A escassez de trabalhadores atingiu um nível crítico no setor produtivo brasileiro, consolidando-se como o obstáculo mais complexo para a expansão das linhas de montagem e das indústrias em todo o País.
“Uma grande preocupação que nós temos hoje são as pessoas. Nós não temos mais gente para trabalhar e a transformação de pessoal para máquina ainda está muito longe. Você não consegue fazer rapidamente essa adaptação de mercado”, resume Sérgio Longen, presidente da Federação das Indústrias de Mato Grosso do Sul (Fiems).
Diante de parques industriais operando abaixo da capacidade ideal por falta de operários e técnicos, a Fiems colocou em prática uma estratégia para atrair e qualificar os cadastrados em auxílios governamentais de transferência de renda, como o Bolsa Família e o Mais Social, convertendo a população assistida na principal força de trabalho para a indústria sul-mato-grossense.
Os números que motivaram o plano da Fiems evidenciam a dimensão do impacto econômico causado pelo descompasso no mercado de trabalho.
No Estado, o setor industrial contabiliza ao menos 27 mil vagas de emprego abertas sem o devido preenchimento.
Esse vácuo produtivo gera um prejuízo anual calculado em mais de R$ 20 bilhões para a economia de MS, decorrente do valor de produtos que deixam de ser fabricados e da arrecadação de tributos estaduais frustrada.
A falta de trabalhadores atinge diretamente setores vitais da produção local, como o segmento de alimentos, fabricação de celulose e papel, refino e derivados de petróleo, construção civil, metalurgia e fabricação de máquinas e equipamentos elétricos.
Em âmbito nacional, a escassez oscila entre 10% e 15% da força de trabalho industrial, o que representa cerca de 2 milhões de postos de trabalho vagos.
O prejuízo total do “apagão de mão de obra” na economia brasileira é estimado em R$ 1,271 trilhão, montante que engloba R$ 1,14 trilhão em bens não produzidos, R$ 93 bilhões em massa salarial não gerada e R$ 27 bilhões em encargos sobre a folha de pagamento não recolhidos pela União.
Para cobrir esse deficit e preencher os postos operacionais, o levantamento da Fiems ficou a massa de cadastrados nos programas sociais. Em Mato Grosso do Sul, existem aproximadamente 450 mil pessoas inseridas em programas governamentais de transferência de renda.
O detalhamento estatístico indica que cerca de 55% desse público é composto por mulheres, predominando uma faixa etária jovem e produtiva, entre 25 e 35 anos.
“Nós precisamos muito dessas pessoas”, afirmou Sérgio Longen. O líder empresarial advertiu para os custos sociais do isolamento prolongado do mercado formal.
Para eliminar o receio dos trabalhadores e garantir a migração segura para as fábricas, a Fiems articulou um modelo de formação e inclusão com o Sistema Senai/Sesi, o governo estadual e as prefeituras por meio dos Centros de Referência de Assistência Social (Cras).
Durante o curso de qualificação técnica, promovido pelo Senai, que tem duração média de quatro meses, o beneficiário recebe uma bolsa de estudo no valor de um salário mínimo, custeada ou subsidiada pelas indústrias interessadas na contratação.
Na esfera jurídica, o plano apoia-se na legislação que assegura ao trabalhador o direito de assinar a carteira e manter o benefício social acumulado por 12 meses, existindo negociações para ampliar essa margem para 24 meses.
“Ele pode trabalhar e pode ter o benefício. A gente vai garantir para a pessoa que ela não vai perder o benefício com 12 meses. Caso ela venha a ser desligada da empresa, o retorno ao programa social é automático, sem burocracia”, destacou Sérgio Longen.
O projeto oferece ainda suporte educacional e vagas gratuitas em creches e escolas do Sesi para as famílias dos alunos.
A metodologia de atração e formação profissional já apresenta resultados práticos em parcerias com grandes empreendimentos industriais em MS. Gigantes do setor de celulose e papel, como a Suzano e a Arauco, adotaram o modelo de pagar uma bolsa de um salário mínimo para que o candidato estude e se qualifique no Senai, em Três Lagoas e Ribas do Rio Pardo, antes da contratação efetiva.
A Fiems pretende preencher as 27 mil vagas abertas, zerar as perdas anuais de R$ 20 bilhões no Estado e promover a inclusão produtiva permanente da população assistida.


