Os preços dos fertilizantes dispararam em Mato Grosso do Sul e já pressionam o custo de produção da safra deste ano. Levantamento da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) aponta que a alta chega a 65% no Estado, puxada principalmente pelo NPK 04-30-10 (nitrogênio, fósforo e potássio), um dos insumos mais utilizados nas lavouras.
Em março de 2025, a tonelada do fertilizante era comercializada a R$ 3.355, já no mesmo mês deste ano, o preço saltou para R$ 5.544 por tonelada – aumento de 65,2%. A elevação não se restringe ao NPK. Outros insumos também registraram aumento no período, embora em menor intensidade.
O MAP (fosfato monoamônico) subiu de R$ 5.285 para R$ 5.462 por tonelada (3,3%), enquanto o cloreto de potássio (KCl) passou de R$ 2.900 para R$ 2.990 (3,1%).
Entre os corretivos, o calcário dolomítico avançou de R$ 212,40 para R$ 233,39 por tonelada, alta próxima de 10%. Já o gesso agrícola teve elevação de 11,4%, saindo de R$ 350 para R$ 390. Os dados reforçam um cenário generalizado de encarecimento dos custos no campo.

A disparada dos fertilizantes está diretamente ligada ao cenário externo. A escalada do conflito no Oriente Médio tem impactado a produção, a logística e os custos de energia em regiões estratégicas para o fornecimento global de insumos.
Conforme o boletim econômico da Associação dos Produtores de Soja de Mato Grosso do Sul (Aprosoja-MS), a dependência global de grandes fornecedores, como Rússia, Belarus e China, somada aos custos energéticos, especialmente do gás natural, que é base para nitrogenados, mantém o mercado sensível a oscilações geopolíticas e logísticas.
“A safra 2025/2026 reforça que não basta produzir mais, é preciso que preço e custo estejam alinhados. A soja conseguiu compensar parte da pressão com ganho de produtividade, mas o milho segue mais exposto, com custos elevados, principalmente com fertilizantes, e preços que não reagiram na mesma intensidade. Esse cenário exige atenção desde já no planejamento da próxima safra”, avalia o analista de Economia da Aprosoja-MS, Mateus Fernandes.
A análise reforça que o momento exige atenção, já que, com margens mais estreitas e maior volatilidade no mercado internacional, decisões relacionadas com a compra e o uso de insumos tendem a ser cada vez mais determinantes para o resultado financeiro da atividade agrícola.
Segundo a consultoria Itaú BBA, os nitrogenados lideram o movimento de alta. A ureia, principal fonte de nitrogênio, acumulou valorização expressiva e chegou a cerca de US$ 760 por tonelada CFR (custo e frete) em abril, impulsionada pelo aumento do gás natural e pela restrição de oferta.
Os fosfatados também seguem pressionados. O MAP atingiu aproximadamente US$ 890 por tonelada CFR, influenciado pela alta do enxofre, insumo essencial na produção.
“Para os próximos meses, a expectativa é de avanço gradual da demanda, enquanto os preços permanecem sustentados, ainda que com menor volatilidade em relação aos nitrogenados e fosfatados”, aponta a consultoria.
RELAÇÃO DE TROCA
O impacto desse cenário já é sentido diretamente pelo produtor. De acordo com a StoneX, a valorização dos fertilizantes tem deteriorado as relações de troca no Brasil, especialmente em um contexto de forte dependência de importações.
“Estamos diante de uma deterioração importante das relações de troca, o que pressiona diretamente as margens do produtor e torna as decisões de compra mais complexas neste momento”, afirma o analista de inteligência de mercado da StoneX, Tomas Pernías.
“A combinação entre redução temporária da produção em alguns países, entraves logísticos no Estreito de Ormuz e a forte escalada de preços observada após os episódios de tensão militar diminuiu de forma significativa a probabilidade de o segundo trimestre se consolidar como um momento favorável para compras”, completa.
Ainda segundo a Aprosoja-MS, de janeiro a março deste ano, Mato Grosso do Sul importou mais de 23 mil toneladas de fertilizantes, uma retração de 23,28% em comparação ao mesmo período do ano passado.
Apesar da queda no volume total, houve alteração no perfil dos produtos adquiridos, com destaque para o avanço nas importações de potássicos, que passaram de 220 toneladas para 7,22 mil toneladas no comparativo anual.
No mercado nacional, o Brasil ampliou em 9,03% as importações de fertilizantes no primeiro trimestre, indicando recomposição de estoques e movimentação antecipada do setor produtivo.
Ainda assim, a relação de troca tem se tornado menos favorável ao produtor, exigindo maior volume de grãos para aquisição da mesma quantidade de insumos.
Com custos mais elevados, produtores de Mato Grosso do Sul enfrentam decisões difíceis para a próxima safra. A alternativa é absorver o aumento e operar com margens mais apertadas ou reduzir a aplicação de insumos, assumindo risco de queda na produtividade.
“O gerenciamento de riscos e uma gestão eficiente dos custos da lavoura serão decisivos para a sustentabilidade do negócio agrícola em 2026”, ressalta Pernías.
Apesar da postura mais cautelosa nas compras, o calendário agrícola limita o adiamento das decisões. A principal janela de aquisição ocorre no segundo semestre, antes do plantio da safra de verão.
“À medida que o ano avança, compradores que necessitam de insumos para o segundo semestre terão cada vez menos espaço para adiar decisões, tornando inevitável a realização de negociações, ainda que para volumes menores e a preços pouco atrativos”, finaliza Pernías.


