Em Mato Grosso do Sul, o excesso de umidade provocado pelas chuvas intensas dos últimos meses tem favorecido o avanço da ferrugem asiática nas lavouras.
Dados contabilizados pelo Consórcio Antiferrugem, parceria público-privada (PPP) coordenada pela Embrapa Soja, apontam 68 ocorrências já registradas do fungo nesta safra, desde o mês de setembro de 2025.
A alta umidade, que já se acumula desde o fim do ano passado, contribuiu para o cenário, com 41 das ocorrências totais – foram relatadas somente no mês de janeiro deste ano.
O aumento das ocorrências é expressivo, ainda de acordo com o monitoramento. Na safra passada, foram apenas 12 registros do fungo em MS. Assim, neste ano na incidência da ferrugem nas lavouras chega a ser cinco vezes maior.
O avanço das incidências acontece também em outros estados. O Paraná lidera a quantidade de ocorrências da ferrugem asiática, com 127 registros neste ano, em comparação com 66 registros na safra anterior.
Na análise de Flavio Aguena, assessor técnico da Associação dos Produtores de Soja de Mato Grosso do Sul (Aprosoja-MS), a falta de chuva ainda é preocupação maior para o produtor rural.
“Essa safra teve uma maior incidência por causa do clima mais úmido que tivemos até dezembro de 2025, o que favoreceu a reprodução e disseminação do fungo”, explica.
“No entanto, isso não foi motivo de grande preocupação dos produtores. O principal fator que prejudicou as lavouras, nesta safra, foi a seca que ocorreu em uma fase crítica da cultura da soja”, comenta.
O último boletim técnico de Agricultura divulgado nesta semana pela Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso do Sul (Famasul) e elaborado com a Aprosoja-MS ressalta como a irregularidade climática continua sendo o maior inimigo do produtor.
Na linha da análise de Aguena, ainda 64,7% das lavouras do Estado apresentam boa condição. Conforme o relatório, a ferrugem asiática já apareceu em lavouras nas regiões nordeste, oeste, sul e sudoeste.
Mesmo se mantendo em maior parte em boas condições, o cenário de janeiro representa uma “piora acentuada” na qualidade das lavouras, quando 75% dos plantios de soja apresentavam boas condições.
“O agravamento foi motivado por um período de estiagem e temperaturas elevadas, com os maiores prejuízos concentrados na região sul do Estado. Veranicos severos na região sul de MS causaram significativos danos à agricultura. Os levantamentos de campo da última semana de janeiro apontam que mais de 640 mil hectares já foram impactados, com períodos de estiagem superiores a 20 dias em determinadas localidades. Destaca-se os municípios de Dourados, Ponta Porã, Maracaju e Amambai como os mais impactados pela seca”, é detalhado no boletim.
CHUVA
O boletim técnico também reforça que a quantidade maior de volume de chuvas no fim do ano passado, quando foram registrados volumes acima da média histórica, com acumulados variando entre 150 mm e 300 mm.
O maior volume de chuva foi observado em Mundo Novo, com um total acumulado de 439 mm, valor que representa um desvio positivo de 144% em relação à média climatológica do período.
Em janeiro, a reportagem do Correio do Estado divulgou que a previsão do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) já indicava volumes consideráveis de chuva para o início deste ano, o que criaria um cenário de contrastes para o produtor rural.
Na ocasião, Eder Comunello, Pesquisador em Agrometeorologia da Embrapa Agropecuária Oeste, também previa a ferrugem asiática nas lavouras por causa da umidade.
“A distribuição das chuvas, e por consequência, do deficit hídrico, tem sido extremamente desigual, deixando o Estado ‘dividido pelo clima’”, avaliou.
“No extremo Sul, a abundância de água acende o sinal de alerta”, explicou. Municípios como Mundo Novo e Sete Quedas registraram acumulados expressivos, superando 70 milímetros em uma semana.
Para os produtores desta região, a chuva pode trazer uma “dor de cabeça” logística e sanitária: o excesso de umidade em lavouras prontas para a colheita favorece a abertura de vagens e pode impulsionar casos de ferrugem asiática.
O solo encharcado dificulta o trânsito de máquinas, prejudicando pulverizações de controle e a própria colheita”, alertava.
A previsão continua com possibilidade de clima instável, apesar de menos chuva no comparativo. “Climatologicamente, em grande parte do Estado, as chuvas variam entre 300 mm a 500 mm”, foi explicado no boletim técnico.
“A tendência climática para o trimestre fevereiro, março, abril de 2026 indica precipitação irregular no Estado, com variações regionais. No entanto, a expectativa é de que, de modo geral, os volumes de chuva fiquem abaixo da média histórica”.

PRODUTIVIDADE
Conforme publicado pelo Correio do Estado na edição de segunda-feira, mesmo com expansão da área cultivada, a segunda safra de milho em Mato Grosso do Sul deve registrar uma forte retração na produção em 2025/2026.
A estimativa mais recente do Sistema de Informações Geográficas do Agronegócio (Siga MS), aponta que o Estado deve colher 11,139 milhões de toneladas, volume 21,6% inferior ao registrado no ciclo anterior, que registrou recorde com 14,226 milhões de toneladas.
Embora o milho concentre as maiores revisões negativas, a soja também deixou de sustentar o cenário de otimismo que marcou o início do ciclo.
A expectativa inicial para a safra 2025/2026 da oleaginosa aponta uma área de 4,794 milhões de hectares, produtividade média de 52,82 sacas por hectare e produção estimada em 15,195 milhões de toneladas.
Segundo Flávio Aguena, o panorama mudou significativamente desde janeiro. “Havia um otimismo até dezembro de 2025, devido ao bom volume de chuvas, principalmente na região sul do Estado, onde está a maior área plantada de soja”, afirma.
No entanto, a situação climática se deteriorou rapidamente. “O mês de janeiro de 2026 foi marcado por uma seca severa nas regiões centro e sul, com algumas áreas ficando mais de 20 dias sem chuvas”.
O problema se agravou porque a estiagem coincidiu com uma fase crítica da cultura. “Essa situação é ainda mais preocupante, porque ocorreu durante o período reprodutivo da soja, quando a planta precisa, em média, de 5 a 7 milímetros de água por dia para expressar todo o seu potencial produtivo”, explica o assessor técnico.
Diante desse cenário, a Aprosoja-MS já descarta a manutenção do discurso de supersafra. “Hoje, o cenário para a soja em Mato Grosso do Sul não é mais de otimismo. O impacto da seca só será mensurado com a evolução da colheita”, ressalta Aguena.

