A cota de 52 mil toneladas de carne bovina com isenção tarifária exportada pelo Brasil aos Estados Unidos foi esgotada nos primeiros seis dias de 2026, um tempo recorde, impulsionado pela grande demanda do produto pelo mercado norte-americano.
Desde então, qualquer volume adicional enviado ao país passa a ser taxado em 26,4%.
A cota, que faz parte do regime de Nação Mais Favorecida (MFN), já foi menor neste ano, com 13 mil toneladas a menos que o volume originalmente destinado aos países exportadores, a fim de acomodar o acordo com o Reino Unido, que garante acesso à carne bovina americana ao mercado britânico.
O preenchimento acelerado da cota não foi uma surpresa para o setor. Para o analista de mercado, Fernando Henrique Iglesias, o movimento é reflexo de uma antecipação dos compradores norte-americanos nas compras, que procuram garantir grandes volumes do produto logo no começo do ano, frente a um cenário de oferta restrita ao país.
Entre os fatores que motivam a procura pela carne bovina brasileira é a desvalorização do real, tornando o produto mais competitivo, a recuperação do consumo nos Estados Unidos, especialmente no setor alimentício, e as preocupações com a oferta global da proteína animal, frente aos desafios sanitários e climáticos em outros países exportadores.
"Isso já era previsto. Ainda não era nem metade de janeiro e a cota já tinha sido totalmente preenchida. É um sintoma claro da necessidade de compra norte-americana", afirmou Iglesias.
Cota não freia as exportações
Para o analista, a aplicação da tarifa cheia fora da cota não deve restringir a compra de grandes volumes de carne bovina do Brasil pelos Estados Unidos ao longo de 2026.
A demanda norte-americana deve continuar direcionando as compras ao Brasil por ser um País com capacidade de entregar grandes quantidades, com produtos de qualidade e de forma regular.
De acordo com João Bosco Bittencourt, analista da Aliá Investimentos, a cota força as empresas a fazerem uma seleção mais criteriosa nos produtos que seguirão para o exterior.
"Só segue para os EUA o produto e o cliente onde o preço no destino consegue compensar a tarifa. Quem não consegue repassar esse custo tende a reduzir volume, redirecionar cargas para outros mercados ou reforçar as vendas no mercado doméstico", explicou.
Sobretaxa e o mercado de MS
Em 2025, o presidente Donald Trump havia anunciado uma sobretaxa adicional de 40% sobre produtos vindos de outros países, como o Brasil, como a carne bovina e o café.
A medida, no entanto, foi retirada por Trump no mês de novembro, sendo mantidas as tarifas gerais de 10%, percentual mínimo válido para todos os países que passou a valer em abril de 2025.
Mesmo com o tarifaço, as exportações de carne bovina seguiram em ritmo de crescimento. Em Mato Grosso do Sul, entre os meses de julho e novembro de 2025, foram embarcadas 165,4 mil toneladas de carne, volume 13% maior que todo o primeiro semestre do ano passado, quando o volume foi de 145,9 mil toneladas.
Além disso, o volume também foi 18% superior ao resultado atingido no último semestre de 2024, quando foram contabilizadas 140,4 mil toneladas à exportação, segundo dados da Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso do Sul (Famasul).
Conforme dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio (Mdic), em relação ao volume financeiro movimentado, as exportações de carne bovina aumentaram 51,1% em 2025 no comparativo com todo o ano de 2024, com a venda de US$ 1,7 bilhão a outros países.
Foram US$ 516 milhões a mais que o US$ 1,2 bilhão comercializado nos 12 meses de 2024.


