Mesmo sob influência de um El Niño que pode ganhar intensidade nos próximos meses, a navegação comercial pelo Rio Paraguai segue funcionando normalmente em Mato Grosso do Sul. As medições da Marinha do Brasil mostram que os níveis das águas nos principais pontos monitorados no Estado estão bem distantes do cenário crítico registrado em 2024, quando a forte estiagem comprometeu as condições de transporte pela hidrovia.
O quadro, no entanto, não é de tranquilidade absoluta. Os dados históricos mostram que o rio já entrou em trajetória de queda e que as cotas atuais estão abaixo das registradas em 2025 e 2023.
A perspectiva de continuidade da estiagem, somada às condições climáticas associadas ao El Niño, coloca o setor em alerta para os próximos meses.
Em Porto Murtinho, o Rio Paraguai estava em 3,03 metros ontem, segundo a medição da Marinha do Brasil. A marca representa uma redução de dois centímetros em relação à leitura anterior. Mesmo com a queda, as condições seguem consideradas normais para a navegação comercial.
Em Ladário, o nível registrado na mesma data era de 2,28 metros, enquanto em Forte de Coimbra, a cota estava em 1,02 metro.
O cenário é muito diferente do observado em 2024. No dia 20 de agosto daquele ano, o rio marcava apenas 0,10 metro em Ladário, -1,18 metro em Forte de Coimbra e 1,20 metro em Porto Murtinho.
O gerente de Operações Portuárias do Grupo FV Cereais, Marcelo Martins, afirma que, neste momento, o escoamento continua ocorrendo normalmente, mas ressalta que a tendência de queda exige acompanhamento permanente.
“No momento, a situação da navegação segue dentro da normalidade e o escoamento pelo rio continua acontecendo. Porém, estamos entrando em um período de estiagem e o nível vem apresentando uma tendência de queda, então é uma situação que exige acompanhamento constante”, afirma.
Segundo ele, a cota atual ainda permite a navegação, mas está abaixo de uma condição considerada mais confortável para operações com embarcações de maior calado.
“A cota atual ainda oferece condições para a navegação, mas o nível está abaixo do que seria considerado mais confortável para operações com maior calado. Por isso, dependendo da evolução do rio nas próximas semanas, pode haver necessidade de ajustes nas condições de carregamento das embarcações”, diz ao Correio do Estado.

ALERTA
A série histórica da Marinha do Brasil ajuda a dimensionar o cenário atual. Considerando a medição de 20 de agosto, este ano está em uma posição intermediária entre os anos analisados. Em Ladário, a cota era de 0,47 metro em 2021, 2 metros em 2022, 4 metros em 2023, 0,10 metro em 2024, 3,12 metros em 2025 e 2,28 metros neste ano.
O comportamento se repete nos demais pontos. Em Forte de Coimbra, o nível passou de -0,71 metro em 2021 para 0,76 metro em 2022 e 3,14 metros em 2023, despencou para -1,18 metro em 2024, recuperou-se para 1,91 metro em 2025 e está em 1,02 metro neste ano.
Em Porto Murtinho, foram 1,64 metro em 2021, 2,82 metros em 2022, 4,61 metros em 2023, 1,20 metro em 2024, 3,72 metros em 2025 e 3,03 metros neste ano.
A comparação mostra que 2024 foi o ponto mais crítico da série recente, enquanto 2023 aparece como o ano de níveis mais elevados. O atual cenário, por sua vez, está abaixo das marcas de 2025, mas ainda muito distante do quadro de dois anos atrás.
Essa diferença é importante para a atividade econômica. Em 2024, a redução das águas levou a restrições e dificuldades para o transporte de cargas, enquanto atualmente a hidrovia continua sendo utilizada para o escoamento da produção.
Ao mesmo tempo, a queda registrada de um ano para outro merece atenção. Em relação a 2025, o nível no dia 20 de agosto deste ano está 84 centímetros menor em Ladário, 89 centímetros menor em Forte de Coimbra e 69 centímetros menor em Porto Murtinho.
Ou seja, embora o rio esteja longe das condições críticas de 2024, a folga em relação ao ano passado diminuiu. É justamente essa trajetória que ganha importância diante do cenário climático previsto para o segundo semestre.
EL NIÑO
O governo federal aponta que o El Niño 2026-2027 deve persistir e pode atingir intensidade muito forte entre outubro e dezembro. Em julho, o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) informou que a probabilidade de o fenômeno alcançar intensidade muito forte nesse período havia subido para 81%.
O Painel El Niño, elaborado por órgãos federais, também alerta para condições que podem reduzir a disponibilidade hídrica e atrasar o estabelecimento da estação chuvosa em parte da Amazônia Legal. A combinação de temperaturas elevadas e alterações no regime de chuvas aumenta a preocupação com a duração da estiagem.
A previsão climática do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) para este mês, por exemplo, indica chuvas abaixo da média no centro-norte de Mato Grosso do Sul, embora haja expectativa de precipitações acima da média no sudoeste e centro-sul do Estado. As temperaturas, por outro lado, devem ficar acima da média no centro-oeste de MS.
Para o Rio Paraguai, entretanto, Martins recomenda cautela para não atribuir diretamente ao El Niño o comportamento atual das águas.
“Quanto ao El Niño, eu teria cautela em atribuir diretamente a ele a situação atual. O que estamos observando neste momento é principalmente o comportamento típico do período de estiagem, com redução gradual dos níveis”, avalia e acrescenta.
“A perspectiva para o curto prazo é de continuidade dessa tendência de queda, especialmente se não houver chuvas significativas na bacia”.
MINÉRIO
O monitoramento ganha ainda mais importância diante do avanço das exportações de minério de ferro de Mato Grosso do Sul. No primeiro quadrimestre de 2025, foram exportadas 1.947.258 toneladas de minério de ferro, principalmente a partir das vendas realizadas pela empresa dos irmãos Batista, que atua nas morrarias de Corumbá. As operações garantiram faturamento de US$ 97,4 milhões.
Neste ano, o volume exportado no mesmo período subiu para 3.019.431 toneladas, crescimento de aproximadamente 55%. O avanço ocorreu mesmo com o baixo nível do Rio Paraguai observado nos primeiros dois meses do ano.
O faturamento, entretanto, seguiu na direção contrária. As vendas renderam US$ 62,8 milhões, queda superior a 35% na comparação com os US$ 97,4 milhões registrados no primeiro quadrimestre de 2025.
A diferença entre volume e receita também mostra uma forte redução no valor médio obtido por tonelada. No primeiro quadrimestre de 2025, cada tonelada exportada representou, em média, cerca de US$ 50. Neste ano, o valor caiu para aproximadamente US$ 21.
Para uma atividade que depende da hidrovia para transportar grandes volumes, a manutenção das condições de navegação é estratégica.


