist).